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Blog de Ricardo Cavalcanti-Schiel

Bilhões de dólares em armas para os jihadistas sírios: quem as forneceu?

Bilhões de dólares em armas para os jihadistas sírios: quem as forneceu?

Por Thierry Meyssan, no Réseau Voltaire.

Tradução de Ricardo Cavalcanti-Schiel

Ao longo de 7 anos, bilhões de dólares em armamento ingressaram ilegalmente na Síria, fato suficiente para desmentir a narrativa pela qual essa guerra seria uma revolução democrática.

Por ocasião da libertação de Alepo e da captura do estado-maior saudita que aí se encontrava, a jornalista búlgara Dilyana Gaytandzhieva constatou a presença de armas do seu país nos recém abandonados depósitos dos jihadistas. Ela anotou cuidadosamente os registros inscritos nas caixas e, de regresso à Bulgária, investigou a forma como essas armas teriam chegado à Síria.

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O capitalismo morrerá de overdose por excesso de sucesso, diz Wolfgang Streeck

Ilustração Outras Palavras

Enviado por Ricardo Cavalcanti-Schiel

do Outras Palavras

Entrevista com Wolfgang Streeck, sociólogo, diretor do Instituto Max-Planck (Alemanha)

Tradução publicada no Outras Palavras. Originalmente publicado no L'Espresso, de Roma.

O diagnóstico de Wolfgang Streeck, diretor do Instituto Max-Planck de Colônia, é implacável: “A crise atual não é um fenômeno acidental, mas o auge de uma longa série de desordens políticas e econômicas que indicam a dissolução daquela formação social que designamos capitalismo democrático”.

“O capitalismo está morrendo de overdose de si mesmo.” Esta é a tese do sociólogo Wolfgang Streeck, diretor do Instituto Max-Planck de Colônia, um dos centros de pesquisa mais importantes da Europa. Em seu último livro, Como Acabará o Capitalismo? Ensaios sobre um Sistema Fracassado, Streeck conduz um diagnóstico impiedoso sobre a patologia do capitalismo democrático, aquela formação social particular que, no pós-guerra, havia alinhado democracia e capitalismo em torno de um pacto social que lhe conferia legitimidade. Por volta dos anos 1970, com o fim do crescimento econômico, e depois, com o avanço da revolução neoliberal, aquele pacto social começa a acabar. O capital avança, a democracia recua. Ele atropela as limitações políticas e institucionais que haviam contido o “espírito animal” do capitalismo. Que vence — mas vence demais… Hoje, a revolução cumprida, o capitalismo está em ruínas porque teve muito sucesso, diz Wolfgang Streeck. Leia mais »

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Curdos: a nova bucha-de-canhão dos Estados Unidos no Oriente Médio

Foto Diário Liberdade

Sugestão de Ricardo Cavalcanti-Schiel

no Blog do Alok

(traduzido pelo Coletivo Vila Vudu), originalmente em AlraiMediaGroup

Curdos: a nova bucha-de-canhão dos Estados Unidos no Oriente Médio

por Elijah J. M.

O líder do Curdistão Iraquiano, presidente Masoud Barzani, convocou um (segundo) referendum geral sobre a independência dos curdos, com data já marcada para 25 de setembro desse ano. Parece determinado a concretizar o sonho de estabelecer um estado curdo no Oriente Médio.

Esse movimento coincide com o apoio, pelo governo dos EUA, aos curdos sírios nas províncias do norte, em al-Hasaka, Raqqah e Deir al-Zour. O objetivo é constituir outra Federação Curda que siga os passos dos "irmãos" iraquianos – ou até mesmo os preceda. Leia mais »

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A Revolução na Finlândia, por Eric Blanc

Enviado por Ricardo Cavalcanti-Schiel

no Esquerda.net, de Lisboa. Originalmente na revista Jacobin

A Revolução na Finlândia

A esquecida Revolução Finlandesa talvez tenha mais lições para nós hoje do que os acontecimentos de 1917 na Rússia

por Eric Blanc

No último século, histórias sobre a revolução de 1917 geralmente focaram-se em Petrogrado e nos socialistas russos. Mas o Império Russo era predominantemente composto por não-russos – e os levantes na periferia imperial eram, frequentemente, tão explosivos quanto os do centro.

