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31 de Março de 1964: deflagrada a ‘Operação Brother Sam’

Por Tamára Baranov - Rio Claro/SP

Em 31 de Março de 1964 foi deflagrada a ‘Operação Brother Sam’ pelo governo dos Estados Unidos, sob a ordem de apoiar o golpe de 1964 caso houvesse algum imprevisto ou reação por parte dos militares que apoiavam Jango. A ‘Operação Brother Sam’ consistia de toda a força militar da Frota do Caribe, liderada por um porta-aviões da classe Forrestal da Marinha dos Estados Unidos, além de todas as belonaves de apoio requeridas a uma invasão rápida do Brasil pelas forças armadas norte-americanas. O embaixador Lincoln Gordon queria a intervenção rapidamente, se o golpe não tivesse vingado, o Brasil seria invadido, a poderosa Frota do Caribe estava ao sul do Espírito Santo, nas águas próximas à cidade do Rio de Janeiro. Como Jango foi avisado pelo general Amaury Kruel que se resistisse haveria a invasão pela Frota do Caribe, resolveu acatar aos acontecimentos e exilou-se no Uruguai para evitar uma guerra civil. 

 

O Desencadear da Operação Brother Sam

Coisas do Brasil

Dois anos antes do golpe militar, documentos registram, em junho de 1962, o alinhamento do governo norte-americano às conspirações contra o governo de João Goulart. Uma conversa entre o presidente John Kennedy, o assessor Richard Goodwin e Lincoln Gordon, membro do Partido Democrata ligado à Central Intelligence Agency (CIA), embaixador no Brasil desde 1961; deixa clara a intenção da Casa Branca em intervir nas eleições brasileiras de outubro de 1962, apoiando quem fosse contra a esquerda e à ameaça comunista. É revelado que o governo americano está disposto a doar 8 milhões de dólares às campanhas de candidatos pró-estadunidenses.

No Brasil, o maior movimento de sabotagem contra o governo de João Goulart vem do centro de propaganda do Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática). O instituto realizava campanhas acirradas antijanguistas, veiculadas principalmente na imprensa, que não se limitava à imparcialidade ética jornalística. Através da CIA, o Ibad teria recebido entre 12 e 20 milhões de dólares para movimentar a operação de desmoralização do governo de Jango. Era o prelúdio da Operação Brother Sam, desencadeada dois anos depois.

Em novembro de 1963, John Kennedy era assassinado no Texas. Com a ascensão de Lyndon Johnson à presidência, as relações entre os governos brasileiro e norte-americano são cada vez mais tensas.

A Operação Brother Sam, veementemente negada por seus protagonistas, entre eles Lincoln Gordon, está registrada em detalhes na documentação histórica do Congresso estadunidense. Muitos desses documentos sigilosos foram publicados pela primeira vez no Brasil por Marcos Sá Corrêa, no “Jornal do Brasil”, em dezembro de 1976. Através desses documentos, pode-se desenhar com pormenores os meandros da Operação Brother Sam.

Em 1964, o coronel Vernon Walters era o adido militar da embaixada norte-americana no Brasil. Walters era um velho amigo de Castelo Branco desde a Segunda Guerra Mundial, onde trabalharam juntos na Itália. Na tarde de 30 de junho, dois dias antes da vitória do golpe militar de 1964, Walters informava o secretário de Estado Dean Rusk, em Washington, da sua conversa com o general Ulhoa Cintra, sobre o desencadear de um movimento militar que iria acontecer muito breve, para depor João Goulart do poder. Informava ainda, que o amigo Castelo Branco, após renunciar à chefia do Estado-Maior, seguiria para São Paulo, ao lado de Gaspar Dutra e Cordeiro de Farias, de onde deveria comandar as operações golpistas.

Dean Rusk afirma que o movimento golpista contará com o apoio econômico e militar do seu país. Traça uma logística para uma intervenção norte-americana, disponibilizando transporte aéreo que poderá aportar em um aeroporto brasileiro, sugerindo a cidade de Recife para o local de pouso. Para isto, pede mais notícias da operação militar no Brasil.

O embaixador Lincoln Gordon responderá às indagações de Dean Rusk às 13h00 do dia 31 de março, quando o movimento golpista militar já está em plena ação, com a sublevação desencadeada pelo general Olympio Mourão Filho. Gordon alerta o seu governo a uma possível necessidade de armas e munição para guarnecer os golpistas.

Em resposta, a marinha americana ordena o envio de uma frota rumo a Santos, litoral paulista, desencadeando a operação que receberia o codinome de Brother Sam. Os militares norte-americanos estavam prontos para uma intervenção, invadindo o Brasil e assegurando a vitória aos golpistas.

Os Americanos Estão Chegando

Às 13h50 do dia 31 de março de 1964, um informe iniciava a Operação Brother Sam. A poderosa Frota do Caribe vislumbrava na costa brasileira, estando entre cinquenta e doze milhas náuticas ao sul do Estado do Espírito Santo, pronta para intervir tão logo obtivesse um sinal do embaixador Lincoln Gordon.

A Frota do Caribe trazia no seu aparato bélico: Um porta-aviões da classe Forrestal; um navio de transporte de helicópteros, com uma carga de cinqüenta helicópteros portando tripulação e armamento completo; seis destróieres; cento e dez toneladas de armas leves e munições; vinte aviões C-135 para transporte de material bélico; quatro petroleiros armazenando cento e trinta mil barris com gasolina comum e de aviação, óleo diesel e querosene.

No dia 1 de abril de 1964 os militares instauravam o golpe de Estado. Na noite de 2 para 3 de abril, o senador Auro de Moura Andrade, anunciava no Congresso, em Brasília, que a presidência da República estava vaga. Às 3h45 da madrugada, o presidente da Câmera, deputado Ranieri Mazzilli, foi empossado como presidente provisório da República. Naquele momento, o subsecretário de Estado George Ball reconheceu o novo governo, antes mesmo de avisar o presidente Lyndon Johnson, que ainda dormia em Washington.

Afastado do poder, João Goulart buscava apoio na sua terra natal, o Rio Grande do Sul, numa última tentativa de resistir ao golpe. Naquele dia, em Porto Alegre, Jango foi informado de que os EUA reconheceram o novo governo, e que uma operação militar norte-americana de apoio aos golpistas tinha sido deflagrada. Para evitar uma guerra civil e derramamento de sangue, o presidente deposto partiu para o exílio no Uruguai. O golpe militar estava consolidado.

Tão logo acordou, Lyndon Johnson pôde comemorar em Washington, a queda de João Goulart. A ameaça vermelha tinha sido eliminada no maior país da América Latina. O subsecretário de Estado dos EUA, Thomas Mann, comentaria com Johnson que aquele tinha sido o movimento mais importante acontecido no hemisfério sul nos últimos três anos. Às 17h50 do dia 3 de abril, um informe ordenava que a Operação Brother Sam fosse abortada:

Ultra-secreto. Assunto: Força-Tarefa com porta-aviões (...) A situação atual no Brasil não exigirá a presença da Força-Tarefa com porta-aviões em águas oceânicas ao Sul do país conforme ordenado na referência A. Por conseguinte, as instruções contidas na referência A ficam (...) canceladas. As forças envolvidas serão reenviadas [as outras] áreas”.

Todas as provas da operação que se tornara fantasma teriam que ser encobertas. Oficialmente, o governo da Casa Branca declararia que acionara a operação para resgatar civis se houvesse uma guerra civil no Brasil. Restava explicar ao Congresso norte-americano o gasto exorbitante com uma operação que não servira para nada, tornando-se um espectro da história da Guerra Fria.

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