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Os militantes do ódio nas redes sociais

Do BlumeNews

Os militantes do ódio

Sally Salter

Está cada vez mais comum ver nas redes sociais pessoas destilando seu ódio às diferenças humanas, muitas covardemente escondidas sob o manto do anonimato. Ainda não damos a devida atenção a essa prática – e ingenuamente a ignoramos, entendendo que estes indivíduos não passam de pessoas inofensivas.

De fato, eles não são. Vamos fazer uma breve análise para perceber como o “ódio virtual” tem-se transformado, numa velocidade assustadora, em violências reais aterrorizantes.

Os militantes do ódio iniciam sua violência virtual por meio de comentários preconceituosos em páginas diversas: jornais de grande circulação, blogs, redes sociais etc. Começam anônimos, mas hoje parece haver um “pacto antiético” que muitos nem se importam mais com o anonimato e, claro, com a certeza da impunidade. Observando os movimentos desses indivíduos na internet, percebemos que a incitação à violência não para por aí. A emoção de poder expor seu ódio publicamente não basta: é necessário procurar outros iguais – e é nas redes sociais que eles se encontram. Começam os primeiros contatos, mensagens privadas, compartilhamento de fotografias, vídeos e textos que propagam preconceitos de todos os tipos e estimulam ainda mais o ódio.

Depois de um tempo as conversas já não são mais suficientes, então criam páginas, blogs e perfis no Facebook. Alguns elaboram textos, manifestos e compartilham na rede. Outros chegam a postar vídeos no YouTube. Nestas páginas e redes sociais, iniciam ataques pessoais aos militantes de direitos humanos, feministas, líderes de movimentos LGBT, negros, estrangeiros etc., enfim, aqueles que defendem as “minorias”. Depois de um tempo, esses ataques virtuais já não são mais suficientes.

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Como há muito tempo esses indivíduos estão vivendo num mundo irreal, inventado e alimentado por delírios e ódios compartilhados pelo grupo, chega um momento em que eles precisam elaborar e colocar planos em ação. Entre os militantes do ódio também há uma competição pra ver quem será o mais corajoso – aquele que realizará o primeiro gesto de violência física. É quando estes militantes do ódio vão para as ruas para agredir ou estuprar, ou mesmo matar aqueles que são objeto do seu ódio.

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Em fevereiro passado, saiu uma das sentenças mais esperadas pela comunidade on-line e movimentos sociais que lutam contra crimes de ódio que se alastram pela internet numa velocidade avassaladora. Trata-se do julgamento de dois homens, um de Curitiba/PR (engenheiro de 32 anos) e outro de Brasília/DF (formado em ciências da computação pela UnB, de 26 anos), que estão presos desde março de 2012 e agora foram sentenciados a seis anos de prisão por incitar a violência e ódio aos negros, judeus, nordestinos, homossexuais e mulheres na internet. Dessa decisão ainda cabe recurso, mas o juiz determinou que permanecessem presos até o trânsito em julgado do processo.

Os dois mantinham um site que ensinava, inclusive, como abusar sexualmente de crianças e estuprar mulheres. Também se referiam às mulheres em geral como “merdalheres”. E, pasmem, um deles é casado! O site se tornou viral (milhares de pessoas passaram a acessá-lo). Um dos sentenciados, aparentemente em viagem à Nova Délhi/Índia, realizou filmagem e postou no YouTube todo seu discurso de ódio pelos humanos negros, gays, mulheres, nordestinos e indianos. Segundo trechos da denúncia feita pelo Ministério Público e citados na sentença, alguns dos dizeres foram esses: “estado de preto é sujeira, como estado inerente da mulher é a prostituição”, “o estado natural do homem branco é o trabalho, é a limpeza”, referindo-se aos negros como “macacos”, “animais”, cujas relações sexuais mantidas entre estes e “loiras miscigenadoras” implicam “zoofilia”. “A prostituição é inerente ao caráter feminino, e eu completo dizendo que a sujeira é inerente ao caráter negro e do pardo, então eles fazem uma combinação mortal”. Os nordestinos também não escaparam: “uma alemã idiota lá na Bahia, ela casou com um baiano, um nordestino cabeça chata, cara de macaco puro, véio, cara, dava nojo quando eu vi ele, a foto dele”. Falando sobre os indianos em Nova Délhi, ele afirmou: “Aqui só tem um bilhão e quinhentos milhões de animais, não seres humanos. Seres humanos eu poderia falar que são 3% da população, que acabou adquirindo costumes europeus, isso é normal, uma ínfima parcela, mas e o restante, e o restante que não dá certo? Será que vale a pena ficar misturando assim as coisas?”.

