Luis Nassif

Entrando no restaurante, o sujeito que não conheço me olha de um modo que não traduzo. Em outros tempos, seria um bom início de conversa. Puxaríamos assunto, fosse turista ou nativo falaríamos da velha Poços de Caldas, descobriríamos afinidades musicais, às vezes amigos comuns e raramente se falaria de política.

Agora, o clima é tenso. Fico imaginando que, a qualquer momento, o sujeito virá em minha direção de dedo em riste, deblaterando contra minhas posições políticas, me acusando de "petralha" e me obrigando a bate-boca em público.

A direita saiu do armário, dirão os especialistas. Mais que a direita, a intolerância.

Não apenas a direita troglodita, mas também uma nova direita cheia de maneirismos, travestida de um humanismo de boutique, defensora das grandes teses de igualdade apenas para o eixo Rio-Miami, para seus círculos sociais, mas avalizando todos os ataques políticos aos inimigos e todas as ameaças às políticas sociais que amparam  a plebe malcheirosa. Leia mais »

Média: 4.8 (24 votos)

Xadrez do Hommer Simpson e do desmonte nacional

 
Nos últimos dias tive dois contatos marcantes. Um deles, com um autêntico representante da ultradireita delirante. Outro, com um representante típico do Homer Simpson.
 
Vamos por parte.
 
Fomos apresentados à direita delirante por um amigo gozador, que juntou os três casais em uma feijoada. O sujeito era oftalmologista, estudara nos Estados Unidos, em uma universidade da qual não me recordo o nome, mas, segundo ele,  muito mais afamada que Harvard, tinha sido convidado a trabalhar em um órgão do governo norte-americano, muito importante, e do qual não me recordo o nome, e cometeu outros feitos expressivos, dos quais não me recordo a relevância.
 
Ele se informa em sites de ultra-direita, não confia em nada do que sai na imprensa e acredita em tudo o que lhe dizem seus pares.
 
Quando elogiou minha origem libanesa, por ser uma raça pura, percebi que a conversa ia ser marcante. 
 
Ele é contra todas as raças impuras, diz que Donald Trump vai colocar as coisas nos eixos (sem jogo de palavras). Garantiu, sem pestanejar, que Michele Obama é transexual; que Barack Obama não é Barack Obama, mas um sujeito que se faz passar por Barack Obama. Trata os negros como macacos. E me passou a mais retumbante das revelações que, segundo ele, tem sido sonegada por toda a imprensa ocidental. Aliás, apostou comigo como não conseguiria publicar nem no meu blog a relevante informação de que não há mais peixes no Oceano Pacífico.E não adiantou argumentar que desastre desse tamanho não seria sonegado nem pelo Estadão, mesmo se fosse de responsabilidade do PSDB.
 
Pulemos para o simpático Homer Simpson, que me aborda no boteco de Poços.

Leia mais »

Média: 4.7 (64 votos)

Pessoal,

 

Em Poços de Caldas, na minha adolescência, havia o Natal dos Desamparados. Íamos até a ceia com nossas famílias, depois nos mandávamos para a casa das amigas Goga e Malala, onde se reuniam os desamparados, sem família em Poços. E lá festejávamos até o sol raiar.

 

Estamos pensando em fazer um Sarau especial de fim de ano em Poços juntando os amigos do Blob: o Reveilon dos Desamparados, ou Xô, 2016!.

 

Leia mais »
Média: 5 (7 votos)

Xadrez de como o MPF tornou-se uma força antinacional

Peça 1 - o cenário pré-Lava Jato

A Lava Jato vai revelando dois aspectos do estágio de desenvolvimento brasileiro.

O primeiro, a corrupção endêmica e generalizada que foi apodrecendo o sistema político sem ser enfrentada por nenhum partido. Era o tema à vista de todos e há décadas percebido pela opinião pública, o único tema capaz de provocar a comoção geral.

O segundo, as indicações de que o país estava a caminho de se transformar em uma potência média, repetindo a trajetória de outras potências, inclusive no atropelo das boas normas. Leia mais »

Média: 4.8 (44 votos)

Quem teve chance de conhecer a família Mesquita, especialmente em tempos bicudos, saberia que jamais engoliriam um político como Michel Temer, menos ainda um Elizeu Padilha.

Temer sempre representou o perfil de político que os Mesquita abominavam, o sujeito do pequeno varejo, negociando favores, enriquecendo na política. Padilha, mais ainda, o glutão capaz de se enredar nas histórias mais suspeitas, em todos os momentos da sua vida pública.

Jamais passariam pelos portões da sede do Estadão.

No entanto, o que se vê agora é o jornal com editoriais retumbantes saudando até insignificâncias, como o tal pacote econômico de dezembro. Padilha tornou-se um varão de Plutarco, pontificando sobre previdência, legislação trabalhista. Em meio a uma enxurrada de denúncias contra Temer, minimizam as denúncias e abrem manchetes para o grande estadista que nasceu. Leia mais »

Média: 4.6 (9 votos)

O Ministério Público Federal está empenhado em demonstrar que não apenas não vaza, como não tem interesse em vazamentos – apesar do vazamento ser peça central na estratégia da Lava Jato, como comprova trabalho do juiz Sérgio Moro sobre a Operação Mãos Limpas.

Recentemente, o Procurador Geral da República Rodrigo Janot bradou inocência. Outros procuradores surgiram com alegações cartesianas sobre a razão do vazamento não interessar a eles.

O procurador Deltan Dallagnol divulgou em seu Facebook artigo da procuradora de Justiça Luciana Asper, analisando os vazamentos de delações premiadas. É uma boa maneira de apurar como o MPF monta suas narrativas de defesa, depois de se saber, à exaustão, como monta suas narrativas condenatórias. E um bom exemplo da profundidade da lógica que impressiona Dallagnol.

