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A bravata de Trump com a Venezuela não caiu bem, nem nos EUA nem na América Latina

no Rebelión

A bravata de Trump com a Venezuela não caiu bem, nem nos Estados Unidos nem na América Latina

Por Álvaro Verzi

Tradução de Ricardo Cavalcanti-Schiel

(Os trechos entre colchetes são esclarecimentos do tradutor).

“Temos muitas opções para a Venezuela, incluindo uma possível opção militar, se for necessária”, disse o magnata nova-iorquino aos jornalistas, em seu luxuoso clube de golfe de Bedminister, Nova Jersey, depois de se reunir com seu Secretário de Estado (e alto executivo da transnacional petroleira Exxon Mobil) Rex Tillerson, com a embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, e com seu conselheiro de Segurança Nacional, general H. R. McMaster [que agora, tal como o demitido Reince Priebus, que vazava para a imprensa informações contra Trump, é suspeito de ser agente da antiga administração Obama, do Estado Profundo e de George Soros, agindo contra o presidente].

Com a inesperada declaração de Trump sobre a Venezuela na última sexta-feira, alguns analistas norte-americanos asseveram que o presidente acabou gorando a possibilidade de surgimento de uma ampla aliança interamericana contra Maduro, encabeçada pelos Estados Unidos.

Colômbia, Peru, Bolívia, Chile e México repudiaram a ameaça de Donald Trump de usar a força para tentar solucionar a crise venezuelana. Os países latino-americanos não parecem ver com bons olhos a possibilidade de uma intervenção militar norte-americana, tal como ocorreu na invasão do Panamá em 1989.

Christopher Sabatini, especialista em relações interamericanas da Universidade de Columbia, declarou ao Miami Herald que diplomatas norte-americanos, depois de semanas tentando cuidadosamente preparar o terreno para uma reposta internacional coletiva à Venezuela, de repente veem seus esforços minados por uma declaração exagerada e anacrônica, que coloca os Estados Unidos como imperialistas dos velhos tempos, na contramão dos esforços diplomáticos do país nas últimas décadas.

O primeiro a reagir foi o governo chileno, que deixou claro seu repúdio às declarações de Trump. O chanceler Heraldo Muñoz, manifestou que “reiterando todos os termos da Declaração de Lima sobre a Venezuela, o governo do Chile repudia a ameaça de uma intervenção militar ao país”. A senadora socialista Isabel Allende declarou que “a saída para uma crise como a da Venezuela não poderia jamais ser uma intervenção militar norte-americana. Trump só sabe fazer ameaças”.

O presidente da Bolívia, Evo Morales, mais uma vez defendeu a soberania da Venezuela, registrando, em sua conta do Twitter, que “Trump revelou descaradamente seu plano de intervenção militar contra o país”. E acrescentou que “agora o mundo sabe que aqueles que estavam contra Maduro só buscavam a intervenção militar do império”.

O México manifestou “seu repúdio ao uso ou ameaça de uso da força nas relações internacionais, afirmando que a crise na Venezuela não pode ser resolvida por meio de ações militares, internas ou externas”, tal como registrou seu Ministério de Relações Exteriores em comunicado oficial.

“Repudiamos medidas militares e o uso da força no sistema internacional. Todas as medidas devem ater-se ao respeito da soberania da Venezuela, por meio de soluções pacíficas, acatando os princípios e propósitos da Carta das Nações Unidas”, especificou a chancelaria colombiana. Na mesma direção, “o Peru repudia qualquer ameaça ou uso de força não autorizado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas”, assinalou a chancelaria peruana em comunicado.

El chanceler da Guatemala, Carlos Morales, afirmou que “a via armada não é uma opção para solucionar diferenças”. E até o Brasil acenou que não apoiaria uma intervenção militar de Trump na Venezuela, como manifestou o chanceler do governo golpista Aloysio Nunes, em entrevista ao Estado de São Paulo.

O Mercosul emitiu um comunicado em que considera o diálogo e a diplomacia como “únicos instrumentos aceitáveis para a promoção da democracia”. Mesmo que o documento, assinado exatamente por aqueles que decidiram suspender a Venezuela do grupo regional, afirme “repudiar a violência e qualquer opção que implique o uso da força”, não chega em momento algum a expressar uma postura de repúdio à intervenção militar anunciada por Trump.

O secretario geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, um dos principais operadores da desestabilização do governo venezuelano, escreveu uma mensagem em suas redes sociais para se referir aos “instrumentos do marco jurídico” que se devem aplicar na Venezuela para “defender a democracia”, sem fazer qualquer menção às palavras pronunciadas na noite de sexta pelo presidente dos Estados Unidos.

