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O projeto de branqueamento do Estado Novo

Por alfeu

Os indesejáveis

CARLOS HAAG, Revista Pesquisa Fapesp

Política imigratória do Estado Novo escondia projeto de branqueamento

Quando, em 1995, o Arquivo Histórico do Itamaraty foi aberto ao público, parte da documentação revelou que a instituição havia participado da política racista e discriminatória de estrangeiros do Estado Novo, colocando o passado do Ministério das Relações Exteriores na incômoda posição de “porteiro do Brasil”. Uma nova pesquisa, Imigrante ideal (Civilização Brasileira), do historiador Fábio Koifman, da Universidade Federal Rural Fluminense (UFRF), isenta o Itamaraty de toda a responsabilidade por essa política restritiva. “É um equívoco historiográfico, já que se ignora que, entre 1941 e 1945, o Serviço de Visto estava alocado no Ministério da Justiça, o real responsável pela palavra final da aceitação ou não de estrangeiros”, diz Koifman. Esse foi o único momento na história da República que a atribuição não esteve no âmbito do Itamaraty.

O pesquisador afirma que é a primeira vez que se analisa o papel central do Ministério da Justiça, de seu titular, o jurista Francisco Campos (1891-1968), e de Ernani Reis (1905-1954), parecerista do ministério, burocrata que, através de sua interpretação, dizia, baseado na legislação, quem entrava ou não no país. Suas sugestões quase sempre eram aceitas pelo ministro e se baseavam na seleção dos imigrantes “desejáveis”, que se encaixassem no projeto de “branqueamento” da população brasileira da ditadura Vargas. Negros, japoneses e judeus, assim como idosos e deficientes, não estavam nos padrões estabelecidos e eram recusados como “indesejáveis”.

A pesquisa de Koifman começou quando ele encontrou o decreto-lei 3.175, de 1941, que passava o poder de decisão de concessão dos vistos do Ministério das Relações Exteriores para o Ministério da Justiça. Mas o Serviço de Visto em si não foi criado por decreto, embora existisse com papel timbrado e tudo. Não foi, porém, instituído formalmente e sua verba vinha de outros órgãos. “Ele foi criado para isolar seus técnicos e tomar as decisões de forma puramente técnica e fria. Eles achavam mais fácil negar o visto do que ter de decidir no porto”, conta o historiador. “Todo o processo não chegou a conhecimento público e é nele que o Francisco Campos explica para  Vargas por que o Brasil deveria restringir a imigração”, fala.

Funcionários do Itamaraty eram obrigados a informar o ministério com detalhes sobre a pessoa que pedia o visto e aguardar o parecer do ministro para concedê-lo ou não. A desobediência de diplomatas às diretrizes do ministério provocava ação direta de Vargas, que poderia determinar a instauração de inquérito administrativo ou até a demissão sumária do infrator. “Esse controle aumentou quando a situação europeia se agravou com a guerra e a escalada do antissemitismo na Alemanha. Judeus e perseguidos políticos começam a sair da Europa, gerando um aumento da demanda nos consulados. Nesse momento, a política imigratória brasileira se voltou contra eles.”

“No início do Estado Novo cabia ao Itamaraty gerir a política de vistos, mas isso mudou a partir de 1941. Essa troca refletia o debate na elite brasileira sobre qual era o imigrante ‘desejável’ para o ‘aprimoramento’ do povo brasileiro”, fala Koif-man. Vargas era simpatizante aberto do ideário eugênico. Em 1930, num discurso de campanha à Presidência, avisou: “Durante anos pensamos a imigração apenas em seus aspectos econômicos. É oportuno obedecer agora ao critério étnico”. Em 1934, durante a Constituinte, o lobby eugenista, bem organizado, conseguiu a aprovação de artigos baseados nas teorias racistas. O alvo, então, era o japonês. De forma silenciosa foi institucionalizado um sistema de cotas para cada nacionalidade que foi manipulado para restringir a entrada de orientais no país.

