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Raio X das religiões: os calvinistas

Ontem, os luteranos. Hoje, os calvinistas.

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Na França, os huguenotes calvinistas sempre foram símbolo do que existe de melhor na galicanismo.

O Estado de Israel confere a condecoração Justo entre as nações a pessoas que se notabilizaram pelo humanismo. Nos EUA, grandes aliados, apenas três americanos receberam a condecoração, uma vila calvinista na França Le Chambon Sur Lignon foi homenageada com 56 condecorações.

UMA CONSPIRAÇÃO DE BONDADE E SILÊNCIO

Em meio às montanhas do sul da França, a cidade de Le Chambon-sur-Lignon se tornou, durante a Segunda Guerra Mundial, um abrigo seguro para os judeus. Sem disparar um tiro sequer, os habitantes do povoado,
liderados pelo pastor André Trocmé e sua esposa, Magda, salvaram a vida de
cinco mil judeus, em sua maioria crianças.
Junho de 1940. A
França capitula diante do exército alemão, assinando um armistício com a
Alemanha de Hitler. O país é, então, dividido - o norte e a costa do Atlântico
ficam sob ocupação nazista, enquanto sul e sudeste passam a ter um governo leal
à Alemanha, o Regime de Vichy, do Marechal Pétain. Le Chambon-sur-Lignon ficou
sob jurisdição de Vichy, fato que seria de importância vital para o desenrolar
dos acontecimentos.
Na época da invasão alemã, viviam em território francês judeus vindos de todas
as partes da Europa. Apavorados com a chegada das tropas de Hitler, milhares
deles fugiram para o sul do país, onde, contudo, não estavam a salvo. Vichy
promulgara legislações anti-semitas e, a qualquer momento, os judeus podiam ser
presos e enviados para a Alemanha. Uma cláusula do armistício obrigava as autoridades
francesas a entregar aos nazistas quem quer que lhes fosse solicitado - e os
judeus eram os primeiros da lista.
Enquanto os colaboracionistas franceses entregaram aos nazistas, durante a
ocupação, um total de 83 mil judeus, dentre os quais dez mil crianças, os
habitantes de Le Chambon os enfrentaram. Quando confrontados com o dilema de
aceitar refugiados em seu lar, ainda que colocando em risco a vida de sua
família e do povoado inteiro, a população local optou por salvá-los. Jamais se
recusaram a acolher um judeu, assim como abominavam a delação e a traição.
Mesmo vivendo na pobreza, os chambonnais, como são chamados na França, tentavam
suprir de todas as formas as necessidades dos refugiados. Escondiam-nos em seus
lares e os alimentavam. Forjavam cartões de identidade e de racionamento. E,
quando possível, ainda os ajudavam a fugir para a Suíça e Espanha. Acolhiam e
cuidavam de crianças órfãs ou de pais deportados, mantendo sete instituições
especialmente para esse fim. Ademais, conseguiam vagas nas escolas para que
todos os jovens pudessem continuar estudando.
No vilarejo, ninguém falava abertamente sobre tais atividades, pois sabiam que
qualquer comentário poderia destruir a frágil teia de esperança que os
envolvia. Essa verdadeira "conspiração de bondade e silêncio"
conseguiu salvar 5 mil judeus, fato realmente extraordinário, considerando que,
à época, o povoado não contava com mais de 3 mil pessoas.
Apesar do reconhecimento do povo judeu e da comunidade internacional pela
importância e nobreza de suas ações, os chamboneses nunca aceitaram a
qualificação de "heróis". Quando questionados sobre a razão para a
ajuda a milhares de judeus, respondem: "Algo tinha que ser feito e quis o
acaso que estivéssemos lá para fazê-lo. Foi a coisa mais natural do mundo
ajudar essa gente".
Infelizmente, poucos na Europa pensavam da mesma forma. Segundo Elie Wiesel,
Prêmio Nobel da Paz e sobrevivente do Holocausto, "uma das grandes
tragédias da Shoá foi o fato de os judeus terem sido abandonados por quase
todos os que poderiam tê-los salvo. Os chambonnais foram uma das pouquíssimas
exceções. Armados unicamente com suas convicções, enfrentaram as tropas
nazistas e salvaram a vida de milhares de judeus".Se houvesse mais pessoas
como eles, talvez a história da Segunda Guerra Mundial tivesse tomado outro
rumo...

Símbolo de coragem e solidariedade

O povoado de Le Chambon-sur-Lignon está localizado em um planalto rodeado por
montanhas, a uns 120
quilômetros de Paris, não muito longe da fronteira com a
Suíça. Desde o século XVI, seus habitantes se tornaram huguenotes, como são
chamados os protestantes franceses. Minoria religiosa em meio a uma França
católica, foram perseguidos até a Revolução Francesa. Fiéis a suas convicções,
durante séculos resistiram a diferentes pressões. O sofrimento imposto por
perseguições religiosas já era parte da memória coletiva daquela gente
destemida.
Foi a esse vilarejo empobrecido que, em 1934, chegou o pastor André Trocmé,
acompanhado de mulher e filhos. Trocmé, nascido em 1901, descendia de uma
linhagem de huguenotes. Profundamente religioso, era pacifista convicto e
militante. Sua esposa, Magda, compartilhava de sua coragem e seus ideais.
Rapidamente o pastor Trocmé passou a ser líder espiritual e ético da
comunidade. Em 1938, para melhorar a situação econômica local, fundou uma
escola internacional de alto nível: a Escola Cévenol. E, para ajudá-lo nessa
missão, convidou o amigo, também pastor, Édouard Theis, que comungava das
mesmas idéias de "resistência sem violência". Com o crescimento do
nazismo, a escola passou a atrair refugiados judeus de toda a Europa.
Foi do púlpito da igreja de Le Chambon que Trocmé e Theis começam a pregar a
santidade da vida humana e a resistência ao ódio e à destruição. Afirmavam ser
obrigação de cada nação, assim como de cada individuo, posicionar-se de forma
atuante contra o "mal", pois a neutralidade era cúmplice desse mal.
Assim que a Alemanha conquistou a França, a pregação deu lugar à ação.
Depoimentos dos que viveram àquela época, únicos testemunhos do ocorrido em Le Chambon, revelam que
tudo começou em uma noite de inverno, em 1940, quando Magda Trocmé abriu a
porta de sua casa e se deparou com uma mulher faminta, enregelada, que lhe
disse: "Sou judia alemã e estou fugindo dos nazistas, que se apossaram do
norte da França. Disseram-me que neste povoado eu encontraria ajuda. Posso
entrar?". E o que se iniciara como um gesto individual, transformou-se
rapidamente em uma corrente de inquebrantável solidariedade.
Durante o período de 1940 a
1944, Trocmé e Theis foram os principais idealizadores da "resistência sem
violência" e das ações de resgate empreendidas pelo vilarejo. Muitos
outros participaram de forma ativa, inclusive Magda Trocmé. Mulher corajosa,
nunca mediu perigos ou sacrifícios, tendo servido também de guia para inúmeros
grupos que atravessavam as montanhas até a Suíça.
Trocmé começou por contatar o representante, em Marselha, da organização Quaker
(American Friends Service Committee). Durante a Shoá, as igrejas da denominação
Quaker e Testemunhas de Jeová foram as únicas que incorporaram a ajuda aos
judeus à sua política oficial. Na França de Vichy, os quakers haviam conseguido
permissão para ajudar os internos nos campos de detenção e tinham grande
preocupação com as crianças judias de pais deportados. Era difícil encontrar
quem aceitasse hóspedes tão visados. Trocmé propôs abrigá-las em Chambon e os
quakers, cientes da pobreza do vilarejo, comprometeram-se a enviar recursos.
Rapidamente a operação se expandiu e se tornou mais complexa, pois passou a
incluir não apenas crianças, mas todos que lá chegavam em busca de refúgio.
Trocmé conseguiu também o apoio de outros 13 pastores, de habitantes da região
e de outras organizações protestantes, assim como de membros do clero católico,
da Cruz Vermelha e dos governos da Suécia e Suíça.
O pastor era o cérebro e a alma de toda a operação. É verdade que nunca teria
conseguido realizar o que alcançou sem a ajuda da esposa, de Theiss e de muitos
outros. Mas era ele quem planejava, incentivava e fazia tudo acontecer. Era o
único que conhecia todas as facetas da operação. Os demais grupos envolvidos e
seus líderes atuavam de forma independente. Esta era uma precaução necessária
para salvaguardar a operação, pois, caso alguém fosse pego e submetido à tortura,
era impossível prever o que viria à tona.
As opiniões dos chamboneses não eram segredo para as autoridades de Vichy, já
que nunca as negaram. Pelo contrário, denunciavam e repudiavam abertamente a
perseguição aos judeus. O pastor Trocmé e seus congregantes começaram a sofrer
pressões para cessar toda a atividade pró-judeus. Mas, fiéis à sua consciência,
não se dobraram perante as ameaças. Mesmo quando o próprio líder das igrejas
protestantes francesas pediu a Trocmé que desistisse de ajudar os refugiados,
pois podia prejudicar os franceses protestantes, Trocmé se recusou,
determinado.
Após a guerra, um dos habitantes da região revelou que sempre que alguma
patrulha nazista despontava, "caçando" os refugiados, estes eram
escondidos nos bosques. "Logo que os soldados alemães partiam, íamos à
floresta e cantávamos uma determinada canção. Quando a ouviam, sabiam que
podiam regressar, em segurança".
Corajoso, o pastor nunca se calou. Do púlpito de sua igreja, não cansava de
exortar seus congregados a se manterem firmes e a "fazer a vontade de
D'us, não a dos homens". Em famoso sermão após os acontecimentos de Paris
de julho de 1942, quando nazistas ajudados pela polícia francesa deportaram 13
mil judeus - dos quais 4 mil eram crianças - Trocmé declarou: "A Igreja
cristã deveria ajoelhar-se e pedir perdão a D'us pela incapacidade e covardia
que ora demonstra".
Em agosto daquele mesmo ano, quando as autoridades de Vichy foram ao povoado
exigir de Trocmé uma lista com o nome de todos os judeus daquela região, ele se
recusou, categoricamente. Respondeu, como de costume: "Não sabemos o que é
um judeu; apenas conhecemos os seres humanos, todos iguais entre si e diante de
D'us". Algumas semanas mais tarde, a polícia de Vichy foi para o vilarejo
com três ônibus e uma missão sombria: prender e levar todos os judeus da região
aos campos de detenção. Durante três semanas, os policiais andaram, em vão, por
todo o vilarejo e seus arredores, em busca dos refugiados. Conseguiram
encontrar, casualmente, apenas um judeu, pois ninguém revelou o paradeiro de um
refugiado sequer, mostrando terem sido inúteis as ameaças policiais de prisão.
Em fevereiro de 1943, autoridades de Vichy voltaram a Chambon, desta vez para
prender os próprios pastores, André Trocmé e Édouard Theiss, e o diretor da
escola pública, Roger Darcissac. Este último era também o fotógrafo
"oficial" de todos os documentos forjados. Os três líderes foram
enviados a um campo de detenção onde ficaram presos por cinco semanas, até
serem libertados. Durante esse tempo, ofereceram a Trocmé a opção de ser
libertado mediante a assinatura de um documento comprometendo-se a seguir as
determinações do governo de Vichy, especialmente no tocante aos judeus. Apesar
da gravidade de sua situação, Trocmé manteve-se irredutível.
Daniel Trocmé, primo do pastor e um dos líderes da operação, não teve a mesma
sorte. Responsável por um dos sete abrigos para crianças judias, foi capturado
pelos nazistas em 1943. Enviado ao campo de Maidanek, na Polônia, juntamente
com "suas" crianças, Daniel morreu nas câmaras de gás, em 1944.
Tiravam-lhe a vida - mas levava consigo tudo o que seus carrascos queriam
saber.

