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O último apóstolo

da CartaCapital - 12/09/2012

Cardeal Martini | Calou-se a voz de um autêntico seguidor de Jesus Cristo. Pregou no deserto?

 

O pastor Capaz de pôr em causa vários dogmas eclesiásticos em matéria ética

 

É conhecido o apólogo do rei  que, para provar seu poder absoluto sobre os súditos, fazia questão de se apresentar inteiramente despido em público, sem que ninguém ousasse criticá-lo. Até o dia em que um menino, assistindo ao desfile real, quebrou o encanto ao gritar: "O rei está nu!"

   Lembrei-me dessa parábola ao refletir sobre a personalidade do cardeal Carlo Maria Martini, arcebispo de Milão, que faleceu há poucos dias. Não creio, porém, que o desvendamento público da nudez da Igreja, por ele feito, provoque o necessário escândalo.

   Em sua derradeira entrevista, concedida em 8 de agosto último ao padre jesuíta Georg Sporschill e à jornalista Federica Radice, indagado sobre como via a situação atual da Igreja, Martini respondeu sem rebuços:

   "A Igreja está atrasada 200 anos. Ela está exausta, na Europa do bem-estar e na América. Nossa cultura envelheceu, nossas grandes igrejas estão vazias, o aparato burocrático da Igreja cresce como fermento, nossos ritos e nossas vestes são pomposos. [...] Somos como o jovem rico que foi embora triste, quando Jesus o convocou para ser seu discípulo".

   O Cardeal aludiu aí ao episódio, contado nos Evangelhos sinóticos, do jovem rico que, orgulhoso de cumprir todos os mandamentos da Lei de Deus, indagou de Jesus o que lhe faltava ainda para ter a vida eterna. Ao que Jesus respondeu: "Uma coisa te falta, vende o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu".

   No mundo moderno, a Igreja, que se diz submissa à Lei do Senhor, acabou na verdade por submeter-se ao poder capitalista. Ora, a palavra de Jesus é terminante: "Ninguém pode servir a dois senhores; pois, ou odiará um e amará o outro , ou se apegará ao primeiro e desprezará o segundo. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro". (Mateus 6,24)

  Mas as críticas do Cardeal Martini não se limitavam a esse ponto. Nos últimos anos de sua vida, ele teve ocasião de pôr em causa vários dogmas eclesiásticos em matéria ética. Não hesitou, por exemplo, em discordar da proibição absoluta da contracepção artificial, estabelecida pela Encíclica Humanae Vitae, além de discordar da interdição das uniões homossexuais estáveis, embora reconhecendo que estas não podem merecer o sacramento do matrimônio. Insurgindo-se contra a posição tradicional de inferioridade da mulher na Igreja, o cardeal declarou-se adepto de que elas tivessem acesso ao diaconato.

    Já no tocante à organização eclesiástica, Martini fez questão de propugnar o estabelecimento de um poder efetivamente colegial, censurando ipsu facto o despotismo do sumo pontífice.

     Aí estão, na verdade, os pontos fundamentais para uma verdadeira Reforma da Igreja do Cristo, neste segundo milênio de sua existência.

CONTRA O DOGMATISMO ÉTICO

     As religiões, de modo geral, jamais souberam distinguir entre a fé e a ética. Ora, tal distinção é fundamental. A fé baseia-se na confiança e diz respeito a verdades sagradas; vale dizer, intocáveis. Já a ética funda-se na razão, e suas normas devem ser constantemente aperfeiçoadas, em razão do princípio fundamental. A fé baseia-se na confiança e diz respeito a verdades sagradas; vale dizer, intocáveis. Já a ética funda-se na razão, e suas normas devem ser constantemente aperfeiçoadas, em razão do princípio fundamental da dignidade humana, cuja extensão e complexidade jamais chegaremos a apreender em sua totalidade.

    Daí decorrem duas conclusões da maior importância. 

   A primeira delas é que, se os mandamentos éticos são obrigatórios e podem, no limite, ser impostos pela força aos recalcitrantes, a fé autêntica não é objeto de coação, pois a confiança não se impõe. Tal significa que o Estadio, enquanto organização política suprema, há de reconhecer a liberdade religiosa como um de seus princípios fundamentais, não se podendo, em consequência, admitir nenhuma religião oficial.

