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O que é uma nação? Servirá o Brasil de exemplo?, por Sebastião Nunes

por Sebastião Nunes

Socratião, reencarnação brasileira de Sócrates, estava sentado de pernas cruzadas e mãos entrelaçadas, à maneira dos iogues. Acabara de voltar da Índia e pegara a mania dos velhos budistas desocupados. Em volta dele, tentando desajeitadamente sentar-se do mesmo jeito, encontravam-se os discípulos Platião (reencarnação de Platão), Fedontião (reencarnação de Fédon), Antistião (reencarnação de Antístenes) e Cebestião (reencarnação de Cebes). Na porta da sala, Xantipa olhava feio para os vagabundos.

 

LIVRO PRIMEIRO

            – O que é uma nação? – indagou o cínico Socratião. – Algum de vocês saberia me explicar o que é uma nação?

            – Eu posso – disse o linguarudo Platião, o aristocrata de ombros largos. – Nação é um enxame de pessoas vivendo em comum por vontade própria.

            – Quer dizer que cada seita evangélica constitui uma nação diferente? – retrucou Socratião. – Não te parece limitada sua definição? Alguém tem sugestão melhor?

            – Nação é uma comunidade estável, guiada por leis comuns – disse Fedontião.

            – Vamos supor que sim – admitiu Socratião. – De forma que, dessa comunidade, alguma pessoas vivem no Brasil, outras na Austrália, outras na China. Além disso, cada cardume fala uma língua diferente. É esse o seu conceito de nação?

            – Nação é uma comunidade estável, guiada pelas mesmas leis, vivendo num mesmo território e falando a mesma língua – disse Fedontião, acrescentando território e língua a seu conceito de nação, numa tentativa de engrupir o velhote.

            – Ainda não basta – disse Socratião. – Me parece que algo falta para chegarmos ao significado de nação. Talvez o conceito de parasitismo delirante galopante. E esse negócio de estabilidade está me parecendo delírio.

 

LIVRO SEGUNDO

            – Andei discutindo o assunto com Aristotião – disse Platião. – Os elementos constituintes de uma nação, segundo ele, são território, língua, religião, costumes, leis e tradição. Esse conjunto de fatores constituiria uma verdadeira nação.

            – Vejamos se ele está conceitualmente certo – disse Socratião. – São Paulo e o Nordeste brasileiro constituiriam uma verdadeira nação, segundo Aristotião?

            – Não creio – disse Antistião. – O povo formador de São Paulo, em sua maioria, só pensa em poder e grana, enquanto os nordestinos, via de regra, gostariam de ser felizes (sic), se e quando fosse possível neste saco de gatos tropical tupiniquim.

            – Escravos e senhores constituem uma mesma nação, ainda que vivendo no mesmo território, possuindo os mesmos costumes e falando a mesma língua?

            – É evidente que não – interveio Cebestião. – Pensei exatamente nessas duas cáfilas: São Paulo e Nordeste. Notoriamente, São Paulo costuma escravizar os nordestinos ou sugá-los que nem morcego hematófago. Eis o parasitismo urbano.

 

LIVRO TERCEIRO

            – Vamos suspender o juízo por alguns instantes e cuidar de outros aspectos – ponderou Socratião, coçando o nariz e acomodando-se melhor sobre as pernas. – No caso do Rio de Janeiro, vocês diriam que constitui uma nação com São Paulo e Minas Gerais? E, indo um pouco além, também com o Norte?

            – Creio que não – disse Platião. – Os cariocas, pelo menos os abençoados por Deus e bonitos por Natureza, vivem de praia, futebol e samba.

            – E os demais cariocas? – indagou Socratião.

            – Ah, esses vivem grimpados nos morros – respondeu Platião –, treinando bala perdida, entregando droga a domicílio e promovendo arrastões turísticos.

            – Preconceituoso você, hein, Platião? – ironizou Fedontião. – Com certeza você reencarnou paulistano, daí tanto preconceito contra o Rio.

            Platião, que tinha estopim curto, saltou em cima de Fedontião, no que teve de ser contido por Antistião e Cebestião, que o mantiveram subjugado e de cara no chão. Não antes, porém, que Fedontião tivesse o nariz e dois dentes quebrados por um murro do irritável Platião.

