Revista GGN

Assine

Encantada pelo maracatu, assim ando eu, por Matê da Luz

Encantada pelo maracatu, assim ando eu

por Matê da Luz

A primeira vez que ouvi a palavra maracatu foi lá nos tempos da Nação Zumbi, em tempos tão distantes que não sei precisar. Entra ano, sai ano, em Setembro de 2016 tive um novo contato – desta vez não só com a palavra, mas com um grupo e, mais especificamente, com um dos integrantes do grupo.

Importante dizer que Setembro de 2016 foi um dos meses mais importantes da minha vida toda, sem exagero algum, e a parte mais mágica disso tudo é que eu já tinha consciência disso vivendo aqueles momentos. Era meu primeiro contato comigo mesma no pós-depressão e, apesar da ânsia em viver intensamente e de verdade de novo, pra mim, por mim, não havia ansiedade ou medo, tudo simplesmente fluía.

Daí que o contato com esse integrante do grupo de maracatu trouxe pra mais perto os conceitos praticados ali que, basicamente, têm fundamento no candomblé. E, já falei em alguns escritos por aqui, tenho paixão nessas religiosidades que lidam com energia invisível e com a ancestralidade. Pronto, não demorou muito, mesmo que seis meses pareçam muito tempo pra algumas pessoas, e lá estava eu na minha primeira oficina de maracatu. Ministrada pelo Mestre Ruminig, da Nação Porto Rico, e por sua namorada, a Carol, em Ubatuba, a cidade que escolhi pra ser meu lar neste momento, tinha como objetivo apresentar os toques de 2017 e aperfeiçoar os integrantes de um dos grupos aqui da cidade. 

Lá fui eu, mesmo que um pouco desanimada com o fato de estar me desrelacionando do tal integrante do grupo, com a cara e a coragem, além da curiosidade sobre qual instrumento me cativaria. Estava um pouco curiosa sobre o sino de ferro, o gonguê, e havia comentando sobre o agbê, uma cabaça vestida de miçangas que as moças tocam e dançam enquanto cantam parecendo flutuar. Detalhe: meu maior contato com instrumentos musicais foi com os famigerados ovinhos, aqueles que a gente pega e acha que toca alguma coisa em uma roda qualquer, ou seja, semi-zero. Peguei o agbê, confesso, impulsionada pelo fato de ter mais gente que já toca e, então, acabar abafando meu provável erro – o gonguê tem um som extremamente alto e fundamental para o andamento da coisa toda, uma responsabilidade que ainda não é pra mim, além de ser um instrumento ligado a Ogum e Exú, forças com as quais estou em algum equilíbrio no momento, acho eu.

O agbê. Ah, que coisa linda é uma cabaça vestida de miçangas, que faz um som parecido com as águas. Soubemos, durante a oficina, que ele é relacionado à Nanã, orixá da morte, aquela que nos recebe quando voltamos ao estado natural e que, porfim, só pode ser tocado por mulheres. Parecia mesmo o instrumento correto pra mim, que ando em afinação com a maturidade feminina e em transformação, precisando morrer em alguns aspectos. Tcha-tcha-tcha-tchá pra cá, tcha-tcha-tcha-tchá pra lá e considero que minha primeira participação num baque tenha sido concluída com louvor: dancei, cantei e toquei sem atrapalhar ninguém, manifestando meu respeito e axé por aqueles que são a origem do maracatu, bem como louvando minha própria ancestralidade.

Foi uma das experiências mais bonitas que já tive, ainda mais em período de mudanças físicas e estruturais. O pessoal se comporta como uma família mesmo, com aquela alma acolhedora que quem frequenta os terreiros conhece. Dá pra sentir a responsabilidade maior em alguns e um clima de diversão em outros, mas o espírito de celebrar o invisível por meio do baque é inerente, envolvente e latente em cada um. O sorriso ao final dos toques, os abraços e desejos de axé vem de uma verdade que, confesso, me fez questionar minhas próprias verdades e a forma como estava desejando me posicionar perante o recente rompimento com o indivíduo. Mas esse é papo pra um outro escrito, logo menos, quando o machucado cicatrizar.

O que ficou de mais rico dessa experiência toda foi a convergência de valores e práticas que tenho encontrado pelo caminho nessa experiência de apenas uma semana nas terras do meu novo mundo. Convergência esta que traz a coerência nas práticas e desejos da alma, essa que vem pautando minhas escolhas e que tem trazido paz de espírito pra dormir mesmo quando algo sai do previsto – porque, acredito, essa é a única certeza que a gente tem na vida: ela não depende tanto assim do que planejamos e, justamente por isso, é fundamental estar afinado com nossas próprias escolhas.

Finalizo esse texto com um círculo imaginário, abraçando cada um que se interessa em ler essas escritas, colocando o pé direito na frente e agradecendo pela acolhida amorosa e cuidadosa que a moça de Oxum e o pai de santo responsável pelo grupo tiveram comigo, bem como pelo amparo e partilha que todos os outros manifestaram, mas especialmente grata pela coragem que brotou em mim e me fez cumprir com o combinado comigo mesma, o de ir e vir pra onde eu bem entender. Maracatu é resistência e eu, amigos, venho provando cada vez mais dessa manifestação deliciosa. Aaaaaaaaaaaaxé! 

Média: 3 (2 votos)
2 comentários

Comentários

Espaço Colaborativo de Comentários

Opções de exibição de comentários

Escolha o modo de exibição que você preferir e clique em "Salvar configurações".

Maracatu cearense!

 

Seu voto: Nenhum

lucianohortencio

Sou chato

  Na tradição/Nação, o " agbé " só pode ser tocado por mulheres, ele recorda em seu próprio formato de um utero, e a capacidade de gerar , para qualquer Nação é a origem, o PODER nas religiões de matriz africana, assim como no judaismo, ou no Islã,  o ser nascido, tem uma unica certeza : è filho de quem o gerou.

   Qunato a Nanã ser um " Orixá da Morte" : Me desculpe, mas lhe aconselho aprender que não existe este conceito de morte na religiosidade africana original de Nação.

    È até interessante uma lenda sobre Nanã , a de que ela é a junção das aguas com a terra, a "lama" ou o "pantano", onde floresce a vida, Nanã - um Orisá dificil de cuidar - não é "morte" , é transmutação, até mesmo corresponde em certo sentido, a concepção cristã, que do barro fomos feitos e após a passagem de plano retornamos as "cinzas", que amalgamadas a lama original, novamente somos barro.

    

Seu voto: Nenhum

Comentar

O conteúdo deste campo é privado e não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.