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Segunda-feira, dia de Exu - mas também de Obaluaê e Omulu, por Matê da Luz

Segunda-feira, dia de Exu - mas também de Obaluaê e Omulu

por Matê da Luz

O slowliving o qual me propus ao mudar de cidade – de São Paulo para Ubatuba – tem sido pauta recorrente na vida rotineira. Em conteúdos já compartilhados por aqui, falei do tempo como orixá e do quão relevante é a entrega aos processos naturais, mantendo a atenção e a ligação com aquilo sobre o que não existe controle. Pois bem, eis que a temática desenrolou e, agora, as feridas começam a expurgar as dores, num processo de limpeza que também não tenho como escapar.

Esta mudança, a de cidade, tem enorme relação com minha situação contextual em SP e anda tão intimamente ligada aos processos profundos de uma busca que deseja nada mais nada menos do que a cura. Do ponto de vista geral, o “não ter do que reclamar” segue na contramão do que borbulha internamente e, então, trocar a velocidade insana da cidade grande pelo slow mood de uma cidade litorânea – a maresia impacta, acredite! – floresceu o espaço necessário para olhar e cuidar, com atenção, praquilo que estava cansado de ser engolido durante a rotina. Questões especialmente particulares, daquelas que a gente não sai compartilhando por aí e que sequer a terapia convencional dá conta de analisar, porque simplesmente não se trata de análise: o racional, em alguns casos, necessita de pausa para que os processos emocionais sejam limpos e a paz, enfim, resgatada.

Neste cenário, aparece Obaluaê na minha vida. O orixá coberto de palha, quem em sua apresentação velha é chamado de Omulu, é também par de Iansã, a mãe que certamente me conduziu pra cá via invisível mais presente do que nunca. Obaluaê, numa festa, seguia com suas feridas escondidas pela roupagem e, então, Iansã, corajosa como se faz, o tira pra dançar. Durante o bailar, o vento que vem dela sacode os fios e, enfim, há a revelação de um moço tão bonito que ninguém pode acreditar. No paralelo da vida real, Iansã se apresenta em mim para que eu enxergue beleza nestas feridas que me acompanham, estas que minam as mais diversas possibilidades de conexão com o positivo manifestado. Em par, numa dança corajosa e tempestiva, as palhas da rotina maluca são descobertas e, sob influência também do tempo, o encontro com o que há de belo é promovido à clareza.

Também existe a metáfora da pipoca, elemento sagrado de Obaluaê e Omulu, bastante utilizada em banhos também na umbanda, com forte ligação com os pretos-velhos. Sim, banho de pipoca! Estourando sem óleo ou manteiga, despejando da cabeça aos pés, pedindo pela cura, são relacionadas às chagas carregadas pelos orixás. A lenda dá conta de que a pipoca é milho originalmente, duro, cercado de uma casca. Sob a quentura do fogo, estoura e se transforma em uma linda e branca flor, aproveitando o ambiente opressor para se transformar por meio do usufruto do calor como fonte de transmutação. Eita história bonita!

Dentro do ilê, o terreiro de candomblé, os acontecimentos para saudar os orixás é chamado de Xirê. Conforme os atabaques tocam, a gente canta e dança para festejar a presença destas forças invisíveis, momento que também pode servir para agradecer, pedir e recrutar determinadas energias necessárias na caminhada. No xirê da vida, aqui do lado de fora, as cantigas e a presença dos orixás tem feito uma roda linda de transformação segura, transparente e merecida: cada passo dessa estrada foi escolhido com amor, pelo amor e por amor – ingrediente indispensável pra lidar com o incômodo que tocar nos machucados da alma traz à tona. 

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4 comentários

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A que tudo tem de infinitos significados...

ramos lágrimas........................................................não morte, ocultamento físico

ao entrar neste mar de sofrimentos ao deslocar o tempo

incrível como tudo torna-se "dócil" à compreensão................................................

vivemos em erros cronológicos que, um dia, a ciência revelará com evidências

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Outra lenda, Daomé ( Gege )

   Na nação gege- mahi , o vodun que da origem nas outras "nações" a Omulú, é chamado de " Jòholú " ( Rei das Jóias, sendo esta uma referencia a suas chagas ), outro nome pelo qual em alguns locais no Brasil é chamado Omulú, é Xapanã - que certos desinformados alcunham como "Omulú/Obaluaye " na "esquerda" ( virado ), mas este termo tambem é oriundo da tradição daomeana ( mahi, gege, gege-fon etc..) derivado da palavra "sakpata"  ou os voduns da terra, que no caso os mais conhecidos aqui são Ewá e Nanã ( na tradição daomeana Nanã não é um vodun das águas ).

    Segundas feiras, principalmente se a lua estiver  cheia, tambem é dedicada a Irokô ( Ketú ), Niksi Tempo ( Angola ) ou Loko ( Gege ) - todos significam o mesmo só muda o "nome".

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Ale Nogueira

Serena Assumpção - Ascenção -

Serena Assumpção - Ascenção - Obaluaiê

 

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muito lindo o lance da pipoca....................desconhecia

o lance das palhas, já passei, ou sonhei, como revelações do vento, protegidas por escondidas, sob os ramos lágrimas de um Salgueiro Chorão.........................alguém já me disse que lembram as passagens não escritas. da forma costumeira ou bíblica, de Jesus ainda criança

quanto às feridas, mesmo lance de Rumi, lá pelos idos do século XIII, logo, com tudo a ver:

...A ferida é o lugar por onde a Luz entra em você...

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MIRNA GUIMARAES CAMPELO

Lindíssimo! As forças

Lindíssimo! As forças poderosas e transformadoras! Que Iansã cure com seus ventos as feridas e chagas deste meu Brasil e do seu povo! Que nos vejamos belos e belas! Que os antepassados e ancestrais se curem e nos curem aos nos unirmos!

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