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De cartas, capitais e todos os Brasis, por Rui Daher

De cartas, capitais e todos os Brasis

por Rui Daher

(Para o GGN)

Posso ter errado, mas das postagens de 03/08, no GGN, até as 18:50 haviam sido postados mais de 30 textos, sendo que apenas 3 não tratavam da pornografia de ontem. Correto. Caso é que o meu dia foi diferente. Volto ao hotel e mudo de assunto, escrevendo acompanhado de opções como Brahma ou Skol, que onde me hospedo nada das caríssimas "artesanais ou estrangeiras". 

Assim Luís Nassif começa prefáciio para o "Dominó de Botequim": "A crônica sempre foi a literatura do banal, a capacidade de dar um tratamento literário a cenas do cotidiano, de tirar um retrato de momentos, nos quais ficam desenhados sentimentos, informações, estados de espírito pontuais". Magistral, acerta na mosca o que sou, espero ser e que fiz hoje. Visito novamente clientes do Povoado do Moçambo, nas montanhas cafeeiras de MInas Gerais. Antes de sair, peço que me indiquem um alambique de boa cachaça. O técnico agrícola me leva a um amigo, pai e ele cafeicultores, mas guardaram uns hectares de cana e montaram um alambique. Da branca e da amarela, Marco Antônio, o técnico, e Rafael, o produtor não têm mais de 20 anos. Espertos, educados, solícitos, voluntariosos. Faço a prova e aposso-me de 5 litros. O pai desce da roça e se interessa em gastar 50% menos do que lhe cobram as multinacionais dos agroquímicos e obter melhor e maior produtividade.

Em outra propriedade, um caboclo já havia me dito que o médico de Passos (MG) já lhe receitara até um remédio específico para amenizar as doenças que vêm com as aplicações de agrotóxicos.

Nenhum dois dois comentou a Brasília de ontem. Pra quê? Precisam trabalha, colher café, produzir cachaça, alimentar as vacas. À noite, no povoado, conversam, namoram, dançam, comem e bebem, alguns vão a igrejinha. Nenhum deles se preocupará com o post matinal do N&P: Ontem, a democracia brasileira se mostrou em pleno financiamento". Como é bom voltar ao hotel sem ter conhecido ou ouvido falar dos "Vagabundos de Brasília".   

(Da CartaCapital)  

Na coluna anterior, nominei técnicos e funcionários do BNDES, que apoiados por pesquisadores da Embrapa Solos e Suínos e Aves, publicaram, em março deste ano, o estudo “Fertilizantes Organominerais de Resíduos do Agronegócio: Avaliação do Potencial Econômico Brasileiro” (BNDES Setorial 45).

Visto assim do alto, o estudo conclui o Brasil ser um dos maiores produtores e exportadores agrícolas mundiais, mas que para isso depende de importar cerca de 80% dos fertilizantes químicos consumidos.

Em contrapartida, e justamente por isso, poderia economizar mais de US$ 1,0 bilhão anuais “aproveitando a produção de resíduos dos setores sucroalcooleiro, bovino, suíno e avicultor de corte (...)” convertendo-os em adubos organominerais, ou o dobro disso, com preparados naturais, tecnologicamente modernos, por exemplo, originados de turfa (matéria-prima à base de restos vegetais acumulados por longo período de tempo em jazidas a céu aberto).

As três colunas tiveram pouca repercussão. Esperava. Joias nacionais pouco interessam aos nossos internautas. Afinal, não falei de Moro ou da mulher do Eduardo Cunha.

Isso me deixou sem jeito. O leitor e a leitora já ficaram sem jeito? Se logo depois o encontraram, ótimo. Minha impressão é a de que o Brasil político perdeu o jeito e jamais o encontrará. Sabe mingau, feijão, pirão, que desandam de um jeito sem volta? Se houver sobrado ingredientes, compensa começar um novo.