Merecido reconhecimento

O profundo reconhecimento do mundo judaico à família Trocmé e aos chamboneses,
de modo geral, está registrado no Yad Vashem - Museu do Holocausto, em Jerusalém. Na ala
dos "Justos entre as Nações" foram plantadas três árvores - duas em
nome do casal André e Magda Trocmé e uma em homenagem a seu primo, Daniel. O
pastor Édouard Theiss e sua esposa Mildred, assim como Roger Darcissac, também
receberam o título de "Justos", assim como outros 38 habitantes que
participaram do salvamento dos judeus. E, em 1990, Le Chambon-sur-Lignon se
tornou a primeira comunidade a ser incluída pelo Yad Vashem nessa alameda, com
a inauguração de um jardim e uma placa em nome de sua população.
O cineasta Pierre Sauvage, vencedor do Prêmio Emmy por seus documentários, é
uma das centenas de crianças que sobreviveram ao Holocausto graças à população
de Le Chambon-sur-Lignon. Nasceu na cidade, em 1944, quando grande parte de sua
família já havia morrido nos campos de extermínio nazistas. Somente ao
completar 18 anos soube que era judeu. A partir de então, abraçou ferreamente a
missão de fazer com que o mundo jamais esqueça a Shoá. Tornou-se um dos maiores
especialistas em identificar aqueles que ajudaram a salvar os membros de seu
povo, tendo criado a Fundação Le Chambon.
Sauvage narra a história de Le Chambon num documentário intitulado Weapons of
the Spirit - Armas do espírito. Em entrevista sobre o mesmo, declarou:
"Histórias como a de Le Chambon servem de inspiração para os mais jovens,
quando se vêem diante dos demônios do mundo. Se cada um de nós não puder
sentir, bem no íntimo, o quanto de bondade existe em nossos semelhantes,
teremos sempre o receio de olhar de frente para o grau de crueldade a que o ser
humano pode chegar".

Bibliografia:
Hallie, Philip, Lest Innocent blood be Shed, Ed HarperPerennial
Berenbaum, Michael, The World Must Know, Ed. Litlle, Brown and Co.
http://www.yadvashem.org/

 

Na França, os huguenotes calvinistas sempre foram símbolo do que existe de melhor na galicanismo.

O Estado de Israel confere a condecoração Justo entre as nações a pessoas que se notabilizaram pelo humanismo. Nos EUA, grandes aliados, apenas três americanos receberam a condecoração, uma vila calvinista na França Le Chambon Sur Lignon foi homenageada com 56 condecorações.

UMA CONSPIRAÇÃO DE BONDADE E SILÊNCIO

Em meio às montanhas do sul da França, a cidade de Le Chambon-sur-Lignon se tornou, durante a Segunda Guerra Mundial, um abrigo seguro para os judeus. Sem disparar um tiro sequer, os habitantes do povoado,
liderados pelo pastor André Trocmé e sua esposa, Magda, salvaram a vida de
cinco mil judeus, em sua maioria crianças.
Junho de 1940. A
França capitula diante do exército alemão, assinando um armistício com a
Alemanha de Hitler. O país é, então, dividido - o norte e a costa do Atlântico
ficam sob ocupação nazista, enquanto sul e sudeste passam a ter um governo leal
à Alemanha, o Regime de Vichy, do Marechal Pétain. Le Chambon-sur-Lignon ficou
sob jurisdição de Vichy, fato que seria de importância vital para o desenrolar
dos acontecimentos.
Na época da invasão alemã, viviam em território francês judeus vindos de todas
as partes da Europa. Apavorados com a chegada das tropas de Hitler, milhares
deles fugiram para o sul do país, onde, contudo, não estavam a salvo. Vichy
promulgara legislações anti-semitas e, a qualquer momento, os judeus podiam ser
presos e enviados para a Alemanha. Uma cláusula do armistício obrigava as autoridades
francesas a entregar aos nazistas quem quer que lhes fosse solicitado - e os
judeus eram os primeiros da lista.
Enquanto os colaboracionistas franceses entregaram aos nazistas, durante a
ocupação, um total de 83 mil judeus, dentre os quais dez mil crianças, os
habitantes de Le Chambon os enfrentaram. Quando confrontados com o dilema de
aceitar refugiados em seu lar, ainda que colocando em risco a vida de sua
família e do povoado inteiro, a população local optou por salvá-los. Jamais se
recusaram a acolher um judeu, assim como abominavam a delação e a traição.
Mesmo vivendo na pobreza, os chambonnais, como são chamados na França, tentavam
suprir de todas as formas as necessidades dos refugiados. Escondiam-nos em seus
lares e os alimentavam. Forjavam cartões de identidade e de racionamento. E,
quando possível, ainda os ajudavam a fugir para a Suíça e Espanha. Acolhiam e
cuidavam de crianças órfãs ou de pais deportados, mantendo sete instituições
especialmente para esse fim. Ademais, conseguiam vagas nas escolas para que
todos os jovens pudessem continuar estudando.
No vilarejo, ninguém falava abertamente sobre tais atividades, pois sabiam que
qualquer comentário poderia destruir a frágil teia de esperança que os
envolvia. Essa verdadeira "conspiração de bondade e silêncio"
conseguiu salvar 5 mil judeus, fato realmente extraordinário, considerando que,
à época, o povoado não contava com mais de 3 mil pessoas.
Apesar do reconhecimento do povo judeu e da comunidade internacional pela
importância e nobreza de suas ações, os chamboneses nunca aceitaram a
qualificação de "heróis". Quando questionados sobre a razão para a
ajuda a milhares de judeus, respondem: "Algo tinha que ser feito e quis o
acaso que estivéssemos lá para fazê-lo. Foi a coisa mais natural do mundo
ajudar essa gente".
Infelizmente, poucos na Europa pensavam da mesma forma. Segundo Elie Wiesel,
Prêmio Nobel da Paz e sobrevivente do Holocausto, "uma das grandes
tragédias da Shoá foi o fato de os judeus terem sido abandonados por quase
todos os que poderiam tê-los salvo. Os chambonnais foram uma das pouquíssimas
exceções. Armados unicamente com suas convicções, enfrentaram as tropas
nazistas e salvaram a vida de milhares de judeus".Se houvesse mais pessoas
como eles, talvez a história da Segunda Guerra Mundial tivesse tomado outro
rumo...