O cowboy Donald Trump

Conhecedor  [―ainda que para um americano possa parecer incrível―] do fato de que não está tão distante como a Coreia do Norte, a Venezuela, nas palavras de Trump, “é nosso vizinho e os Estados Unidos estão por todo lado. Temos tropas pelo mundo todo, em lugares muito distantes. A Venezuela não está muito longe, e as pessoas estão sofrendo e morrendo”. Em seu papel de comandante-em-chefe comentou: “Temos muitas opções para a Venezuela e, por certo, não vou descartar uma opção militar”.

Perguntado sobre se as forças norte-americanas encabeçariam uma operação na Venezuela, respondeu: “Não tratamos dessas coisas, mas uma operação militar é, certamente, algo com o que poderíamos atuar”.

De sua parte, o alto comando militar dos Estados Unidos limitou-se a declarar que o Pentágono não recebeu qualquer tipo de ordem, conforme declarou seu porta-voz, Eric Pahon, que preferiu reportar todo o assunto à Casa Branca.

A ameaça do presidente Donald Trump de uma opção militar para a Venezuela parece contradizer o conselho do seu principal assessor de segurança nacional. O general H. McMaster afirmara na semana passada que não pretendia dar ao presidente Nicolás Maduro nenhuma munição para culpar a os “yankees” pela “tragédia” que sacude a nação sul-americana. Defendeu que seria importante para os Estados Unidos e seus vizinhos falar a uma só voz na defesa da “democracia” na Venezuela, recusando a ideia de uma intervenção militar.

A reação venezuelana

O ministro venezuelano de Defesa, Vladimir Padrino López, qualificou como “um ato de loucura” e “de supremo extremismo” a ameaça do presidente dos Estados Unidos de uma possível intervenção militar no país sul-americano, e assinalou que “há uma elite extremista que governa os Estados Unidos”.

O ministro da Comunicação e Informação da Venezuela, Ernesto Villegas, enfatizou no Twitter: “A de Trump é a mais grave e insolente ameaça jamais proferida contra a Pátria de Bolívar”.

O governo da Venezuela vinha denunciando reiteradamente as tentativas de desestabilização e ingerência de que foi objeto ao longo dos últimos anos, por parte do governo e dos setores econômicos dominantes dos Estados Unidos. Denunciava também que, se fossem levadas a cabo todas essas ameaças, a Venezuela não seria o único país afetado, pois elas acarretariam, como consequência, potenciais prejuízos aos povos e governos de toda a região.

A ex-chanceler venezuelana e agora presidente da Assembleia Nacional Constituinte (ANC), Delcy Rodríguez, qualificou a ameaça de Trump como uma ação “covarde”.

O dirigente oposicionista Henry Ramos Allup registrou num tuite que o “regime permitiu a tomada castro-comunista de nosso país, entregou a fronteira ocidental do país à guerrilha FARC-ERLN e deu de presente [a região de] Esequibo [à Guiana]”. O opositor e candidato presidencial duas vezes derrotado Henrique Capriles Radonski apenas tuiteou: “Porta-voz do Pentágono: Insinuações do governo da Venezuela de que os EUA estão planejando uma invasão não têm fundamentos”.

A escalada da violencia

É bem conhecido o desejo norte-americano de recuperar uma posição de força na região, e, nesse caminho, derrubar o atual governo venezuelano seria o objetivo mais próximo.

Mais além de ultimar a possível influência que possa ter tido a Revolução Bolivariana nos últimos quinze anos em toda a região, não se pode ignorar as contínuas tentativas do governo norte-americano e das transnacionais de se apoderarem das reservas petrolíferas venezuelanas. Ficam evidentes no debate interno norte-americano os interesses em torno do papel da Venezuela como fornecedor de petróleo ao mercado do país.

Acabar com o governo de Nicolás Maduro simbolizaria a consolidação das mudanças notadas na região, com os novos governos do Brasil, da Argentina e com a atual crise do novo governo equatoriano.

A diferença da Venezuela para os demais casos é que a ingerência assume características de guerra civil, como não se viu em nenhuma outra parte. Esse fato afeta as relações regionais como um todo e, desgraçadamente, prepara as condições para uma conflagração armada, o que põe de sobreaviso outras potências como Rússia e Irã. Pode-se dizer que o conflito venezuelano já superou as fronteiras do país e se transformou em um problema regional. As escaramuças no interior do Mercosul e da OEA são uma prova disso. O tempo conspira para que, em se alargando os movimentos ingerencistas norte-americanos, o caso se torne terreno de fricção entre as principais potências mundiais.

A escalada retórica de Trump ocorre depois de Washington impor sanções ao presidente Nicolás Maduro e a 13 de seus aliados no mês passado, em resposta à realização de eleições para a Assembleia Constituinte do país. Na terça-feira da semana que a precedeu, chanceleres de 17 países do continente ― incluindo México, Argentina, Brasil, Colômbia e Panamá ― realizaram uma reunião de emergência em Lima, na qual 14 deles denunciaram aquilo que o chanceler peruano Ricardo Luna chamou de “ditadura” na Venezuela [por causa precisamente da realização de eleições (sic!)], prenunciando a postura de Trump.