“O Brasil não foi o único a adotar medidas restritivas contra imigrantes e até ‘demorou’ a implantá-las. Democracias como os EUA e o Canadá já o faziam nos primeiros anos da década de 1920”, lembra o autor. Mas, uma vez iniciado o processo, foram rápidos. Não satisfeitos com as leis de 1934, setores da elite e intelectuais exigiram uma maior intervenção do Estado e uma seleção mais rigorosa na política imigratória. O resultado foi o decreto-lei 3.010, de 1938: exigia-se do solicitante de vistos que se apresentasse pessoalmente ao cônsul para que o diplomata visse o candidato e relatasse se era branco, negro, ou se tinha alguma deficiência física. “Segmentos letrados da sociedade brasileira e muitos homens do governo, incluindo Vargas, acreditavam que o problema do desenvolvimento brasileiro estava relacionado à má formação étnica do povo. Achavam que trazendo ‘bons’ imigrantes, ou seja, brancos que se integrassem à população não branca, o Brasil em 50 anos se transformaria em uma sociedade mais desenvolvida”, conta o pesquisador.

O estrangeiro ideal era branco, católico e apolítico. A preferência pessoal de Vargas era pelos portugueses. “A maioria dos imigrantes vindos de Portugal era de origem modesta e instrução limitada, acostumados à ditadura salazarista”, diz Koifman. Europeus, mas sem “ideias dissolventes”, ao contrário dos grupos intelectualizados originários da Alemanha, França, Áustria, entre outros países, que produziam reflexões em jornais e livros sobre as mazelas nacionais. O ministro da Justiça detestava particularmente os intelectuais estrangeiros e chegou a propor o fechamento total do Brasil à imigração enquanto durasse a guerra na Europa, medida que o pragmatismo de Vargas rejeitou.

“O Brasil, que não contribuiu para que se criassem na Europa as perseguições e as dificuldades de vida, não pode se converter numa fácil hospedaria da massa de refugiados. Não nos serve esse white trash, rebotalho branco que todos os países civilizados refugam”, argumentava Campos, também conhecido como “Chico Ciência”. “Um dos inspiradores intelectuais do Estado Novo foi influenciado pelos fascismos português e italiano, defendendo uma legislação imigratória calcada nas teorias eugênicas americanas.” Para Campos, na contramão do entusiasmo pela imigração em voga no país desde o século XIX, estrangeiros só atrasavam o desenvolvimento do país, “parasitas” que nada contribuíam para o progresso nacional. “Os judeus, por exemplo, só se dedicavam a atividades urbanas, ao pequeno comércio. O problema é que Campos e Reis logo perceberam que essas eram as mesmas atividades às quais os portugueses se dedicavam, apontando a Vargas essa contradição, para ira do ditador, que queria imigrantes de Portugal”, fala Koifman.

O que abalou Campos, cuja ideologia não era isenta de interesses pessoais. Chico Ciência disputava as atenções de Vargas com Oswaldo Aranha, então à frente do Itamaraty. Para atacar o rival, martelava a tecla de que, apesar das restrições, estrangeiros continuavam a entrar no Brasil, prova da incompetência do Itamaraty na gestão da questão imigratória. Bem-sucedido, convenceu o ditador da validade de suas ideias e ganhou o poder de seleção de “desejáveis” e “indesejáveis” para o seu Setor de Vistos. Não conseguiu, porém, impor o ideário eugênico que admirava, sendo obrigado a “tropicalizá-lo”. “As raças admiradas pelos americanos eram minoria num país composto majoritariamente por grupos considerados ‘inferiores’”, lembra o historiador. Isso levou Campos a se concentrar no combate aos imigrantes “infusíveis” que, supostamente, tinham um grau de miscigenação baixo e, logo, não serviam ao projeto de “branqueamento” por miscigenação, entre esses, os judeus.

Passaporte cancelado pelos nazistas, mas aceito pelas autoridades brasileiras

“Mas as restrições à entrada de judeus, tema recorrente nos estudos sobre a política imigratória do Estado Novo, devem ser vistas num contexto maior, em que vários outros grupos foram igualmente classificados como “indesejáveis”. Se a condição de judeu dificultava a emissão de um visto, a comprovação da ausência dessa condição tampouco era garantia de um visto”, avisa Koifman. Para o pesquisador, o antissemitismo de um fascista como Campos não era análogo ao racismo dos nazistas. “Após a Intentona Comunista de 1935 o Estado adotou uma visão genérica dos judeus que os associava ao comunismo, um antissemitismo de fundo político compartilhado por Vargas”, observa o pesquisador. Nas palavras de Campos: “Os judeus se tem aproveitado do descuido das autoridades brasileiras. Embora o Brasil não seja fascista ou nacional-socialista, o certo é que esses elementos comunizantes, socialistas, esquerdistas ou liberais leem por uma cartilha que está longe de nos convir”.