Vamos comparar o artigo da procuradora com o vazamento da delação de Marcelo Odebrecht, segundo a Folha de São Paulo (https://goo.gl/fOLplp).

Leia mais »

Média: 4.7 (35 votos)

O espírito natalino faz com que os atos de fim de ano sejam muito melhores do que a realidade do ano seguinte. O melhor de nós aparece nessa época do ano. Depois, quando se cai no espírito do mundo real, vai piorando gradativamente. O melhor do Supremo não anima.

Lance 1 - A intriga

Sai a nota no Estadão, assinada pelo repórter Ricardo Galhardo (https://goo.gl/vkxUSZ). O título é “Lewandowski trava regra de indicação ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral.

Diz a matéria:

“Repousa desde março de 2012 em uma gaveta do ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), uma resolução de emenda regimental que altera a forma de escolha dos ministros juristas que compõem o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A substituição de dois dos sete ministros do TSE ainda no primeiro semestre do próximo ano é vista como um trunfo do governo contra a ameaça de cassação da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer”. Leia mais »

Média: 4.6 (26 votos)

Corre no Senado um estudo, ainda em análise pela liderança da oposição, que, pela primeira vez, traça um diagnóstico realista da crise e das medidas para impedir o aprofundamento da recessão.

O pacote é interessante por dois motivos.

O primeiro, por abordar de forma objetiva razões e saídas para a crise. O segundo por demonstrar claramente a influência de ideologia nas formulações econômicas.

A boa gestão econômica consiste em uma análise objetiva da realidade, um diagnóstico preciso e o uso das ferramentas necessárias para enfrentar os problemas que se apresentam. Nenhum dos instrumentos óbvios para superar a crise é acenado pela equipe econômica, porque afronta a ideologia a que ela está atrelada.

Na gestão do dia-a-dia da economia, os grandes economistas se destacaram pelo pragmatismo. O viés ideológico se apresenta em questões pontuais, até no desenho de um modelo futuro de economia. Não na administração dos problemas imediatos, especialmente quando a economia enfrenta crises graves: nas contas externas, quando a inflação sai do controle ou, como agora, quando a economia ameaça mergulhar em depressão.

Celso Furtado e Raul Prebisch – principais nomes da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina), teóricos da industrialização – aplicaram planos de estabilização convencionais para enfrentar a inflação. Pai da ortodoxia econômica, Eduardo Gudin defendia uma maxidesvalorização cambial (seguida da unificação do câmbio) para dotar o Brasil dos anos 50 da mesma competitividade recém-adquirida pela Coreia. Outro ícone do liberalismo, Roberto Campos, defendeu a encampação de empresas elétricas estrangeiras, quando se deu conta de que não teriam condições de investir para acompanhar o desenvolvimento brasileiro.

Leia mais »

Média: 4.1 (23 votos)

Graças à Internet, Ruy Castro, o notável biógrafo e cronista musical, se tornou um homem de saber enciclopédico, tal a variedade de temas que levanta em sua coluna. É a prova maior da falência dos sistemas tradicionais de saber, do hábito anacrônico de aprender através da leitura de livros, do estudo sistemático dos clássicos, aquelas pessoas pedantes que, desde os tempos da Grécia antiga, inventaram de construir o conhecimento ocidental.

Ruy aboliu esses métodos lentos de conhecimento e se tornou um sábio meramente bebendo nas novas formas de comunicação.

Graças a isso, considerou-se suficientemente informado para, com seu vasto conhecimento de informática, cair matando sobre a ex-presidente Dilma Rousseff quando ela, em uma entrevista que me deu, perguntou “que nuvem é essa”, referindo-se a e-mails rackeados nos servidores da Odebrecht armazenados em nuvem.

Ruy caçoou do fato aparente de que Dilma não saberia o que é computação em nuvens. De nada adiantou explicar, aqui, que Dilma conhece muito mais informática do que Ruy, e que apenas valeu-se de uma ironia, figura de difícil entendimento para as mentes racionais e ferreamente cartesianas como a de Ruy. Talvez tivesse sido melhor compreendida se usasse uma expressão mais técnica, tipo  “que mané de servidor é esse”? 

Leia mais »

Média: 4.8 (16 votos)

Xadrez da tacada final do golpe da Constituinte

Capítulo 1 – o sentimento de salve o Brasil

No Brasil real, meu amigo Vinicius, de 16 anos, criou um grupo no WhatsApp com o título “Salvar nosso Brasil”. O histórico trabalhista Almino Afonso, no meio da conversa deixa escapar um “precisamos salvar nosso país”. Minha tia Clélia reza todo dia para Deus salvar o Brasil, embora não saiba exatamente como e de quem. O jurista Celso Antônio Bandeira de Mello diz, no meio do almoço, que precisamos salvar o Brasil. Pelo Twitter, o governador maranhense Flávio Dino repete a mesma expressão.

Testemunhei todos esses apelos em menos de meio dia. Em todos os pontos do país há um sentimento difuso de que o Brasil derrete, se desmancha, em um suicídio lento e ritual. E a angústia de querer e nada poder fazer, porque o destino do Brasil não está nas mãos do Brasil real, mas de uma realidade virtual montada em Brasília.

Capítulo 2 – o Brasilguai da estufa Brasília

Em um reino distante chamado Brasilguai, nos limites entre um Brasil que já era e simulando um Paraguai que já foi, a realidade é envolta em manchetes feéricas e em redes sociais onde borbulham babas de ira e sangue, compondo o cenário em que as mais altas autoridades disputam os clicks da turba e as dobras do poder.

Leia mais »

Média: 4.5 (45 votos)