Pode ser apenas desconfiança tola minha, tal o enrustido em que agem as folhas e telas cotidianas, mas creio que o acordo de elites econômicas, perdura há cinco séculos, e esgotou a dispensa de ingredientes básicos da boa culinária: planejamento, dedicação e honestidade com os comensais.  

O Brasil passa por um grave período de esgarçamento do tecido social. De cima a baixo, nas política, economia e letargia dos segmentos subalternos, hoje espoliados em direitos básicos.

Sucessivos governos, sobretudo o atual que se mantém há um ano com golpinhos rastaqueras, destruíram os aparelhos políticos, econômicos e sociais do País. Um atraso a ser contado em décadas. Não gostamos de nos aprofundar em mazelas. Preferimos esperar o que o Jornal Nacional tem a nos dizer. É acreditar e embasbacar.

Recebi dezenas de e-mails relatando o que acontece no interior das joias citadas. Mostram covis políticos a desviarem do destino o dinheiro público. Preservo o nome das fontes. Sugiro uma consulta nos sites de seus sindicatos de trabalhadores e a lupa mostrará os pontos nevrálgicos de suas gestões.

É claro que políticas para energia de fontes reveis, um banco nacional de desenvolvimento, e um centro de excelência em pesquisas agropecuárias são importantes em qualquer país. Ainda mais se o país é vocacionado a produzir e exportar alimentos, fibras, biocombustíveis e produtos de madeira.

Em várias colunas citei analistas, economistas, especialistas daqui ou não, argumentando ser fundamental o papel do Estado nisso. Enriquecido pela natureza, as condições edafoclimáticas e a história de um povo a isso destinado. Nem tanto por vocação e mais por vontade de seus patrões que perderam o bonde da industrialização e da tecnologia.

Vista assim do alto, a agropecuária brasileira é pujante. Recorde atrás de recorde. Não sei se por muito tempo. Embora não me pretenda um Nouriel Roubini que antecipou a crise econômica internacional de 2007/8, continuar assim resultará em crise brava.

Não se analisa os entraves internacionais crescentes. Erra-se ao aumentar a produtividade em poucas sacas por hectare, intoxicando terras e plantas com agroquímicos; erra-se em ignorar as inovações tecnológicas naturais e orgânicas capazes de preservar suas lavouras ao longo do tempo; erra-se no imediatismo e no ataque aos biomas.

Usando-se também a lupa para enxergar a agricultura familiar e voltar a criar mais mercado interno, em saudável democracia, seremos duas Chinas querendo comprar para melhor viver com o que o nosso campo produz.

Parem, pois, de atrasarem o País em briguinhas de cúpulas ridículas, focadas em 2018. Não temam Lula. Ele ganha até perdendo.

 

 

 

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Flávio, vivo de recuperar sua saudade

Pensava estar descobrindo a pólvora, mas o Povoado era mais importante. Outro dia, numa palestra para estudantes de Agonomia de Muzambinho, perguntei do MOçambo. Poucos conheciam.

Abraços

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Clever Mendes de Oliveira

Não vale desistir se tudo conta mas não dá para agradar a todos

 

Rui Daher,

Ontem elogiei o seu post “Lucy Kellaway, please be back soon, por Rui Daher” de quarta-feira, 02/08/2017 às 08:09, publicado aqui no blog de Luis Nassif. O elogio foi feito em comentário enviado quinta-feira, 03/08/2017 às 19:20, junto ao post “Millor, a Lava Jato e a fábula do burro ou do canalha, por Luis Nassif” quinta-feira, 03/08/2017 às 07:06, aqui no blog de Luis Nassif e de autoria dele e que pode ser visto no seguinte endereço:

http://jornalggn.com.br/noticia/millor-a-lava-jato-e-a-fabula-do-burro-ou-do-canalha-por-luis-nassif

Vou transcrever aqui o elogio que envie lá para Luis Nassif sobre o seu post. No início era um elogio genérico em que eu dizia o seguinte:

“Sem desmerecer outros que eu talvez nem tenha lido, ontem seu blog apresentou três posts supimpas.”