Sem negar o antissemitismo de membros individuais do governo e da sociedade brasileira, Koifman acredita que o critério adotado mais importante, ao lado da “ameaça vermelha”, era a capacidade, ou não, da suposta capacidade de “fusão” dos imigrantes. “A preocupação estava no potencial de união de europeus brancos com descendentes de africanos e indígenas, condição necessária para conseguir o ‘aprimoramento’ das gerações futuras”, fala. “O Estado Novo não queria reproduzir o racismo, então muito em voga nos EUA e na Europa. A segregação deveria ser evitada a qualquer custo, pois dificultaria a miscigenação, força-motriz do ‘branqueamento’”, diz. Vargas não tolerava racismos contra grupos étnicos dentro do Brasil.

Esse cuidado também se devia à manutenção de uma boa imagem internacional, para agradar, em especial, os EUA, cuja política racial para os outros não refletia a sua realidade interna. “Ser acusado de racista ativo, nas décadas de 1930 e 1940, colocava qualquer nação, diplomata ou intelectual, em posição constrangedora de alinhamento com a política de exclusão da Alemanha nazista”, explica a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de São Paulo (USP) e autora do estudo referencialAntissemitismo na era Vargas (1987). “Ainda assim o Estado Novo, por meio do Ministério da Justiça e de uma política nacionalista, não admitia fissuras, combatendo grupos migrantes, vistos como elementos de ‘erosão’. O ideal do regime era a homogeneidade em detrimento da diversidade”, continua.

Ambiguidades
Para o brasilianista Jeffrey Lesser, da Emory University e autor de A questão judaica no Brasil (1995), é preciso cuidado ao retratar as políticas de imigração da época apenas com base em documentos oficiais, do Itamaraty ou do Ministério da Justiça. “Os escritos dão conta das ambiguidades que regiam essa política. Como explicar, por exemplo, a entrada expressiva de judeus logo após os decretos restritivos e a absorção expressiva desses grupos ao lado de árabes e japoneses na sociedade brasileira em fins dos anos 1930”, questiona. Para ele, houve muita incongruência entre discurso e prática, gerando curiosos paradoxos. “Os imigrantes viraram o discurso eugênico de brancura, que os discriminava, em favor de seus interesses e conseguiram conquistar um espaço na sociedade. Perceberem que ser branco no Brasil era melhor do que ser negro e também adotaram a retórica eugênica.”

“Há uma série de boletins policiais sobre brigas entre estrangeiros e negros. Imigrantes pobres não queriam ser vistos como os novos escravos e afirmavam sua superioridade atacando os negros”, conta Lesser. Se os documentos contam uma história, no cotidiana do Estado Novo o movimento xenófobo não funcionou como pretendido. O brasilianista não nega o discurso contra a imigração e o antissemitismo das elites brasileiras, mas, ao estudar casos reais, viu que a ação do governo era mais flexível do que letra “dura” dos papéis timbrados. “Um bom exemplo é que, antes de colocar em vigor, em 1934, as leis que restringiam a entrada de japoneses, o governo brasileiro avisou o ministro das Relações Exteriores do Japão. Um diplomata brasileiro contou ao ministro japonês o que estava para acontecer e o acalmou prometendo que os orientais continuariam a entrar no Brasil, utilizando cotas de países como a Finlândia, que praticamente não eram usadas”, conta. Lesser reuniu outros casos do “jeitinho brasileiro” de tratar os entraves da legislação.

Para o americano, a história mais rocambolesca dessa flexibilidade que não se lê nos arquivos oficiais é a cooptação secreta pelo Itamaraty de funcionários do consulado alemão, para que eles falsificassem a assinatura do cônsul, liberando imigrantes para entrar no Brasil. “Numa palestra chamei o cônsul de nazista e pessoas da plateia ficaram indignadas, mostrando vistos assinados pelo cônsul, a quem chamavam de herói, sem imaginar que eram falsificações”, conta.