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Foram mais de 65 mil denúncias ao SaferNet – organização que luta para defender os direitos humanos na internet – que informou à Polícia Federal, quando então o Judiciário expediu mandado de prisão e de busca e apreensão de materiais desses indivíduos. Segundo a polícia, ambos estavam planejando um ataque, logo após o Carnaval de 2012, a estudantes da Universidade de Brasília (UnB), pois foi encontrado um mapa de uma casa de eventos que serve de local de reunião dos alunos. “Há indicativos de que haveria um ataque após o Carnaval. As mensagens dizem que dariam um tratamento àquele ‘câncer’, fazendo referência aos estudantes, quando eles estivessem reunidos no local”, disse o delegado Wagner Mesquita, da PF no Paraná.

Fazendo uma breve pesquisa na internet, encontrei inúmeros casos de agressões motivadas por preconceito e ódio, selecionando os mais recentes. Não tenho dúvidas que os militantes do ódio são os responsáveis – diretos ou indiretos – pela ocorrência ou encorajamento dessas agressões, muitas vezes em plena luz do dia, em espaços públicos e na frente de muitas pessoas que, por medo, preferem não interferir. Só pra citar alguns casos:

● A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República enviou no mês de setembro/2012 uma missão especial para Curitiba/PR, a fim de colher o depoimento de 15 ativistas LGBT que foram ameaçados de morte nos últimos meses na cidade. Todas as ameaças têm cunho homofóbico, com perfil de crime de ódio e as ameaças vêm acompanhadas de requintes de crueldade.

● Em Brasília/DF, uma estudante de Agronomia da UnB foi espancada e chamada de “lésbica nojenta” no estacionamento do campus, em 20/2/2013. Nesse mesmo dia, uma briga entre um casal de mulheres acabou envolvendo a polícia e terminou com dedos amputados de uma delas e acusação de homofobia contra os policiais, em Valparaíso, no Entorno do Distrito Federal.

● Também estão aumentando as agressões a casais gays em todas as cidades – os mais noticiados atualmente são aqueles que ocorrem nos metrôs de São Paulo.

● Em Queimadas/PB, dez homens foram presos por envolvimento no estupro coletivo de cinco mulheres – e na morte de duas delas – ocorrido no dia 12/2/2012. Segundo a polícia, o crime foi premeditado por dois irmãos, sendo que os estupros das mulheres teriam sido um “presente de aniversário” de um irmão para o outro. Após atrair as vítimas para a festa, os dois teriam combinado com outros seis comparsas para que forjassem uma invasão à residência e praticassem os estupros. Apenas as mulheres dos irmãos não foram estupradas. Um dos irmãos foi sentenciado a 44 anos de prisão, em outubro de 2012. Cabe recurso.

● Em fevereiro/2012, um menino de 12 anos se suicidou em Vitória/ES, após ser alvo de bullying na escola. Segundo relatos, o aluno era humilhado, empurrado e xingado de “gay”, “bicha” e “gordinho” pelos colegas. O garoto deixou uma carta pedindo desculpas pelo ato e disse que não entendia por que era alvo de tantas humilhações.

● Em fevereiro/2013, circulou no Facebook a foto e a postagem de uma adolescente no site de relacionamentos ask.fm, em que respondia porque ela não gostava de negros: “Pq eu sou assim. Eu não gosto pois acho nojento os negros e etc. (com exceção dos famosos e etc.). Cada pessoa tem um erro cada pessoa tem uma falha. Eu não gosto acho nojento os negros claro que se fosse meus mais e etc. eu ia aceitar mas não são. Então eu tenho até nojo de me encosta (sic) num negro.”

