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Como a indústria do cigarro usou a pós-verdade

Mundo vive “era da ignorância”, e não a do conhecimento; antídoto estaria em incentivar curiosidade científica entre pessoas 

 
Jornal GGN - A pós-verdade, termo para definir que os fatos objetivos têm menos importância do que as emoções e crenças pessoais, tomou proporções assustadoras em todos os âmbitos da informação, seja em países desenvolvidos ou em desenvolvimento. 
 
O fenômeno ocorre, muito provavelmente, facilitado pelas redes sociais, dado seu processo acelerado de produção, reprodução e compartilhamento de ideias. No artigo a seguir, o repórter Tim Harford, do Finantial Times, traz novas informações sobre o tema, com avaliações de especialistas que acompanham o avançou da pós-verdade desde as décadas passadas. 
 
Para Robert Proctor, historiador na Universidade Stanford, por exemplo, a humanidade globalizada vive hoje a "era da ignorância", um verdadeiro contrassenso à era da informação iniciada na década de 1980 e que, teoricamente, ainda estaria em vigor.
 
Mas nem tudo está perdido, apesar de a tarefa para reverter esse quadro não ser nada fácil, pois estaria em ampliar a curiosidade das pessoas sobre o conhecimento científico. Estudos apontaram que, indivíduos cientificamente curiosos se dispõem mais a assistir documentários científicos do que propagandas focadas sobre celebridades. 
 
"Como se poderia prever, existe uma correlação entre conhecimentos científicos e curiosidade científica, mas as duas medidas são distintas, (...) embora o raciocínio politicamente motivado pese mais que o conhecimento científico, ele 'parece ser negado pela curiosidade científica'"
 
 
 
 
Pouco antes do Natal de 1953, os líderes das maiores empresas americanas de cigarros se reuniram com John Hill, fundador e executivo-chefe de uma das maiores firmas americanas de relações públicas, a Hill & Knowlton. Apesar do ambiente luxuoso –o Plaza Hotel, dando para o Central Park, em Nova York–, o clima era de crise.
 
Cientistas estavam publicando evidências sólidas de um vínculo entre o tabagismo e o câncer. Do ponto de vista das empresas de cigarros, o mais preocupante era que "The Reader's Digest", a publicação mais lida do mundo, já tinha divulgado essa evidência em um artigo publicado em 1952, "Cancer by the Carton" (O câncer em maços). Escrevendo em 1954, o jornalista Alistair Cooke previu que a publicação do próximo grande estudo científico sobre tabagismo e câncer poderia acabar com a indústria de cigarros.
 
Isso não aconteceu. O guru de relações públicas John Hill apresentou um plano –que, visto em retrospectiva, foi tremendamente eficaz. Apesar de seu produto ser viciante e letal, a indústria do cigarro conseguiu evitar a regulamentação, litígios na Justiça e a ideia que muitos fumantes tinham havia décadas que seus produtos eram mortíferos.
 
A grande indústria do tabaco foi tão hábil em adiar o dia da prestação de contas que a tática que ela adotou vem sendo imitada desde então. Além disso, inspirou um setor crescente do mundo acadêmico que estuda como esse truque foi realizado.
 
Em 1995, Robert Proctor, historiador na Universidade Stanford que estudou a fundo o caso da indústria de cigarros, cunhou o termo "agnotologia". Trata-se do estudo da produção intencional de ignorância, e o campo todo começou com as observações feitas por Proctor da indústria de cigarros.
 
Os fatos relativos ao tabagismo –fatos indiscutíveis, fornecidos por fontes de valor inquestionável– não foram os vencedores do embate. Os fatos incontestáveis foram contestados. As fontes inquestionáveis foram questionadas. O que se descobriu é que os fatos são importantes, mas não garantem a vitória nesse tipo de discussão.
 
A agnotologia nunca foi tão pertinente quanto agora. "Vivemos em uma era de ouro da ignorância", diz Proctor hoje. "Trump e o 'brexit' fazem parte disso."
 
