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O programa secreto do capitalismo totalitário, por George Monbiot

Sugestão de Ricardo Cavalcanti-Schiel

no Outras Palavras

O programa secreto do capitalismo totalitário

Por George Monbiot

originalmente em The Guardian, de Londres.  Tradução de Antonio Martins.

Como Charles Koch e outros bilionários financiaram, nas sombras, um projeto político que implica devastar o serviço público e o bem comum, para estabelecer a “liberdade total” do 1% mais rico.

É o capítulo que faltava, uma chave para entender a política dos últimos cinquenta anos. Ler o novo livro de Nancy MacLean, Democracy in Chains: the deep history of the radical right’s stealth plan for America [Democracia Aprisionada: a história profunda do plano oculto da direita para a América] é enxergar o que antes permanecia invisível.

O trabalho da professora de História começou por acidente. Em 2013, ela deparou-se com uma casa de madeira abandonada no campus da Universidade George Mason, em Virgínia (EUA). O lugar estava repleto com os arquivos desorganizados de um homem que havia morrido naquele ano, e cujo nome é provavelmente pouco familiar a você: James McGill Buchanan. Ela conta que a primeira coisa que despertou sua atenção foi uma pilha de cartas confidenciais relativas a milhões de dólares transferidos para a universidade pelo bilionário Charles Koch [1].

Suas descobertas naquela casa de horrores revelam como Buchanan desenvolveu, em colaboração com magnatas e os institutos fundados por eles, um programa oculto para suprimir a democracia em favor dos muito ricos. Tal programa está agora redefinindo a política, e não apenas nos Estados Unidos.

Buchanan foi fortemente influenciado pelo neoliberalismo de Friedrich Hayek e Ludwig von Mises e pelo supremacismo de proprietários de John C. Carlhoun. Este último argumentava, na primeira metade do século XIX, que a liberdade consiste no direito absoluto de usar a propriedade – inclusive os escravos – segundo o desejo de cada um. Qualquer instituição que limitasse este direito era, para ele, um agente de opressão, que oprime homens proprietários em nome das massas desqualificadas.

James Buchanan reuniu estas influências para criar o que chamou de “teoria da escolha pública. Argumentou que uma sociedade não poderia ser considerada livre exceto se cada cidadão tivesse o direito de vetar suas decisões. Queria dizer que ninguém deveria ser tributado contra sua vontade. Mas os ricos, dizia ele, estavam sendo explorados por gente que usa o voto para reivindicar o dinheiro que outros ganharam, por meio de impostos involuntários usados para assegurar o gasto e o bem-estar social. Permitir que os trabalhadores formassem sindicatos e estabelecer tributos progressivos eram, sempre segundo sua teoria, formas de “legislação diferencial e discriminatória” sobre os proprietários do capital.

Qualquer conflito entre o que ele chamava de “liberdade” (permitir aos ricos fazer o que quiserem) e a democracia deveria ser resolvido em favor da “liberdade”. Em seu livro The Limits of Liberty [Os limites da liberdade], ele frisou que “o despotismo pode ser ser a única alternativa para a estrutura política que temos”. O despotismo em defesa da liberdade…

Ele prescrevia o que chamou de uma “revolução constitucional”: criar barreiras irrevogáveis para reduzir a escolha democrática. Patrocinado durante toda sua vida por fundações riquíssimas, bilionários e corporações, ele desenvolveu uma noção teórica sobre o que esta revolução constitucional seria e uma estratégia para implementá-la.

Ele descreveu como as tentativas de superar a segregação racial no sistema escolar do sul dos Estados Unidos poderiam ser frustradas com o estabelecimento de uma rede de escolas privadas, patrocinadas pelo Estado. Foi ele quem primeiro propôs a privatização das universidades e cobrança de mensalidades sem nenhum subsídio estatal: seu propósito original era esmagar o ativismo estudantil. Ele recomendou a privatização da Seguridade Social e de muitas outras ações do Estado. Queria romper os laços entre os cidadãos e o governo e demolir a confiança nas instituições públicas. Ele queria, em síntese, salvar o capitalismo da democracia.

Em 1980, pôde colocar este programa em prática. Foi chamado ao Chile, onde ajudou a ditadura Pinochet a escrever uma nova Constituição – a qual, em parte devido aos dispositivos que Buchanan propôs, tornou-se quase impossível de revogar. Em meio às torturas e assassinados, ele aconselhou o governo a ampliar seus programas de privatazação, austeridade, restrição monetária, desregulamentação e destruição dos sindicatos: um pacote que ajudou a produzir o colapso econômico de 1982.