Koifman respeita a hipótese de Lesser sobre uma “negociação” das leis, mas afirma que os documentos do Serviço de Visto não sustentam essa visão. “A lei foi, sim, aplicada, e a maleabilidade estava condicionada à origem do imigrante. Basta ver a questão pouco conhecida dos suecos: eles tinham colônia representativa no país e tampouco se interessavam em imigrar para o Brasil, mas o Serviço de Visto estava particularmente interessado na vinda deles” observa.

Como revela o caso de um sueco que passou mal numa viagem, desembarcou para se tratar e, quando percebeu, já estavam tratando do seu visto. Ele não queria ficar no país. “Ao mesmo tempo, muitas pessoas com todas as condições de emigrar, que tinham os documentos necessários, enfrentavam medidas protelatórias e pareceres que dificultavam sua entrada, se não fosse o ‘imigrante ideal’. Isso mostra como os critérios se baseavam na bandeira da eugenia”, explica. Para Koifman, isso desmascara o discurso nacionalista e a flexibilidade com as leis, reduzidos à sua real dimensão: a utopia de aprimoramento étnico.

 

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Pode até ser que em certos momentos houve a preocupação governamental precisou preocupar-se com esse pormenor, esse Haag, fala como se tivesse descoberto um grande segredo. Entretanto, eu tenho minha tese própria para o branqueamento de nosso querido povo brasileiro [devo confessar que a tese ñ é só minha ; já a li em algum lugar e gostei]. Foi, justamente, a quase ausência de preconceitos, O AMOR,  que tornou possível o branqueamento: fomos nos misturando , misturando até chegarmo no que é hoje. Um negro tornou-se um belo moreno jambo, forte e sacudido; muitos filhos de branco com negra, são brancos e tiveram filhos brancos, depois, misturaram-se com brancos e jambos.  As brancas, deixaram de ser lagartixas descascadas, casando-se com negros, passando a ter uma tez, macia, de uma cor dourada, incrível! Estas, casaram-se com jambos ou brancos e tiveram flhos brancos que casaram-se com negros, brancos ou jambos. Não existe em lugar algum do mundo uma mistura tão linda.  O negro, negro, tornou-se minoria e vão continuar a misturar-se mais e mais. A tendência é que o negro retinto desapareça assim como o branco lagartixa descascada, isto, pq os brasileiros não possuem esse alardeado preconceito e misturam-se numa boa, fazem amor sem olhar a cor o que é mais difícil na terra ianquesionista. Pronto. KKKKKKK

  http://www.revistadehistoria.com.br/secao/perspectiva/o-futuro-era-branco

Tela "Redenção de Can", de 1895. A pintura serviu de ilustração para o trabalho de um médico brasileiro num congresso sobre raças. (Museu Nacional de Belas Artes / IBRAM / MINC)

 

 

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    Tela "Redenção de Can", de 1895. A pintura serviu de ilustração para o trabalho de um médico brasileiro num congresso sobre raças. (Museu Nacional de Belas Artes / IBRAM / MINC)

 

 

 

Chico Ciência  foi   o autor pessoal   da  polaca, Constituição de 1937,dai o congnome . 

Getúlio  brilhante estadista e numa época dificil,para o país,  continente e para o mundo,conduziu  equilibrando-se  numa política pendular, os rumos      de uma nação recém formada, de profundas raizes agrárias, rarefeita  de população,  habitando majoritáriamente à costa, industrialização precária e intransigente elite, herdeira  da aristocracia  imperial que se alternavam  no poder desconhecendo as exigências elementares   da cidadania.

Falsa é a idéia de que Getúlio compartilhava  por convicção   de idéias    eugênicas ou fosse simpatizante  do arianismo. Fosse  assim,  Plinio Salgado encontraria nele  seu maior  aliado e executaria o projeto integralista,o fascismo tupiniquim, sem os  resultados que  ahistória descreve.

EUA,Canadá a Inglaterra e boa parte  do  planeta  rejeitaram emigrações de judeus.Milhares embarcados sem terem onde  aportar.Evidente que essa  pressão,  conduziu à criação do  estado de Israel,sob patrocínio da ,Casa Rothschild ,que  haviam se tornado credores  de  boa parte da Europa,operavam da Suiça e dos EUA,e ter milhões    de presumiveis herdeiros   do espólio de patrícios    dizimados pelos  campos de concentração,reclamando, não  era o mais confortável dos cenários.