No plebiscito britânico para decidir se o Reino Unido sairia da União Europeia, o lado favorável à saída apresentou o argumento falso de que o Reino Unido enviava £ 350 milhões (R$ 1,35 milhões) por semana à UE.
 
Seria difícil imaginar um exemplo anterior na política ocidental moderna de uma campanha que apresentou como argumento uma mentira tão deslavada, reafirmando-a quando foi refutada por especialistas independentes e acabando por triunfar.
 
Mas essa proeza seria superada pouco depois por Donald Trump, que alardeou ondas sucessivas de mentiras demonstráveis, mas foi recompensado com a Presidência. Os Dicionários Oxford declararam a "pós-verdade" a palavra do ano de 2016. Os fatos simplesmente pareciam não ter mais importância.
 
A reação instintiva daqueles entre nós (jornalistas, acadêmicos e muitos cidadãos comuns) que ainda nos importamos com a verdade vem sendo de checar e rechecar os fatos. Organizações de "fact-checking", ou verificação de dados, como a Full Fact, no Reino Unido, e a PolitiFact, nos EUA, avaliam declarações de políticos e jornalistas que chamam a atenção pública.
 
Preciso confessar aqui que tenho um viés pessoal favorável a elas: eu mesmo já fui verificador de fatos do programa de rádio "More or Less", da BBC, e frequentemente faço uso de sites de fact-checking. Em lugar de apresentar as versões das duas partes em uma história, como faria um jornalista tradicional, esses sites avaliam o que é verdadeiro.
 
O trabalho de verificação de dados pública e transparente tornou-se um elemento tão importante do jornalismo político de hoje que é fácil esquecer que essa atividade existe há apenas uma década.
 
Também os jornalistas da grande imprensa estão começando a abraçar a ideia de que mentiras ou equívocos devem ser identificados com destaque.
 
Considere o caso de uma reportagem no site da NPR (Rádio Pública Nacional) sobre o discurso que Donald Trump fez para a CIA em janeiro: "Ele negou falsamente que já tivesse criticado a agência, inflou falsamente as dimensões da multidão que acompanhara sua posse, na sexta-feira anterior".
 
Tem sido uma quebra estimulante com as normas do jornalismo americano, mas a verdade é que o presidente Trump vem sendo uma quebra estimulante com as normas da política americana.
 
Também o Facebook contratou verificadores de dados, anunciando medidas contra as reportagens de "notícias falsas" que ganharam destaque tão grande em sua rede após a eleição. Hoje o Facebook permite que seus usuários denunciem falsas notícias.
 
O site envia manchetes dúbias a verificadores independentes de fatos, identifica notícias desacreditadas com tags de "contestado" e possivelmente reduz sua classificação no algoritmo que decide o que cada usuário vê quando entra no site.
 
Precisamos de algum consenso em relação aos fatos, senão a situação fica inviável. No entanto, será que esse destaque repentino aos fatos vai realmente levar a um eleitorado mais bem informado, a decisões melhores, a um respeito renovado pela verdade?
 
A história da indústria do cigarro sugere que não. O vínculo entre cigarros e câncer foi confirmado pelos maiores cientistas médicos do mundo e, em 1964, pelo próprio porta-voz principal dos Estados Unidos em questões de saúde pública. O tema foi coberto por jornalistas experientes, engajados com os valores da objetividade. Mesmo assim, os lobistas do tabaco deram um baile neles.
 
Nas décadas de 1950 e 1960, os jornalistas tinham uma desculpa para explicar seus tropeços: as táticas adotadas pela indústria de cigarros eram astutas, complexas e novas. Inicialmente a indústria pareceu estar reagindo bem, prometendo realizar pesquisas de alta qualidade sobre o tema.
 
Garantias foram apresentadas ao público de que as melhores cabeças estavam estudando a questão. A segunda etapa consistiu em complicar a questão e semear dúvidas: o câncer de pulmão podia ter um sem-número de causas, afinal.
 
E o problema real era o câncer de pulmão, e não o cigarro, certo? Na terceira etapa, pesquisas e pareceres sérios foram postos em dúvida. Resultados de autópsias eram descritos como casos isolados, estudos epidemiológicos como sendo dados meramente estatísticos, estudos com animais eram descritos como irrelevantes.
 
