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Nova guerra fria: faz sentido?, por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Nova guerra fria: faz sentido?

por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Comentário ao post "A miopia da 'nova guerra fria' sob a perspectiva anti-Rússia e anti-bolivariana"

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra: a ideia de nova guerra fria faz sentido a meias, como síntese discursiva com certo apelo retórico.

Da mesma maneira como a primeira guerra fria não era a confrontação diplomática, propagandística, de inteligência e de armamentismo entre o "mundo livre" e o "mundo novo" da utopia socialista, mas sim a confrontação entre dois blocos de poder geopolítico, também a nova guerra fria insinua-se como a mesma coisa, sem ser o que declara: a "(pseudo-)democracia americana de livre-comércio" contra "o ingerencismo autoritário sino-russo".

Quem cair na leitura estreitamente ideológica (mesmo que seja só para qualificar um dos lados e manter silêncio sobre o outro) estará caindo numa esparrela.

Fundamentalmente, o que desenha essa confrontação de amplo espectro é, de um lado, a posição geopolítica unipolar (agonisticamente patrocinada pelos Estados Unidos) e, do outro, a posição geopolítica multipolar (que emergiu de forma mais contundente com a ponta de lança ― a essas alturas já um "nariz de cera" ― do bloco dos BRICS).

O que vem atrás da posição multipolar são os interesses de autodefesa e protagonismo energético da Rússia, o interesse da China por uma nova matriz comercial internacional no balanço entre matérias-primas e produtos industriais e, finalmente, de uma nova arquitetura financeira que apague o protagonismo do dólar e do petróleo do Golfo.

Muito menos que político-ideológica, essa contraposição geopolítica é mais econômica e militar. E a emergência de uma vantagem relativa do eixo Rússia-China tornou-se, de fato, a maior dor-de-cabeça para a pretensão hegemônica dos Estados Unidos.

E é aí que entram as estratégias de cada lado. Pode-se dizer que a estratégia de ação adotada pelos interesses de manutenção da unipolaridade norte-americana tem como pais fundadores Leo Strauss e Zbignew Brzezinki. Sua versão mais atualizada é a estratégia do "caos construtivo", que serve como substrato lógico para aparentes absurdos como, por exemplo, a remoção de Muamar Ghadafi da Líbia, deixando a Europa à mercê de vagas de imigrantes e bandos terroristas. É sob o guarda-chuva dessa estratégia de ação e intervenção que se podem entender as revoluções coloridas, as primaveras árabes, as operações de mudança de regime (Bálcãs, Ucrânia, América Latina...).

A estratégia da multipolariadade segue o caminho contrário: construir uma nova institucionalidade internacional, em todas as frentes, para além dos organismos hoje existentes e manietados pela hegemonia norte-americana. É aí que surgem coisas como o fórum dos BRICS, o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), os projetos de alternativas ao SWIFT, o projeto da nova rota da seda etc etc.

Não que se propugne com isso um juízo de valor, mas, no atual estado do embate geopolítico, pode-se dizer que a estratégia de ação unipolar é francamente destrutiva, enquanto a estratégia multipolar seria francamente construtiva. É como se se tivessem invertido, para cada lado, as estratégias de ação da antiga guerra fria: subversão revolucionária soviética, de um lado, e conservadorismo institucional norte-atlanticista, do outro.

Da mesma maneira como tanto as experiências anticoloniais como as oligarquias estabelecidas nos países locais encontravam sintonia de interesses com um ou outro bando da antiga guerra fria, também o mesmo vem tendencialmente ocorrendo com novas inquietações e velhos interesses regionais frente à "nova guerra fria" (e claro, como a anterior, de modo algum tão fria assim...). E também não há nada de novo na dubiedade das oscilações (que o digam o caso turco e o caso filipino).

Portanto, não deixa de ser prudente identificar vários níveis de relação, afinidade e validação entre posição geopolítica, estratégia de ação e interesses locais. Esses níveis não são imediatamente redutíveis uns aos outros (ou dedutíveis uns dos outros), numa espécie de totalização lógica suficiente ― como fazia a ideologia da guerra fria, apropriada de forma bastante débil-mental pelos militares brasileiros, e ainda hoje por eles assim reconhecida (o que se tornou o seu último refúgio simbólico para justificar o golpe de 64).