 

Muito bom que os pesquisadores se debrucem sobre esse periodo que tambem esta pedindo a sua "Comissão da Verdade"

Mas querer atribuir todos os males ao fascista Francisco Campos é querer lançar cortina de fumaça para encobrir a politica que vinha de longe, de querer branquear a população brasileira .

Em Minas Gerais onde os negros e seus descendentes mulatos eram há muito a maioria da população e até tentaram sempre algum espaço mais digno na sociedade,  os dirigentes politicos , e intelectuais, e sobretudo a igreja "tramontana" (que para se penitenciar sempre promovem um negrinho bem comportado para ser santo), se esforçaram ao máximo para promover o "branqueamento" da população ( muitas décadas antes do Nazi Facismo que só exacerbou o tema).

Em parte, ate conseguiram. Basta caminhar por algum bairro de classe media de BH para ver que os brancos são maioria,

As teses dessa gente ainda estão disseminadas, meio encobertas, nas opiniões. Um dos discursos que ouvi toda a vida foi que os negros só trabalham sob chicote e os mulatos para se distanciarem das origens na escravidão se recusavam a trabalhar. ( Era a tese explicita na época colonial e persiste meio camuflada nos discursos).

Agora, com a lei de cotas, o preconceito arraigado explode na indignação dos branquelos que se sentem atingidos em seus privilégios auto-proclamados de que tem o monópolio das oportunidades porque só eles são "eficientes" e trabalhadores. 

Além desse preconceito de base contra a maioria da população pobre ( pessoas com sangue negro e indigena) outros mais se juntaram em varios momentos. Hoje não é de bom tom explicitar o preconceito contra judeus , mas não faz muito era explicito nas opiniões de muitos, disfarçados em uma pretenso atavismo de que aquele povo era formado só de usurários ou pela sua religião ( Quando nos anos 60 eu era adolescente ousei namorar uma judia e só não fui excomungado pela minha familia porque não faria efeito ja que eu mesmo tinha me tornado ateu). Até o preconceito contra italianos foi forte no periodo em que eles vinham em massa em busca de trabalho e oportunidades. ( Em minas "italianinho" era termo altamente pejorativo)

 

 

 

Esse artigo resume muita coisa que já era conhecida. Houve uma época em que se tentou cristianizar os nomes, e os imigrantes japoneses chegaram a ser obrigados a escolher prenomes para seus filhos, com preferência recaindo em profetas (Paulo, Daniel) ou sobrenomes norte-americanos usados como prenomes (Lincoln, Washington.) Depois teve uma fase de proibir o uso de W, K, Y nos prenomes... Um certo fluxo de japoneses acabou indo para o Perú, onde não havia resistência.

Muito jabuticaba tudo isso. Mas depois, de +/- 1960 até a entrada limitada de lusófonos da África e as anistias a latinoamericanos nas décadas seguintes, o fluxo de imigrantes parou.

Hoje, no Brasil, nem 1% da população é de imigrantes natos, contra 15% dos EEUU e até 25% de Canadá e Austrália. Ou os 5-15% que são norma na Europa Ocidental (com a Itália e Grécia sendo dos poucos mais restritivos) O Brasil perde de longe em multiculturalidade para muitos países. É hoje um país, na prática, "fechado", se autoelogiando como diverso em função de 1860-1980.

O que se fará quanto a isso? Quando o "sistema" brasileiro irá acordar para o fim do bônus demográfico (+/- 2030) e definir uma política séria e necessária de abertura à imigração?

Esses 20 ou 30 mil técnicos e engenheiros que estão entrando (e sem visto permanente) são muito pouco. 

 

Se você pode sonhar, você pode fazer. Walt Disney

Cada vez fica mais claro que o "Chico Ciência", tido e havido como um dos homens mais inteligentes do Brasil, era na verdade um idiota. Podemos ver hoje com clareza o quanto os imigrantes japoneses contribuíram para odesenvolvimento do país. Também vemos, com desolação, que o que ele chamava de "white trash" (intelectuais alemães e judeus) foi absorvido pelos EUA e ocupou um sem número de cátedras em Harvard, conquistou inúmeros prêmios Nobel. Pela visão preconceituosa e limitada, Francisco Campos estava mais para o Magnolli ou o Villa de seu tempo. O pior é que naquela época não havia uma intelectualidade de qualidade que fizesse contraponto a essas ideias. 