Por último veio a normalização: os fabricantes de cigarros indicavam que a questão do vínculo entre tabaco e câncer era notícia ultrapassada. Os jornalistas não podiam por acaso encontrar um tema novo e interessante para tratar?
 
Essas táticas hoje estão fartamente documentadas. Pesquisadores estudaram a fundo as tendências psicológicas que elas exploram. Assim, deveríamos poder identificar seu ressurgimento no campo de batalha político.
 
"É como se a equipe do presidente estivesse seguindo o manual de instruções da indústria do cigarro", diz Jon Christensen, jornalista e hoje professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles, que em 2008 escreveu um estudo notável sobre o modo em que a indústria do cigarro manipulou a tradição jornalística.
 
Um memorando interno infame da empresa de cigarros Brown & Williamson, redigido no verão de 1969, apresenta o pensamento do setor muito claramente: "A dúvida é nosso produto". Por que? Porque semear a dúvida "é a melhor maneira de competir com o 'conjunto de fatos' existente na cabeça do grande público. É também o jeito de se criar uma controvérsia." O mantra do "Big Tobacco" (a indústria de cigarros): alimentar a controvérsia.
 
Normalmente não é difícil gerar dúvidas, e elas não são desfeitas apenas com fatos. Já deveríamos ter aprendido essa lição. Hoje estamos sendo obrigados a reaprendê-la.
 
Por mais que seja tentador combater as mentiras com fatos, essa estratégia encerra três problemas. O primeiro é que uma mentira simples é capaz de derrotar um conjunto complexo de fatos, simplesmente por ser mais fácil de entender e recordar.
 
Na dúvida, as pessoas muitas vezes tendem a acreditar naquilo que se fixa em sua cabeça. Em 1994 os psicólogos Hollyn Johnson e Colleen Seifert realizaram um experimento em que pessoas liam um relato de um incêndio em um depósito. O relato mencionava latas de gasolina e de tinta, mas explicava mais adiante que na verdade não houvera gasolina ou tinta presentes no local.
 
Os sujeitos do experimento, interrogados sobre o que se recordavam do relato, se lembraram da tinta que na realidade não estivera lá. Mas, solicitados a explicar fatos sobre o incêndio ("por que houve tanta fumaça?"), elas mencionavam a tinta.
 
Na ausência de uma explicação alternativa, voltavam àquela que já tinham admitido ser errada. Depois de ouvirmos uma alegação falsa, não há mais como "deixar de ouvi-la".
 
Isso deve nos alertar: é desaconselhável deixar que um processo de mentiras e desmentidos tome conta do ciclo noticioso. Vários estudos já mostraram que reiterar uma afirmação falsa, mesmo que seja para desmenti-la, pode fazê-la "colar".
 
O desmentido do mito parece funcionar, mas então nossas memórias se desvanecem e só nos lembramos do mito. Afinal, foi o mito que foi repetido várias vezes. No esforço para desmentir uma falsidade, desmentidos intermináveis apenas fortalecem o feitiço da mentira.
 
Com isso em mente, pensemos na alegação infame da campanha pelo "brexit": "Mandamos £ 350 milhões por semana à UE". Simples. Memorável. Falso. Mas como rebatê-lo?
 
Um esforço típico nesse sentido do jornal britânico "the Guardian" teve o título "Por que é falsa a alegação dos £ 350 milhões semanais para a UE feita pelo lado do Voto pela Saída", repetindo a alegação falsa para então dedicar centenas de palavras a detalhes cansativos e à definição exata do termo "enviar".
 
Esse tipo de artigo de verificação de fatos tem valor enorme para outros jornalistas que precisam que os pontos principais sejam detalhados e relacionados. Mas, para o eleitor comum, a mensagem que provavelmente ficou é: "Não dá para confiar nos políticos, mas parece que mandamos muito dinheiro à UE". A dúvida foi ótima para a campanha pelo "brexit".
 