 

LIVRO QUARTO

            – Vejamos Minas Gerais – continuou Socratião, sem ligar para a briga. – Seu operoso (sic) povo vive entre montanhas, trabalha (sic) em silêncio e é dividido em seis partes: Centro, que gravita em torno do Curral del Rei; Sul, que gravita em torno de São Paulo; Triângulo, que gravita em torno do próprio umbigo; Zona da Mata, que gravita em torno do Rio de Janeiro; Vale do Rio Doce, que gravita em torno dos Estados Unidos e Vale do Jequitinhonha, que gravita em torno da miséria e do calorão mais infernal deste lado do mundo. O mais importante, contudo, não é isso.

            – E o que será mais importante, mestre? – indagou o puxa-saco Euspesitião, que acabava de reencarnar e achou a arenga de Socratião longa demais, temendo perder leitores pelo excesso de firula.

            – Uma nação, suponho, deveria ser uma alcateia de pessoas vivendo no mesmo território, falando o mesmo idioma tendo os mesmos costumes e, principalmente, buscando realizar os mesmos objetivos, que seriam comuns à grande maioria do povo. Infelizmente, este último quitute não é exequível atualmente nestes tristes trópicos em que reencarnamos. E digo mais: ele me parece completamente utópico.

           

LIVRO QUINTO

            Depois dessa nova arenga, Socratião se calou. Platião pensou se o velho mestre não estaria caducando. Fedontião ponderou se não estaria na hora de fundar sua própria escola. Antistião passou a cantarolar um sambinha. Cebestião, com lágrimas descendo pela cara barbuda, bebeu a taça de cicuta destinada a Socratião e apagou ali mesmo.

            Socratião, desalentado, balançou a cabeça e finalizou:

            – Bem que tentei, mas me parece impossível transformar o Brasil numa nação, mesmo que formada de cáfilas, enxames, cardumes ou alcateias. Mas devemos cair fora, pois vejo que Xantipa perde a paciência e já nos ameaça de vassoura em punho.

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João Bosco

"Nação" X "Ganância+Egoísmo+Preconceitos"

O sentimento de Nação parece ser inversamente proporcional à intensidade da adesão da Lei de Gerson.
A Lei de Gerson não tem fronteiras, idade, raça, credo, ...
A Nação pode ultrapassar fronteiras também, mas isso não necessariamente significa que uma Nação não aplique a Lei de Gerson sobre outras Nações.
Talvez o conceito de Nação, no atual estágio de evolução da humanidade, seja mesmo utópico. Num futuro longínquo, que sabe ... Isso se não houver autodestruição antes.

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Acusador Intolerante

quanto ódio

por são paulo expresso nesse panfleto; ah se fosse falado do nordeste as barberagens que falam de sp aqui...

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Trago humildemente ao grupo

Trago humildemente ao grupo de filósofos, junto com umas brejas para agradá-los, uma questão: e propriedade, o que é a propriedade?

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André STK

Muita hora nessa calma

Muita hora nessa calma Sebastião.

Não vá dar luz para cego

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ze sergio

o que é....

Por que a censura?

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ze sergio

o....

Censura não esconde nada mas revela muito sobre um país. E tem gente que quer explicar o porque da situação do nosso país? Ditadura e censura continuam a solta, estão entranhadas nas nossas elites intelectuais e midiáticas 

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Um Brasil distante

É provavel, que num futuro incerto, o Brasil sobreviva em locais distantes. Se destruirem por completo este país e o Império o ocupar, fazendo de nós uma colônia, ainda assim, o Brasil poderá continuar a existir.

Quando Israel foi destruída pelos romanos e a diáspora foi feita, o país de ISrael continuou existindo nos costumes dos Israelitas que se exilaram nos confins do mundo.

Assim poderá ser com o Brasil, os brasileiros poderão a continuar a existir, porém vivendo em países distantes como Austrália, Bélgica e Canadá, por muitas gerações e por muitos séculos. Talvez os brasileiros deste tempo distante, nem falem mais português, falem inglês ou francês, mas continuarão a ser brasileiros.

Talvez estes brasileiros distantes se submetam a legislação e costumes diferentes do nosso, mas continuarão a ser brasileiros, se assim o quiserem.

Talvez os filhos e netos destes brasileiros nascidos no exterior falem língua diferentes da nossa, tenham nacionalidade diferente da nossa, mas continuarão a ser brasileiros de coração, se assim ainda quiserem.