A queda do czarismo em fevereiro de 1917 desencadeou uma onda revolucionária que imediatamente engoliu toda a Rússia. A Revolução Finlandesa, que um estudioso definiu como “a mais nítida guerra de classes na Europa do século XX”, talvez tenha sido a mais excepcional dessas insurgências. Leia mais »

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Uma síntese do aecismo

por Conceição Leme, no Viomundo

Rogério Correia, que há 13 anos investiga a turma de Aécio Neves: todos sabiam das denúncias, mas Aécio foi blindado. Leia mais »

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Nova guerra fria: faz sentido?, por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Nova guerra fria: faz sentido?

por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Comentário ao post "A miopia da 'nova guerra fria' sob a perspectiva anti-Rússia e anti-bolivariana"

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra: a ideia de nova guerra fria faz sentido a meias, como síntese discursiva com certo apelo retórico.

Da mesma maneira como a primeira guerra fria não era a confrontação diplomática, propagandística, de inteligência e de armamentismo entre o "mundo livre" e o "mundo novo" da utopia socialista, mas sim a confrontação entre dois blocos de poder geopolítico, também a nova guerra fria insinua-se como a mesma coisa, sem ser o que declara: a "(pseudo-)democracia americana de livre-comércio" contra "o ingerencismo autoritário sino-russo".

Quem cair na leitura estreitamente ideológica (mesmo que seja só para qualificar um dos lados e manter silêncio sobre o outro) estará caindo numa esparrela.

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Inglaterra: o vendaval Jeremy Corbyn, por Antonio Martins

Sugestão de Ricardo Cavalcanti-Schiel

do Outras Palavras

Inglaterra: o vendaval Jeremy Corbyn

por Antonio Martins

Últimas pesquisas revelam: líder trabalhista, claramente identificado com esquerda e nova cultura política, está a um passo de vencer eleições. Repercussão internacional seria imensa

Uma sondagem eleitoral divulgada esta manhã (6/6), em Londres, voltou a sobressaltar os conservadores – e a mostrar que continua aberta, em meio à crise global, a porta para uma alternativa de esquerda renovada. O Partido Trabalhista ampliou seu avanço notável, e está agora apenas 1,1 ponto percentual atrás dos Conservadores, na disputa das eleições parlamentares marcadas para esta quinta (8/6). O movimento é surpreendente por três motivos. Uma vitória trabalhista era considerada sonho lunático há apenas seis semanas, quando a primeira-ministra Theresa May convocou o pleito antecipado. A campanha trabalhista, liderada por Jeremy Corbyn, propõe uma reviravolta completa nas políticas de “austeridade” praticadas na Europa e em quase todo o Ocidente. Além disso, inclui um forte aspecto de nova cultura política: é fruto de uma rebelião das bases trabalhistas contra a política de conciliação e de alinhamento com os EUA, adotada pelo partido há pelo menos quatro décadas.

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O pragmatismo de curto fôlego de uma certa esquerda, por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Foto: Agência PT

Por Ricardo Cavalcanti-Schiel

(comentário ao post “Podemos fazer mais?”, de Ion de Andrade)

A análise que Ion de Andrade oferece – ao debate que aqui se vem travando sobre as "possibilidades" de uma esquerda petista – se concentra quase exclusivamente na dimensão institucional da política, ou seja na dimensão de governo, supondo como pacífica a tese de que Lula será eleito como próximo Presidente da República.