Essa é uma vulnerabilidade inata do setor de verificação de dados. Os profissionais da checagem de fatos têm razão em ser meticulosos, em cobrir todos os detalhes e mostrar como foi seu raciocínio. Mas é por isso que a checagem de fatos só pode ser uma parte do esforço para fazer com que a verdade seja ouvida.
 
Andrew Lilico, um defensor da saída britânica da UE, me disse durante a campanha que queria que os ônibus britânicos tivessem exibido uma cifra mais defensável, como £ 240 milhões (R$ 930 milhões).
 
Mas ele reconhece que o valor falso apresentado foi mais eficaz. "Em termos cínicos de campanha, o uso da cifra de £ 350 milhões foi perfeito. Criou uma armadilha que atraiu a campanha pela permanência na UE a repeti-la inúmeras vezes."
 
De fato. Mas não apenas essa campanha –também os jornalistas que investigam a veracidade de fatos, entre os quais eu me incluo. A declaração falsa foi muito mais poderosa do que uma declaração verdadeira teria sido, não por envolver uma quantia mais alta, mas porque todo o mundo ficou falando sobre ela sem parar.
 
Proctor, o historiador da indústria do cigarro e agnotologista, avisa que um efeito semelhante está acontecendo nos Estados Unidos: "Há o risco de os verificadores de fatos virarem empregadinhos de Trump, correndo de um lado a outro para verificar as declarações de outros."
 
Há uma segunda razão por que os fatos parecem não merecer o respeito que esperaríamos. Os fatos podem ser entediantes. O mundo está cheio de coisas às quais prestar atenção, desde a TV-realidade até nossos filhos, do Instagram de um amigo a uma conta de impostos a pagar. Para que gastar tempo com alto tão maçante quanto fatos?
 
No ano passado, os pesquisadores Seth Flaxman, Sharad Goel e Justin Rao publicaram um estudo sobre como as pessoas leem notícias online. Aparentemente, o estudo foi uma investigação sobre a polarização das fontes de notícias.
 
Os pesquisadores começaram analisando dados de 1,2 milhão de internautas, mas acabaram estudando apenas 50 mil. Por que? Porque apenas 4% da amostra estudada liam notícias sérias em volume suficiente para merecer serem incluídos em um estudo dessa natureza (o critério aplicado era terem lido dez artigos e dois textos de opinião ao longo de três meses).
 
Muitos comentaristas temem que estejamos nos segregando em bolhas ideológicas, expostos apenas às visões de outros que pensam como nós. Essa preocupação tem certa base. Mas para 96% daqueles internautas, a bolha que vinha ao caso não era liberal ou conservadora, era "as notícias que se danem".
 
Na guerra das ideias, o tédio e a distração constituem armas poderosas. Um estudo recente de propaganda política chinesa avaliou as táticas usadas por redatores pagos pró-governo (conhecidos como "o exército dos 50 cents", devido ao valor que os colaboradores supostamente recebem por cada post escrito) que difundem comentários nas mídias sociais.
 
Os pesquisadores (Gary King, Jennifer Pan e Margaret Roberts) concluem: "Quase nenhum dos posts de 50 cents do governo chinês encerra qualquer tipo de debate ou discussão. Eles parecem evitar assuntos polêmicos por completo. O objetivo estratégico do regime é distrair e redirecionar a atenção do público."
 
Astro da TV realidade, Trump conhecem bem o valor de uma distração divertida: basta começar uma briga com Megyn Kelly, com o "New York Times" ou até com Arnold Schwarzenegger. Por acaso isso não chama a atenção das pessoas mais que uma discussão sobre a reforma da saúde?
 
A indústria do cigarro também entendeu esse ponto, embora tivesse adotado uma abordagem mais intelectual à geração de distrações. "Você sabem quem é Stanley Prusiner?", pergunta Proctor.
 
Prusiner é neurologista. Em 1972 ele era um pesquisador jovem que acabara de entrar em contato com um paciente com a doença de Creutzfeldt-Jakob. Era uma doença degenerativa pavorosa que na época se pensava ser causada por um vírus de ação lenta.
 