 

Eu estou com Jeffrey Lesser, nessa de ter cuidado ao retratar as políticas de estado no Brasil, com base somente em documentos oficiais; tem de se cotejar a intenção e o gesto, o que aconteceu de prático após o enunciado. Ele constata ambiguidades do tipo, "a entrada expressiva de judeus logo após os decretos restritivos", nessa fase da migração no Brasil; existem mais exemplos de ambiguidades.

 

Se historiadores do futuro não tiverem esse cuidado, ao analisarem os documentos oficiais dos governos, "tudo pelo social" Sarney e o do "partido da social-democracia" FHC, vão achar que vivemos governos revolucionarios no Brasil recente. Durante a ditadura, produziu-se pomposos documentos que nunca foram efetivados, o mais notório foi o Estatuto da Terra, durante o comando de Castelo Branco.

 

A tese do "embranquecimento" é muito antiga na documentação oficial brasileira. Ela aparece pela primeira vez, na regência de Dom João VI. Está lá em papel timbrado, mas, o que aconteceu de modo efetivo logo após o enunciado? 

 

Segundo os historiadores, no período entre a chegada das cortes ao Brasil e o encerramento efetivo do tráfico negreiro em 1854, nunca foi tão intensa a entrada de africanos no país; para cada europeu que migrou para cá, desembarcaram cerca de quarenta africanos. Se os documentos oficiais anunciavam "embranquecimento", na prática houve "empretecimento".

 

Outra lorota é acreditar que a finalidade da imigração era miscigenação, com o propósito do "embranquecimento" . Se fosse verdade, os fluxos migratórios seriam dirigidos para a Bahia, o Maranhão e todo o Nordeste, o interior de Minas e do Estado do Rio. Os imigrantes europeus seguiram, na primeira fase, para lugares de vazio populacional no Sul, onde só podiam cruzar com eles mesmos; a preocupação do Império era ocupar um território sensível de conflitos militares. Na segunda fase, prevalece o interesse econômico, os imigrantes se dirigem à expansão cafeeira e para industrialização nascente e o crescimento dos serviços urbanos. Quem imprime o primado ideológico aos movimentos imigratórios do passado são historiadores do presente. Os fazendeiros do século XIX queriam braços para lavoura, nunca deram importância a cor do braço.

 

Almeida

Os contos de Guimarães Rosa também são eivados de expressões que, aos olhos de hoje, seriam consideradas politicamente incorretas. Leiam: "O Burrinho pedrês", "Sarapalha", "A volta do marido pródigo"....

 

Para muitos brasileiros, o Brasil ideal seria o Brasil dos estados com sul.

Com a população predominantemente branca, e todo mundo falando inglês, nada de português

 Seria um sonho.

 

Consagre os seus sonhos e projetos ao Senhor, e eles serão bem sucedidos, creia.

gAS

Creio que o BRASIL deveria ter muito cuidado com a sua História. Quem analisar a HISTÓRIA DO BRASIL ou falar sobre um grande vulto histórico deveria ser pessoa escolhida a dedo, genuinamente brasileira; existem alienígenas em nossas faculdades, querendo reescreve-la.  Podemos seguir o exemplo do povo judeu: o seu holocausto no contexto histórico, só pode ser analisado por judeu escolhidos a dedo, sob as penas da lei. Sobre o assunto do texto, nada de novidade pois foi uma época incerta, movimentada, também em matéria de preconceito. Pior foram povos que não aprimoraram-se a partir daí e conservam essa veia até hoje provocando a infelicidade alheia.

 

Guerra civil brasileira em hibernação?

Enviado por Oswaldo Conti-Bosso, dom, 18/11/2012 - 11:44

Caros,

Conta o pesquisador: “Segmentos letrados da sociedade brasileira e muitos homens do governo, incluindo Vargas, acreditavam que o problema do desenvolvimento brasileiro estava relacionado à má formação étnica do povo. Achavam que trazendo ‘bons’ imigrantes, ou seja, brancos que se integrassem à população não branca, o Brasil em 50 anos se transformaria em uma sociedade mais desenvolvida”.

O texto, por uma questão estratégica de "corte", não diz absolutamente nada, que essa política de branqueamento já estava presente no fim do império e início da República no final do século XIX. Fica em evidência, como tática, se a culpa de todos os males do nazismo fosse somente do Hitler, e não na sociedade alemã do período. Aqui, no viés paulista, o mal é todo da era Vargas, a elite paulista nunca enxerga coisa boa da era Vargas, só tragédia, e por sinal, com a chancela da “ciência”.

