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O pós-facebook

Da Folha.com O pós-Facebook, Por Luli Radfahrer  

Com quase um bilhão de usuários, o Facebook parece inquebrável. Seus números são tão grandes que chegam a se confundir com os da própria Internet. Entrelaçado a praticamente tudo que é social no mundo eletrônico, ele se tornou uma plataforma de interação ampla, usada para fins tão variados quanto publicar fotos, trocar ideias, ler textos ou jogar games cada vez mais complexos. Empresas de todos os tipos usam o cadastro do Facebook como crachá de identificação e todo dia surgem novos produtos e serviços desenvolvidos exclusivamente para ele. Um dos pilares do ambiente digital, é difícil imaginar o futuro sem ele. Não é à toa que a expectativa pela oferta pública de suas ações em Wall Street venha causando tanto furor.

Mas o mundo digital evolui muito rápido, e quem pretende ficar na frente não pode se acomodar se não quiser ser ultrapassado. Até há pouco tempo ninguém imaginava que a Microsoft seria ameaçada em sua hegemonia. Sorrateiramente, o Google foi invadindo o espaço com produtos e serviços integrados, apoiados na nuvem, pois tinha compreendido que o modelo de venda de software estava com os dias contados.

Hoje é importante pensar no que virá depois das mídias sociais. Modelo de comunicação praticamente inexistente há dez anos, hoje essas plataformas de publicação e compartilhamento se tornaram tão populares e influentes a ponto de reconfigurar a visão que se tinha da Internet. Se no final do século passado "estar online" significava ter acesso a bibliotecas do mundo inteiro hoje a experiência é muito mais próxima, informal e restrita. Por mais que redes como o Facebook tenham abrangência global, os grupos de contato e interesse formados nela normalmente consistem de pessoas de uma mesma cidade, bairro, ambiente ou escola, trocando ideias a respeito do que foi publicado por alguns formadores de opinião. Seu uso não é tão diferente do compartilhamento de algo acontecido no jogo de futebol, novela, política, notícia ou publicidade nos papos informais cotidianos.

É curioso perceber que boa parte da interação via redes sociais é muito mais passiva do que a antiga ideia de "surfar" na Internet. Se no século passado a rede era uma experiência dinâmica de descoberta, em que novas opiniões e informações eram descobertos a cada link clicado ou digitado, hoje as redes já vem com a programação pronta. Seu usuário não vê mais uma tela em branco de um browser, aguardando comandos, mas uma lista interminável de conteúdo compartilhado, que raramente traz algo de surpreendente ou desagradável.

No Facebook a web 2.0 foi transformada em um canal personalizado de televisão. A interação, quando há, normalmente é pobre, feita através de ações simples de aprovação e compartilhamento, fácil de se realizar via controle remoto. É bem provável que os novos aparelhos de TV que acessem a Internet sejam utilizados para se assistir a esse grande "canal", com programação ininterrupta, às vezes previsível e repetitiva, entregando para seus telespectadores exatamente aquilo que gostariam de assistir. A evolução digital parece alternar momentos de evolução e retrocesso.

Em um ambiente que se transforma a cada instante, as redes sociais precisam se transformar se pretendem continuar relevantes, como o fez a MTV. Na década de 1980, sua popularidade era incontestável. Junto com a CNN e a ESPN, a MTV revolucionou o formato televisivo ao levar a linguagem do rádio para o vídeo. Seus apresentadores cheios de personalidade entregavam conteúdo ininterrupto, independente das grades de horário, chacoalhando um formato bastante comportado e acomodado. Nos anos oitenta, a experiência de assisti-la era o que havia de mais próximo do que seria mais tarde a Internet, com novas ideias, linguagens e conteúdos o tempo todo. Mas a glória durou pouco.

A Internet (e serviços como o MySpace, iTunes e YouTube) tornaram a ideia de uma TV que lançava artistas uma coisa velha e engessada. O problema não estava na MTV, mas na TV como um todo. Para se manter sintonizada, a emissora precisou mudar de linguagem e de programação, e apanhou um bocado até se transformar em uma emissora que estrutura e populariza novas formas de humor e entretenimento, fazendo uma bela curadoria de conteúdo de tudo que é produzido nas mídias sociais.

O Facebook precisa ficar igualmente esperto se não quiser correr o risco de envelhecer rapidamente. Por mais que ele seja a maior rede do mundo, sua experiência é fria, passiva, simplória. Usuários de videogames, MMORPGs e de outras redes mais intensas até estão nele, mas não conseguem entender como um ambiente tão sem graça cause fascínio. Suas queixas são parecidas com aquelas feitas pelos usuários de Internet sobre a TV na virada do século.

Dentre essas redes, o Club Penguin chama a atenção. Seus usuários são crianças e pré-adolescentes, que não conseguem imaginar uma relação completa sem a ajuda de telas ou botões. A interação ali começa com a definição da própria personalidade e apresentação para o mundo. Como todos ali são pingüins genéricos, as personalidades não são definidas por nomes de família, local de residência ou trabalho. Em uma verdadeira meritocracia, todos começam iguais e só ganham importância conforme sua participação e interação social.

