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Presidente do BB reafirma papel de governo da instituição

Do Estadão

‘O Banco do Brasil tem papel de governo’, diz Bendine

Dirigente afirma que resgatou função pública da instituição, mas avisa que não há mais espaço para cortar juros

David Friedlander e Ricardo Grinbaum

SÃO PAULO - O presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, não dá bola para os críticos e afirma sem rodeios: o banco é, sim, um braço do governo na aplicação da política econômica. "Eu resgatei um pouco esse papel do Banco do Brasil enquanto agente de desenvolvimento econômico e social. Quer dizer: ele tem um papel de governo, de fato."

Bendine sabe que muitos enxergam o risco de que o banco seja administrado de acordo com as conveniências do governo. Nos anos 90, o uso político quase quebrou o BB. Ele mesmo assumiu a instituição em 2009, na fase mais aguda da crise financeira global, com a missão de executar duas tarefas da agenda do ex-presidente Lula: ampliar a oferta de crédito para estimular a economia e liderar uma competição mais aguerrida com os bancos privados, para forçá-los a reduzir os juros. Seu antecessor, Antonio Francisco de Lima Neto, não seguiu a cartilha do Planalto e foi ejetado do cargo.

"Sei que o mercado ainda precifica muito a gente negativamente por causa dessa possível interferência, ou intervenção, governamental", diz o presidente do BB. "Muitas vezes, as pessoas não entendem a governança do Banco do Brasil. Hoje, ela está num nível igual ou superior à das grandes empresas brasileiras."

Chefe do maior banco da América Latina, com mais de 100 mil funcionários e 60 milhões de clientes, Bendine começou no BB aos 14 anos, como office-boy num programa chamado Menor Aprendiz. Sob seu comando, o volume de ativos administrado pelo banco passou de R$ 591 bilhões para R$ 1,2 trilhão e o BB abriu novas frentes, como o crédito imobiliário.

Responsável por 21% dos empréstimos e financiamentos concedidos no País, o banco é o líder brasileiro em crédito. Segundo Bendine, o plano é emprestar cada vez mais, novamente na contramão dos bancos privados, que pisaram no freio. O movimento é seguro, diz ele, tanto que a taxa de inadimplência do banco hoje é metade da média do sistema financeiro. "Acho que a gente é mais otimista e sabe ler melhor os cenários. Parte dos bancos privados recuou além do que deveria."

Nesta entrevista, exclusiva ao Estado, Bendine fala do relacionamento com o governo, avalia os concorrentes e conta um pouco sobre o plano de aumentar a participação no Banco Votorantim, do qual o BB já é sócio. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O Banco do Brasil ajudou o governo em sua estratégia de reduzir os juros bancários. Mas a alta da inflação mudou o cenário e o BC aumentou a taxa de juros básica da economia. A bandeira de juros baixos, que era uma questão de honra da presidente Dilma, ficou para trás?

A presidente Dilma entendia que os spreads (diferença entre o que banco paga na captação do dinheiro e o que cobra no empréstimo) estavam muito altos e que isso inibia o crescimento do País. Mas não foi uma imposição, foi uma cobrança. Você não baixa juros por decreto. O fator que norteou esse movimento aqui no banco foi a queda da taxa básica de juros. Foi aí que adotamos a estratégia de trabalhar com spreads mais reduzidos, transferimos o ganho para nossos clientes e para a sociedade. O BB foi o indutor, os demais tiveram de vir atrás. Os spreads no mundo são esses que a gente está praticando agora aqui.

Ainda há espaço para baixar as taxas?

Hoje, não. Com o novo reposicionamento da Selic (a taxa básica de juros), dado o efeito inflacionário, não se pode continuar com a transferência de ganhos para os clientes por causa do custo de captação. É ele que determina a fixação da taxa. Agora só vou conseguir novos avanços à medida que nossa eficiência melhorar muito. Tivemos de fazer algumas pequenas correções (aumento dos juros), mas o spread global do banco tem se mantido estável. Hoje está por volta de 4,6%, que é mais ou menos a base mundial. Chegou a ser 7,5%, 8%.

A presidente Dilma já está satisfeita com esse resultado?

Eu não discuto isso com ela. Minha conversa no dia a dia é com o conselho de administração, que no caso é dado pelo Ministério da Fazenda. Diria que a Fazenda está muito satisfeita com esse nosso papel, porque isso deu uma arejada novamente na economia, que era um objetivo correto do governo.