Símbolo de coragem e solidariedade

O povoado de Le Chambon-sur-Lignon está localizado em um planalto rodeado por
montanhas, a uns 120
quilômetros de Paris, não muito longe da fronteira com a
Suíça. Desde o século XVI, seus habitantes se tornaram huguenotes, como são
chamados os protestantes franceses. Minoria religiosa em meio a uma França
católica, foram perseguidos até a Revolução Francesa. Fiéis a suas convicções,
durante séculos resistiram a diferentes pressões. O sofrimento imposto por
perseguições religiosas já era parte da memória coletiva daquela gente
destemida.
Foi a esse vilarejo empobrecido que, em 1934, chegou o pastor André Trocmé,
acompanhado de mulher e filhos. Trocmé, nascido em 1901, descendia de uma
linhagem de huguenotes. Profundamente religioso, era pacifista convicto e
militante. Sua esposa, Magda, compartilhava de sua coragem e seus ideais.
Rapidamente o pastor Trocmé passou a ser líder espiritual e ético da
comunidade. Em 1938, para melhorar a situação econômica local, fundou uma
escola internacional de alto nível: a Escola Cévenol. E, para ajudá-lo nessa
missão, convidou o amigo, também pastor, Édouard Theis, que comungava das
mesmas idéias de "resistência sem violência". Com o crescimento do
nazismo, a escola passou a atrair refugiados judeus de toda a Europa.
Foi do púlpito da igreja de Le Chambon que Trocmé e Theis começam a pregar a
santidade da vida humana e a resistência ao ódio e à destruição. Afirmavam ser
obrigação de cada nação, assim como de cada individuo, posicionar-se de forma
atuante contra o "mal", pois a neutralidade era cúmplice desse mal.
Assim que a Alemanha conquistou a França, a pregação deu lugar à ação.
Depoimentos dos que viveram àquela época, únicos testemunhos do ocorrido em Le Chambon, revelam que
tudo começou em uma noite de inverno, em 1940, quando Magda Trocmé abriu a
porta de sua casa e se deparou com uma mulher faminta, enregelada, que lhe
disse: "Sou judia alemã e estou fugindo dos nazistas, que se apossaram do
norte da França. Disseram-me que neste povoado eu encontraria ajuda. Posso
entrar?". E o que se iniciara como um gesto individual, transformou-se
rapidamente em uma corrente de inquebrantável solidariedade.
Durante o período de 1940 a
1944, Trocmé e Theis foram os principais idealizadores da "resistência sem
violência" e das ações de resgate empreendidas pelo vilarejo. Muitos
outros participaram de forma ativa, inclusive Magda Trocmé. Mulher corajosa,
nunca mediu perigos ou sacrifícios, tendo servido também de guia para inúmeros
grupos que atravessavam as montanhas até a Suíça.
Trocmé começou por contatar o representante, em Marselha, da organização Quaker
(American Friends Service Committee). Durante a Shoá, as igrejas da denominação
Quaker e Testemunhas de Jeová foram as únicas que incorporaram a ajuda aos
judeus à sua política oficial. Na França de Vichy, os quakers haviam conseguido
permissão para ajudar os internos nos campos de detenção e tinham grande
preocupação com as crianças judias de pais deportados. Era difícil encontrar
quem aceitasse hóspedes tão visados. Trocmé propôs abrigá-las em Chambon e os
quakers, cientes da pobreza do vilarejo, comprometeram-se a enviar recursos.
Rapidamente a operação se expandiu e se tornou mais complexa, pois passou a
incluir não apenas crianças, mas todos que lá chegavam em busca de refúgio.
Trocmé conseguiu também o apoio de outros 13 pastores, de habitantes da região
e de outras organizações protestantes, assim como de membros do clero católico,
da Cruz Vermelha e dos governos da Suécia e Suíça.
O pastor era o cérebro e a alma de toda a operação. É verdade que nunca teria
conseguido realizar o que alcançou sem a ajuda da esposa, de Theiss e de muitos
outros. Mas era ele quem planejava, incentivava e fazia tudo acontecer. Era o
único que conhecia todas as facetas da operação. Os demais grupos envolvidos e
seus líderes atuavam de forma independente. Esta era uma precaução necessária
para salvaguardar a operação, pois, caso alguém fosse pego e submetido à tortura,
era impossível prever o que viria à tona.
As opiniões dos chamboneses não eram segredo para as autoridades de Vichy, já
que nunca as negaram. Pelo contrário, denunciavam e repudiavam abertamente a
perseguição aos judeus. O pastor Trocmé e seus congregantes começaram a sofrer
pressões para cessar toda a atividade pró-judeus. Mas, fiéis à sua consciência,
não se dobraram perante as ameaças. Mesmo quando o próprio líder das igrejas
protestantes francesas pediu a Trocmé que desistisse de ajudar os refugiados,
pois podia prejudicar os franceses protestantes, Trocmé se recusou,
determinado.
Após a guerra, um dos habitantes da região revelou que sempre que alguma
patrulha nazista despontava, "caçando" os refugiados, estes eram
escondidos nos bosques. "Logo que os soldados alemães partiam, íamos à
floresta e cantávamos uma determinada canção. Quando a ouviam, sabiam que
podiam regressar, em segurança".
Corajoso, o pastor nunca se calou. Do púlpito de sua igreja, não cansava de
exortar seus congregados a se manterem firmes e a "fazer a vontade de
D'us, não a dos homens". Em famoso sermão após os acontecimentos de Paris
de julho de 1942, quando nazistas ajudados pela polícia francesa deportaram 13
mil judeus - dos quais 4 mil eram crianças - Trocmé declarou: "A Igreja
cristã deveria ajoelhar-se e pedir perdão a D'us pela incapacidade e covardia
que ora demonstra".
Em agosto daquele mesmo ano, quando as autoridades de Vichy foram ao povoado
exigir de Trocmé uma lista com o nome de todos os judeus daquela região, ele se
recusou, categoricamente. Respondeu, como de costume: "Não sabemos o que é
um judeu; apenas conhecemos os seres humanos, todos iguais entre si e diante de
D'us". Algumas semanas mais tarde, a polícia de Vichy foi para o vilarejo
com três ônibus e uma missão sombria: prender e levar todos os judeus da região
aos campos de detenção. Durante três semanas, os policiais andaram, em vão, por
todo o vilarejo e seus arredores, em busca dos refugiados. Conseguiram
encontrar, casualmente, apenas um judeu, pois ninguém revelou o paradeiro de um
refugiado sequer, mostrando terem sido inúteis as ameaças policiais de prisão.
Em fevereiro de 1943, autoridades de Vichy voltaram a Chambon, desta vez para
prender os próprios pastores, André Trocmé e Édouard Theiss, e o diretor da
escola pública, Roger Darcissac. Este último era também o fotógrafo
"oficial" de todos os documentos forjados. Os três líderes foram
enviados a um campo de detenção onde ficaram presos por cinco semanas, até
serem libertados. Durante esse tempo, ofereceram a Trocmé a opção de ser
libertado mediante a assinatura de um documento comprometendo-se a seguir as
determinações do governo de Vichy, especialmente no tocante aos judeus. Apesar
da gravidade de sua situação, Trocmé manteve-se irredutível.
Daniel Trocmé, primo do pastor e um dos líderes da operação, não teve a mesma
sorte. Responsável por um dos sete abrigos para crianças judias, foi capturado
pelos nazistas em 1943. Enviado ao campo de Maidanek, na Polônia, juntamente
com "suas" crianças, Daniel morreu nas câmaras de gás, em 1944.
Tiravam-lhe a vida - mas levava consigo tudo o que seus carrascos queriam
saber.