Após muitos anos de estudo, Prusiner concluiu que a doença era causada, em vez disso, por uma espécie de proteína de ação irregular. A maioria dos especialistas achou a ideia absurda, e a carreira de Prusiner começou a afundar. Promoções e dotações para pesquisa foram minguando.
 
Mas Prusiner recebeu financiamento do setor privado que lhe possibilitou levar seu estudo adiante. Ele acabou sendo justificado de modo espetacular, recebendo o Nobel de Medicina em 1997.
 
Em seu ensaio autobiográfico no site do Prêmio Nobel, Prusiner agradeceu seus benfeitores do setor privado pelo apoio crucial dado: eram a empresa RJ Reynolds, fabricante dos cigarros Camel.
 
A indústria do cigarro era uma fonte generosa de verbas para pesquisas, e Prusiner não foi o único cientista a receber dinheiro da indústria e também um prêmio Nobel. Proctor calcula que esse tenha sido o caso de pelo menos outros dez laureados com o Nobel.
 
Que fique claro: não se tratou de uma tentativa de suborno. Para Proctor, foi algo muito mais sutil. "A indústria do cigarro foi a maior fonte de financiamento de pesquisas de genética, vírus, imunologia e poluição aérea", diz Proctor. Ou seja, quase tudo menos o tabaco. "Foi um projeto maciço de 'pesquisas para desviar a atenção'."
 
Esse financiamento científico ajudou a posicionar a Big Tobacco como uma indústria voltada ao bem público, mas Proctor acha que a finalidade principal da Big Tobacco foi produzir dados científicos especulativos novos e interessantes.
 
A doença de Creutzfeldt-Jakob pode ser rara, mas era notícia instigante. Doenças ligadas ao cigarro, como câncer de pulmão e doenças cardíacas, nem sequer são notícias.
 
O objetivo final dessas distrações é que questões de importância vital tornem-se tão desinteressantes que ninguém se dê ao trabalho de escrever sobre elas. Proctor descreve isso como o oposto do terrorismo: o trivialismo.
 
O terrorismo provoca uma reação enorme na mídia; o tabagismo, não. No entanto, segundo os Centros de Controle de Doenças dos EUA, o tabagismo mata 480 mil americanos por ano –mais de 50 mortes por hora. Raramente os terroristas foram capazes de matar tantos americanos em um ano inteiro. Mesmo assim, os terroristas conseguem dominar as manchetes, enquanto os trivialistas as evitam.
 
Hoje os observadores experientes da indústria do cigarro receiam que Trump exerça o mesmo efeito. No final, a maioria das pessoas começará a simplesmente se entediar com todo seu circo? Jon Christensen, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, diz: "Acho essa a perspectiva mais assustadora".
 
Por outro lado, para ele, existe um elemento positivo em tudo isso: é quase impossível que o presidente dos Estados Unidos deixe de ser notícia. O lobby do tabaco e o governo chinês se mostraram muito hábeis em desviar as atenções para longe deles. Há razões para crer que isso será difícil para Trump.
 
PERSUASÃO
 
Existe uma última dificuldade em se tentar persuadir as pessoas, dando-lhes fatos verídicos: a verdade pode parecer ameaçadora, e ameaçar as pessoas tende a ter efeito inverso ao desejado. "As pessoas reagem no sentido contrário", diz Jason Reifler, cientista político da Universidade de Exeter.
 
Esse "efeito inverso" está sendo estudado por vários pesquisadores, incluindo Reifler e seu colega Brendan Nyhan, de Dartmouth.
 
Em um estudo de 2011, Nyhan, Reifler e outros fizeram um ensaio randomizado em que informações científicas eram ou não eram mostradas aos pais de crianças pequenas, desmentindo um vínculo imaginário mas muito temido entre vacinas e autismo.
 
À primeira vista, os fatos eram persuasivos: os pais que tinham acesso aos dados científicos que desmentiam o mito tiveram menos tendência a pensar que vacinas causem autismo. Mas, mesmo depois de ser expostos aos fatos e apesar de terem aparentemente acreditado neles, os pais que já eram céticos em relação a vacinas mostraram tendência menor a dizer que vacinariam seus filhos.
 
