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A nova República Velha - o golpe, por Sérgio Saraiva

Qualquer análise sobre o Brasil atual necessita, para fazer sentido, de considerar que não vivemos mais em um regime democrático. 

A nova República Velha

por Sérgio Saraiva

A partir do afastamento de Dilma Rousseff instalou-se no Brasil uma oligarquia.

Quando consideramos o pressuposto do regime oligárquico, todas as incongruências do nosso momento se explicam. O mais abjeto corporativismo é a forma de estrutural das oligarquias.

A oligarquia é uma forma ilegítima de poder, donde não há porque não chamar de golpe a forma como ela assumiu o poder.

Uma oligarquia, com a desculpa antecipada pelo pleonasmo, é essencialmente antidemocrática, ainda que possa ser populista. Mas, no caso do Brasil, o país da casa-grande e da senzala, essa oligarquia é demófoba e antinacionalista.

A oligarquia dependente

Para descrever como atual ideologicamente o grupo que tomou o poder no Brasil farei uso das palavras do professor Bresser-Pereira que assim o descreve em uma explicação sobre a “Teoria da Dependência”:

“a coalisão de classes  dependente é situação em que as elites locais, econômica, políticas e intelectuais, em um processo de alienação, preferem se associar de forma subordinada às elites dos países ricos, notadamente os EEUU, em vez de se associar ao seu próprio povo. Sujeitas à hegemonia ideológica dos países ricos, são incapazes de se constituir como nação, resultando na adoção de políticas econômicas antinacionais – políticas que não atendem aos interesses do desenvolvimento nacional e que não interessam ao país, mas aos países dominantes”.

Faltou ao professor acrescentar “políticas que não atendem aos interesses do desenvolvimento nacional, mas aos interesses dessas elites que obtém ganhos individuais alienando o patrimônio coletivo do país aos interesses estrangeiros”

A partir daí, não parece difícil entender as razões do nosso Procurador Geral da República e dos procuradores da Lava Jato viajarem aos Estados Unidos para receber instruções vindas da “cooperação internacional” que esse país pratica com os países que aceitam tal cooperação.

Assim como parece se prover de lógica a destruição das nossas empresas de engenharia de construção pesada e naval bem como a alienação do pré-sal. Lógica também passa a ser as ações do senador e “chanceler” José Serra.

Ascensão ao poder não democrático.

É a mesma oligarquia que vem sustentando e derrubando governos desde o 2º Império. Esteve no poder de 1889 a 1930. Conspirou em 1954, apoiou a Ditadura de 1964 e renegou-a. Na redemocratização, passou a governar por prepostos – Temer é mais um deles. Collor foi um erro de avaliação – elegeu-o e derrubou-o. Voltou ao poder com FHC, caiu com ele.

Soube, no entanto, se aproveitar do ápice da democracia brasileira, as Jornadas de Junho de 2013 dos efeitos da Crise de 2008 para retomar o processo de conspiração que sempre a caracterizou.

A oligarquia que nos governa, a partir de maio de 2016, é formada na sua base pelo poder econômico rentista e pela mídia hegemônica e conservadora. Seu elemento de força para o exercício do poder não democrático é arregimentação de partes do Poder Judiciário e da Polícia Federal.

Assenhorado o poder de coação, atuou em duas frentes políticas.

Uma no Congresso Nacional, por um lado apoiando e protegendo o grupo formado pelos políticos patrimonialistas derrotados por Lula em quatro eleições consecutivas, e por outro constrangendo a base de apoio não ideológica Dilma Rousseff – que fisiológica e corrupta aderiu ao poder oligárquico como forma de proteger-se. A eles juntaram-se os pura e simplesmente traidores.

Outra junto a parte da classe-média conservadora e reacionária instrumentalizando os seus preconceitos em relação aos símbolos que cercam a figura de Lula. E levando às ruas com ações de marketing voltadas a eventos de massa.

Estabelecida essa base de sustentação, seguiram-se a perseguição e o aprisionamento da estrutura de comando do Partido dos Trabalhadores e a intimidação da parte do Judiciário e da intelectualidade não adesista.

Aos amigos tudo, aos inimigos a fria letra da lei. E do direito penal do inimigo. É típico das oligarquias.

É constrangedor, ainda que compreensível, assistir ao papel que vem desempenhando o STF no processo de impeachment e revoltante as agressões a que vem sendo submetidas figuras públicas que não apoiam o golpe e assim se manifestam.