Merecido reconhecimento

O profundo reconhecimento do mundo judaico à família Trocmé e aos chamboneses,
de modo geral, está registrado no Yad Vashem - Museu do Holocausto, em Jerusalém. Na ala
dos "Justos entre as Nações" foram plantadas três árvores - duas em
nome do casal André e Magda Trocmé e uma em homenagem a seu primo, Daniel. O
pastor Édouard Theiss e sua esposa Mildred, assim como Roger Darcissac, também
receberam o título de "Justos", assim como outros 38 habitantes que
participaram do salvamento dos judeus. E, em 1990, Le Chambon-sur-Lignon se
tornou a primeira comunidade a ser incluída pelo Yad Vashem nessa alameda, com
a inauguração de um jardim e uma placa em nome de sua população.
O cineasta Pierre Sauvage, vencedor do Prêmio Emmy por seus documentários, é
uma das centenas de crianças que sobreviveram ao Holocausto graças à população
de Le Chambon-sur-Lignon. Nasceu na cidade, em 1944, quando grande parte de sua
família já havia morrido nos campos de extermínio nazistas. Somente ao
completar 18 anos soube que era judeu. A partir de então, abraçou ferreamente a
missão de fazer com que o mundo jamais esqueça a Shoá. Tornou-se um dos maiores
especialistas em identificar aqueles que ajudaram a salvar os membros de seu
povo, tendo criado a Fundação Le Chambon.
Sauvage narra a história de Le Chambon num documentário intitulado Weapons of
the Spirit - Armas do espírito. Em entrevista sobre o mesmo, declarou:
"Histórias como a de Le Chambon servem de inspiração para os mais jovens,
quando se vêem diante dos demônios do mundo. Se cada um de nós não puder
sentir, bem no íntimo, o quanto de bondade existe em nossos semelhantes,
teremos sempre o receio de olhar de frente para o grau de crueldade a que o ser
humano pode chegar".

Bibliografia:
Hallie, Philip, Lest Innocent blood be Shed, Ed HarperPerennial
Berenbaum, Michael, The World Must Know, Ed. Litlle, Brown and Co.
http://www.yadvashem.org/

 

Na França, os huguenotes calvinistas sempre foram símbolo do que existe de melhor na galicanismo.

O Estado de Israel confere a condecoração Justo entre as nações a pessoas que se notabilizaram pelo humanismo. Nos EUA, grandes aliados, apenas três americanos receberam a condecoração, uma vila calvinista na França Le Chambon Sur Lignon foi homenageada com 56 condecorações.

UMA CONSPIRAÇÃO DE BONDADE E SILÊNCIO

Em meio às montanhas do sul da França, a cidade de Le Chambon-sur-Lignon se tornou, durante a Segunda Guerra Mundial, um abrigo seguro para os judeus. Sem disparar um tiro sequer, os habitantes do povoado,
liderados pelo pastor André Trocmé e sua esposa, Magda, salvaram a vida de
cinco mil judeus, em sua maioria crianças.
Junho de 1940. A
França capitula diante do exército alemão, assinando um armistício com a
Alemanha de Hitler. O país é, então, dividido - o norte e a costa do Atlântico
ficam sob ocupação nazista, enquanto sul e sudeste passam a ter um governo leal
à Alemanha, o Regime de Vichy, do Marechal Pétain. Le Chambon-sur-Lignon ficou
sob jurisdição de Vichy, fato que seria de importância vital para o desenrolar
dos acontecimentos.
Na época da invasão alemã, viviam em território francês judeus vindos de todas
as partes da Europa. Apavorados com a chegada das tropas de Hitler, milhares
deles fugiram para o sul do país, onde, contudo, não estavam a salvo. Vichy
promulgara legislações anti-semitas e, a qualquer momento, os judeus podiam ser
presos e enviados para a Alemanha. Uma cláusula do armistício obrigava as autoridades
francesas a entregar aos nazistas quem quer que lhes fosse solicitado - e os
judeus eram os primeiros da lista.
Enquanto os colaboracionistas franceses entregaram aos nazistas, durante a
ocupação, um total de 83 mil judeus, dentre os quais dez mil crianças, os
habitantes de Le Chambon os enfrentaram. Quando confrontados com o dilema de
aceitar refugiados em seu lar, ainda que colocando em risco a vida de sua
família e do povoado inteiro, a população local optou por salvá-los. Jamais se
recusaram a acolher um judeu, assim como abominavam a delação e a traição.
Mesmo vivendo na pobreza, os chambonnais, como são chamados na França, tentavam
suprir de todas as formas as necessidades dos refugiados. Escondiam-nos em seus
lares e os alimentavam. Forjavam cartões de identidade e de racionamento. E,
quando possível, ainda os ajudavam a fugir para a Suíça e Espanha. Acolhiam e
cuidavam de crianças órfãs ou de pais deportados, mantendo sete instituições
especialmente para esse fim. Ademais, conseguiam vagas nas escolas para que
todos os jovens pudessem continuar estudando.
No vilarejo, ninguém falava abertamente sobre tais atividades, pois sabiam que
qualquer comentário poderia destruir a frágil teia de esperança que os
envolvia. Essa verdadeira "conspiração de bondade e silêncio"
conseguiu salvar 5 mil judeus, fato realmente extraordinário, considerando que,
à época, o povoado não contava com mais de 3 mil pessoas.
Apesar do reconhecimento do povo judeu e da comunidade internacional pela
importância e nobreza de suas ações, os chamboneses nunca aceitaram a
qualificação de "heróis". Quando questionados sobre a razão para a
ajuda a milhares de judeus, respondem: "Algo tinha que ser feito e quis o
acaso que estivéssemos lá para fazê-lo. Foi a coisa mais natural do mundo
ajudar essa gente".
Infelizmente, poucos na Europa pensavam da mesma forma. Segundo Elie Wiesel,
Prêmio Nobel da Paz e sobrevivente do Holocausto, "uma das grandes
tragédias da Shoá foi o fato de os judeus terem sido abandonados por quase
todos os que poderiam tê-los salvo. Os chambonnais foram uma das pouquíssimas
exceções. Armados unicamente com suas convicções, enfrentaram as tropas
nazistas e salvaram a vida de milhares de judeus".Se houvesse mais pessoas
como eles, talvez a história da Segunda Guerra Mundial tivesse tomado outro
rumo...