 

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Ze Guimarães

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J.Conselheiro

Nação Brasil

As verdadeiras nações existiram no passado, eram as nações indígenas. Os guaranis, tupis, aymarás ,sioux, apaches, kaiowas. As atuais, são arremedos de nações que sobrevivem às custas de ditaduras como a China, Cuba ou aquelas menores onde prevalece os mesmos costumes e religiões como o Iran, Israel e outras  bem menores  isoladas por fenômenos climáticoso como Finlândia Islândia Noruega etc.. O Brasil infelizmente deixou de ser uma grande nação quando a imigração se acentuou principalmente no sul e sudeste. São Paulo por conta de sua alta taxa migratória não pensa como o Brasil. Dizer que os descendentes de italianos, japoneses, alemães tem algum sentimento de brasilidade é brincadeira. Esse pessoal não sabe o que é o Brasil verdadeiro. É por isso que eles não suportam a pobreza, os costumes e a crença de quem nasce no norte no centro oeste e no nordeste. São Paulo tolera o Brasil. Digo isso por que tenho família de outras nações, vivo numa cidade cuja grande maioria é de imigrantes italianos e sinto na carne o preconceito por quem é do norte, do nordeste e mesmo do centro oeste. Somos uma nação? Sim. À nossa maneira, mais não se sabe até quando isso perdurará.Esse pessoal migrou para o Brasil, na sua grande maioria chegou fugido das guerras ou da fome. aqui chegando criou família se estabeleceu. Com seu trabalho ajudou a construir o país foram adotados como filhos, com justiça. Hoje, infelizmente, grande parte deles se considera os únicos donos e nutrem por aqueles que aqui moravam quando chegaram um ódio e um preconceito inaceitáveis. 

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Prezado Bom dia No pais da

Prezado

Bom dia

No pais da senzala, todos querem ser casa grande !

Abração

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Mário Mendonça

Pessoas com mesma crise

Tenho uma noção um tanto peculiar e controversa de Nação . Nação sãoum grupo de pessoas que é afetada pela mesma crise.

Quem não é afetado por uma crise nacional, acaba na maioria das vezes se achando o super homem, a última bolacha do pacote; e não dá a mínima para o futuro desta Nação, as vezes até ajuda a piorar a crise. .

Por exemplo, o Brasil está numa crise econômica de lascar. Doze milhões de desempregados, PIB em queda Livre.

Aí acontece o seguinte :

Exemplo 1 :

Mas aí tem um grupo de concursados de alto escalão que não acreditam ser da mesma Nação, pois sua estabilidade no emprego e seus salários astronômicos os tornam imunes à crise. Então eles não só não fazem nada para acabar com a crise, como até fazem para agravar a crise, perseguindo e quebrando empresas que seriam parte importante do PIB.

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Exemplo 2  O Brasil com sua crise de arrebentar, e milhões de pessoas pensando que a vida só vai melhorarna próxima reencarnação, quando puderem reencarnar em outro país. Mas aí tem um pequeno grupo de pessoas que pensam ser da " elite " e vivem mais no exterior do que aqui. Mas precisamente em Miami. Então, porque elas não são afetadas pela crise, acreditam não fazer parte desta Nação, e até saem falando mal do Brasil no exterior. Vão em passeatas promovidas pela midia ( que não dá a mínima pelo país ) curtem quando empresas nacionais gigantescas são quebradas por uma operação policial, afinal eles estão longe demaispara serem afetados, pelo menos é o que eles ilusóriamente pensam.

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Exemplo 3 : O Brasil com a maior crise econômica dos últimos 500 anos, milhões de pessoas sem perspectiva de vida. Mas aí aparece um grupo de pessoas que trabalha na mídia, e sobrevivem com gorda verba publicitária, que o governo lhes dá para que não se voltem ( mais ainda ) contra ele. Então, estas pessoas da mídia fazem tudo para acabar com o país haja visto que acreditam que a crise nunca as atingira, agem como se nem brasileiros fossem. Estimulam a quebradeira de empresas pelas operações policiais, e tudo o mais que podem para gerar o caos .

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Enfim, todo mundo que vê o Brasil afundar, mas acha que está fora deste barco, acaba por não se achar integrante desta Nação.

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Ze Guimarães

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