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O eixo secreto Estados Unidos-Arábia Saudita

Por Manlio Dinucci, Il Manifesto, de Roma.

(Tradução de Ricardo Cavalcanti-Schiel)


 

Codinome “Timber Sycamore” [Lenho de Figueira-doida ― ou Sicômoro, uma árvore várias vezes citada na Bíblia]: assim se chama a operação de armamento e treinamento de “rebeldes” na Síria, “autorizada secretamente pelo presidente Obama em 2013”. O registro é de uma reportagem investigativa [realizada por Mark Mazzetti e Matt Apuzzojan] publicada pelo New York Times no domingo passado, dia 24 de janeiro.

Quando recebeu a delegação do presidente para realizar essa operação encoberta, “a CIA já sabia que tinha um parceiro disposto a financiá-la: a Arábia Saudita”. Junto com o Catar, “esse país forneceu armas e vários bilhões de dólares, enquanto a CIA dirigia o treinamento dos rebeldes”. O fornecimento de armas a eles ― incluindo aí os “grupos radicais, como a Al-Qaeda” ― foi iniciado no verão de 2012, quando, através de uma rede montada pela CIA, agentes secretos sauditas compraram na Croácia e na Europa Oriental milhares de fuzis de assalto AK-47, acompanhados de milhões de cartuchos de munição, enquanto agentes do Catar infiltravam na Síria, através da Turquia, mísseis portáteis chineses FN-6 comprados no mercado internacional.

Uma vez que o fornecimento de armas ocorria sem empecilhos, ao final de 2012 o diretor da CIA, David Petraeus, convocou seus aliados na Jordânia com a finalidade de estabelecer um controle mais estrito da Agência para a totalidade da operação. Poucos meses depois, na primavera de 2013, Obama autorizou a CIA a treinar “rebeldes” em uma base na Jordânia, apoiada por outra no Catar, e a fornecer-lhes armas, incluindo os mísseis anti-tanque TOW. Sempre por meio dos bilhões do “contribuidor maior”, a Arábia Saudita. Nenhuma novidade nesse tipo de operação.

Nos anos setenta e oitenta, a Arábia Saudita ajudou a CIA numa série de operações secretas. Na África, especialmente em Angola, foi graças ao financiamento saudita que a CIA apoiou os rebeldes contra o governo, aliado da URSS. No Afeganistão, “para armar os mujahedins contra os soviéticos, os Estados Unidos lançaram uma operação de custo anual de alguns milhões de dólares, que os sauditas pagaram tostão por tostão, por meio de uma conta da CIA em um banco suíço”. Na Nicarágua, quando a administração Reagan lançou o plano secreto para ajudar os Contras, os sauditas financiaram a operação da CIA com 32 bilhões de dólares, através de um banco nas Ilhas Cayman.

Por meio dessas e outras operações secretas, até o momento atual na Síria, foi-se cimentando “o extenso relacionamento entre os serviços secretos dos Estados Unidos e da Arábia Saudita”. Apesar da “reaproximação diplomática” de Washington com o Irã, que em nada agrada a Riad, “a aliança persiste, mantida à tona sobre um mar de dinheiro saudita e sobre o reconhecimento de interesses mútuos”. Isso explica por que “os Estados Unidos estão tão relutantes em criticar a Arábia Saudita pela violação de direitos humanos, pelo tratamento dado às mulheres e pelo apoio do reino à ala extremista do Islam, o wahabismo, que inspira muitos grupos terroristas”, assim como explica porque “Obama não condenou a Arábia Saudita pela decapitação do sheik Nimr al-Nimr, o dissidente religioso xiita que havia desafiado a família real”.