As minhas andanças pelo mundo da academia, do academicismo e científico, mostrou-me outros olhares, por exemplo, vou citar dois:

1-  A FAPESP, a academia e o academicismo (abril de 2010):

Descobri que, no debate da plenária estadual da FAPESP, seminário para discussão dos projetos de investimentos científico para os próximos quinze anos, na qual as propostas a ser levada para a plenária nacional, em maio ou junho de 2010, em Brasília (MCT), um dos doutores e acadêmico presente, de umas das universidades do estado de São Paulo, propõe que se tenha toda a formação em doutorado somente no Estado de São Paulo, e que os demais estados do Brasil fiquem com a formação de mestrado, mas foi contido, a estratégia dizia o que se pensa, mas são estratégias que não se fala, às vezes sai de forma errada em local errado, como do Ministro da Fazenda nos anos 90, que foi captado pela parabólica, “eu não tenho escrúpulo”.

2-  Escola politécnica de engenharia - POLI - USP, o pré-sal e o anti-varguismo paulista, na alma do sistema acadêmico e da elite paulista:

Descobri que a Escola politécnica da USP, escola centenária, 120 anos, entre as principais escolas de engenharia do Brasil, levou meio século para criar um curso de Engenharia de Petróleo (2002), depois da criação da Petrobrás. Se considerar que Monteiro Lobato, nos anos 20 (1927), morando em Nova York, levou apenas alguns dias para fazer a afirmação assertiva, “o que move a economia dos EUA é o petróleo”, quando voltou ao Brasil criou a campanha “o petróleo é nosso”, encampada por todos, até o nascimento da Petrobrás (1953), que ele nem viu nascer (morreu em 1948), pergunto: Como pode uma distorção dessas? A ideologia e os anti-varguistas paulistas talvez tenham algo a dizer (mas eles não dizem, como indaguei, dizem que era atendida e acompanhada pela Engenharia Naval), agora correm feitos loucos para tirar o atraso de meio século com o fator pré-Sal, nem a descoberta da bacia de Campos nos anos 70-80 (os primeiros poços do “Visconde de Sabugosa”) os moveram do espírito canhestro, é inacreditável. O anti-varguismo ideológico e estúpido, está além do “gen, esta na alma do sistema, da ideologia dos paulistas. A nossa simbologia, nosso ícone, a chamada, São Paulo da "locomotiva" do Brasil no século XX, está se deparando neste século XXI, com o "trem bala" da Petrobrás, e outros "trem bala", como a produção de grão, São Paulo, nas últimas décadas, virou um imenso canavial. A elite de São Paulo nunca pensou o Brasil, e nas últimas décadas, pensou mal São Paulo.

Voltando a pesquisa, é interessante notar, o corte da pesquisa, quase sempre, quando se trata de pesquisa das instituições no estado de São Paulo, em todas as áreas, a maior concentração está no período Vargas. O próprio PT nasceu anti-vargas, pela influência da academia uspiana, especificamente do Departamento de Ciência Política da FFLCH da USP, onde o então petista e suas "teorias populistas" e anti-varguistas, era encarnado por Francisco Weffort. Agora estão produzindo outras teorias do populismo lulista, o anti-lulismo (mais lixo?). O André Singer é um ponto fora da curva no DCP-USP.

É o viés da "política" de ciência para o estado de São Paulo, o antivarguismo não está mais só no DNA dos paulistas, mas na alma da elite, e consequentemente, correia de transmissão a população. Especulo que, com a elevação de feriado para o dia 9 de julho, em memória a "revolta" constitucionalista da elite paulista anti-Vargas de 1932 (isso é um barril de pólvora), tem-se uma espécie de concentração de energia negativa em hibernação, de potencial de guerra civil em hibernação, entre São Paulo e o Brasil, é o que especulo, ou coisa que o valha.

Tem uma piada que ouvi de dois texanos que conheci, eles gostam de contar essa anedota, que se encaixa como uma luva na realidade entre o Brasil e São Paulo de hoje, saltou aos olhos quando voltei.

Eles dizem na anedota entre o estado do Texas e os EUA: “Nós texanos temos uma problema sério com os EUA, é que a gente nunca se entende”.

