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Sobre Jeans, Robertos e os brasileiros mortos no exterior

Por Marco Antonio L.

Do Direto da Redação

Mais um Jean Charles de Menezes

Recife (PE) - Eu já enviara a coluna desta quinta-feira para o Direto da Redação, quando li no Diário de Pernambuco online:

“Brasileiro não roubou biscoito, diz funcionário da loja de conveniência

Um funcionário da loja de conveniência no centro de Sydney, na Austrália, afirmou nesta quinta-feira que a pessoa que furtou o pacote de biscoito no estabelecimento não é a mesma morta por policiais após a utilização de armas de choque, ou seja, não se trataria do estudante brasileiro Roberto Laudisio Curti, de 21 anos. A informação é da rádio SBS, que tem programação em português. O funcionário falou sob a condição de anonimato”

Então de imediato me veio à mente o assassinato, a execução de Jean Charles de Meneses em Londres. Aqui mesmo no Direto da Redação escrevi:

“Eu não sei quantos inquéritos sobre o assassinato de Jean Charles de Menezes serão abertos. Nem quantas vezes o mesmo inquérito será reaberto. Mas sei o quanto deve ser duro, para os jornalistas da BBC Brasil, acompanharem com ar profissional esses arremedos de investigação. Afinal, Jean Charles era um ser igualzinho a eles, brasileiro como eles salvo engano, que estava em Londres para ter melhor vida e reconhecimento, assim como eles, até prova em contrário. 

No entanto, têm que segurar a mão com frieza para a digitação de palavras como “O novo inquérito sobre o caso tem como objetivo apurar as circunstâncias da morte de Jean Charles e não deve apontar culpados”. Que extraordinários dribles de Robinho têm que dar na própria consciência. Um novo inquérito, que investiga a verdade, mas apura as circunstâncias do crime como se não as soubesse, e que não aponta culpados. Ótimo. A ironia deve ser uma invenção inglesa bem aprendida por súditos de todos os continentes.

Lembro que no calor do impacto, há mais de três anos, escrevi o texto “Morrer por engano”, que traduzido como “To Die by Mistake”, foi publicado no counterpunch, Clique aqui Na urgência da raiva, escrevi que 

O brasileiro, o cão, a raposa, esse animal híbrido, sem espécie e sem definida raça, de nome Jean Charles de Menezes morreu por engano assim, abatido com oito tiros. Morte dura e vil, que até a um cão, que até a uma raposa, que até a um coelho, seria prova de manifesta perversão e crueldade. Que dirá a um humano, perdão, Blair, perdão, Bush, perdão, súditos ingleses apavorados, que dirá a um ser assemelhado a humano? Ainda que seja natural de um país de samba e mulatas exóticas, boas para a cama e para o turismo, ainda assim, e apesar disso, será que esse inferior mereceria um fim de animal raivoso em Londres?... 

Sabemos todos que os ingleses não tratam assim a seus cachorros. Não existe no mundo povo que mais ame a esses pops, pups, todos, até prova em contrário, cachorrinhos animais de estimação. Que graça possuem a passear com os seus melhores amigos puxados por correntes nas ruas de Londres! Quanto amor, dizem até, os maldosos, quanto afeto dedicado a um semelhante. Não, a humanidade inglesa não trata assim a cachorros. Se existe uma voz de comando para matar, para atirar na cabeça de seres que se movem, essa ordem não será contra cães. É para algo muito baixo e nocivo, menos, muito menos que dogs, embora ande (simule andar), fale (simule a fala), pense (simule o pensar) e sorri (simule o sorrir). Um algo que o terror chama de terrorista... 

Quando li o relato de uma testemunha do assassinato de Jean Charles, que compreendeu os olhos do homem imobilizado no chão, depois, pelas fotos...

‘Se você olhar as fotos, os olhos dele pareciam ser pequenos, mas, quando vi o rosto dele por apenas um segundo, porque foi tudo muito rápido, os olhos dele estavam bem, bem abertos. Ele parecia muito, muito assustado’ que, 

quando viu esse relato, meu estômago sentiu um soco. Os olhinhos pequenos que se abriam espantados, com uma pistola apontada contra a sua cabeça, eram os meus, os nossos, dos nossos filhos, irmãos, de todos os povos não britânicos. Os olhinhos asiáticos de todos nós, terroristas. 