Junte-se a isso o fato, do qual o New York Times não fala, de que o Secretário de Estado, John Kerry, em visita a Riad em 23 de janeiro, reafirmou que “no Iêmen, onde a insurgência Houthi ameaça a Arábia Saudita, os EUA estão do lado dos amigos sauditas”; amigos que há quase um ano massacram civis no Iêmen, bombardeando até mesmo os hospitais, ajudados pelos mesmos Estados Unidos que lhes proporcionam informações de inteligência (ou seja, indicação de alvos a abater), armas (incluindo bombas de fragmentação) e apoio logístico (incluindo reabastecimento aéreo de caças-bombardeiros sauditas); os mesmos amigos com quem o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi se encontrou oficialmente em novembro passado, em Riad, garantindo-lhes o apoio e as bombas italianas na “luta comum contra o terrorismo”.

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13 comentários

Comentários

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Luiza

Só mudam os nomes.Geopolítica na veia !

Affffff esse é o dna dessa gente? Nao é atoa que estamos vivendo uma lava jato que está colocando o país de cabeça prá baixo. O projeto geopolítico engole vidas, a conciencia e destroi uma naçoes pelas maos dos seus próprios nacionais. Coitada da Dilma e de nós. O abacaxi é muito grande para descascar.

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FN-6, Tows e Milans

    Não existe trafico de armas sem o apoio de governos, sempre através de suas "agências de inteligência", que realizam as operações através de off-shores, nem sempre situadas em paraisos fiscais, com triangulações "sem bandeira", fretando aeronaves com matriculas falsas e/ou navios de armadores que "abrem e fecham", e a aquisição de armas, como os AKs, DsHk , são realizadas não apenas na Croácia, a Ucrania, Bulgaria, Romenia, negociam ainda com seus estoques, e claro que seus governos sabem disto.

      Já os FN-6 chineses encontrados na Siria, tanto com o ISIS como com o FSA, pelo numero de série encontrado em um "reparo", foi originário de uma aquisição sudanesa de 2006, paga por fundos sauditas, e desde 2011 o inventario sudanês, deu como "perdidos" ou "já utilizados" estes misseis - papo furado, os sauditas os desviaram, e ainda tem mais: os reparos chineses, com uma pequena e facil alteração, podem calçar misseis poloneses Grom, como ocorreu na Geórgia em 2008.

      Tows e Milans : Sauditas, turcos e Catarianos, descontinuaram, mas armazenaram suas versões antigas do BGM-71 de A a E3 (Tow ), que agora estão sendo encontrados em poder de forças rebeldes sirias e do ISIS, já os Milans ( franco - alemães ), tem conexão com outra agência, a francesa, estes misseis ultrapassados mas efetivos, são encontrados tanto na Siria, como no Chifre da Africa em posse de forças irregulares pró-ocidente.

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junior50

A Arabia Saudita é uma

A Arabia Saudita é uma criação dos Estados Unidos. Não tem o mesmo roteiro inglês  do Iraque, do Kuwait e da Jordania.

O reino saudita nasceu quando se descobriu petroleo por volta de 1927 pelas mãos da Standard Oil Company of California, hoje conhecida como Chevron. Nunca houve duvida que a Arabia Saudita era uma dependencia dos EUA que lá estabeleceram duas grandes bases aereas com cidade anexa (Daaram) que reproduzia nos minimos detalhes uma cidade americana, destinadas aos militares das bases aereas.

Essa super aliança está todavia em escala descendente desde os atentados de 11 de setembro e agora mais do que nunca com o pacto dos EUA com o Irã. Na Historia nada é igual pra sempre, a Historia é dinamica e movel.

Quanto ao preço do petroleo é inutil inventar teorias de conspiração. O petroleo caiu pela manutenção da produção em escala de super oferta enquanto no mundo todo fontes alternativas diminuem a necessidade de petroleo, portanto parte é ação politica da OPEP manejada pela Arabia Saudita e parte é um ciclo longo de menor uso do petroleo.

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Sem teorias de conspiração, concordo.