Só que agora o banco aumentou algumas taxas. Isso não deu problema com o governo?

Não. Isso é muito tranquilo aqui, é uma decisão técnica. Não tem interferência. Até porque se o governo dissesse "trabalha a custo zero", eu não conseguiria fazer isso. Sei que o mercado ainda precifica muito a gente negativamente por causa dessa possível interferência, ou intervenção, governamental. Muitas vezes, as pessoas não entendem a governança do Banco do Brasil. Nossa governança hoje está num nível igual ou superior à das grandes empresas brasileiras.

O que as pessoas não entendem?

Os analistas, às vezes, têm dificuldade em analisar o BB. Uma hora tendem a achar que é só um banco público, tem horas que acham que é apenas um banco comercial. Nenhum dos dois. Até pela sua história, o banco tem de ter um papel de agente de desenvolvimento da sociedade, senão ele perde um pouco da razão de ser. E, se for só um banco comercial, é melhor que seja privatizado e atue como tal. Nos últimos quatro anos, eu resgatei um pouco esse papel do Banco do Brasil enquanto agente de desenvolvimento econômico e social. Quer dizer: ele tem um papel de governo, de fato. Agora, o que a gente nunca abriu mão foi da nossa profissionalização, da nossa governança, da nossa técnica.

A direção do BB tem autonomia para tocar o banco ou o governo interfere muito, como todo mundo imagina?

Autonomia total. Claro que é total dentro da governança do banco. É lógico que o sócio controlador (o governo) sempre tem dentro do conselho de administração um peso maior e acaba ditando o rumo, como em qualquer companhia. Agora, se o governo disser para dar crédito a uma determinada indústria, a custo zero, é impossível passar.

Mas a gente sabe que os pedidos políticos continuam existindo... 

Continua tendo. Bate aqui, a gente diz muito obrigado, vamos avaliar e tchau, amigo.

Foi isso que aconteceu no Itaquerão? (O BB fez exigências para financiar a construção do estádio do Corinthians e a operação foi parar na Caixa Econômica Federal.)

A gente estudou a operação durante um ano, mas o banco entendeu que o modelo ali não atendia aos preceitos e às normas do banco. A gente analisa tudo, até porque queremos crescer. Nosso negócio aqui é dar crédito, é intermediação financeira. Minha carteira de empréstimos, pelo nível de risco, é a melhor do mercado. Faz quatro anos que fazem o prognóstico de que "ah, lá no futuro isso pode dar problema"...

O sr. está falando das avaliações de que o banco teria emprestado demais para agradar ao governo e correria risco de crescimento da inadimplência?

Isso. Nossa inadimplência é metade do sistema financeiro. Nosso índice de inadimplência nesse primeiro semestre é o menor em 11 anos. A média de inadimplência do sistema está em 3,4%. A nossa é 1,87%.

Qual é a explicação?

Há vários fatores. Primeiro, temos um gerenciamento de cobrança muito efetivo. Segundo, temos uma composição muito forte de crédito direcionado (financiamento habitacional, agrícola, repasses do BNDES, etc.) na carteira, que tendem a ter menos inadimplência. O mais importante é a estratégia. Por prudência e conservadorismo, a estratégia do banco está voltada para linhas de menor risco. A rentabilidade é menor, mas por outro lado geram poucas perdas. A gente desestimulou e descontinuou linhas do tipo cheque especial e rotativo de cartão de crédito.

Vocês estão parando de...

Não. A gente tem na prateleira, oferece para o cliente, mas não estimula o uso. Pelo contrário. Quando o cliente fica dois meses usando todo limite de cheque especial ou do cartão no rotativo ou só pagando o mínimo, a central de atendimento automaticamente entra em contato e oferece uma linha mais barata. Hoje, basicamente 75% de nossa carteira de consumo está elencada em quatro linhas: crédito consignado, financiamento de veículos, crédito imobiliário e crédito ao consumidor. São linhas com taxas de perdas baixíssimas. Já a concorrência aposta um pouco mais fortemente em cheque especial, rotativo de cartão, etc, que têm um ganho enorme. Mas a inadimplência em linha de rotativo de cartão passa de 20%. Eu não sei trabalhar com isso.

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