Mal sabia, quando escrevi essas linhas, que uma realidade mais inumana viria. A realidade que finge que apura, para dar ao mundo uma idéia de civilização. Por ironia, no momento em que era anunciado o mais novo inquérito, eu ouvia Gilberto Gil a cantar “O sonho acabou”. Eu via a cara de Jean Charles de Menezes e Gil cantava “Quem não dormiu de sleeping-bag nem sequer sonhou”. Eu sei, Gil cantava isso em outro contexto. Ele se referia ao mundo das flores, da paz e do amor hippies. E na canção cabia também uma pontada na utopia de um mundo radicalmente novo. Mas de maneira torta Gil foi profeta. Foi pesado o sono pra quem não sonhou”.  

Para nossa infelicidade, os Jeans Charles do terceiro mundo estão sempre atualizados. Os textos não envelhecem, se a realidade não muda.  

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todos os humanos estrangeiros ,brasileiro que nacionalidade,que cor, que raca, elite social, todos sao bosta é vao para o mesmo buraco em baixo da terra. ai acabar tudo.

 

O que mais me assustou nesta caso da Austrália foi a passividade da imprensa brasileira ao noticiar o fato, repetindo sem analisar toda e qualquer informação passada pela imprensa local. Fiquei estarrecido quando falaram que o brasileiro estava drogado, sem qualquer prova! E o argumento de que o brasileiro tinha roubado um pacote de biscoitos foi aceito sem qualquer questionamento!

Que imprensa é esta que apenas repete as notícias de outros países e nem questiona quando o assunto é um brasileiro?

 

 

Além da covardia que perpetraram contra esse rapaz, a falsa alegação do roubo de um pacote de biscoitos para matá-lo é uma discriminação e humilhação imperdoáveis ao Brasil

 

Mais um caso de truculência policial.

 

Para mim, o fato da vítima ser um brasileiro, por si só, não indica preconceito ou xenofobia e sim total despreparo dos policiais envolvidos na ação.

 

Temos que ficar atentos é se os policiais serão processados pelo fato como se tivessem cometido o crime contra um australiano.

 

Caso o sejam, estará comprovado que foi uma fatalidade a nacionalidade brasileira da vítima, porém, se as autoridade tratarem o caso como o ocorrido em Londres, com total leniência, corporativismo e descaso, estará comprovado que tal tipo de tratamento dispensado pela força policial australiana teve fortes raízes xenofóbicas.

 

Tenho medo de viajar para Europa e Estados Unidos.

Não sei se é paranoia ou a idade ,mas, o caso do menino negro nos EUA me faz mais convicto por ser negro também e por saber que o país que os mentirosos cansaram de dizer mais democrático do mundo(EUA) tem leis que incentiva assassinato de suspeito ,vejam bem , qualquer cidadão da flórida pode denominar assim,de acordo com sua consciencia , um individuo .

O caso dos brasileiros em aeroportos , o caso de mulheres brasileiras que muitos europeus acham que todas são prostitutas, não sou contra prostitutas, mas a identificação só pode ocorrer pelo desejo da mulher e não por outra pessoa , isso aqui e em qualquer lugar do mundo ,só a mulher pode a seu criterio se identificar como tal.

O crescimento da xenofobia temos que responder com demonstraçaõ de respeito e cordialidde com todos os estrangeiros que estiverem no Brasil.

Sou contra retaliaçãoi do tipo que esta havendo com Espanhois,pois, os estrangeiros que vem pra cá não podem ser punido porque seus governos estam fazndo algo errado com brasilerios, se um estrangeiro escolheu o Brasil para fazer turismo , investir ou morar que mal ele fez?. Pelo contrario , é melhor se todo turista espanhol que descer no Brasil dissermos a ele que é bem vindo , que esse país é democrático e não persegue estrangeiro como o país dele faz.seria melhor dar-mos a todo espanhol que aqui cheja um papel com essas explicações e também com orientações para que sua estadia seja a melhor e maravilhosa  e se algo errado acontecer esse folheto deve indicar onde e em quais órgãos do governo o estrangeiro pode recorrer

Temos que dar lição de cidadania e talvez alguns estudiosos da academia não mais apontará os EUA como PAÍZ MAIS DEMOCRÁTICO DO MUNDO.

 

Desde quando Austrália é primeiro mundo?