Símbolo de coragem e solidariedade

O povoado de Le Chambon-sur-Lignon está localizado em um planalto rodeado por
montanhas, a uns 120
quilômetros de Paris, não muito longe da fronteira com a
Suíça. Desde o século XVI, seus habitantes se tornaram huguenotes, como são
chamados os protestantes franceses. Minoria religiosa em meio a uma França
católica, foram perseguidos até a Revolução Francesa. Fiéis a suas convicções,
durante séculos resistiram a diferentes pressões. O sofrimento imposto por
perseguições religiosas já era parte da memória coletiva daquela gente
destemida.
Foi a esse vilarejo empobrecido que, em 1934, chegou o pastor André Trocmé,
acompanhado de mulher e filhos. Trocmé, nascido em 1901, descendia de uma
linhagem de huguenotes. Profundamente religioso, era pacifista convicto e
militante. Sua esposa, Magda, compartilhava de sua coragem e seus ideais.
Rapidamente o pastor Trocmé passou a ser líder espiritual e ético da
comunidade. Em 1938, para melhorar a situação econômica local, fundou uma
escola internacional de alto nível: a Escola Cévenol. E, para ajudá-lo nessa
missão, convidou o amigo, também pastor, Édouard Theis, que comungava das
mesmas idéias de "resistência sem violência". Com o crescimento do
nazismo, a escola passou a atrair refugiados judeus de toda a Europa.
Foi do púlpito da igreja de Le Chambon que Trocmé e Theis começam a pregar a
santidade da vida humana e a resistência ao ódio e à destruição. Afirmavam ser
obrigação de cada nação, assim como de cada individuo, posicionar-se de forma
atuante contra o "mal", pois a neutralidade era cúmplice desse mal.
Assim que a Alemanha conquistou a França, a pregação deu lugar à ação.
Depoimentos dos que viveram àquela época, únicos testemunhos do ocorrido em Le Chambon, revelam que
tudo começou em uma noite de inverno, em 1940, quando Magda Trocmé abriu a
porta de sua casa e se deparou com uma mulher faminta, enregelada, que lhe
disse: "Sou judia alemã e estou fugindo dos nazistas, que se apossaram do
norte da França. Disseram-me que neste povoado eu encontraria ajuda. Posso
entrar?". E o que se iniciara como um gesto individual, transformou-se
rapidamente em uma corrente de inquebrantável solidariedade.
Durante o período de 1940 a
1944, Trocmé e Theis foram os principais idealizadores da "resistência sem
violência" e das ações de resgate empreendidas pelo vilarejo. Muitos
outros participaram de forma ativa, inclusive Magda Trocmé. Mulher corajosa,
nunca mediu perigos ou sacrifícios, tendo servido também de guia para inúmeros
grupos que atravessavam as montanhas até a Suíça.
Trocmé começou por contatar o representante, em Marselha, da organização Quaker
(American Friends Service Committee). Durante a Shoá, as igrejas da denominação
Quaker e Testemunhas de Jeová foram as únicas que incorporaram a ajuda aos
judeus à sua política oficial. Na França de Vichy, os quakers haviam conseguido
permissão para ajudar os internos nos campos de detenção e tinham grande
preocupação com as crianças judias de pais deportados. Era difícil encontrar
quem aceitasse hóspedes tão visados. Trocmé propôs abrigá-las em Chambon e os
quakers, cientes da pobreza do vilarejo, comprometeram-se a enviar recursos.
Rapidamente a operação se expandiu e se tornou mais complexa, pois passou a
incluir não apenas crianças, mas todos que lá chegavam em busca de refúgio.
Trocmé conseguiu também o apoio de outros 13 pastores, de habitantes da região
e de outras organizações protestantes, assim como de membros do clero católico,
da Cruz Vermelha e dos governos da Suécia e Suíça.
O pastor era o cérebro e a alma de toda a operação. É verdade que nunca teria
conseguido realizar o que alcançou sem a ajuda da esposa, de Theiss e de muitos
outros. Mas era ele quem planejava, incentivava e fazia tudo acontecer. Era o
único que conhecia todas as facetas da operação. Os demais grupos envolvidos e
seus líderes atuavam de forma independente. Esta era uma precaução necessária
para salvaguardar a operação, pois, caso alguém fosse pego e submetido à tortura,
era impossível prever o que viria à tona.
As opiniões dos chamboneses não eram segredo para as autoridades de Vichy, já
que nunca as negaram. Pelo contrário, denunciavam e repudiavam abertamente a
perseguição aos judeus. O pastor Trocmé e seus congregantes começaram a sofrer
pressões para cessar toda a atividade pró-judeus. Mas, fiéis à sua consciência,
não se dobraram perante as ameaças. Mesmo quando o próprio líder das igrejas
protestantes francesas pediu a Trocmé que desistisse de ajudar os refugiados,
pois podia prejudicar os franceses protestantes, Trocmé se recusou,
determinado.
Após a guerra, um dos habitantes da região revelou que sempre que alguma
patrulha nazista despontava, "caçando" os refugiados, estes eram
escondidos nos bosques. "Logo que os soldados alemães partiam, íamos à
floresta e cantávamos uma determinada canção. Quando a ouviam, sabiam que
podiam regressar, em segurança".
Corajoso, o pastor nunca se calou. Do púlpito de sua igreja, não cansava de
exortar seus congregados a se manterem firmes e a "fazer a vontade de
D'us, não a dos homens". Em famoso sermão após os acontecimentos de Paris
de julho de 1942, quando nazistas ajudados pela polícia francesa deportaram 13
mil judeus - dos quais 4 mil eram crianças - Trocmé declarou: "A Igreja
cristã deveria ajoelhar-se e pedir perdão a D'us pela incapacidade e covardia
que ora demonstra".
Em agosto daquele mesmo ano, quando as autoridades de Vichy foram ao povoado
exigir de Trocmé uma lista com o nome de todos os judeus daquela região, ele se
recusou, categoricamente. Respondeu, como de costume: "Não sabemos o que é
um judeu; apenas conhecemos os seres humanos, todos iguais entre si e diante de
D'us". Algumas semanas mais tarde, a polícia de Vichy foi para o vilarejo
com três ônibus e uma missão sombria: prender e levar todos os judeus da região
aos campos de detenção. Durante três semanas, os policiais andaram, em vão, por
todo o vilarejo e seus arredores, em busca dos refugiados. Conseguiram
encontrar, casualmente, apenas um judeu, pois ninguém revelou o paradeiro de um
refugiado sequer, mostrando terem sido inúteis as ameaças policiais de prisão.
Em fevereiro de 1943, autoridades de Vichy voltaram a Chambon, desta vez para
prender os próprios pastores, André Trocmé e Édouard Theiss, e o diretor da
escola pública, Roger Darcissac. Este último era também o fotógrafo
"oficial" de todos os documentos forjados. Os três líderes foram
enviados a um campo de detenção onde ficaram presos por cinco semanas, até
serem libertados. Durante esse tempo, ofereceram a Trocmé a opção de ser
libertado mediante a assinatura de um documento comprometendo-se a seguir as
determinações do governo de Vichy, especialmente no tocante aos judeus. Apesar
da gravidade de sua situação, Trocmé manteve-se irredutível.
Daniel Trocmé, primo do pastor e um dos líderes da operação, não teve a mesma
sorte. Responsável por um dos sete abrigos para crianças judias, foi capturado
pelos nazistas em 1943. Enviado ao campo de Maidanek, na Polônia, juntamente
com "suas" crianças, Daniel morreu nas câmaras de gás, em 1944.
Tiravam-lhe a vida - mas levava consigo tudo o que seus carrascos queriam
saber.

Merecido reconhecimento

O profundo reconhecimento do mundo judaico à família Trocmé e aos chamboneses,
de modo geral, está registrado no Yad Vashem - Museu do Holocausto, em Jerusalém. Na ala
dos "Justos entre as Nações" foram plantadas três árvores - duas em
nome do casal André e Magda Trocmé e uma em homenagem a seu primo, Daniel. O
pastor Édouard Theiss e sua esposa Mildred, assim como Roger Darcissac, também
receberam o título de "Justos", assim como outros 38 habitantes que
participaram do salvamento dos judeus. E, em 1990, Le Chambon-sur-Lignon se
tornou a primeira comunidade a ser incluída pelo Yad Vashem nessa alameda, com
a inauguração de um jardim e uma placa em nome de sua população.
O cineasta Pierre Sauvage, vencedor do Prêmio Emmy por seus documentários, é
uma das centenas de crianças que sobreviveram ao Holocausto graças à população
de Le Chambon-sur-Lignon. Nasceu na cidade, em 1944, quando grande parte de sua
família já havia morrido nos campos de extermínio nazistas. Somente ao
completar 18 anos soube que era judeu. A partir de então, abraçou ferreamente a
missão de fazer com que o mundo jamais esqueça a Shoá. Tornou-se um dos maiores
especialistas em identificar aqueles que ajudaram a salvar os membros de seu
povo, tendo criado a Fundação Le Chambon.
Sauvage narra a história de Le Chambon num documentário intitulado Weapons of
the Spirit - Armas do espírito. Em entrevista sobre o mesmo, declarou:
"Histórias como a de Le Chambon servem de inspiração para os mais jovens,
quando se vêem diante dos demônios do mundo. Se cada um de nós não puder
sentir, bem no íntimo, o quanto de bondade existe em nossos semelhantes,
teremos sempre o receio de olhar de frente para o grau de crueldade a que o ser
humano pode chegar".