   A segunda conclusão a ser tirada da diferença entre fé e ética é que, se as verdades sobrenaturais da fé são em princípio invariáveis (embora todos saibamos que as interpretações teológicas variam enormemente), as normas éticas não podem ser consideradas dogmáticas; pois, como a História tem demonstrado de forma superabundante, muito do que era largamente admitido no passado tornou-se crime no presente, e vice-versa.

    A História da Igreja confirma plenamente o que acaba de ser dito, bastando para tanto apontar três matérias: o aborto, a tortura e a escravidão. 

1. O ABORTO

   São Basílio Magno, bispo de Cesareia, sustentou, no século IV, que a junção da alma ao corpo (o que os teólogos chamam de animação) ocorre concomitantemente à concepção. Santo Agostinho, porém, seu contemporâneo, afirmou que a animação somente se dá após o nascimento com vida.

     No século XII, o Decreto de Graciano, primeira compilação das normas de direito canônico, e que permaneceu em vigor até 1918, permitia o aborto de um embrião antes da animação.

     No século seguinte, Santo Tomás de Aquino, aceitando a posição de Aristóteles ensinou que a animação do feto somente ocorre, para os homens, 40 dias após a concepção, e para mulheres 60 dias depois dela... Considerava o aborto antes da animação como um pecado contra o matrimônio, mas não como homicídio.

   O Concílio de Viena, de 1312, admitiu a licitude do aborto nos primeiros três meses de gravidez. Já o Conselho de Trento, no século XVI, adotou integralmente a opinião de Santo Tomás de Aquino, sendo esta posição sucessivamente defendida por quatro papas. Não obstante, Sixto V, eleito papa em 1588, determinou, pela bula Effrenantum, que todo aborto voluntário constituía crime, acarretando a excomunhão da mãe e dos demais responsáveis. Ora, Gregório XIV, eleito papa em 1591, revogou a bula de seu antecessor e restabeleceu o que fora decretado pelo Concílio de Trento. Em 1869, porém, deu-se outra reviravolta: o papa Pio IX restabeleceu o que fora decretado por Sixto V no século XVI.

      Em 1918, a Igreja promulgou o Código de Direito Canônico, que declarou o aborto um crime, sem fazer a distinção entre embrião animado ou não, nem entre feticídio e infanticídio.

     Meio século depois, na Encíclica Humanae Vitae, o papa Paulo VI afirmou que "todo aborto deve ser proibido de forma absoluta, ainda que por razões terapêuticas".

PASSADO Segundo Santo Tomás, o aborto é possível em certos casos. Dizia Santo Agostinho que a animação se dá somente após o nascimento com vida.

    Seguindo nessa mesma linha, o Código de Direito Canônico de 1983 dispôs em seu cânon 1398: "Quem provoca aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae". Tal significa que a excomunhão ocorre de pleno direito, sem necessidade de sua intimação à pessoa culpada.

   Vale lembrar, aqui, para leitores brasileiros, que em 2009 o arcebispo de Pernambuco, dom José Cardoso Sobrinho, decretou a excomunhão latae sententiae da mãe e dos médicos que realizaram o aborto em uma menina de 9 anos, que havia sido engravidada pelo padrasto.

 

2. A TORTURA

     Ela foi durante séculos uma forma regular de obtenção de provas, no direito processual canônico.

     A Igreja aprimorou esse meio de prova ao utilizar, nos processos abertos pela "santa" Inquisição, o que hoje se costuma denominar "tortura limpa", pelo fato de não deixar sequelas físicas. Uma vez feito ao réu o anúncio de que seria submetido ao suplício, a sua execução era várias vezes adiada, incitando-se a vítima, por ocasião de cada adiamento, a colaborar com as autoridades eclesiásticas, confessando seu crime e/ou denunciando outros criminosos. Antes de se dar início aos tormentos, recomendava-se mostrar ao infeliz os instrumentos do suplício.

   A tortura só foi abolida oficialmente nos tribunais da Inquisição por uma bula papal de 1816. Hoje, como se sabe, essa prática é universalmente considerada criminosa e, em certos casos, um crime contra a humanidade.

 

3. O TRÁFICO E A ESCRAVIDÃO DE AFRICANOS 

    A Igreja Católica não apenas abençoou, desde o início, a prática da servidão africana, como ainda dela se aproveitou para participar diretamente do tráfico de seres humanos e do grande empreendimento capitalista de agronegócio.

   Já em meados do século XV, duas bulas papais concederam ao rei de Portugal "plena e livre permissão de invadir, buscar, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos de quaisquer outros incrédulos e inimigos de Cristo, onde quer que estejam". Entenda-se: livre permissão para capturar, reduzir à escravidão e vender os africanos, com os quais portugueses acabavam de entrar em contato.