Decorando seus iglus, participando de conversas privadas, vestindo cuidadosamente suas aves-avatares conforme a ocasião e cuidando de seus Puffles para que não fujam, muitos desses habitantes do Século 21 aprendem o que há de interessante (e de deprimente) no mundo adulto à medida que participam de festas, economizam suas moedas e produzem notícias para o jornalzinho local.

Se o Facebook não compreender (e incorporar) essas mudanças, pode perder importância tão rapidamente quanto a ganhou, já que é fácil imaginar essas que hoje são crianças migrando para uma nova rede, mais ativa, estimulante e debatedora, muito mais real, duradoura e interessante do que a passividade do asséptico mundo azul em que só é permitido "curtir" e "compartilhar".

Luli Radfahrer

Luli Radfahrer é professor-doutor de Comunicação Digital da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP há 19 anos. Trabalha com internet desde 1994 e já foi diretor de algumas das maiores agências de publicidade do país. Hoje é consultor em inovação digital, com clientes no Brasil, EUA, Europa e Oriente Médio. Mantém o blog www.luli.com.br, em que discute e analisa as principais tendências da tecnologia. Escreve a cada duas semanas no caderno "Tec" e na Folha.com.

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Não tenho facebook, mas praticamente todos os meus amigos possuem e é apenas isto que eles acessam na internet. Incrível como uma ferramenta tão fantástica e com infinitas possibilidades, seja usada por bilhões de pessoas para apenas uma coisa: usar o facebook.

 

Destaco, duas frases muito usuais na publicidade da TI

 

- Mas o mundo digital evolui muito rápido, e quem pretende ficar na frente não pode se acomodar se não quiser ser ultrapassado.

- Hoje é importante pensar no que virá depois das mídias sociais. Modelo de comunicação praticamente inexistente há dez anos.

 

 

 

O "Grêmio Recreativo Novidade Dependente de Muito Marketing" aposta no luxo das ilusões, evoluindo na passarela a partir de uma comissão de frente de passo marcado com a linha do samba. Composto em cima de um enredo cercado de história e estória, filosofia e fisiologia , sociologia e sociopatia, antropologia e antropofagia, democracia e tirania, luxo e lixo.

 

Mas o que seria do samba enredo sem um puxador renomado ?

Lá na década de noventa, nos tempos da reengenharia quem soltava a voz era Marins e SHINYASHIKIs.

Hoje na era da consumerização isso fica a cargo do Gartner e do IDC. Suas interpretações garantem uma condução alinhada a uma batucada acelerada, envolvente, de compasso binário certeiro. Mas os fundamentos se mantiveram tradicionalíssimos , não tem segunda, não tem terceira, só a primeira e contratempos . O mestre da batera é o "Grande Mídia" ele esta lá firme e forte a décadas.

 

O surdo numero 1: Marca as visões das boas novas cantadas pelos puxadores.

O contratempo: Preenche o compasso alinhado com a marcação.

Nem pense em atravessar, pecado capital, o apito do mestre soará como trombetas . Não tem choro nem vela nem fita amarela.Você é sentenciado ao ostracismo.

 

E segue o samba:

 

"Me leva que eu vou, sonho meu atrás da novidade só não vai quem já morreu".

 

 

Mas uma bela comissão de frente, um samba envolvente, um lindo abre alas, puxador de primeira, velha guarda e bateria nota 10 não é suficiente para

garantir a presença no desfile das campeãs. Falta ainda um componente de destaque. Eis que a rainha da bateria com toda plástica, jovialidade, curvas

hipnotizantes surge. A galera não aguenta e puxa logo o coro "É campeã".Dá uma diferença e tanto no quesito evolução.

 

A estratégia de marketing esta completa, a novidade se transformará numa maravilha de cenário, episódio relicário, refletindo no imediato esgotamento de ingressos. 

 

Mesmo com a salgada política de preços:

Ingressos Classe B, hiper caros, setor razoavelmente confortável, visão satisfatória do desfile.

Ingressos Classe C, caros, setor apertadíssimo , com limitações de visão.

Camarotes AAA, , completamente fora de alcance do perfil das classes B e C.

 

Aquele que sequer conseguiu dinheiro para um ingresso C, pode ser amparado pela TV.

O fabriqueta de caça níqueis porreta, perto dela, Cachoeira vira valetinha. Ela fará você se endividar, financiar, hipotecar até conseguir juntar uma grana razoável para um dia entrar no sambódromo.

Nem que seja no setor de dispersão, onde só é possível ver destaques descendo do carro e com muita sorte enxergar de longe os peitinhos expostos da rainha da bateria.Leve um binóculo.

 

Veja se tudo isso não se parece com um IPAD limitado a uma conexão lentíssima EDGE , alternativa quando a franquia popular 3G de 300 MB foi totalmente consumida com samba-enredos no ITunes. Alias o IPAD foi comprado em 24 parcelas na Americanas.com, na décima oitava, a turminha da praça de alimentação do shopping já bullynnava: - Voce é um obsoleto, se esconda na vala do ostracismo".