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O preconceito é contagioso e pode ser uma arma letal. Começa muitas vezes em casa, com os pais fazendo e contando piadas “aparentemente inofensivas” de negros, gays, mulheres, nordestinos e aqueles que não se enquadram no padrão midiático de beleza: os gordinhos. Está nos programas de humor que achamos inofensivos e assistimos em família. Chegando na escola, as crianças passam a repetir as mesmas piadas aos coleguinhas. Ao coleguinha tido como diferente, elas se acham no direito de debochar, escrachar, dar risadinhas (afinal, assim aprenderam em casa e na tevê!), no intuito de atingir e isolar a criança não padronizada. Na era da internet, essas crianças também “brincam” e espalham o que aprenderam em casa e na escola de outra forma: ofendendo e debochando de coleguinhas pela rede. Um dia elas serão adultas e algumas delas se tornarão militantes. Do ódio.

Hoje esses militantes do ódio podem ser o teu amigo do Facebook, o teu colega de trabalho, o vizinho. Não está longe de ti. O preconceito também pode bater a sua porta a qualquer momento: dificilmente alguém escapará disso. Seja por motivo de sexo, cor, raça, religião, militância política, militância de direitos humanos etc. O gay sofre, o negro sofre e os umbandistas sofrem. As mulheres, os deficientes e os gordos sofrem. Os pobres e os índios sofrem. E tantos outros! Com o meu e o seu preconceito. Eu e você podemos sofrer preconceito! Dificilmente você não será atingido, pois se não for, será um filho seu, um parente ou um amigo seu.

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Imagem usada por cristãos fundamentalistas como propaganda em camisetas e perfis de Facebook, pregando contra o estado laico e a Constituição.

 

A tua verdade pode não ser a minha. A tua fé ou a tua militância pode não ser a minha. O teu sexo/gênero pode não ser o meu. Mas nem por isso tenho o direito de te agredir ou impedir de ter os mesmos direitos que eu. Nem por isso tenho o direito de impor a minha verdade sobre a sua, mesmo estando sinceramente convencida dela. E nem você impor a sua verdade a mim. Nem o Estado democrático de direito pode ser negligente: deve garantir os mesmos direitos civis a todos os seus cidadãos, independente de orientação sexual, credo ou cor. Também deve punir toda forma de agressão e criar mecanismos legais para isso. Não podemos admitir – num estado laico como o nosso – que o fundamentalismo cristão se apodere do Congresso Nacional para impedir a garantia de direitos.

Precisamos, mais do que nunca, denunciar toda forma de preconceito, inclusive as que vemos na internet, aparentemente “inofensivas”. Somos nós que apertamos os gatilhos sociais, quando nos omitimos contra esses crimes de ódio. É preciso denunciar cada postagem, cada violência cometida! Quanto mais denúncias sobre um caso, maiores são as chances de investigação e punição.

E o mais importante: acima de tudo e também de qualquer credo, precisamos educar os filhos com ética para a vida; e isso nós faremos se formos exemplo: olhando para nós mesmos, nos despindo de nossos enraizados preconceitos e, sobretudo, tendo ética em nossas relações. As leis servem para punir enquanto não houver ética – e são necessárias, infelizmente. Mas ainda torço para que um dia elas se tornem algo em desuso.

Onde denunciar: http://www.safernet.org.br/site/

No site da Safernet, organização que luta para defender os direitos humanos na internet, há uma seção que orienta os usuários da internet sobre o que fazer em caso de crimes de ameaça, calúnia, injúria, pornografia infantil, racismo, apologia e incitação a crimes contra a vida, xenofobia, neonazismo, homofobia etc. Entre as instruções estão a preservação de todas as provas, realização de denúncia e também o envio de uma carta registrada, com modelo disponível no site, para o provedor de serviço tirar a página ofensiva do ar.

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