   No Brasil, como sabido, a escravidão de africanos e afrodescendentes foi praticada sem descontinuar, de 1500 a 1888. Várias ordens religiosas envolveram-se no agronegócio, formando grandes fazendas, onde acumulavam milhares de cativos. Em 1759, quando de sua expulsão do Brasil, revelou-se que a Companhia de Jesus possuía 17 fazendas de açúcar e 7 fazendas de gado com mais de 100 mil cabeças na Ilha de Marajó, todas elas operadas com base no trabalho escravo.

    Algumas ordens religiosas, aliás, instituíram criatórios de escravos. O norte-americano Thomas Ewbank, que visitou o Brasil em meados do século XIX, informou em seu livro Vida no Brasil que num "grande estabelecimento", possuído pela ordem beneditina na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, "numerosas gerações de rapazes e moças de cor são lá criadas, até terem idade suficiente para serem enviadas ao trabalho nas propriedades do interior".

    Na verdade, até a Abolição, bispos e sacerdotes no Brasil jamais deixaram de possuir escravos. Eis por que a Lei do Ventre Livre, de 1871, foi tão mal recebida no meio eclesiástico. Assim é que, logo após a sua promulgação, dom Antônio de Macedo Costa, bispo do Pará, dirigiu enérgico protesto ao presidente da província, afirmando que a lei, sendo "irregular e anticanônica", constituía séria violação dos direitos da Igreja.

   Foi somente em 5 de maio de 1888 que Leão XIII, com a Encíclica In Plurimis, resolveu afinal, condenar a escravidão no Brasil. Mas o documento pontifício só chegou ao Rio de Janeiro depois de 13 de maio.

 

CONTRA O ABSOLUTISMO PAPAL

   O Cardeal Martini não cessou de criticar, de forma explícita ou velada, essa manifesta desobediência ao ditado evangélico. Com efeito, o Senhor disse claramente a seus discípulos: "Aquele que quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que serve, e o que quiser ser o primeiro entre vós, seja o vosso servo". (Mateus 20, 26-27; Marcos 10, 41-45; Lucas 22, 24-27) No original grego do texto evangélico, aliás, a palavra usada é doulos, isto é, escravo.

    Ora, o sumo pontífice, que faz questão de se intitular retoricamente "servo dos servos de Deus" (servus servorum Dei), representa hoje um dos raríssimos casos remanescentes de soberano absoluto, vale dizer, de poder ilimitado e sem controles. É bem o caso de se perguntar: afinal, quem é o senhor e quem são os escravos na Santa Madre Igreja Católica?

   Conscientes dessa manifesta aberração à luz da Palavra do Senhor, os bispos reunidos no Sínodo de 1967 decidiram - pela primeira vez na História da Igreja! - que o poder eclesiástico deveria dividir-se em Legislativo, Executivo e Judiciário; o que foi consignado no cânon 135 do Código de Direito Canônico. Mas a declaração revelou-se pura afetação. No cânon 391, atribuiu-se a cada bispo diocesano o exercício conjunto dos Três Poderes.

    Para culminar essa construção hierárquica, o mesmo Código reconheceu ao papa um "poder supremo, pleno, imediato e universal" (cânon 331). Ou seja, reproduziu-se no bispo de Roma a característica própria dos imperadores romanos: ele é legibus solutus, não está sujeito a lei alguma.

    É evidente  que o cardeal Martini, teólogo refinado, não podia deixar de sentir, neste ponto, o odor de uma blasfêmia: só o Deus único e verdadeiro está acima das leis, pois Ele é a própria personificação da Lei.

 

CONCLUSÃO

   O Cristianismo representa um colossal paradoxo. Em sua origem, encontramos uma personalidade eminentemente revolucionária, que declarou haver trazido o fogo à Terra e ansiar para que fosse aceso (Lucas 12:49). Como explicar, então, que a vida e a doutrina desse profeta revolucionário tenham podido inspirar a criação e o funcionamento de corporações religiosas que se situam entre as mais conservadoras organizações do mundo moderno?

    Creio que a consciência desse terrível paradoxo deve ter perturbado a delicada sensibilidade de Carlo Maria Martini.

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E ai?

 

É mais uma daquelas citações de Tomás de Aquino e Agostinho de segunda mão, citações de internet? Uma coisa é dizer que eles escreveram isso, outra é comprovar.