 

"Super escolas de samba SA, super alegorias, escondendo gente bamba que covardia"

 

Enfim o mundo da TI é um verdadeiro samba de criolo doido.O que é uma rede social, se não uma interface que une tudo que já existia desde os remotos

tempos da Internet. Blogs, e-mails, Chats, Listas de Discussão,banners publicitários.

 

O que é um note-book se não um PC com mais mobilidade.

O que é netbook se não um PC com mais mobilidade  e menos processamento.

O que é tablet senão um netbook com mais mobilidade e  menos processamento.

 

 

Para prever o futuro é fácil, basta olhar  para tudo aquilo que já existe e funciona bem  e ver o que poderia ser  encaixado numa nova interface.

 

Olá Nassif!

 

só gostaria de sugerir que corrigissem, pois o autor do texto é um grande amigo meu, o Luli Radfahrer (www.Luli.com.br), conforme está ao final da própria matéria; e aí no post e na chamada aparece como sendo de  Daniel Miyagi (imagino que tenha sido o Daniel quem tenha subido a materia...)

 

abs!

 

pm

 

Facebook é lixo , sou mais as o Orkut por causa das comunidades. Tem muita comunidade boa para debates por lá.

 

Avatares e frivolidades etc. Tudo tudo afasta o indivíduo dos problemas políticos do País. Bobagem pura. O Face é uma revolução, sim. Se mudar demais, fica chato. Mas não ficará engessado. Duvido. Viva o Face!

 

       Um determinado usuario do facebook consegue um documento que comprometa um politico, publica e compartilha com grupos sociais que partilha na net, isso sera espalhado em uma progressao geometrica, ou seja, impossivel de censurar, se esse novo mundo que se apresenta for bem usado, pode finalmente ser a possibilidade de uma sociedade mais justa, onde todos podem opinar e influenciar, ter voz ativa.

 

As  redes sociais estão mais propenças a  espalhar sandices.

Como "justin bieber" ou a "Luiza que está no Canada" do que algo que realmente promova uma nova postura de cidadania.

E quando alguém ousa se aproximar de coisas sérias eles dão conta de inviabilizar, como no  caso do "wikileaks".

 

 

Bom, eu não possuo facebook e vou muito bem, obrigada. Nem twitter.


Mas as minhas filhas não saem do facebook, acho que é mais para adolescente mesmo.

 

A fome por novos dispositivos e interfaces serve na verdade para cubrir uma sede de  conteúdo.

Como estamos realmente na seca, em relação a novas referencias  relacionadas  a literatura,

cinema, música. A única coisa que resta é exigir algo novo nos dispositivos e interfaces.

 

 

Eu realmente acredito que o mercado esta chegando no limite da engambelação.

Numa pesquisa recente no Reino Unido para avaliar o que se espera das TVS inteligentes, um fato esta deixando os dispositiveiros com pulga na orelha.

As pessoas estão bem pouco interessadas em novos apps interativos, ou naquilo que virá após o High Definition e 3D. A imensa maioria das pessoas está a procura de conteúdo . Ou seja  a parte mais dificil de inovar esta em falta  e sem previsão de voltar a ser produzido.

 

 

Concordo plenamente com esse post, o facebook irrita com a sua passividade, nesse momento ele trafega numa via de mão única e ampla, mas a bifurcação para novos caminhos aproxima-se a passos largos. Para que o seu sucesso seja perene, deve ser "novo" a cada dia e permitir que todos ganhem nessa empreitada.

 

A passividade é relativa.

Existem muitas coisas para compartilhar porque alguem começou a compartilhar.

Também existem bons grupos de discussão.

Tem gente que diz que ve jogos por lá também, isso eu nunca fiz.

 

Acabo de desembarcar na Indonésia, e necessitei de um apoio logístico de um funcionário da alfândega.

Aí ele me falou que da próxima vez eu poderia fazer o contato antes de viajar e sugeriu usar o facebook, mas eu sugeri que utilizássemos e-mail...

Porém ele foi taxativo: - "Não possuo e-mail" !! 

Será verdade ??

 

Att.

Martin

 

Pois eu me recuso a ter conta no feicibuque.

 

Através de e-mail e um blog compartilho textos e imagens, troco opiniões e mantenho contatos com pessoas que nunca vi e nunca me viram. O Facebook faz mesmo mais o quê?

 

Perplexidade aflita diante da perspectiva caótica

O Club Penguin eh 30 dolares por 6 meses, o site da Barbie era 6 dolares por mes.  O facebook e google sao de graca, o primeiro pra um bilhao de pessoas, e o segundo literalmente pro mundo inteiro.

O que o artigo quer dizer e nao diz eh isso?

 

É, Ivan, mas isso nao invalida a crítica ao Facebook feita no artigo... E há blogs gratuitos mais ativos, como inclusive este, e mais ainda o Portal, onde os próprios membros podem "upar" tópicos, além de comentar.