Com efeito, o vice-presidente Mike Pence tem uma excursão programada para visitar esta semana quatro desses países ― Colômbia, Argentina, Chile e Panamá ― na qual o tema Venezuela está seguramente em pauta.

Origem das desavenças

De acordo com analistas norte-americanos, o novo chefe de gabinete da Casa Branca, John Kelly, que não estava na sexta-feira no clube de golfe de Trump, teria desempenhado papel chave para a cartada verbal do presidente. [O general fuzileiro naval] Kelly foi chefe do Comando Sul [do Departamento de Defesa], em Miami. Ele seria aliado de empresários norte-americanos e teria atuado no esforço de barrar a mera imposição de sanções ao petróleo da Venezuela. No que respeita a isso, quatro senadores de Estados possuidores de grandes refinarias teriam alertado Trump de que a suspensão da importação de cru venezuelano produziria imediato aumento de preço da gasolina vendida nos Estados Unidos. Calcula-se que 500 empresas norte-americanas têm negócios com a Venezuela, a partir do setor petrolífero. Os 740 mil barris diários de petróleo fornecidos aos Estados Unidos até agora não foram objeto de nenhum tipo de sanção.

Quando Kelly foi nomeado chefe de gabinete de Trump, o senador Marco Rubio ― um dos políticos mais influentes na política para Venezuela e Cuba do novo presidente ― comentou que agora Trump contaria com alguém “que eu acredito que entenda de Venezuela tão bem, ou melhor, que qualquer outro no governo”. Rubio é o operador, fomentador e financiador dos grupos mais violentos da oposição venezuelana.

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7 comentários

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Rui Ribeiro

Quando Truman mordeu os Japoneses, ele não latiu

Cão que ladra não morde. O Trump está a latir mas não vai morder nem os Norte-Coreanos nem os Venezuelanos, pois cão ladrento não morde.

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Golpe Já!

Nassif: ouvi dizer que dos latinoamericanos o único a enfileirar-se a favor uma intervenção militar norteamericana na Venezuela foi a atual República das Bananas. Pois os gringos querem que aquela Nação fique igualzinha, com um Congresso composto de 7/10 de seus membros por bandidos e ladrões de carteirinha, protegidos por um Judiciário tão safado e corrupto quanto seu Executivo e Legislativo. Parece que o impedimento maior estaria nas Forças Armadas de lá, pois dona Liliane não consegui "amolecer" os patrióticos sentimentos dos generais, como fez no Paraguai e na Reppublica vizinha, principalmente nesta. Parece que os milicos lá não aceitaram as  miçangas oferecidas, tanques, barcaças e e tecotecos obsoletos, tirados da sucata e dado uma garibada e pintura nova. Já não se faz subservientes como antigamente...

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fez o que dá prá fazer..

.. Trump não é um retardado, qualquer pessoa minimamente informada sabe que o o "estado profundo" lhe tomou o poder, logo no primeiro mês de governo, e eu acredito sinceramente que invadir a Venezuela nunca foi meta dele, pessoal.. assim como nunca foi meta dele entrar em guerra contra Rússia ou China (muito pelo contrário, quer ampliar parcerias comerciais).. no caso da Venezuela, acho que Trump fez o que dava para fazer, e deu um recado aos latinos.. a sua virulência ajuda a unir a região, desunida pela propaganda do establishment anglo saxônico, repercutido aqui pela globo, mas presente também em todos os países da AL.. Trump está esvaziando as ações da CIA.. foi uma sacudida.. se, de fato, quisesse intervir militarmente na Venezuela, não mandaria recado.. claro que eu posso estar enganado..

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Sigo Vcs

Com a ressalva de que Trump é um dissidente de dentro do sistema.
Mas ainda sim representando o sistema..

Ele não é do outro lado...

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Suspeito...

...que você está certíssimo, jruiz.

A guerra do Trump é interna. A cortina de fumaça chamada Coreia do Norte está finalmente conseguindo quebrar o uníssono da mistificação midiática da "interferência russa" nas eleições americanas.

O Estado Profundo tem por objetivo manter o Trump manietado e na defensiva. Essa guerra verbal toda não é muito mais que jogo de cena.

Agora, que os efeitos colaterais estão sendo ótimos para o resto do mundo, tanto no caso da Coréia quanto no caso da Venezuela, isso sim!

Está-se criando um consenso mundial de que os Estados Unidos são, antes de mais nada, um país extremamente perigoso e não confiável, controlado por loucos e maníacos. Ou seja, finalmente a singela realidade!

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Acompanho os dois comentários...

Sem ressalvas.

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Jaide

Eu tb sigo você .

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lenita

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