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Mulheres de Bergman ou a imaginação criadora, por Maíra Vasconcelos

Mulheres de Bergman ou a imaginação criadora

por Maíra Vasconcelos

Como se quase se aproximara a uma personagem de Bergman. Bastou olhar ao espelho com olhos de sonífera e então era ela mesma. tchan. Achou assim o reflexo do extremo absurdo, aquele tormento criador. O tormento de toda criação artística, mas que somente acontece na puríssima calma e sublimação do tempo. Depois caminharia pelas lareiras, logo, pelas escadas, separadamente. Primeiro a agitada quentura, depois o lento desgarro do sacrifício. A língua queima queima queima, mas ninguém para de falar falar falar – claro, meus estimados, é preciso buscar o desejo. E estar em movimento é o mínimo do ser. tchan. E se o corpo padece do tédio: banal. Afinal, quem se propõe a uma prece íntima?, três horas de interioridade absoluta para iniciar e terminar o dia, e o beijo na testa de um amor.

Os pés cansados pela tensão e as pernas amolecidas pelas subidas. E a vida é um pouco isso também: entre lareiras e escadas, diz a célebre criação metafórica. Mas quando se tem prazer o mundo é contemplado. Sentar-se frente às montanhas, um pouco de céu, a visão sem limites: o prazer todo adentro como se fosse o corpo do outro, e não é, é apenas o inalcançável fazendo brisa na gente. Essa natureza de alívios, e depois tudo isso vai embora. Basta levantar-se e despedir-se da paisagem que somente é estática na imaginação, porque o corpo, de novo, é aquele em movimento. A paisagem fica, o corpo vai. ADEUS.

A vida não é olhar aos céus despretensiosamente, porque não dá tempo e o céu também caminha. A vida é olhar aos céus apenas quando se necessita – assim tem-se no corpo o equivalente ao segundo de um piscar de olhos, o olhar esquecido de si, da observação, do fisgo da criação. E após criar um personagem vem essa necessidade de céu quase constante, como de água, então basta abrir a boca se chover.

O céu é frequentemente difícil, talvez porque corra demais. Todo o seu arredor é desmemoriado e o céu carregado apenas de lamúrias e quaquás como os de Beckett – talvez, vivemos menos o céu por causa das lareiras e escadas, isso que também se parece um pouco com o que é a vida, isso que se agita e nos faz sair do lugar, isso que é obstáculo e exige pensar. Pensar se pulamos o degrau, subimos lento aprumado, até que ponto nos deixamos queimar?, voltar um degrau é medo de subir e esquecer-se no passado. Sim. Um pouco pensar, sempre. Alguém pensa?

Está quase fácil escrever essa crônica – o céu é que é difícil. Como se quase desvelasse uma personagem. Vou contar no relógio quanto tempo demorei para escrever – não posso, há quem colecione relógios e eles explodem aos ares a cada meia hora. Está quase fácil escrever essa crônica, então talvez deva pensar ainda mais sobre a personagem, as lareiras e as escadas. Mas às vezes é apenas isso: escrevo para criar. E criar é viver e pensar sem dor. A dor vem depois, quando se lembra que nasceste com a boca aberta aos céus esperando a chuva. Isso que é o próprio acontecer da imaginação criadora entranhada no corpo. Ah. Assim fica quase fácil dizer sobre as mulheres de Bergman. 

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