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Marcha pela Ciência: um gesto contra ofensiva irracionalista, por Roberto Leher

Enviado por Ricardo Cavalcanti-Schiel


Foto: Diogo Vasconcellos - CoordCOM/UFRJ

Manifesto do Reitor da UFRJ sobre a Marcha pela Ciência

Por Roberto Leher
Reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

Do portal da UFRJ


O Brasil caminha na contramão do que seria a melhor estratégia para enfrentar uma crise econômica: investir em conhecimento científico, pesquisa e inovação. Não nos faltam exemplos de povos que também passaram por momentos dramáticos nesse sentido, mas que apostaram no fortalecimento das universidades, dos institutos públicos de pesquisa e do aparato de Ciência e Tecnologia, por meio dos blocos de poder que se reconfiguravam no calor das lutas sociais.

Foi assim no contexto da Revolução Francesa, em que as grandes Écoles e universidades foram apoiadas vigorosamente; na criação da Universidade de Berlim, que se deu em um contexto de severa crise e de guerra; e na crise de 1929, em que a universidade estadunidense foi ampliada progressivamente e a pesquisa foi fortalecida com forte apoio estatal. Países como a China respondem à crise econômica mundial com mais investimentos em ciência.

O dramático quadro da economia no Brasil ganhou novos contornos com o agravamento da crise política. Como corolário, é tomado ainda por uma tectônica crise de legitimidade do Executivo, da grande maioria do Legislativo, de setores do Judiciário e de vastos segmentos da grande imprensa.

Diante de um contexto tão desolador, em que o futuro torna-se carregado de incertezas, decisões erradas podem comprometer de modo duradouro o porvir. Entre as muitas decisões que estão sendo tomadas contra os direitos humanos, é preciso destacar a desregulamentação e a flexibilização dos direitos trabalhistas, a inviabilização do sistema previdenciário, em prol da previdência por capitalização vinculada aos bancos, e o estrangulamento dos recursos para as universidades e os órgãos de fomento.

Embora aparentemente desconexas, as medidas que rebaixam os direitos do trabalho evidenciam que o país estará cada vez mais inserido em circuitos produtivos baseados nas atividades laborais simples, prescindindo, por isso, de um robusto sistema universitário e de ciência e tecnologia.

A planilha orçamentária das universidades federais em 2017 é 13% inferior ao já exíguo orçamento de 2016, ano em que muitas universidades não puderam pagar suas contas básicas. Os cortes e contingenciamentos efetuados no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) em 2017 tornam o seu orçamento equivalente a menos da metade do existente em 2005, e ainda com o agravante de que a ciência cresceu de modo importante e o ministério não incluía a área da Comunicação: é devastador.

E novos contingenciamentos rondam as universidades e os laboratórios e grupos de pesquisa. A rigor, conforme as previsões oficiais, em 2017 e 2018 não haverá recursos novos para pesquisa, descontinuando investigações e grupos de pesquisa, em domínios cruciais como arboviroses, energia, agricultura, saúde, educação e cultura. A retomada não será simples.

São muitos os motivos que devem levar a sociedade a apoiar a Marcha pela Ciência, no próximo dia 22 de abril. Mais de 500 cidades do mundo inteiro estão mobilizadas para defender uma produção científica independente e indispensável para a vida dos povos. No Rio de Janeiro, a manifestação acontecerá no Museu Nacional da UFRJ e nossas universidades, professores, estudantes, técnicos-administrativos e demais trabalhadores devem se animar a participar do movimento.

Essa manifestação entusiasmada e crescente é inspiradora e enche de esperança os que se dedicam de corpo e alma à ciência, à tecnologia, à arte e à cultura. Além da luta contra o desmonte da universidade e da pesquisa, é um gesto contra a ofensiva irracionalista que insiste em turvar o futuro das nações. É fundamental que todos apoiem e participem das atividades e, também, das outras manifestações públicas programadas pelos setores democráticos em prol dos direitos sociais e, em particular, do desenvolvimento da imaginação criadora das crianças e jovens que protagonizam a vitalidade das instituições educacionais!

Cidade Universitária, 19/04/2017

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3 comentários

Comentários

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Movimento morno e pouco ambicioso

Apesar de louvável a iniciativa pela ciência brasileira a questão do desmonte da C&T é apenas uma pequena parte de um contexto muito mais amplo que tem como objetivo destruir qualquer protagonismo do Brasil no cenário mundial e nos colocar politica e economicamente na condição de colônia. Ciência , tecnologia ,arte e cultura são apenas apendices das diretrizes politicas de uma nação . Esta marcha pela ciência é demasiada morna e pouco ambiciosa, é preciso envolver sindicatos, trabalhadores, estudantes e partidos politicos pela causa da ciência brasileira. 

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João Zanzoni

Marcha pela ciência

Infelizmente, Leher (...) governos de corruptos não tem a menor preocupação com educação, ciência, tecnologia, desenvolvimento e futuro, é assim em todo mundo subdesenvolvido capitaneado por salafrários. Só pensam em satisfazer a vontade de quadrilhas e impor  programas econômicos draconianos orientados por nações que a qualquer momento pode intervir caso a população se levante contra tais arbitrariedades. É a submissão em troca de apoio em caso de revolta da população !!!!!

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JoãoP

Boa, Reitor! Parabéns à

Boa, Reitor! Parabéns à comunidade da UFRJ por eleger um reitor lúcido como o senhor. Todos à Marcha pela Ciência, amanhã.

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