Uns níveis podem explicar contextos de indução para outros, mas não subordinação lógica exaustiva. Em lugar de um planejamento demoníaco, os fatos podem ser suscitados pelo aproveitamento de oportunidades oferecidas pelo movimento de outras razões (caso tunisiano, punch turco, jornadas de junho de 2013 no Brasil).

Ingenuidade seria, a meu ver, buscar totalizações mecânicas, por um lado, ou recusar de forma cabal qualquer interação entre níveis, por outro.

E, em se tratando de mentalidade militar (até mesmo pela experiência de eu já ter sido nativo desse mundo antes de ser antropólogo), prefiro ficar com a advertência prudente do Nassif: "ao pouco conhecimento que o mundo externo tem da corporação militar, corresponde o pouco conhecimento da corporação sobre o mundo externo".

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Bá, mas daqui a algum tempo vão dizer que a revolução de 1917...

Mas bá tche! Daqui a algum tempo vão dizer que a revolução de 1917 foi inventada pelos alemães do Kaiser para acabar com o front oriental e não tem nada de revolução, foi "a confrontação entre dois blocos de poder geopolítico".

Começa a ficar ridículo todo este revisionismo histórico.

(Talvez até se chegue a revelações surpreendentes sobre os coitadinhos dos nazistas, revisionismo é como comichão, é só começar a se coçar que não se para mais).

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bobo

O que é revisionismo

O que é revisionismo histórico no texto?

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ml

 Muito bom, principalmente na

 Muito bom, principalmente na crítica à "subordinação lógica exaustiva" e à visão algo ingênua que tudo reduz a "planejamento demoníaco", desconsiderando, assim, a complexidade do fenômeno social/econômico/político. Totalizações são possíveis (como grades de inteligibilidade, a meu ver), mas devem incorporar a complexidade, torná-la inteligível, e não descartá-la.

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Pois é!

Concordo integralmente.

Minha recusa ao "planejamento demoníaco" não quer dizer que não existam operações de inteligência, guerra psicológica de larga escala, vigilância digital massiva e guerra híbrida.

Só quer dizer que nem tudo responde à explicação igualmente demoníaca de uma sobredeterminação exaustiva, como tanto gostam os esquemas macrodeterministas dos velhos marxistas.

Suspeito que os encontros e sintonias entre níveis ocorram por conta das contiguidades entre visões de mundo dos muitos agentes sociais.

Quer dizer, não é que o juiz Sérgio Moro seja necessariamente agente da CIA (aliás, a maioria dos "agentes" da CIA são prestadores voluntários de serviços induzidos, como tanta gente que trabalha na imprensa, por exemplo: http://www.viomundo.com.br/denuncias/jornalista-alemao-denuncia-controle-da-cia-sobre-midia.html#at_pco=smlwn-1.0&at_si=579b741027330251&at_ab=per-2&at_pos=0&at_tot=1). Trata-se, antes, de uma cumplicidade regida por uma instância discursiva mediadora, que eu chamo de "agenda".

Eu não tenho a menor dúvida que uma certa agenda do pensamento social brasileiro hoje (que se diz progressista, aliás), por exemplo, foi fortemente induzida pela Fundação Ford, em sintonia com a agenda de uma certa corrente de pensamento imperial norte-americano.

O negócio, a meu ver, ao menos no plano analítico, está em encontrar e delinear os conceitos que apreendam essas instâncias mediadoras. Afinal, o que é o conceito gramsciano de hegemonia, por exemplo, senão uma dessas instâncias mediadoras que sintetizam algo da ordem do simbólico que não é mera emanação mecanicista do "econômico"?

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Mariano S Silva

Quando conseguirem retirar o

Quando conseguirem retirar o rótulo de loucura das ideias de conspiração será tarde demais! Foi a lavagem cerebral feita pela midia famigliar que permitiu essa monstruosidade que está ocorrendo no país. Estamos desmantelando uma nação que caminhava para a prosperidade a serviço de um "algo" que controla, por debaixo do pano, (vide a campanha para destituir Trump) os EUA. Uma rede de televisão norte-americana foi pega, recentemente, fabricando notícia falsa na Grã Bretanha. O poder SEMPRE foi exercido no convescote dos gabinetes e o que é levado a público não tem relevância alguma. Desprezar o trabalho dos hackers do bem, que extraem algumas dessas informações e as disponibilizam ao mundo, é um ato de estupidez sem par feito à escuridão (não à luz) de um mito plantado pelo próprio poder há muito tempo...

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