 

"Assim é que, logo após a sua promulgação, dom Antônio de Macedo Costa, bispo do Pará, dirigiu enérgico protesto ao presidente da província, afirmando que a lei, sendo 'irregular e anticanônica', constituía séria violação dos direitos da Igreja".

Pelo menos no que a isso se refere, o jornalista não sabe o que está falando. A Igreja foi amplamente favorável à Lei do Ventre Livre e há documentação que o prova. Se quiser, basta acompanhar as edições do jornal O Apóstolo, principal orgão da Igreja no Brasil do século XIX. Se quiser ir além, basta ler as cartas pastorais de todos os bispos brasileiros de então.

Dom Antônio Macedo Costa não foi contra a Lei do Ventre Livre e tampouco afirmou que a lei era "irregular e anticanônica". Todos sabemos que o então bispo do Pará era crítico dop regime monárquico e que cumprira pena por não aceitar a intervenção do Estado naquilo que considerava atribuição e direito da Igreja. Esse documento citado pelo autor refere-se às determinações do Presidente da Província do Pará de como os padres deveriam se conduzir para o cumprimento da lei, já que a Igreja era responsável pelos registros de nascimento. O bispo reclamava de que o presidente do Pará não tinha autoridade para dizer como o padre deveria se comportar, que era atribuição dele, bispo. Certo ou errado, o prelado não reclamava da lei e sim do que considerava ingerência em assuntos da Igreja. 

 


 

A Igreja está nua, não tem mais como esconder suas vergonhas.

 

<p>Belo texto! Lúcido e fiel aos fatos. Pena que aqueles que entenderam a mensagem cristã não conseguiram restaurar a Igreja. João Huss também é um belo exemplo de homens de fé que contrariaram os interesses temporais da Santa Madre... e que não fizeram sucesso aparente. Não é àtoa que João Evangelista, no Apocalipse, sob a inspiração de Jesus, num exercício premonitório à prova de qualquer cepticismo, afirmou categoricamente os males que a "Besta" faria à Humanidade. Previu, ainda, que a "Besta" "se vestiria de púrpura e linho, estenderia seu manto por sobre toda a Humanidade e se saciaria com o sangue e o corpo dos santos. E mais, previu que a "Besta" reinaria por 42 anos e poderia ser identificada pelo número 666. Quanto ao reinado, fazendo os ajustes necessários, dá o período que permeia a instituição do papado, em 607 DC, se não me falha a memória, até o decreto de infalibilidade papal, no Séc. XIII, acho. De outra parte, e sem tecer juízo de valor, mas atento somente aos fatos, não podemos esquecer que o Sumo Pontífice usa três títulos, a saber: VICarIVs fILII DeI (Vigário Filho de Deus, em português); VICarIVs generaLIs DeI In terrIs (Vigário Geral de Deus na Terra); e DVX CLerI (Príncipe do Clero). Como se pode constatar, somando, em romanos, as letras destacadas, todos os títulos perfazem 666. Assim, ninguém pode duvidar dos males que essa instituição fez à Humanidade e nem que Jesus não é uma farsa, pois com o Apocalipse, mostra-nos que nunca perdeu o controle de sua Doutrina, mas apenas tem respeitado o Livre Arbítrio.</p>

 

Texto cheio de sonhos incoerentes

As Igrejas lotadas são de seitas que justamente se adaptaram ao capitalismo

Ser moderno era ser a favor da escravidão naqueles tempos. Não estar com o modismo talvez seja o certo, então o que é o certo hoje??

Igrejas vazias hoje, otimo pois é biblico a maioria não seguindo a palavra divina e se perdendo. E se voce não acredita na biblia, então não torra o saco cobrando da Igreja a modernidade da cantora Madona

 

Ezequiel 25:17.

 

"O caminho do homem justo é rodeado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens maus.

Abençoado seja aquele que, em nome da caridade e da boa-vontade pastoreia os fracos pelo vale da escuridão,

Pois ele é verdadeiramente o protetor de seus irmãos e aquele que encontra as crianças perdidas.

E Eu atacarei, com grande vingança e raiva furiosa aqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos.

E você saberá que meu nome é o Senhor, quando minha vingança cair sobre você".

 

Geraldor

"Uma coisa te falta, vende o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu":

VENDE.  Jesus disse VENDE.

Nao "DAI DE GRACA".  JESUS NAO DISSE ISSO.  Jesus disse VENDE o que tiver.

Nao disse "se acomode em ser roubado por espioes":  Jesus NUNCA disse isso.