Onde está o exército do Stédile?

Caberia aqui questionar porque não houve reação ao golpe a ponto de impedi-lo. E poderia se buscar a resposta fácil de que ninguém defende um governo que não se defende.

A resposta, porém, parece-me muito mais complexa. E talvez, dada a sua complexidade não sejam estes o espaço e o momento adequados. Mas deixo alguns pontos de reflexão:

O PT no poder: nossa revolução sem Bastilha e sem guilhotina

No Brasil, manda quem pode: Lula podia?

A formalização do poder

Mesmo já tendo assumido o poder, é necessário dar ao golpe algum verniz institucional. Nem para evitar-se questionamentos internacionais. Daí o circo do impeachment. Daí a oligarquia dar-se ao trabalho de uma encenação sem mais nenhuma credibilidade.

E que não pareça que o longo e desgastante processo de impeachment contemple alguma concessão ao direito de defesa de Dilma Rousseff ou uma possível reversão do resultado já decidido.

Trata-se antes da “estratégia da graduação” de Noam Chomsky: “para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente. Passo a passo ao longo de um período de tempo que dure o suficiente para que se amorteça na opinião pública uma mudança que que teria provocado uma revolução se tivesse sido aplicada de uma só vez”.

Até porque, para efeitos práticos o golpe já está consumado desde 17 de abril de 2016.

 

PS1: Michel Temer, até por suas mesóclises, não faria feio no papel de genro bem-educado de um dos barões do café da República Velha. Até na imagem representa um retrocesso a um passado oligárquico.

PS2: Oficina de Concertos Gerais e Poesia - um antro de perdição democrática desde o tempo em que as pastilhas chloroboratadas de Cocaïna Midy eram vendidas na Pharmácia Popular

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7 comentários

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Sempre brilhante, quer na

Sempre brilhante, quer na Oficina, quer não. Obrigada Cronista. Pelo fio se Cronos, você nos leva em segurança. É sempre muito bom podermos clarear um pouco mais a nossa nebulosa visão com tua caneta. Obrigada.

Veja só, desde sempre. Agradecida ao Assis por ter indicado.

http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/judicializacao-da-politica-ou-a-...

Um abraço.

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Anna Dutra

“políticas que não atendem

“políticas que não atendem aos interesses do desenvolvimento nacional, mas aos interesses dessas elites que obtém ganhos individuais alienando o patrimônio coletivo do país aos interesses estrangeiros”

OU...

trocando o país por espelhinhos.

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A volta ao passado

Toda hora esse mantra repetido: golpe, golpe, golpe, o país voltou ao passado, não basta ter voltado ao regime de 1964, agora querem que tenha voltado até à República Velha.

Mas essa discussão é inútiol: foi ou golpe ou não? De qualquer maneira, a ausência de reação contra o impedimento da presidente deixa claro que o governo já havia perdido o apoio popular.

O PT pode perfeitamente voltar ao poder em 2018, mas será apenas um partido entre outros, como aliás já tem sido.

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duvido muito...

acredito que levará no mínimo 20 anos para tudo, o todo, o país, voltar ao normal

 

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e quer saber por que acredito?

porque todo jovem tem sua luta

e os que temos querem apenas se divertir à pampa

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imagem de Maria Silva
Maria Silva

Nada a acrescentar ...

É isso mesmo. Retrocedemos ao período pré-30. Está se constituindo uma republica oligarquica, excludente e autoritária. Mas assim como aquela, esta também um dia haverá de cair. E eu estarei nas barricadas ... assim espero.

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exercito do Stédile ou mais uma bomba semiotica ?

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o que me faz crer que sofremos também um experimento empresarial

riquezas estatais divididas e privatizadas, entre oligarcas, nunca deixará de ser o início de um colapso, com mercado parado ou esperando definições e tendências, e pessoas sendo demitidas

e qual é o oposto disso tudo, de um colapso?

diria que o oposto é a abertura de novos negócios e contratação de pessoas

desenhando:

- muitos se deram bem e seguem completamente alheios ao perigo

- uns alheios por estarem satisfeitos e outros alheios por quererem mais

maioria dos que foram ajudados são "ingratos"

viro a folha e desenho novamente:

todos nunca tiveram porra nenhuma, nenhuma atenção especial, mas acreditam que os governos trabalhistas não fizeram nada mais do que suas obrigações

o melhor negócio com um povo desse será sempre o futuro, nunca o presente

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