Bibliografia:
Hallie, Philip, Lest Innocent blood be Shed, Ed HarperPerennial
Berenbaum, Michael, The World Must Know, Ed. Litlle, Brown and Co.
http://www.yadvashem.org/

 

É pena que os comentários de hoje não deram a devida importância ao tema. A tradição calvinista manifesta uma tendência forte à vinculação entre as idéias religiosas e a ação social. Isso pode se encaminhar, por um lado, para tendências teocráticas, mas, por outro, se encaminha para a valorização da ação humana no mundo. A tese de Max Weber, citada por outras colocações acima, a qual ressalta o aspecto econômico de determinadas crenças de alguns grupos inspirados por certas doutrinas calvinistas (sim, é assim mesmo, não uma generalização simplória, que seria errônea, do tipo "o calvinismo gerou o capitalismo"), é apenas uma forma de aplicação desta relação importante entre concepção teológica e consequência para a ação humana. Trata-se de uma concepção teológica que influenciou marcadamente todo o desenvolvimento do ocidente moderno, mesmo onde o calvinismo não se impôs de forma doutrinária. Isto porque o sistema teológico calvinista, justamente por seu caráter extremamente racionalista, tem grande capacidade de convencimento, influenciando assim diversas denominações protestantes. Isso quanto à importância do calvinismo no âmbito global. No Brasil, uma compreensão profunda das idéias calvinistas ajudaria muito a compreender a explosão do mundo "evangélico" recente, superando análises superficiais que se referem desde a complôs envolvendo o envio de missionários americanos até a charlatães enganadores do nosso povo simples. Por mais que existam fatos dessa natureza, um fenômeno massivo como o do redirecionamento da forma religiosa das massas não pode se explicar simplesmente desta forma - isso só tem um sentido panfletário, sem densidade. Mesmo que as ideias calvinistas tenham encontrado uma aceitação doutrinária só entre as igrejas presbiterianas e na pequena igreja reformada, é notório que elas influenciaram vivamente muitas outras correntes que se estabeleceram no país pelo protestantismo de missão. A própria controvérsia entre calvinistas "puros" e arminianistas continua sendo um debate, nem sempre consciente, no seio do mundo evangélico brasileiro. A influência calvinista na doutrina pentecostal é atestada de modo mais claro no exemplo da Congregação Cristã do Brasil, mas não se resume só a esta vertente. Afora este desconhecimento de princípios doutrinários enquanto ideias que norteiam condutas e influenciam a vida social, ainda que de modo desconhecido para muita gente, é importante apontar para o fato de que a presença de franceses e de holandeses no Brasil colônia até hoje é muitas vezes objeto de análise que coloca à margem o fator religioso, como se esse tivesse sido secundário nos processos colonialistas. Para concluir, cabe registrar ainda que não se pode considerar simplesmente um acaso o fato de que países com grande influência calvinista, como a Suiça, a Holanda e os próprios EUA, foram os primeiros a exercitarem a tolerância religiosa. Cheio de ambiguidades, como todas as formações religiosas, o calvinismo foi um fator de modernização fundamental na história do ocidente. A importância de tradições religiosas não se descobre em rápidas reproduções de lugares-comuns, mas só com a análise detida de processos seculares.

 

Mais respeito com evangélicos. Certa vez um rapaz recebeu um sermão aos berros, diante dos seus irmãos da igreja, porque estacionou seu carro diante da garagem de um colega meu de faculdade. Depois da bronca que deu no rapaz, o meu colega saiu todo satisfeito, e capotou seu jipe na primeira esquina. O carro tinha capota de plástico e o cara foi salvo pelo santo antonio, a peça do carro. É verídico.

 

Ola Nassif,

acabo de receber esta mensagem.

Nao sei se a situacao ocorreu de fato, mas o texto eh muito interessante e pertinente aos diversos posts "Raio X das religioes" .

Talvez alguem possa confirmar a veracidade dos fatos.

Abraco fraterno.

 

 Vale a pena refletir... Independente de religião... 
Parece mentira, mas foi verdade. No dia 1°/Abr/2010, o elenco do
Santos atual campeão paulista de futebol foi a uma instituição que
abriga trinta e quatro pessoas. O objetivo era distribuir ovos de Páscoa para crianças
e adolescentes, a maioria com paralisia cerebral.
Ocorreu que boa parte dos atletas não saiu do ônibus que os levou.
Entre estes, Robinho (26a), Neymar (18a), Ganso (21a), Fábio Costa
(32a), Durval (29a), Léo(24a), Marquinhos (28a) e André (19a) todos
ídolos super-aguardados.
O motivo teria sido religioso: a instituição era o Lar Espírita
Mensageiros da Luz, de Santos-SP, cujo lema é Assistência à Paralisia
Cerebral.
Visivelmente constrangido, o técnico Dorival Jr. tentou convencer o
grupo a participar da ação de caridade. Posteriormente, o Santos
informou que os jogadores não entraram no local simplesmente porque
não quiseram.
Dentro da instituição, os outros jogadores participaram da doação dos
600 ovos, entre eles, Felipe (22a), Edu Dracena (29a), Arouca (23a),
Pará (24a) e Wesley (22a), que conversaram e brincaram com as
crianças.
Eis que o escritor, conferencista e Pastor (com P maiúsculo) ED RENÉ
KIVITZ, da Igreja Batista de Água Branca (São Paulo), fez uma análise
profunda sobre o ocorrido e escreveu o texto “No Brasil, futebol é
religião”, que abaixo tenho o prazer de compartilhar.
 ____________ _________ _________

No Brasil, futebol é religião
por Ed Rene Kivitz

Os meninos da Vila pisaram na bola. Mas prefiro sair em sua defesa.
Eles não erraram sozinhos. Fizeram a cabeça deles. O mundo religioso é
mestre em fazer a cabeça dos outros. Por isso, cada vez mais me
convenço que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada
vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em
detrimento das categorias da religião.
A religião está baseada nos ritos, dogmas e credos, tabus e códigos
morais de cada tradição de fé. A espiritualidade está fundamentada nos
conteúdos universais de todas e cada uma das tradições de fé.
Quando você começa a discutir quem vai para céu e quem vai para o
inferno; ou se Deus é a favor ou contra à prática do homossexualismo;
ou mesmo se você tem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo
na igreja para alcançar o favor de Deus, você está discutindo
religião. Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação
ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se
o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você está discutindo religião.
Quando você fica perguntando se a instituição social é espírita
kardecista, evangélica, ou católica, você está discutindo religião.
O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as
pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância. A
religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os
adoradores de Yahweh, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem
falar nos adoradores de Shiva, de Krishna e devotos do Buda, e por aí
vai.
E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos outros, ou pela
conversão à sua religião, o que faz com que os outros deixem de
existir enquanto outros e se tornem iguais a nós, ou pelo extermínio
através do assassinato em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus,
com d minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus.
Mas, quando você concentra sua atenção e ação, sua práxis, em valores
como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade,
amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a
todas as tradições religiosas. E quando você está com o coração cheio
de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz.
Os valores espirituais agregam pessoas, aproxima os diferentes, faz
com que os discordantes no mundo das crenças se deem as mãos no mundo
da busca de superação do sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala,
independentemente de raça, gênero, e inclusive religião.
Em síntese, quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibus.
Quando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina
ou pelo menos deveria ensinar, você desce do ônibus e dá um ovo de
páscoa para uma criança que sofre a tragédia e miséria de uma
paralisia mental.

 *Ed René Kivitz, cristão, pastor evangélico, e santista desde pequenininho!*

 

 

 

Nassif,

Vendo a série “O raio X das religiões” tratando o tema de forma fragmentada, parece boa idéia tratar da ideologia e simbologia dos próprios textos primevos ao invés de suas subdivisões tardias. Peço que, caso julgue apropriado, difunda.

O raio X das religiões Versão 2.0: O Cristianismo.

Mircea Eliade, na sua obra "História das crenças e das idéias religiosas" publicada há umas 2 décadas pela Zahar, aponta o sangue e o conceito de crueldade como o cerne das religiões no tempo dos caçadores coletores. Cita numerosos exemplos de sacrifícios sacros (Prajati na Índia, os bem conhecidos do Paganismo, etc...) e o cristianismo não difere, nesse particular, como explícito na imagem da crucificação; da carne como alimento (pão) e do sangue como bebida (vinho).

Uma outra característica na ideologia cristã, como de resto em todas as monoteístas, é a aversão à ciência elevada à máxima potência na vontade da própria divindade. O fruto proibido é a ciência e, esporadicamente, quando a comunidade humana avançava nesse ramo, o próprio deus intervinha: expulsando o homem do paraíso, afogando-os num dilúvio ou abatendo a torre* como símbolo de confundir as línguas. Outros exemplos menos explícitos no Antigo Testamento são conhecidos: a preferência dos El-Elohim por Abel, o caçador nômade, se considerado o nomadismo como entrave ao surgimento da cidade (fruto dos avanços agriculturais - Caim ofertou frutos da terra) e a inexorabilidade do crescimento da ciência em centros urbanos - para o bem e para o mal, bem se diga.