Creio que isso produz um duplo efeito perverso sobre o sentido da análise. Primeiro, que a torna meramente instrumental(izada) quanto à percepção do que seja o campo da política, sobretudo no que respeita às construções simbólicas nesse campo (algo sobre o quê os antropólogos teríamos algo a dizer, mas que os cientistas políticos em geral não têm). Segundo, que a hipótese Lula é apenas uma hipótese e que, ao absolutizá-la como alguns pretendem (talvez para lhe outorgar o efeito performativo de verdade), não se faz mais que continuar míope dentro do campo mesmo da institucionalidade política.

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A nova aliança do empresariado com o Judiciário

Foto - CartaCapital

Enviado por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Entrevista com o cientista político Vitor Marchetti, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), na Carta Capital.

na CartaCapital

"Aliança das empresas com o poder político foi incapaz de estancar sangria"

por Débora Melo

Diante da incapacidade de Michel Temer e seu grupo político de “estancar a sangria” provocada pela Operação Lava Jato, o setor produtivo brasileiro decidiu romper sua aliança com a classe política. Esta é a análise que faz o cientista político Vitor Marchetti, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), sobre o vazamento da delação de Joesley Batista, um dos donos da JBS.

Temer foi gravado dando aval a Batista para a compra do silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A gravação foi feita em ação conjunta da Polícia Federal com a Procuradoria-Geral da República. Para Marchetti, o que está em curso pode ser um novo pacto, desta vez entre os agentes econômicos e o Judiciário.

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Bancos devoram metade da renda de quase 30% da população mais pobre

Sugestão de Ricardo Cavalcanti-Schiel

da Agência Brasil

Quase 30% da população mais pobre comprometem metade da renda com empréstimos

por Bruno Bocchini

Estudo da Serasa Experian mostra que 27% da população de baixa renda, com ganhos de até R$ 2 mil, tem mais de 50% de seus rendimentos comprometidos com produtos financeiros, como cartão de crédito, empréstimo consignado, empréstimo pessoal, financiamento de automóvel, financiamento imobiliário e cheque especial.

Entre os brasileiros de alta renda, que recebem acima de R$ 10 mil, o percentual é de 13%.

Os dados foram divulgadosno dia 9 de maio, no Recover Money 2017, evento que reúne, na capital paulista, economistas, especialistas, empresas do segmento financeiro e fornecedoras de serviços de recuperação. Os números levam em conta cerca de cinco milhões de consumidores que aderiram ao cadastro positivo da Serasa Experian.

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Foi a Dilma, estúpido!, por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Foi a Dilma, estúpido!

por Ricardo Cavalcanti-Schiel

O choque neoliberal causou a maior crise da história

Pelo Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp (Cecon), na Carta Capital

O Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp (Cecon) inicia neste mês de maio a publicação de uma série de notas de conjuntura. A primeira, “Choque recessivo e a maior crise da história: A economia brasileira em marcha ré” , de autoria de Pedro Rossi e Guilherme Mello, discute as causas da atual crise econômica brasileira e apresenta um diagnóstico segundo o qual o choque recessivo de 2015 foi o seu principal fator explicativo.

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Governos progressistas da América do Sul evitaram mudanças estruturais, diz Fabio Luis Barbosa

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Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Enviado por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Entrevista com Fabio Luís Barbosa dos Santos, no Correio da Cidadania

Incapazes de responder à crise estrutural do capitalismo global, que já alcança uma década, os governos de esquerda da América Latina vão beijando a lona ou vendo o ressurgimento de alternativas radicalmente antissociais, sem formular respostas à altura. Para analisar o desencanto, entrevistamos Fabio Luís Barbosa dos Santos, que acaba de lançar o livro "Além do PT . A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana", que se presta a analisar as razões do fim do ciclo.

