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Carta aberta sobre o feminicídio

Enviado por Spin GGNAUTA

Nassif e demais ggnautas, conheço pessoalmente o Dr. Jorge de Lima, autor desta carta. Ele é fisicamente cego desde quando o vi pela primeira vez, ainda na década de 80. Conheci através de meu médico, o Dr. Carlos Lima, que já faleceu. O assunto é o feminicídio seguido de suicídio, fato ocorrido dias atrás no interior de um dos maiores shoppings centers da regiào metropolitana de Goiânia - Rio Meia Ponte.

Carta aberta a imprensa sobre o assassinato da ultima sexta feira

Por Jorge Antonio Monteiro de Lima

Resolvi como amigo intimo de Juliana Paiva e da família me manifestar. Peço a todos um pouco de reflexão em respeito da família que nestas horas sofre muito com esta tragédia, existem crianças envolvidas e a especulação e o sensacionalismo barato a que chegamos pouco se importa com as pessoas em questão pensando apenas em vender por falta de
conteúdo. Por ter profunda ciência de toda situação venho a público me manifestar para em nome da família e dos amigos de Juliana tentar por termo as especulações baratas dos meios de comunicação e das redes sociais.

Os rumos tomados pela imprensa e nas redes sociais  com o tradicional sensacionalismo, com distorção da realidade, fofoca virando noticia, muita especulação e fantasia, tornando fato o ruído comunicativo são impressionantes. Existem coisas e questões mais importantes a se discutir neste fato como o aumento da violência contra a mulher, do despreparo de profissionais de segurança pública, de como laudos para porte de arma tem sido feitos. Quem vai ser a próxima vitima?


Hoje assistimos a mais um caso de mulher assassinada na região de Goiânia. Mais um dado na triste e péssima estatística da região. Mas por aqui a mulher diariamente é desrespeitada. No caso de minha amiga quando ela deixa de ser vítima de uma atrocidade passando a
réu:"ela provocou" o mais típico absurdo deflagrado pelo machismo. Provocou por ser mãe, mulher, professora de dança, tímida, quieta? Ate quando nossa sociedade vai atenuar o estuprador, o que espanca, o que abusa?

 Conhecia Juliana desde seus 4 anos de idade e por ela virei amigo de sua família. Em 2014 comecei a produzir ela como cantora em uma segunda atividade que tenho como músico e produtor musical. Fomos bons amigos conversando muito sobre tudo na vida, sabendo inclusive de seus relacionamentos.

A primeira falha de todo processo de comunicação  começa quando o nome de Juliana é
trocado por bruna. O segundo absurdo é quando ocorre uma enxurrada de fotos da crueldade, reproduzida a exaustão nas redes sociais,um processo patológico de puro sadismo. Uma doença coletiva de seres humanos que vivem como urubus. Compreendemos que o fato toma outras proporções pelo grau da tragédia e que isto impressiona as pessoas. Mas confesso que fico chocado ao ver que boa parte da imprensa embarca no sensacionalismo e não checa as fontes reproduzindo o senso comum em um enorme ruído comunicativo regado a sangue e sadismo. O boato vira fato reproduzido a exaustão pelos meios de comunicação que não checam a veracidade dos fatos.

Convivi com a Juliana por mais de 20 anos e sua família. Juliana não namorava o rapaz que a assassinou e toda imprensa repete isto a exaustão. Namoro é convívio pacífico, carinho, amor, respeito. Esta é mais uma história de obsessão patológica  com revolta diante da negativa e da frustração. Ele queria a namorar e ela não queria e por isto retirou sua vida suicidando na sequencia em puro egoísmo, não pensando em seus próprios filhos, na filha de Juliana, em sua mãe ou em qualquer outra pessoa, um assassino que é mais um egoísta como os milhares que existem por ai.  Um rapaz problemático, violento, agressivo pouco dado ao respeito com outras pessoas. Aquele tipinho que fica rondando, cercando, estudando os habitos de sua vitima em pura obsessão. Os tipos que não conseguem estudar, ter carreira e que pela brutalidade
natural tem vida social complicada. Um homicida nato esperando uma vitima que infelizmente foi nossa amiga.

Eu como profissional de saúde não atenuo nenhum tipo de agressão ou de agressor. Conheço bem esta realidade por ajudar várias instituições que tem mulheres e crianças como vitimas da violência urbana. O mesmo rapaz dito bonzinho para a mãe ou os filhos, com as pessoas na
rua, por vezes é um crápula em seus relacionamentos pessoais. Em um relacionamento sadio existe o convívio, a cordialidade, a presença amiga e este não foi o caso desta questão. O rapaz para a família foi um desconhecido cujo convívio não existiu. Era o ser que não passou da porta da rua para dentro de casa, embora a imprensa sem checar as fontes queira dizer o contrário. Eu sou amigo de Juliana e ela sempre me apresentava seus amigos e na atualidade ela estava solteira, mais caseira e quieta. Estava preocupada com trabalho, em criar sua filha.

