As Maravilhas do Capitalismo…

As Maravilhas do Capitalismo…







Aqueles que tecem loas ao capitalismo, esquecem de mostrar a sua banda podre. Neste artigo, Boron mostra algumas da mazelas deste modo de produçao vitorioso… vitorioso, sim, para alguns, e é este o seu maior problema. Produz-se riqueza coletivamente, mas não apenas esquecem da sua distribuição, como massacram qualquer discurso que pretenda ser minimamente humanista e que lance um olhar para todos os homens. Enquanto isto, alguns se locupletam em luxo, riqueza, ostentação e muita, mas muita hipocrisia… além de matar aqueles que prestam ajuda humanitária a povos humilhados, pilhados, roubados…


Saiba o que é o capitalismo


Atilio A. Boron [*]


     O capitalismo tem legiões de apologistas. Muitos o são de boa fé, produto de sua ignorância e pelo fato de que, como dizia Marx, o sistema é opaco e sua natureza exploradora e predatória não é evidente aos olhos de mulheres e homens. Outros o defendem porque são seus grandes beneficiários e amealham enormes fortunas graças às suas injustiças e iniquidades. Há ainda outros (‘gurus’ financeiros, ‘opinólogos’ e ‘jornalistas especializados’, acadêmicos ‘pensantes’ e os diversos expoentes desse “pensamento único”) que conhecem perfeitamente bem os custos sociais que o sistema impõe em termos de degradação humana e ambiental. Mas esses são muito bem pagos para enganar as pessoas e prosseguem incansavelmente com seu trabalho. Eles sabem muito bem, aprenderam muito bem, que a “batalha de ideias” para a qual nos convocou Fidel é absolutamente estratégica para a preservação do sistema, e não aplacam seus esforços.


     Para contra-atacar a proliferação de versões idílicas acerca do capitalismo e sua capacidade de promover o bem-estar geral, examinemos alguns dados obtidos de documentos oficiais do sistema das Nações Unidas. Isso é extremamente didático quando se escuta, ainda mais no contexto da crise atual, que a solução dos problemas do capitalismo se consegue com mais capitalismo; ou que o G-20, o FMI, a Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial, arrependidos de seus erros passados, poderão resolver os problemas que asfixiam a humanidade. Todas essas instituições são incorrigíveis e irreformáveis, e qualquer esperança de mudança não é nada mais que ilusão. Seguem propondo o mesmo, mas com um discurso diferente e uma estratégia de “relações públicas” desenhada para ocultar suas verdadeiras intenções. Quem tiver duvidas, olhe o que estão propondo para “solucionar” a crise na Grécia: as mesmas receitas que aplicaram e continuam aplicando na América Latina e na África desde os anos 80!


     A seguir, alguns dados (com suas respectivas fontes) recentemente sistematizados pelo CROP, o Programa Internacional de Estudos Comparativos sobre a Pobreza, radicado na Universidade de Bergen, Noruega. O CROP está fazendo um grande esforço para, desde uma perspectiva crítica, combater o discurso oficial sobre a pobreza, elaborado há mais de 30 anos pelo Banco Mundial e reproduzido incansavelmente pelos grandes meios de comunicação, autoridades governamentais, acadêmicos e “especialistas” vários.


População mundial: 6.800 bilhões, dos quais…


• 1,020 bilhão são desnutridos crônicos (FAO, 2009)


• 2 bilhões não possuem acesso a medicamentos (www.fic.nih.gov)


• 884 milhões não têm acesso à água potável (OMS/UNICEF, 2008)


• 924 milhões estão “sem teto” ou em moradias precárias (UN Habitat, 2003)


• 1,6 bilhão não têm eletricidade (UN HABITAT, “Urban Energy”)


• 2,5 bilhões não têm sistemas de drenagens ou saneamento (OMS/UNICEF, 2008)


• 774 milhões de adultos são analfabetos (www.uis.unesco.org)


• 18 milhões de mortes por ano devido à pobreza, a maioria de crianças menores de 5 anos (OMS).


• 218 milhões de crianças, entre 5 e 17 anos, trabalham precariamente em condições de escravidão e em tarefas perigosas ou humilhantes, como soldados, prostitutas, serventes, na agricultura, na construção ou indústria têxtil (OIT: A eliminação do trabalho infantil: um objetivo ao nosso alcance, 2006).

     Entre 1988 e 2002, os 25% mais pobres da população mundial reduziram sua participação na renda global de 1,16% para 0,92%, enquanto os opulentos 10% mais ricos acrescentaram mais às suas fortunas, passando de dispor de 64,7% para 71,1% da riqueza mundial. O enriquecimento de uns poucos tem como seu reverso o empobrecimento de muitos.


     Somente esse 6,4% de aumento da riqueza dos mais ricos seria suficiente para duplicar a renda de 70% da população mundial, salvando inumeráveis vidas e reduzindo as penúrias e sofrimentos dos mais pobres. Entenda-se bem: tal coisa se conseguiria se simplesmente fosse possível redistribuir o enriquecimento adicional produzido entre 1988 e 2002 dos 10% mais ricos. Mas nem sequer algo tão elementar como isso é aceitável para as classes dominantes do capitalismo mundial.


Conclusão: se não se combate a pobreza (que nem se fale de erradicá-la sob o capitalismo) é porque o sistema obedece a uma lógica implacável centrada na obtenção do lucro, o que concentra riqueza e aumenta incessantemente a pobreza e a desigualdade socioeconômica.


     Depois de cinco séculos de existência eis o que o capitalismo tem a oferecer. O que estamos esperando para mudar o sistema? Se a humanidade tem futuro, será claramente socialista. Com o capitalismo, em compensação, não haverá futuro para ninguém. Nem para os ricos e nem para os pobres. A frase de Friedrich Engels e também de Rosa Luxemburgo, “socialismo ou barbárie”, é hoje mais atual e vigente do que nunca. Nenhuma sociedade sobrevive quando seu impulso vital reside na busca incessante do lucro e seu motor é a ganância. Mas cedo que tarde provoca a desintegração da vida social, a destruição do meio ambiente, a decadência política e uma crise moral. Ainda temos tempo, mas já não tanto.


                                                                                        12 de Maio de 2010


 


[*] Atilio A. Boron é diretor do PLED, Programa Latinoamericano de Educación a Distancia em Ciências Sociais, Buenos Aires, Argentina


Site: www.atilioboron.com/


Traduzido por Gabriel Brito, jornalista

Redação

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