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A delação premiada de Pedro Malasartes – Delírios noturnos do velho caduco

Intervenção sobre pintura de Domenico Ghirlandaio

Por Sebastião Nunes

Um grito de arrepiar alma penada atravessou as abóbadas do palácio do... Qual é mesmo o nome daquele bicho de perna comprida, pescoço vermelho e cabecinha preta? Ah, deixa pra lá. Bota aí tapujaca, jabiru, jaburu, tuiuiú, qualquer coisa do tipo.

Quem assim gritou, devastado de medo, foi o noivo-senador, apavoradíssimo, pulando da cama na luxuosa alcova presidencial-golpista.

Acabava de sonhar com uma figura sinistra de dentes compridos e sangue à beça escorrendo pela cara. Assustadora mesmo.

Quem seria? A falecida senadora, mãe de Malasartes, voltando do Inferno para atormentá-lo?  Não dava tempo. A república moribunda? Como, se a república morreu faz tempo e a direita escondeu a defunta debaixo do tapete? A justiça? Ora, não me faça rir: justiça é palavrão indecoroso para uso de pilantras togados. Os próprios remorsos? Que remorsos? Canalha não tem remorso. Canalha só tem bolso e conta no paraíso.

DELÍRIO QUE SEGUE

O chefe-de-gabinete-para-assuntos-nupciais, doravante, chefe-de-etc., apareceu do nada, atraído pela infame gritaria. E parou na porta da alcova, de boca aberta.

Pois o distinto senador estava assim: peladão e branquelão, sentado na cama, os raros cabelos brancos espetados, as pelancas da cara escorrendo que nem gema de ovo, as muxibas do corpo, coitadas, numa luta danada para manterem em decente postura as amarfanhadas carnes senatoriais...

O chefe-de-etc. torceu o nariz. “Tá danado”, pensou. “Pelo jeito esse aí não casa nem dá golpe. Vai acabar entregando a rapadura pro PSDB e pro DEM”.

– O que foi, senador? – perguntou por perguntar. – Algum pesadelo?

– Dos mais medonhos – ripostou o senador, abanando-se com um lenço de seda, mimo recebido da deliciosa ex-miss, sua noiva, minutos atrás, antes que ela virasse borralheira atrás das cortinas, onde já a esperava o jovem mordomo traíra. – Sonhei com um feroz árabe das mil e uma noites me degolando com uma cimitarra.

– Seria mais uma vez o Ali Babá?

– Esse mesmo: o Ali Babá e seus 40 ladrões.

– Mas por que estava te degolando?

– Porque eu queria tomar o lugar dele com meus 400 ladrões.

– 400? Tantos assim?

– Claro. Perto de minha tropa de choque Ali Babá é fichinha. Se eu comandasse só 40 ladrões não chegaria, no Brasil, nem a vereador.

 

SONHO MAIS QUE DOURADO

– Vamos ver se entendi – perseverou o chefe-de-etc. – A ideia do senador é roubar o comando de Ali Babá sobre a quadrilha dele, se apoderar das riquezas dele, da caverna e do palácio dele, e ainda obter a ajuda de Morgana, a enteada dele.

– Nem tanto, nem tanto – interrompeu o senador. – Quero a quadrilha dele, as riquezas dele, a caverna e o palácio dele. Morgana, não, Morgana tá fora.

– Medo da deliciosa ex-miss, sua noiva e futura esposa, ficar com ciúme?

– Isso mesmo – concordou o senador. – Veja só. Eu passei dos 70 anos, a cabeça começa a ratear e o corpo idem.

– Não é bem assim, senador – puxou o saco o chefe-de-etc. – O senhor está mais inteiro que coco maduro.

– Coco bichado, você quer dizer – e o senador olhou de banda seu chefe-de-etc., tentando descobrir algum feliz desmentido nos olhos dele. Não descobriu nada.

– Continuemos – continuou despeitado o senador. – Claro que minha noiva só é minha noiva por conta do que tenho e do que terei. Em poder e riqueza.

– Concordo – concordou o chefe-de-etc.

Dentro de poucos anos terei passado dos 80 e ela será ainda uma gata de 30 e tantos anos. Bonita, deliciosa, e rica.

– Concordo – concordou o chefe-de-etc.

 

APRIMORANDO AS CONTAS

 – Dentro de 20 anos terei passado dos 90 e ela será ainda uma bonita, deliciosa, rica e apetecível jovem senhora de 40 e poucos anos. Uma balzaquiana moderna.

– Concordo – concordou o chefe-de-etc.

Continuemos – continuou o senador. Dentro de 30 anos terei passado dos 100 e ela será uma senhora rica, ainda bonita e deliciosa até certo ponto.

– Concordo – concordou pela quarta vez o chefe-de-etc. – E o senhor não passará de um velhote caindo aos pedaços, dói-aqui-dói-acolá, todo torto, babando nas pelancas, esquecido de tudo, só querendo dormir, só querendo sonhar.

– Tá explicado ou não tá? – concluiu o senador. – Tenho de aproveitar é agora, enquanto só tenho 70 e tantos, a cabeça funciona mais ou menos, consigo ainda dar uma bimbada de vez em quando e tenho um plano de saúde caríssimo.

– Mas, senador, raciocine comigo – entrou nas contas o chefe-de-etc. – Será que vale a pena para gozar um ano de poder, se é que o golpe vai durar um ano, casar de novo, bimbar de vez em quando, se é que, e ainda botar um batalhão de detetive na cola da deliciosa ex-miss, por mais recatada que ela seja, mas sabe como é, novinha ela...

– Claro que vale.

– E será que vale a pena tomar o lugar de Ali Babá e se cercar de 400 ladrões dispostos a tudo e a mais um pouco?

– Claro que vale.

– E será que vale a pena, pra fortalecer esses 400 ladrões, destruir o país inteiro, empobrecer ainda mais o povo, arrasar a cultura e acabar com a educação?

– Claro que vale. O país sifu! O povo sifu! Eu quero é gozar!

– É – conclui o chefe-de-etc. – O diabo do velho tá caducando mesmo.

E lá se foi o senador-caduco-golpista-noivo-velho em desfile pela Esplanada dos Ministérios seguido pelos 400 ladrões, entoando aos berros e em coro:

– O Brasil sifu. Eu quero é gozar!

– O Brasil sifu. Eu quero é gozar!

– O Brasil sifu. Eu quero é gozar!

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O pior de tudo é que na

O pior de tudo é que na cabeça dos golpistas, tudo se resume a isso. 

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