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Marcha pela Ciência: um gesto contra ofensiva irracionalista, por Roberto Leher

Enviado por Ricardo Cavalcanti-Schiel


Foto: Diogo Vasconcellos - CoordCOM/UFRJ

Manifesto do Reitor da UFRJ sobre a Marcha pela Ciência

Por Roberto Leher
Reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

Do portal da UFRJ


O Brasil caminha na contramão do que seria a melhor estratégia para enfrentar uma crise econômica: investir em conhecimento científico, pesquisa e inovação. Não nos faltam exemplos de povos que também passaram por momentos dramáticos nesse sentido, mas que apostaram no fortalecimento das universidades, dos institutos públicos de pesquisa e do aparato de Ciência e Tecnologia, por meio dos blocos de poder que se reconfiguravam no calor das lutas sociais.

Foi assim no contexto da Revolução Francesa, em que as grandes Écoles e universidades foram apoiadas vigorosamente; na criação da Universidade de Berlim, que se deu em um contexto de severa crise e de guerra; e na crise de 1929, em que a universidade estadunidense foi ampliada progressivamente e a pesquisa foi fortalecida com forte apoio estatal. Países como a China respondem à crise econômica mundial com mais investimentos em ciência.

O dramático quadro da economia no Brasil ganhou novos contornos com o agravamento da crise política. Como corolário, é tomado ainda por uma tectônica crise de legitimidade do Executivo, da grande maioria do Legislativo, de setores do Judiciário e de vastos segmentos da grande imprensa.

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O atestado de um suicídio político, por Ricardo Cavalcanti-Schiel

por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Publicado no Periódico Diagonal, de Madrid

Tradução para o português do autor

Projetos políticos não são aquilo que se põe no papel. Não são os programas que se apresentam nas eleições. Projetos políticos são antevisões de sociedade, ou seja, de maneiras de regulação da vida comum. Eles vão sendo buscados, construídos, polidos, insinuados antes ou até além do que se explicita. Às vezes é preciso até decifrá-los. Às vezes, acabam não sendo encontrados, porque, de tão erráticos, acabam se perdendo: enunciam uma coisa e na prática produzem o contrário.

Esse é o momento em que um projeto político ―se antes existia― perde seu combustível, perde o ar que o mantém vivo: o momento em que já não tem mais legitimidade. Muitas vezes persiste como um zumbi, porque sua legitimidade lhe é emprestada por aquilo que o nega; respira o ar de outro e já não vive mais por razões próprias; se converteu em sua negação. E se torna um zumbi antes de mais nada porque não se dá conta de nada disso. Não se trata aqui de reivindicar algum tipo de fundamentalismo (e a consequente negação das mudanças conjunturais), como um certo “esquerdismo”, essa “doença infantil”. Antes de mais nada, trata-se aqui de reivindicar a capacidade de se dar conta.

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Polícia transforma pré-carnaval de Campinas em caos

Por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Tomo a liberdade de escrever em primeira pessoa, algo que não faço nem nos meus relatos etnográficos, onde esse tipo de registro tem um considerável significado metodológico.

Eu havia acabado de postar uma matéria aqui no meu espaço de blog, hoje, sábado, 30 de janeiro de 2016, e, vislumbrando pela janela do meu apartamento a movimentação das pessoas na rua, senti-me aguçado pela curiosidade de ver in loco o acontecimento social do dia em Campinas.

Apenas ver, dedicar-me a um breve flaneurismo etnográfico, como curioso observador que sou das paisagens humanas. Tratava-se de um evento pré-carnavalesco que, ao que parece, reuniria blocos e foliões precoces em torno do Centro de Convivência Cultural (CCC), uma praça localizada a apenas três quarteirões de onde moro.

Meu relato sobre o evento em si é deliberadamente impreciso, porque tudo o que pude saber a respeito dele foi o que vi, antes dele acontecer, por volta das duas da tarde, quando fui até o supermercado que fica junto ao CCC, e observei uma infra-estrutura de toldos e espaços seccionados notavelmente produzida, como eu nunca havia visto antes naquele local. Ao redor dela e ao longo de alguns quarteirões do entorno já se agrupavam os tais foliões precoces, com camisetas de blocos, além de vendedores de bebida e uma espécie de arremedo de praça de alimentação espalhada, com pontos no estilo food-truck. Pensei comigo: carnaval de campineiro parece que tem um quê de shopping-center.