Mas os preços cairam em função de queda da demanda, lembre-se, a OPEP adotou a linha de não ampliar a oferta, a demanda está abaixo da oferta congelada pelo cartel exportador. A retração da economia chinesa puxou a baixa geral das matérias primas, as economias dependentes dessas exportações vieram abaixo e isto diminuiu suas importações de petróleo.

Entre 2005 e 2014, o consumo do mundo rico (OCDE) caiu em cinco milhões de barris diários, por causa da recessão que sofreram. O mundo remediado e pobre restante viu o consumo se elevar, em quase treze milhões de barris diários, o que o levou a ultrapassar o consumo do mundo rico, em mais dois milhões de barris barris diários. Foi essa demanda de fora da OCDE que puxou os preços do petróleo, para seus níveis mais altos da história, que agora reflui pelo arrefecimento de suas economias. O crescimento significativo das energias alternativas se dá na produção de energia elétrica, onde o petróleo é pouco demandado, com poucos países por excessão.

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Pão ☭ Paz ✮ Terra ☀

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Caesarea

André, quando teremos uma

André, quando teremos uma reportagem no NYT sobre a operação secreta da CIA vulgarmente chamada de "lava jato" ???Abç

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rl

Refugiados

Quando vemos os problemas que dezenas de paises enfrentam com os refugiados, e as reuniões de governantes para resolve-los, deveríamos lembrar que as dezenas de milhares de fugitivos - e os milhares de mortos nas travessias - são consequência das "guerras" no Oriente Médio.  Então, bastaria acabar com a causa para liquidar os efeitos, mas não se ouve uma só sugestão nesse sentido. Essas "guerras" custam dezenas de milhões de dólares POR DIA, e envolvem operações de suporte visíveis desde a lua. Por que não acabar com elas?  A quem interessa manter esse estado de coisas?  Até quando?

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nenhuma novidade,

para um país que contraria os interesses estadunidenses!!

isso, e cancelar visto de entrada de lideres populares, como diz o AA, nem precisa explicar. a gente acredita!

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Brasil, há muito pra temer!

A vida é curta demais para se beber cerveja barata!!

A folha é contra a corrupção no pt, no psdb não!!!

 Frede69

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Chris

E o preço do petróleo, hein?

Os amigos americanos assistem passivamente a queda brutal do preço do barril, inviabilizando a incipiente tecnologia de fraturamento.... por outro lado, afundam a economia da Rússia e da Venezuela, ainda ganhando de brinde uma Petrobras de joelhos, pavimentando a estrada para a volta da direita submissa aos seus interesses aqui no Brasil. Existem coincidências?

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Bem mais que o preço do petróleo

A grande "ameaça" saudita não são os preços atuais do petróleo, mas os ativos financeiros acumulados desde a década de 70:

http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=17142

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Carlos FM

Na mosca!

 

Falou e disse, bicho!

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Weyll

Sycamore Row, ou o corredor

Sycamore Row, ou o corredor da morte onde os negros eram enforcados por justiceiros na América

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Weyll

Sycamore Row, ou o corredor

Sycamore Row, ou o corredor da morte onde os negros eram enforcados por justiceiros na América

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Eu sempre desconfiei que esse

Eu sempre desconfiei que esse Matteo Renzi não vale uma nota de três reais. Obama, eu tenho certeza.

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Jorge Vieira

E ainda....

E ainda tem pessoas que, sob a inspiração da mídia local, acredita que grupelhos direitistas no Brasil são  movidos pelo ideal patriótico, negando ainda, de pés juntos, que o ataque sistematizado à Petrobrás pela mídia e oposição é movido pelo sentimento libertário da porca corrupção que lá campeia.

Lembro de um documentário de M Moore aonde uma daquelas chamadas águias americanas vocifera que: quem não colaborar com o bem estar americano pode estar sujeito a ser invadido e conquistado.

Esse é o país da democracia e retidão moral da coxinhada tupiniquim.

Aleluia irmãos.

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