E acrescentei ao referir ao seu post com o seguinte texto:

“Um segundo post foi “Lucy Kellaway, please be back soon, por Rui Daher” de quarta-feira, 02/08/2017 às 08:09, e de autoria de Rui Daher e que pode ser visto no endereço a seguir:

http://jornalggn.com.br/blog/rui-daher/lucy-kellaway-please-be-back-soon-por-rui-daher

No post, Rui Daher comenta a aposentadoria de Lucy Kellaway que escrevia no Financial Times e tinha suas colunas publicadas no jornal Valor Econômico onde ela discorria sobre a cultura nas corporações. Um post leve que foi beneficiado pela leveza dos comentários que foram enviados. Tão leves quanto o post ao ponto que eu me senti impedido de levar a carga pesada dos meus comentários.”

Outro post que eu elogiei e que vale ser mencionado aqui foi “Santa Corrupção, por Janderson Lacerda” de quarta-feira, 02/08/2017 às 15:46. O trecho do meu comentário para Luis Nassif com o elogio para o post de Janderson Lacerda foi o seguinte (Nas transcrições eu faço correções e emendas e supro omissões, para melhorar a clareza sem mudar o sentido):

“Houve o post “Santa Corrupção, por Janderson Lacerda” de quarta-feira, 02/08/2017 às 15:46, de autoria de Janderson Lacerda e que pode ser visto no seguinte endereço:

http://jornalggn.com.br/noticia/santa-corrupcao-por-janderson-lacerda

Aproveitando sua referência a Millor Fernandes, diria que o texto de Janderson Lacerda, autor que eu não conhecia, é uma fábula fabulosa ou uma alegoria incrível que finda com desfecho surpreendente. Vale ser mais lido e merecia ter tido mais divulgação e espero que a existência de um só comentário não espelhe a difusão que ele angariou.”

Trouxe o meu elogio para o post “Santa Corrupção, por Janderson Lacerda” porque ele não fala do presidente antes provisório agora cada vez mais definitivo às custas do golpe, Michel Temer, não fala de Eduardo Cunha, nem fala mesmo em Geraldo Alckmin, e talvez por isso tivesse tido poucos leitores, mas que é bonito assim mesmo, isso é.

Clever Mendes de Oliveira

BH, 04/08/2017

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Cléver, meu caro

nunca desistirei de nada que vise diminuir a dedesifualdade entre os brasileiros. Agradeço seus comentários, mas saiba, mesmo quando diverginos, ganho e aprendo.

Abraços

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E a vida segue...

Fique tranquilo, Rui. A gente continua fazendo a cerveja em casa ;-)

E lendo sobre as dicas que você escreve sobre agricultura.

Quem resumiu a história foi um twitter do Jornalismo Wando sobre a Janaína Paschoal:

"isso aqui é tão pueril, tão bonitinho, que dá dó zoar. Acho que vou parar"

Fui o que fiz.

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Hans, começo pelo fim, grande abraço

Bebo decalitros de cervejas. Já que o amigo é do ramo, minhas preferências são Serra Malte e HNK. Mas, nos campos onde ando, realmente, a oferta á a que citei. . Quanto às artesanais, muito caras, só tomo quando patrocinado. 

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só alegria

Viajar pelo interior  (cadê a carta?), falar com gente de verdade, tomar da pura do barril,...Só alegria!

Jornal nacional? ...Nunquinha!

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Emerson, caro

Você não imagina, nesses Brasis, depois de um porre à noite, ir para o café-da-manhã e enfrentar o Bom Dia Brasil, e depois sair para trabalhar. Maldição.

Abraços

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Moçambo! Rapaz, nos meus

Moçambo! Rapaz, nos meus tempos de PUC-Minas em Poços de Caldas andávamos implantando o Circuito Turístico das Montanhas Cafeeiras ali pelos altos de Minas - Muzambinho, Guaxupé, São Sebastião, Guaranésia, Juruaia, Jacuí, Arceburgo, Monte Santo e outras tantas -, quantas riquezas nesse Brasil profundo! Ô saudade boa!

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