Nada disso perturbou a Academia Sueca que, por meio de Assar Lindbeck, um devoto na Universidade de Estocolomo, conferiu a James Buchanan o Nobel de Economia de 1986. Foi uma das diversas decisões que tornaram duvidosa a honraria.

Mas seu poder realmente intensificou-se quando Charles Koch, hoje o sétimo homem mais rico nos EUA, dicidiu que Buchanan tinha a chave para a transformação que desejava. Para Koch, mesmo ideólogos neoliberais como Milton Friedman e Alan Greenspan eram vendidos, já que tentavam aperfeiçoar a eficiência dos governos, ao invés de destruí-los de uma vez. Buchanan era o realmente radical.

Nancy MacLean afirma que Charles Koch despejou milhões de dólares no trabalho de Buchanan na Universidade George Mason, cujos departamentos de Direito e Economia parecem muito mais thinktanks corporativos que instituições acadêmicas. Ele encarregou o economista de selecionar o “quadro” revolucionário que implementaria seu programa (Murray Rothbard, do Cato Institute, fundado por Koch, havia sugerido ao bilionário estudar as técnicas de Lenin e aplicá-las em favor da causa ultraliberal). Juntos, começaram a desenvolver um programa para mudar as regras.

Os documentos que Nancy Maclean descobriu mostram que Buchanan via o sigilo como crucial. Ele afirmava a seus colaboradores que “o sigilo conspirativo é essencial em todos os momentos”. Ao invés de revelar seu objetivo último, eles deveriam agir por meio de etapas sucessivas. Por exemplo, ao tentar destruir o sistema de Seguridade Social, sustentariam que estavam salvando-o e argumentariam que ele quebraria sem uma série de “reformas” radicais. Aos poucos, construiriam uma “contra-inteligência”, articulada como uma “vasta rede de poder político” para, ao final, constituir um novo establishment.

Por meio da rede de thinktanks financiada por Koch e outros bilionários; da transformação do Partido Republicano; de centenas de milhões de dólares que destinaram a disputas legislativas e judiciais; da colonização maciça do governo Trump por membros de sua rede e de campanhas muito efetivas contra tudo – da Saúde pública às ações para enfrentar a mudança climática, seria justo dizer que a visão de mundo de Buchanan está aflorando nos EUA.

Mas não apenas lá. Ler seu livro desvendou, para mim, muito da política britânica atual. O ataque às regulamentações evidenciado pelo incêndio da Torre Grenfell, a destruição dos serviços públicos por meio da “austeridade”, a regras de restrição do orçamento, as taxas universitárias e o controle das escolas: todas estas medidas seguem à risca o programa de Buchanan.

Em um aspecto, ele estava certo: há um conflito inerente entre o que ele chamava de “liberdade econômica” e a liberdade política. Deixar os bilionários de mãos livres significa, para todos os demais, pobreza, insegurança, contaminação das águas e do ar, colapso dos serviços públicos. Como ninguém votará em favor deste programa, ele só pode ser imposto por meio de decepção e controle autoritário. A escolha é entre o capitalismo irrestrito e a democracia. Não se pode ter os dois.

O programa de Buchanan equivale à prescrição de capitalismo totalitário. E seus discípulos apenas começaram a implementá-lo. Mas ao menos, graças às descobertas de Nancy Maclean, agora podemos compreender a agenda. Uma das primeiras regras da política é conhecer seu inimigo. Estamos a caminho.


[1] Nos últimos anos, reportagens e vídeos têm começado a jogar luz sobre a atividade política dos irmãos Charles e David Koch, e seus vínculos com a ultra-direita nos EUA e em outras parte do mundo. Vale assistir, por exemplo, a Koch Brothers exposed, documentário de Robert Greenwald; ou ler "Por dentro do império tóxico dos irmãos Koch", publicado pela revista Rolling Stone (em inglês).
 

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Julio Elmar Vargas

George Monbiot.

O assunto possui contradições. Como haverá riqueza, com tamanha concentração de valores em mão de poucas pessoas ? Tem-se a ideia de pouca gente, com muito papel em seu poder. E com isto, surge outra dúvida : que tipo de mercado está se propondo ? Talvez, por isto, seja secreto. 

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Mariano S Silva

É como tenho dito

É como tenho dito ultimamente: isso que está em construção (oculta) NÃO É capitalismo, é o buraco negro do mesmo que pode ser descrito como uma monarquia absolutista e feudal, com a fração mundial dos bilionários no poder. Explico: capitalismo seja produtivo ou rentista pressupõe uma grande massa de consumidores de mercadorias, serviços ou empréstimos a juros. Se todo o dinheiro do planeta fluir para a mão desses poucos milhares, quem serão os clientes viáveis daqueles. Pense numa favela paupérrima isolada de interações com outras comunidades mais ricas, tudo o que pode ocorrer de atividade econômica é o puro escambo do pequeno trabalho gerado internamente. O capitalismo requer graduações (gradientes) de renda para que haja fluxo econômico, quando todo o mundo estiver igual na riqueza ou na pobreza, o dinheiro não flui.