De fato, essa região está longe de ser considerada “popular”. Trata-se de um bairro que qualquer observador taxaria de “classe média alta”. E não apenas isso. Início do circuito dos bares, restaurantes e casas noturnas pelos quais ainda se entra pela calçada da rua, essa região específica mereceria em algum outro lugar mais espirituoso que Campinas o epíteto de “baixo Cambuí”.

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Mais "mestiço" que puro

Por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Comentário referente ao post "O samba brasileiro é música de branco"

Vou discordar do Nassif (que é músico) e falar como antropólogo (não mais que melômano).

A provocação do título da postagem é boa, mas não resolve o assunto. Ao lançar uma provocação a certa obsessão racialista contemporânea pelos pedigrees, pode-se, ao mesmo tempo, cair na armadilha da lógica mesma do pedigree. Quando se pensa dentro de uma gramática, fica-se preso a ela. Para pensar diferente é preciso sair do quadrado da gramática (o que os racialistas, evidentemente, não estão dispostos a fazer, porque para eles sua gramática é sagrada).

Tomar como parâmetro de reconhecimento de uma linguagem a clivagem tonalismo/modalismo pode ser apenas reiterar o ponto de vista da música ocidental.

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As clivagens políticas em tempos de cólera, por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Tradução do próprio autor do artigo publicado no Periódico Diagonal (Madri, 25/08/2015)

É bem conhecido no Brasil o emblema político que serve para caracterizar as atitudes de uma esquerda que, seja por excessiva ingenuidade, seja por dogmatismo míope, seja por simples teimosia, torna-se presa fácil da direita: é a esquerda que a direita gosta. Romper a naturalidade do consenso conservador exige uma destreza para a qual a singeleza das ideias não é suficiente. É preciso muito mais astúcia. Os vários séculos de vigência de uma ordem social pesadamente segregadora, hierarquizante e autoritária no Brasil, transformou o sistema de valores conservador no termo “natural” ―uma “naturalidade” da qual muitas vezes sequer a esquerda escapa.

Para usar um conceito da linguística, é possível dizer que, no espectro político brasileiro, a direita tem sido o termo “não marcado”, o termo da generalidade, enquanto que a especificidade, a excepcionalidade, a “marcação”, essa não só é o que cabe à esquerda, como também foi sempre o seu estigma e anátema. Não se trata simplesmente da novidade que as utopias carregam. As próprias ideias de justiça social e participação cidadã, a simples fórmula republicana de que todo o poder emana do povo, na falta de uma narrativa da irrupção popular no espaço da governança, ocupam o lugar do anômalo no campo das experiências históricas e no curso do pensamento social no Brasil.

O recente decênio do Partido dos Trabalhadores (PT) no governo federal tampouco fez vislumbrar um mínimo de sentido que fosse para uma ideia tão exótica como a de poder popular ― ou de poder “dos de baixo”. A narrativa (ou contranarrativa) que se vinha gestando desde a segunda metade dos anos 80 sobre a ampliação da cidadania e o fortalecimento institucional do espaço público (mais que tão simplesmente do Estado) ― que animou a primeira década e meia de existência do mesmo Partido dos Trabalhadores ― em algum momento foi amputada, foi como que domesticada e reduzida ao gueto de legitimidade corporativa e clientelista das ONG’s, e estava já definitivamente derrotada, mesmo dentro do PT, quando ele chegou, por fim, ao governo federal.

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O tempo, o implacável, o que virá, por Ricardo Cavalcanti-Schiel

(Comentário ao post "Contra diálogo, FHC está no lado errado da História, por Paulo Moreira Leite")

"El tiempo, el implacable, el que pasó,
Siempre una huella triste nos dejó,
¡Qué violento cimiento se forjó!
Llevaremos sus marcas imborrables.