 

Austrália e Nova Zelândia realmente não são países de primeiro mundo, são de primeiríssimo mundo. A Austrália provavelmente é o melhor lugar do mundo para se viver, clima bom, povo educado, culto e descolado, alto padrão de vida, população pequena para o tamanho do país (se bem que mais da metade é inabitável), a melhor carne do planeta depois da uruguaya, além das ondas que fazem a cabeça da galera que gosta de praticar o Esporte dos Deuses, o surf. É um país altamente recebedor, já morei lá pelas ondas, e vários amigos meus, também surfistas, acabaram casando e ficando por lá. A polícia australiana é padrão internacional de polícia, anda desarmada e são verdadeiros gentlemen nas abordagens, se houve exagero e imperícia no caso da morte do brasileiro, isso não é regra é excessão. 

 

Isso na cintura dele é um bodoque (estilingue ou atiradeira)!

 

 


Não sei se é esta maravilha toda que o comentarista apregoa.


Minha enteada foi para lá estudar ingles, com um namorado surfista, e comeu o pão que o diabo amassou para conseguir de 6 em 6 meses a renovação do visto de estudante, pela "bagatela" de 5.000 dólares a cada renovação.


Chegou ao ponto de uma das agentes alfandegárias dizer, em meio a montes de entraves burocráticos, "nós não gostamos de brasileiros".

 

a polícia do "primeiro mundo" acha que bandido é estrangeiro, a daqui acha que é preto.

 

É uma tragédia.

Mas que, ao menos, sirva de lição para tantos brasileiros que veêm o exterior como se fosse o édem. 

- Olha! Comprei isso lá fora...

- Já vivi em Londres...

É bom que os brasileiros deêm-se conta do que realmente valem "lá fora".

Como nossos descendentes de japoneses, que perceberam o quanto eram japoneses quando foram viver no Japão. Foram marginalizados.

Em São Paulo, vivem em grupos, portam uma série de bugigangas de origem japonesa mas, quando tinham problemas no Japão, corriam aos consulados brasileiros.

A nossa polícia, ao menos, não discrimina.

Mata indiscriminadamente.

 

"...É bom que os brasileiros deêm-se conta do que realmente valem "lá fora"...."

Até aí blz...

 

 

"... Como nossos descendentes de japoneses, que perceberam o quanto eram japoneses quando foram viver no Japão. Foram marginalizados. ..."

Meia-verdade. A maioria dos brasileiros "se dão mal" lá por que não fazem questão de aprender japonês.

É bom lembrar também que lá, um operário normalmente é operário a vida inteira, e tem orgulho disso.

O chefia no JP é normalmente ocupada por pessoas que saem das faculdades  de "elite" (difícil para quem não quer aprender japonês) ou promoção por senioridade (difícil para quem fica repetindo que só quer ficar 3 anos, juntar uma grana, e voltar para o Brasil).

Quanto a polícia, ela monitora os estrangeiros sim, porém ela monitora TODOS os estrangeiros. Incluindo os gringos.

A Internet em inglês está coalhada de blogs de gringos que choramingam porque um policial japonês ousou pedir os documentos deles. Não estão acostumados com esse tratamento, coitadinhos...

Mas não há uma perseguição específica aos brasileiros.

Na verdade, como a maioria dos brasileiros está ilegalmente no JP, há o contrário, i.e. as autoridades fazem vista  grossa à presença de centenas de milhares de brasileiros ilegais.

 

 

"... Em São Paulo, vivem em grupos ..."

Se os japoneses "vivem em grupo" é porque ELES não querem "se misturar", afinal, racismo contra japonês não existe, só piadinha "amigável".

 

"portam uma série de bugigangas de origem japonesa mas ..."

Que horror, eles tem orgulho das próprias origens!

Graças a deus, conseguimos impedir isso nos negros, índios, etc. tempo suficiente para solidificar a presença no topo do poder.

 

Direitista SEMPRE se entrega nos detalhes.

O título ficou estranho...passa a impressão que o texto falará sobre tecido ou alguma peça feita com jeans...

 

Não entendi o texto. Apesar das vítimas serem brasileiras e terem sido assassinadas por total incompetência ou preconceito dos policiais, os casos, na origem,  são bem diferentes.

E não vamos esquecer que no Brasil, policiais brasileiros também matam brasileiros, (e estrangeiros também), por total incompetência ou preconceito, quase  todos os dias. E isso raramente vira notícia.

 

Acho que você estava dormindo os últimos 10 anos.

Brasileiro tem orgulho hoje em dia.

 

Direitista SEMPRE se entrega nos detalhes.

Assim que postei reli e vi que a primeira frase acima foi um insulto gratuito desnecessário.

Peço desculpas.

 

Direitista SEMPRE se entrega nos detalhes.