Esse fato visto, é possível argüir que o aprisionamento da ciência durante o longo período medieval pode ter sido benéfico para a civilização ocidental, posto que da libertação do conhecimento à bomba atômica, apenas 300 anos se passaram, o que colocaria esta arma na mão de um Heliogábalo, possivelmente, ou de semelhante aberração de poder, já que o sistema escravagista do império eram impeditivos (econômico e científico) e sua ruína certa. E a bomba atômica é só um exemplo... Sem o aprisionamento da ciência nos porões dos mosteiros, ou fragmentada entre os árabes no séc VIII d.c., estaríamos vivendo o segundo milênio de avanços científicos em vez do quarto século.

Considerando um particular processo dialético entre Nietzsche e Jung, é possível inferir que ao contrário do fator unificante do judaísmo, onde a religião para a maioria dos Hebreus é antes (e cada vez mais) um distintivo de unidade do povo e transcendência na eterna expectativa do próximo 'Massiah', e o Islamismo e sua concepção de domínio e submissão dos povos, ao contrário destas, repito, o cristianismo é uma religião terminal em termos práticos, onde é anunciada a mensagem e o Juízo divino põe um ponto final na existência natural.

E em nosso tempo, quando o maior risco aos avanços humanos pode advir exatamente dos entreveros dentro do monoteísmo 'abraâmico' e as querelas dessa trindade "Judaísmo Islamismo e Cristianismo", ao longo dos séculos e tão presente na questão Iraniana em nossos dias, o cristianismo sugere a seguinte máxima, fruto de uma natural enantiodromia (Jung):

"O conflito dentro da divindade oriundo da reação humana no 'sacrifício de Isaque', e o déficit moral divino no caso 'Jó' prefiguram o sacrifício cristão onde o deus sacrifica o próprio deus, seu filho (caso Isaque), de forma crudelíssima e injusta (Jó), em prol dos homens".

O desenlace dessa lógica psicológica, anuncia-se (de novo devido à enantiodromia) assim:

"O homem sacrifica o próprio homem a deus" (ou ao nada, segundo os não crentes).

Essa última inferência é uma terrível possibilidade, quando, hoje, em termos ambientais e bélicos, o poder científico maior está nas mãos de um a civilização ainda irracionalmente ligada a uma concepção de universo e história psicológica advinda de um cruento sistema de ideias da idade do bronze. O corolário é inevitável: ou um advento terrível provindo dos ramos mais fanáticos da religião porá freio na ciência e aos avanços civilizacionais, ou a fé cristã deverá ficar tão moribunda quanto a assembléia dos deuses no ano 300 d.c. E a guerra ao terror é um dos sintomas dessa luta.

*Ainda no nosso tempo "torres abatidas" pela 'vontade de deus' (na crença de uns), confundem a unidade dos homens.

 

 

Opa!

 

Os calvinistas (origem em João Calvino) são os responsáveis, a princípio, pelo sucesso americano. "Só se salva quem têm competência na Terra". Daí, que lutavam sempre para serem bem sucedidos, financeiramente.

Max Weber: "A ética protestante e o espírito do capitalismo". Há um trecho no Wikipédia: "Sendo assim, historicamente, para muitos Calvinistas, o sucesso no trabalho e a conseqüente riqueza poderá ser um dos sinais de que está entre os escolhidos de Deus" e havia condições de "serem salvos".

Se lembra do "Tio Patinhas"? Do tipo de chapéu que ele usava? Parece que era característica dos calvinistas.

 

Sério: O s calvinistas têm importância fundamental numa área que hoje pauta o mundo.

 

JUROS

 

Certa vez o jovem Einstein recebeu um convite para que ele fosse um dos que receberiam o doutorado honorário durante a celebração da fundação da Universidade de Genebra em julho de 1909, e meio a contragosto e empurrado lá compareceu no tal evento: "Einstein foi apenas com um chapéu de palha e um terno informal, por isso se destacou como estranho, tanto no desfile como no opulento banquete formal daquela noite. Divertido com a situação, virou-se para o senhor sentado a seu lado e especulou sobre o líder austero da Revolução Protestante que fundara a universidade: "Sabe o que Calvino faria se estivesse aqui?". O senhor, confuso, respondeu que não. "Ele teria erguido um poste enorme e feito com que queimassem a todos nós pela extravagância pecaminosa." Einstein declarou posteriormente: "O sujeito não me dirigiu mais a palavra".

Emendando o chiste de Einstein, eu creio que Jesus faria o mesmo com

todo o cristianismo atual devotado ao poderoso deus mercado/audiência/consumo 

de "extravagância e opulência e ganância pecaminosa". 

 

"Ganhe as profundezas, a ironia não desce até lá" Rilke. "A ironia é o pudor da humanidade" Renard. "A ironia é a mais alta forma de sinceridade" Vila-Matas.

Como foi dito ontem no post dos luteranos, estudando o procedimento dos calvinistas (o desencantamento do mundo) Max Weber escreveu sua obra prima.

 

Caramba, quanta gente preconceituosa contra os calvinistas ... queria ver se falassem contra os gays como falam contra os protestantes e evangélicos nesses tópicos, cruzes!

Entretanto, para esclarecer: a experiência de Calvino em GENEBRA (não Zurique) foi uma aplicação na prática dos conceitos de um dos principais teólogos da Reforma em uma cidade que experimentou uma revolução em costumes sociais e políticos da época, e que foi de grande valia para a cidade de então - tornando-a mais para Cingapura que para Afeganistão.

É bom que se entenda, Calvino estava mais para aiatolá Khomeini do que para chefe do Taleban, já que o governo era compartilhado entre leigos e teólogos; mas é extremamente injusto criticar os conceitos calvinistas sem entender o contexto da época da Reforma, 500 anos atrás de qualquer "evolução de costumes" que temos hoje.

Quanto à França Antártica, e Nassau: o grande erro dos calvinistas foi nunca negociar suas doutrinas em troca de penetração em suas terras; aliás, curiosamente, os EUA, ó não são uma ditadura porque não houve uma religião que prevalecesse sobre as outras em sua colonização.

 

é a religião que mais tem por aí com 99,9% de fiéis masculinos...

basta olhar a multidão de calvícies peregrinando mundo afora...

 

"Ganhe as profundezas, a ironia não desce até lá" Rilke. "A ironia é o pudor da humanidade" Renard. "A ironia é a mais alta forma de sinceridade" Vila-Matas.

 

Tire o boné, para confirmarmos (ou não) se não és um "calvinista".

 

Interessante saber que Calvino não quis fundar nenhum movimento que levasse seu nome, pelo contrário, tinha aversão ao termo Calvinismo. Enquanto Lutero foi uma voz mais grave da Reforma, bradando contra a venda do perdão divino pela Igreja Católica Romana e mais tarde instando o povo à leitura da Bíbilia que ele mesmo traduzira para o Alemão, Calvino por sua vez, que veio um pouquinho depois de Lutero, deu um arcabouço doutrinário à Reforma, embasando em termos teológicos e bíblicos as teses reformistas, através principalmente do seu brilhante trabalho "As Institutas da Religião Cristã", de onde muito tempo depois (Sínodo de Dort) se extraíram os famosos 5 pontos do Calvinismo em resposta aos 5 pontos do Arminianismo.

Portanto, pode-se resumir o que hoje se entende por Calvinismo nos seguintes pontos:

1) Depravação Total - O pecado de Gêneses capítulo 3 atingiu corpo e espírito do homem e o deixou separado de Deus e escravo do pecado, conforme Efésios 2:1 e João 8:34.

2) Eleição Incondicional - Alguns são eleitos para a salvação, antecipada e incondicionalmente por Deus, conforme Efésios 1:4-5 e 2 Tessalonissenses 2:13, pois devido ao seu estado de escravidão espiritual, o homem não tem livre arbítrio para escolher ser salvo.

3) Expiação Limitada - Cristo morreu somente pelos que ele elegeu e não por todos, conforme Isaías 53:8-12 e Mateus 20:28.

4) Graça Irresistível - O eleito será irresistivelmente atraído a Cristo, conforme Romanos 8:28-30 e João 10:27.

5) Perseverança do Santos - O eleito por Deus persevera em Cristo, até o fim, conforme Filipenses 1:6 e Romanos 8:31-39.

Uma palavra que pode resumir o Calvinismo é soberania, no caso, de Deus. No Calvinismo o foco está totalmente em Deus, o homem, devido ao seu estado de pecado, é coloca à margem. Isso choca os humanistas que acham que o homem é a medida de todas as coisas, etc.

Interessante frisar que conforme Romanos 8:16 eu sei se sou eleito mas não sei se outro é ou não, portanto a Eleição não pode servir de desculpa para não se evangelizar os outros.