É claro e cristalino que os projetos de modelos de desenvolvimentos entre de São Paulo e o Brasil hoje, são  diferentes. Depois de oito décadas, a migração do Nordeste para São Paulo mostra sinais de reversão, a “locomotiva” está perdendo o “gás” na visão de médio e longo prazo, mas o sudeste ainda concentra dois terço da massa salarial do país, e 58% do PIB, ou seja, como diz Raymundo Faoro em “Os Donos do Poder”, a mudança do centro do poder econômico e política do Rio de Janeiro para São Paulo, que ocorreu no fim do século XIX, o fato começou após a guerra do Paraguay e se consolidou depois da República, pois os três primeiros presidentes eleitos do Brasil foram de São Paulo, Prudente de Morais, Campos Sales e Rodrigues Alves (este ainda é o último paulista eleito para Presidente do Brasil até hoje). É briga para mais de metro, que não soma energia, divide, somos de fato uma sociedade dividida, o Brasil ainda não encontrou seu caminho entre o andar de baixo e a andar de cima, um dilema secular.

Mas no que toca a questão de ideologia, a elite política de São Paulo se alinhou com o que há de mais reacionário do Texas faz duas ou três eleições, desde 2006.

É uma guerra política estúpida e cega.

O futuro é incerto e não sabido. Quem viver verá!

 

Menino de Engenho - engenharia de idéias e laços sociais. “A leitura do mundo antecede a leitura da palavra”. Quem sou e de onde vim?: http://www.advivo.com.br/blog/oswaldo-conti-bosso/quem-sou-e-de-onde-vim

Quando se critica a obra de Monteiro Lobato com o intuito de tirá-los das prateleiras dentro do pensamento pós-moderno do politicamente correto do séc.XXI, sua consequência prática seria a de apenas emburrecer as pessoas ao tirar delas a oportunidade de se analisar uma obra dentro de um contexto de determinada época e de se fazer uma crítica demonstrando os erros e acertos da sociedade na história para que esta  oriente a trajetória futura, e acima de tudo, constatar que o mundo evolui sempre, independentemente de qualquer coisa.

O que o texto aborda, a observação da obra de Lobato acima, o racismo explícito nos trabalhos de um dos maiores cientistas na área médica, Nina Rodrigues, e trabalhos de vários outros nomes de destaque da sociedade naquela época representava uma forte corrente.

Esse pensamento foi disseminado não só no Brasil, na Alemanha, como também na França, nos EUA, em toda parte: "O patrocínio privado à eugenia começou nos EUA, nos anos iniciais do século XX. Financiadores tanto do racismo nos EUA, eram os milionários americanos John D. Rockefeller, Harriman, Carnegie e tantos outros. Ao capital uniram-se cientistas de Harvard, Yale, Princeton e Stanford."

"Em 1912 foi criado o Comitê Internacional de Eugenia, dominado pelos EUA, e o centro em Cold Spring Harbor era base de treinamento de eugenistas do mundo todo."

 

Nina Rodrigues é mais conhecido pelos seus trabalhos na medicina legal, todos eles eivados das teorias em voga no seu tempo, as teorias de Lombroso, Ferri e outros. Mas ele foi um abolicionista, republicano e autor trabalhos pioneiros de etnografia, sobre o folclore e religioes africanas no Brasil; estudava o candomblé numa época em que este era tratado como caso de policia. 

 

Ele é mais citado (vilipendiado) do que lido; atribuem à sua obra, de um médico da provincia, uma influência politica que ela nunca alcançou no seu tempo; o mesmo acontece com Silvio Romero, ambos apenas repercutiram pensamentos de sua época - que encontramos também em Euclides da Cunha - mas chegam a atribuir aos dois as diretrizes da politica migratoria durante o Império. 

 

Almeida

Concordo contigo Almeida, acho muito mais relevante a atuação de A.C. Pacheco e Silva, fundador da Escola Paulista de Medicina, que defendia publicamente as idéias eugenistas, esteve à frente da Liga paulista de Higiene Mental (na época, aqui no brasil, era comum a fusão de eugenismo e higiene), além de, qdo constituinte ter se empenhado no combate ao "mal amarelo". Esteve também entre os líderes intelectuais da guerra de 32, e não por menos foi apoiar o golpe de 64 integrado à ESG, Escola Superior de Guerra.