Aferrarse a las cosas detenidas
Es ausentarse un poco de la vida.
La vida que es tan corta al parecer
Cuando se han hecho cosas sin querer."

(Pablo Milanés)


O problema de certos analistas é o de lerem a política com os olhos do desejo, e não com os olhos da racionalidade da própria política.

Em 2003 eu estava fazendo trabalho de campo na Bolívia quando eclodiu a "guerra do gás", que viria a defenestrar o presidente neoliberal Gonzalo Sánchez de Lozada em outubro. Lá por setembro, o governo Lula enviou o Marco Aurélio Garcia como emissário, que chegou à Bolívia defendendo que as partes em conflito sentassem para conversar. A primeira coisa que eu pensei ao ouvir isso pela rádio Erbol, em uma comunidade quechua no meio dos Andes, foi: o "conciliacionismo" do Lula perdeu o juízo. Será que eles não percebem que qualquer momento de conversar por aqui já passou há muito tempo? o momento agora é de confrontação, e qualquer saída para essa crise só vai pôr seus termos na mesa após essa confrontação.

Parece que o "conciliacionismo" só se pauta pela conveniência própria, jamais pelos pesos e medidas da dinâmica política.
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A lógica profunda das classificações "raciais"

(Comentário ao post "Desigualdades raciais e mercado de trabalho no Brasil")

A "explicação" com que opera o artigo "Desigualdades raciais e mercado de trabalho no Brasil" caracteriza um tipo de "causalidade" sociológica que só se sustenta sobre a miragem de uma conta de chegada: não só haveria uma correlação necessária entre acesso ao mercado de trabalho e cor, como também que o seu caráter "irredutível" se explicaria de modo suficiente pelo atavismo igualmente irredutível da "discriminação racial". Trata-se de uma correlação entre coisas que seriam "absolutas" ("raças" e oportunidades); uma correlação que se quer límpida e transparente por meio dos "números".

Isso é, na verdade, mais um caso de reificação mistificadora dos números, em que o fatalismo funciona como transcendente causal. Assim, as consequências de um longo processo socio-histórico multicausal são reduzidas à condição de causa unívoca (a da "discriminação racial"), que funciona para lavrar uma "verdade" a-histórica: a das raças. Leia mais »

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Ainda os "enigmas" de junho de 2013

(comentário ao post "A crise irá derrubar PT e PSDB")

Pelo que eu pude perceber até agora, e como alguém desse meio profissional, nas ciências sociais brasileiras parecem ter-se consolidado duas grandes linhagens interpretativas para dar conta do fenômeno das jornadas de junho de 2013.

À diferença da obtusidade ideológica de certa "esquerda" governista (ou talvez melhor dizendo, do governismo puro e simples), as ciências sociais partem da constatação um tanto óbvia de que junho de 2013 realmente aconteceu. E esse "realmente aconteceu" significa que ele merece ser observado como um fenômeno produzido por uma causalidade complexa, e não como mero incômodo existencial para as certezas domésticas daquela obtusidade ideológica. Leia mais »

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A ciência e sua circunstância, por Ricardo Cavalcanti-Schiel

(resposta ao post "Desenvolvimento pede regulamentação da profissão cientista")

Este debate, da maneira como está sendo sugerido pela colega da UFRJ, me parece equivocado.

Fazer ciência não implica em ter cientistas formalmente nomeados como tal, com carteirinha e sindicato. A produção científica vai muito além dos corporativismos. O que eu defendo, ao contrário da colega, é que é bom que assim seja.

Em primeiro lugar, a pergunta óbvia seria: cientistas profissionais para trabalharem aonde? Centros de pesquisa autônomos no Brasil são francamente minoritarios em termos de estrutura institucional, e isso é compreensível pela forma como a produção científica se organiza no país.