Aproveito o ensejo deste material para pedir a pais e amigos que jamais aceitem um filho ou filha se envolvendo com tal tipo de pessoa. Não devemos ser coniventes com pessoas que não mostram educação e respeito, cordialidade mostrando um lado violento. Educação deve ser exigida em um relacionamento sadio. O pretendente homem ou mulher de um filho deve
sentar conosco a mesa e nos olhar nos olhos conviver, mostrar a que veio. Eu digo ainda que devemos ter tolerância zero com pessoas violentas , homens e mulheres, ao menor sinal de falta de respeito rever o "relacionamento" e diante da agressão ou ameaça denunciar, pedir socorro a parentes e amigos. Juliana era uma pessoa doce, tímida, calma e extremamente reservada com sua vida pessoal. Estava sendo ameaçada ha algumas semanas mas como varias outras mulheres se calou, achando que sozinha podia contornar a situação, com pena de seu assassino. Quantas outras mulheres não vivem isto? A violência e o silencio não podem
coexistir. Se você for um amigo ou parente não se cale jamais diante disto, e lamentavelmente existe por aqui muita omissão e silencio de todos, condenando a figura da mulher como a causadora de toda violência.

Esta é mais uma triste história cujo enredo é: "se você não é minha não vai ser de mais ninguém" em pura imaturidade afetiva regada a violência e egoísmo. Mas nossa imprensa bem informada disse o contrário que eram namorados, e que tinham bom convívio. Porém o fato real para quem convivia com Juliana era que para ele ela era sua namorada, para ela ele era um estorvo, um cara pegajoso que não largava de seu pé.A doença do querer e não poder.

Mas o grave de toda esta história que merece nossa atenção: O estado tem parcela de culpa neste fato. Primeiro por que hoje em dia não seleciona mais como deveria os responsáveis pela segurança municipal, estadual, federal.O treinamento rigoroso de uma academia de policia hoje é negado com contratações temporárias, com laudos e testes feitos sabe se lá como. Quem foi o psiquiatra e psicólogo que lhe deu um laudo para que este individuo tenha porte de arma e para que possa integrar as forças de segurança? Quantos laudos tem sido fraudados ou comprados em bacião sem avaliação minuciosa? Quem assinou estes laudos exigidos como parte da seleção de um membro das policias? por que a imprensa não investiga isto a fundo? Por que as autoridades não responsabilizam tais profissionais que atestam como normal uma pessoa complicada? Quantos outros  casos vão acontecer ate que tenhamos uma providencia neste sentido? Quanto custa um laudo de sanidade mental para porte de arma?

Lecionei vários anos no programa escola sem drogas para a nossa PM  e policia civil e respeito muito nossas policias, todavia não respeito o descaso da atualidade, que deveria ser mais rigoroso na seleção e treinamento do efetivo das forças de segurança.  Um treinamento sério de um policial deveria durar pelo menos seis meses e ser eliminatório. Porem o estado para não ter ônus burla a regra e quer o mais barato evitando concursos pondo qualquer um nas guardas. Por isto vemos professores espancados no passo municipal e ameaças de morte a promotores de justiça. Quantos vão morrer por este descaso e descuido na segurança pública?

Que toda esta história nos faça rever o quanto nossa sociedade é violenta. Peço as pessoas encarecidamente que poupem a família e as crianças. Oração e serenidade é o que precisamos. Que esta história nos faça rever toda nossa violência contra a mulher, contra o próximo, contra as crianças, contra amigos e familiares. Não basta reclamar deste mundo violento se nos nutrimos dos pedaços de escândalo que reproduzimos, sem reflexão.

Jorge Antonio Monteiro de Lima
Analista pesquisador em saúde mental psicólogo clinico e musico
http://on.fb.me/1z4XXOE
Jorge Antônio Monteiro de Lima
Analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo  clínico músico
MSC em antropologia social


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Colaborador desde 1996 do Jornal Diário da Manhã Goiânia GO.
Colaborador desde 2005 do portal café Brasil São Paulo SP.
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Colaborador desde 2013 do Jornal Diário de Aparecida- Aparecida de Goiânia GO.

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A necessidade de se consumir a próxima tragédia, o próximo corpo que cai, a cada instante.

A necessidade de ficcionar um enredo em nome de audiência... tudo muito triste na espécie humana.

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Odonir Oliveira

“A colheita é comum, mas o capinar é sozinho” G. Rosa

          

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