Com o advento das máquinas produtoras, prestadoras de serviços, de reprimir e matar, etc, pode-se imaginar para onde caminhamos se não tratarmos de mudar o curso dos acontecimentos...

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gusfoca

A universidade George Mason

A universidade George Mason não foi a única a receber quantias milionárias. Recomendo a leitura do livro "Dark Money: The hidden history of the billionaires behind the rise of the radical rigth", da jornalista americana Jane Meyer.

Resumidamente, ele relata, de forma mais ou menos cronológica, como os irmão Koch reuniram em seminários, ao longo dos últimos 60 anos, grandes magnatas, acionistas e representantes de grandes corporações de vários ramos da indústria, do setor financeiro, tecnológico e outros, recolhendo fortunas e redirecionando-as para um verdadeiro projeto de poder global (aquele a que o blogueiro se refere aqui).

Iniciou por movimentos de base, atuando através de ONGs, fundações e movimentos sociais, canalizando dinheiro não-declarável (daí o termo "Dark Money" - dinheiro negro ou oculto), seguiu em campanhas publicitárias contrárias a mudanças legais ou a ações de governo em questões de seu interesse (como na área ambiental, chegando ao ponto de não só contradizer os resultados de pesquisas mas a atacar pessoalmente os cientistas em campanhas difamatórias), fundou think tanks, invadiu as universidades (como apontado no texto) e, por fim, elegeu prefeitos, governadores e legisladores (que deram muito trabalho ao governo de Obama).

O livro não chega a era Trump, mas alguns participantes dos seminários citados no livro ocupam postos no governo atual. É curioso que o próprio Trump tenha desdenhado desses seminários e não consta na obra que deles tenha participado; talvez não seja um governo totalmente comprometido com a agenda desse pessoal?

De qualquer modo, o caso da universidade George Mason é só uma das pontas (pontinha) desse iceberg!

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Jorge Humberto Dalsasso Camargo

O segredo desvendado

Tudo a ver com o projeto pós Dilma implantado no Brasil - Seremos um segundo Chile ""pinochetiano"" em seguida, não vamos conseguir escapar  deste momento e  após , não importa o governo que venha gerir o Brasil, ele estará ingovernável, pois o estado como o compreendemos estará destruído.

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Elson

Capitalismo x democracia

Brasil, um grande laboratório.

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"Deception" se traduz melhor como "engano"

No trecho "Como ninguém votará em favor deste programa, ele só pode ser imposto por meio de decepção e controle autoritário.", percebe-se a tradução do inglês "deception" como "decepção". É uma tradução equivocada, considerando o contexto. Alternativas mais apropriadas são "engano" ou "fraude". Ou mesmo "enganação".

"To deceive" significa "enganar", "iludir", "ludibriar", muito mais do que "decepcionar" ou "desapontar".

É enganando que se impõe tal programa (e não "decepcionando").

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Observação correta

"Deception" é a ação de enganar, iludir alguém. Enganação é a correspondência semântica mais precisa.

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No caso

essa tradução equivocada cai bem.

Há coisa mais decepcionante que um serviço público carente. Um hospital sujo e sem médicos.

Uma fila de espera interminável. Funcionários mal treinados ou esgotados?

Uma previdência que atende mal, nega benefícios.

Decepcionados usuários  vão preferir pagar para ter os serviços.

Claro que pagarão e não terão os serviços do mesmo jeito.

Mas esse já é outro capítulo.

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O amor é lindo!

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Eudes Gouveia da Silva

Aí a decepção é o resultado

Aí a decepção é o resultado da enganação.

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KOCH

É o nome de um bacilo que dizimou por muitos anos centenas de milhões  de vidas por todo mundo. E ainda faz muitas vítimas.

Por quê não continuar honrando o sobrenome?

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O amor é lindo!

"...Ao invés de revelar seu

"...Ao invés de revelar seu objetivo último, eles deveriam agir por meio de etapas sucessivas. Por exemplo, ao tentar destruir o sistema de Seguridade Social, sustentariam que estavam salvando-o e argumentariam que ele quebraria sem uma série de 'reformas' radicais. Aos poucos, construiriam uma 'contra-inteligência', articulada como uma 'vasta rede de poder político' para, ao final, constituir um novo establishment."

Não sei porque mas isso me fez lembrar um certo país da américa latina...

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