Atualmente, o Brasil produz cerca de 15 mil doutores por ano. Há apenas 5 anos, esse número estava na faixa dos 10 mil. No final do governo FHC, esse número era de 6.300, e à época do governo Collor, era apenas 1.000. A Meta 14 do Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado por lei em junho de 2014, projeta alcançar 25.000 doutores e 60.000 mestres titulados anualmente em 2024. (No período de 2002 a 2012, o número de mestres titulados por ano passou de 24 mil para 47 mil).

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A bonita campanha italiana contra a agressão a mulheres

A bonita campanha italiana contra a agressão a mulheres

Há 52 anos, um ano após o julgamento do nazista Adolf Eichmann em Jerusalém, o psicólogo social norte-americano Stanley Milgram realizou em Yale sua famosa experiência sobre a obediência à autoridade. Tratava-se de submeter voluntários ao que lhes era anunciado como um experimento sobre aprendizagem sob pressão. Nele, os voluntários assumiam o papel de “professor”, secundado pelos cientistas que monitoravam o teste, para fazerem perguntas a um suposto “aluno” (na verdade um ator).

Estimulados pelos cientistas, os voluntários deveriam acionar uma máquina que aplicava choques elétricos crescentes, a partir da marca de “choque leve”, aos 15 volts, cada vez que o aluno errava uma resposta a respeito de um tema sobre o qual supostamente fora treinado. 65% dos voluntários alcançou a marca fictícia dos 450 volts, enquanto o aluno-ator há muito já implorava que parassem o teste e enquanto a própria “máquina de choques” indicava para os próprios voluntários que aos 300 volts já se tratava de choque severo, com a indicação de perigo.

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A presidente em seu labirinto, por Ricardo Cavalcanti-Schiel

A nomeação da nova gerência da área econômica do governo federal e a promessa de entrega da pasta da agricultura para a arquirruralista Kátia Abreu são sinais bastante evidentes de que a presidente Dilma Roussef não entendeu muita coisa dos movimentos simbólicos que ocorreram na última campanha eleitoral.

Ela já não tinha entendido nada do que se passara em junho de 2013, e parece que as suas restrições intelectuais continuam notavelmente robustas. E, pior que isso, ela parece solitária, autônoma e onipotente na sua soberana obtusidade. A não ser, é claro, que o restrito clube dos próximos, o arco dos conselheiros (se eles existirem), seja apenas uma nau que, a pretexto de alguma escassa pragmática, encontra-se na verdade à deriva, no nevoeiro de uma política definitivamente sem carta nem bússola.

No caso da economia, a nomeação de Joaquim Levy não se trata apenas de uma concessão ao mercado financeiro, uma tentativa de apagar o pequeno fogo de alguns desajustes com uma sobredose de ortodoxia neoliberal. E no caso da agricultura, não se trata apenas de entregar um setor à agenda do agronegócio, social e ambientalmente predatório.

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Brasil perde um dos seus mais importantes cientistas sociais

 

Faleceu por volta das 21:30 de ontem, 26 de março, vítima de um acidente de trânsito no Km 92 da Rodovia Bandeirantes, o diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, Prof. Dr. John Manuel Monteiro, quando regressava da universidade para sua residência em São Paulo.

Historiador e antropólogo, John Monteiro foi um pioneiro na construção do campo temático da história indígena no Brasil, não apenas produzindo uma obra analítica densa e relevante, como também criando e estimulando a abertura de espaços institucionais e de interlocução acadêmica sobre o tema. Não seria exagerado dizer que foi em larga medida por conta do seu esforço dedicado que esse campo de estudos foi um dos que mais cresceu no âmbitos das ciências humanas no país desde a publicação do seu já clássico “Negros da Terra: Índios e Bandeirantes nas Origens de São Paulo” (1994) até o momento. Leia mais »

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A renúncia em protesto do antropólogo Marshall Sahlins

 

A renúncia em protesto

No site “Inside Higher Ed”, 25 de fevereiro de 2013 - 03h00,

por Serena Golden

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