Os Batistas eram até o século XIX predominantemente Calvinistas, tendo talvez em Spurgeon seu maior exemplo, mas suas confissões de fé foram se humanizando e eles deixaram de institucionalmente ser, apesar de ainda se ter vários Batistas Calvinistas. Atualmente, poucas religiões se denominam Calvinistas, entre estas o principal exemplo são os Presbiterianos.

Soli Deo Gloria.

 

 

 

 

   Olha, se eu tivesse religião, eu teria ficado bem chocado com esse post. Como é que é... 'Deus veio para salvar alguns, mas não a todos'. Se o meu pai falasse: "Bom, eu fui trabalhar e trouxe comida, mas só para o João, a Maria e a Antónia... você, Fernando, que é ... (substitua pelo que achar melhor: gordo, negro, chato, loiro, judeu, macumbeiro), não merece da minha comida" eu ficaria no mínimo achando que ele é um babaca repulsivo. "A salvação é só para alguns eleitos, e eles acabam sendo 'irresistivelmente' atraídos para Deus. " Que piada! E ainda querem arrebanhar fiéis...

 

Oa calvinistas não formamos uma denominação própria. Isso porque calvinismo não é necessariamente um agrupamento, mas sim uma metodologia teológica. Portanto, os calvinistas são encontrados, em sua maioria, no presbiterianismo (e também na Igreja Reformada), mas também há batistas ou pentecostais calvinistas.

 

Toda a História do mundo está ligada a religião. Veja os protestantes ingleses. Deixaram Europa ruma a América achando ser o novo povo escolhido de Deus, indo para a sua nova terra prometida. Infelizmente ao chegarem lá esqueceram todas as idéias cristãs e dizimaram os índios norte-americanos. Verdadeiro genocídio ( aliás, nada diferente do que os católicos espanhóis e portugueses fizeram aqui ). Uma vez conquistada a “ terra prometida “, acharam que tinham o dever divino de espalhar sua doutrina e interferir em todo o mundo pelo “ bem “ da humanidade. E daí veio o novo imperialismo do século 20. Infelizmente o homem com as religiões, fazem como com os DVDs, jamais lêem o manual... Ou se lêem, não entendem...

 

Crentes, Patetas e Patéticos

Essa necessidade urgente de crer em algo, de ter um guia providencial, de se apegar a miragens para escamotear a realidade, acentua-se sobremaneira em determinadas sociedades.
As pessoas tornam-se presas fáceis de idéias escusas, fabricadas por falsos líderes, de demagogos astutos e, no mais das vezes, espertalhões e desonestos.
O tornar-se joguete de interesses, sejam eles políticos ou religiosos, escuda-se no decantado pseudo livre-arbítrio dos indivíduos, de que eles se julgam os senhores absolutos das próprias existências e da dos outros.
Na realidade, a maioria dos indivíduos, principalmente na esfera religiosa, torna-se crentes fáceis da propaganda religiosa enganosa, seguidores entusiastas de ídolos de pés de barro, que enganam facilmente por conta da irreprimível busca do ser humano da solução de seus problemas fora de si.
A “verdade” religiosa, principalmente a cristã, esquiva-se em admitir que os evangelhos autorizados pela Igreja não têm veracidade histórica, além das contradições entre si e das inexatidões históricas e geográficas.
Chega-se a impingir ao fiel a sublimação da lógica, forçando-o a acreditar em um Livro do Gênesis, com o homem habitando a terra há apenas cinco mil anos e tendo sido criado com todos os atributos do homem contemporâneo.
As presas fáceis dos espertalhões não podem contestar os dogmas religiosos, nem mesmo por analogia, com a história mundial mais recente, apesar de reescrita constantemente.
Sabe-se que há testemunhos de apóstolos, que não foram seguidores de Jesus, mas sim que seus evangelhos foram escritos muitos anos após a suposta, ou não, passagem de Jesus pela Terra, sem se olvidar das inúmeras alterações e inserções desde os originais em Aramaico, além do que não se pode confiar na idoneidade do crente.
O ser humano não pode e nem deve continuar delegando para terceiros sua tutela espiritual, mas sim ter como missão a aquisição de conhecimentos metafísicos, que possam levá-lo a aproximar-se das Grandes Verdades.
A verdade pronta e acabada há dois mil anos, que ainda atualmente é passada ao homem, o impede de investigar de onde vem, a razão de sua vida e para onde vai, assuntos que não podem ser entendidos enquanto a mente estiver submetida às crenças e aos dogmas religiosos, magistralmente articulados pelos espertalhões de plantão, que têm suas origens a partir do Império Romano, que, para melhor dominar o Mundo, transferiu a sede do Cristianismo para Roma.
Tio-avô, década de 50

 

Ah, os calvinistas franceses (huguenotes) estão entre os grupos mais poderosos do planeta. Muitos deixaram a França, nos séculos 16 e 17, espalharam-se pelo mundo e tornaram-se presidentes, ministros, banqueiros, gente influente enfim.

A lista dos hugenotes (ou descendentes) da Wikipedia é extensa e inclui nomes como: Winston Churchill, Davy Crockett, Johnny Depp (ator), Daphne du Maurier, Joan Crawford (atriz), a família DuPont, a família Fabergé, Judy Garland, Al Gore, o naturalista Von Humboldt, Laurence Olivier, o roqueiro Keith Richards, Franklin Roosevelt, Jean-Jacques Rousseau, Adolf Galland e Hans Marseille (ases da aviação alemã da II Guerra) e um monte de dirigentes sul-africanos da época do apartheid.

Aqui, tentaram estabelecer a França Antártica, no Rio de Janeiro, entre 1555 e 1567, mas foram expulsos pelos portugueses. Depois, algumas famílias devem ter vindo como imigrantes, caso dos Malan (nome huguenote típico).

Abs.

 

 

sei que não estou condizente com o tema, mas queria enviar essa charge de minha autoria

charge minha
 

Realmente, como vários vídeos e comentários sua charge não tem nada a ver com Calvinismo. Existe uma tremenda falta de bom senso da parte de muitos comentaristas ao publicar fotos, videos e comentários não concernentes ao tema. Ontem fui ao artigo sobre os maiores narradores do esporte do rádio brasileiro e tinha até vídeo de Carlos Gardel. Creio que o Nassif deveria dar um toque sobre evitar comentários que não são em relação ao tópico em causa. Tipo esta charge.

 

Só esperando quando irá aparecer um satanista pra pedir um raio-x de sua religião...

[]s,

Roberto Takata

 

Não vejo mal nenhum no fato de os satanistas pleitearem a favor de sua crença: quanto mal já se praticou em nome de Deus!

 

Não por isso, Takata... ;-)

 

"Eu quase de nada não sei. Mas desconfio de muita coisa" Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

Ainda faltam os batistas, adventistas, metodistas, católicos carismáticos...,,,só pra falar en cristãos..,,,,

Muitas igrejas só olham para o lado financeiro e só querem faturar,...mas  há algumas que entram na área da educação....,,,,assim contribuem por um mundo melhor..,,,,mas sou a favor do ensino laico, onde seja levado ao aluno não apenas uma religião mas a história das religiões, todas elas, como também conteúdos sobre o evolucionismo, marxismo, tudo isso tem que ser levado ao aluno e deveria ser mesmo um direito humano o acesso a todo os ramos do conhecimento

 

Interessante a semelhança entre estas vertentes antigas do protestantismo com o catolicismo, estou me referindo ao uso de velas, imagens embora em menor quantidade do que católica, com o passar do tempo é que novas vertentes foram aparecendo, como exemplo os neopentecostais, de forma que novas crenças foram perdendo o DNA original e  hoje as diferenças hoje são bem nítidas, seja nas roupas, na ausência total  de imagens, nos sermões dirigidos para a arrecadação, etc.

Ficha no Youtube:

cavalheirobuenoDentro da Igreja Protestante Calvinista  Ah, sabia que a igreja Presbiteriana deriva da Calvinista? Por isso presbiterianos podem ser batizados com aguinha na cabeça qndo crianças e tem órgão. Como na católica.

 

A semelhança da anglicana é ainda maior. Embora a igreja da rainha esteja em franco processo de extinção. Já imaginaram uma religião tendo como principal autoridade o príncipe de Gales? Um dos mais perniciosos líderes do que não presta. charles ficaria mais a vontade se liderasse uma seita sufi ou dervixe.

Quanto ao calvinismo só posso relembrar que durante o período em que calvino tiranizou Zurique ela possuia mais semelhanças com o afeganistão sobre o controle talebã do que qualquer ligação com o cristianismo.