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Plantas e cinzas de cigarro, por Maíra Vasconcelos

Quem disse não ao fracasso? Viveu de acertos moderados e mortiços: aquele vizinho do andar de cima. Desculpe-me a indiscrição, senhor Facundo. Responder sim ao fracasso tem aparência amarela, ao meio-dia está-se revigorado para volver em outra manhã. Novamente, a pensar o fracasso. Conto até dez e a preguiça embola mais um nó em meus ossos. Melhoro a minha palavra em zero vírgula oito por cento, apenas. Então escrevo praticamente como ontem, mais uma vez. Vinte e quatro horas de reclusão do mundo e nenhum salto, o mesmo fracasso cutucando com unhas a minha janela. Qual será o tempo da melhor palavra? Olho o vizinho na tentativa de ter a cidade mais próxima. Qual cidade? Não cheguei.

Acostuma-se com o ponto do fracasso, como o ponto da linha que sai ao des-alinho. Ao fracasso, pois a razão é torpe e nos reduz a padrões. Sem desalinhar não há parâmetro para se ver além e o medo nos dirige ao exatamente certo. O vizinho do andar de cima, o senhor Facundo, joga as cinzas do seu cigarro exatamente na planta em minha janela. Asertivamente senza offendere. As poucas cinzas de sempre e essa estranha comunicação – olá, senhor Facundo, gostaria de conversar sobre as cinzas do seu cigarro ou elas apenas falam com os acertos do mundo? As cinzas de cigarro do senhor Facundo: uma repetição sem avanço, sem asas, caem exatamente na terra da planta, todas as manhãs.

Já diante do fracasso não tenho nada a dizer e a fingir, apenas a executar. Obrigada pela atenção dispensada. Mantenho amizades com o fracasso, sendo isso uma des-importância que a ninguém importa. Leiam-me amanhã. Daqui onze anos e três meses, esse talvez seja o tempo da melhor palavra. Digo, o tempo e não a palavra. Faço insistentes cálculos sobre esse momento espetacular. Vinte e três virgula oito por cento de melhora na palavra, setecentas horas e tantos segundos de quarto e cadeira, nada mais. As cinzas de cigarro do senhor Facundo demoram milésimos de segundo e se afundam exatamente e asertivamente na terra da minha planta, todas as manhãs. 

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