O que está acontecendo? "As pessoas aceitam as informações corretoras, mas então as resistem de outras maneiras", diz Reifler. Uma pessoa que teme a vacinação vai resistir subconscientemente, lembrando-se de todas as outras razões por que lhe parece que vacinas são uma má ideia. O medo do autismo pode ir embora, mas os outros medos ficam mais fortes que antes.
 
É fácil ver como isso pode acontecer em uma campanha política. Digamos que você teme que o Reino Unido seja invadido por imigrantes turcos, porque um membro da campanha pelo "brexit" lhe disse que a Turquia vai ingressar na UE em breve (mentira). Um verificador de fatos pode explicar que é improvável que a Turquia ingresse na UE no futuro previsível.
 
A pesquisa de Reifler também sugere que você aceite a ideia de que a Turquia não está prestes a entrar na UE. Mas você vai se lembrar de muitos outros medos: imigração, perda de controle, a proximidade da Turquia à guerra da Síria e ao Estado Islâmico, o terrorismo, etc. A mentira original foi desmentida, mas sua mentira sedutora continua presente.
 
O problema aqui é que, embora nós nos enxerguemos como seres racionais, nossa racionalidade não evoluiu apenas para solucionar problemas práticos, como construir uma armadilha para elefantes, mas para nos ajudar a nos orientarmos em situações sociais. Precisamos manter as outras pessoas do nosso lado.
 
O raciocínio prático em muitos casos não diz respeito tanto a determinar o que é verídico, mas mais a nos conservarmos na tribo certa.
 
Um sinal de como nossa lógica pode ser tribal foi visto em um estudo de 1954 conduzido pelo psicólogo Albert Hastorf, de Dartmouth, e sua colega Hadley Cantril, de Princeton. Os dois examinaram imagens de uma partida de futebol americano entre dois times universitários.
 
Foi uma partida violenta, em que um jogador quebrou a perna. Hastorf e Cantril pediram que os estudantes contassem as faltas e avaliassem sua gravidade. Os estudantes de Dartmouth tenderam a minimizar as faltas de Dartmouth, mas relataram todos os erros dos jogadores de Princeton. Os estudantes de Princeton tiveram o comportamento oposto.
 
A conclusão foi que, apesar de terem assistido às mesmas imagens, os alunos de Dartmouth e Princeton não assistiram aos mesmos fatos. Cada aluno tinha sua percepção própria, moldada por suas próprias lealdades tribais. Os psicólogos intitularem seu estudo "They Saw a Game" (Eles assistiram a uma partida).
 
Um estudo mais recente voltou a essa ideia, agora no contexto de tribos políticas. Os pesquisadores mostraram imagens de um protesto a estudantes e contaram uma história falsa sobre o que motivou o protesto.
 
A alguns estudantes foi dito que foi uma manifestação de defensores dos direitos dos gays, promovida diante de um centro de recrutamento do exército para protestar contra a política de "não pergunte, não revele" então adotada pelas Forças Armadas. A outros foi dito que era uma manifestação contra o aborto promovida diante de uma clínica de abortos.
 
Apesar de olharem para as mesmas imagens, os sujeitos do ensaio tiveram visões muito diferentes do que estava acontecendo nas imagens –visões moldadas por suas lealdades políticas. Os estudantes liberais foram tolerantes em relação ao comportamento de pessoas que acharam ser defensores dos direitos dos gays, mas acharam preocupante o que fizeram os manifestantes contra o aborto.
 
Os estudantes conservadores tiveram a visão oposta. Como no caso de "They Saw a Game", a discordância não foi sobre os princípios gerais, mas sobre pontos específicos: os manifestantes gritaram com pessoas do público? Eles bloquearam o acesso ao prédio? Vemos o que queremos ver –e rejeitamos os fatos que ameaçam nossa visão de quem somos.
 
Quando chegamos à conclusão à qual queremos chegar, estamos praticando o "raciocínio motivado". O raciocínio motivado foi um aliado poderoso da indústria do cigarro. Se você é dependente de um produto e muitos cientistas lhe dizem que esse produto é letal, mas o lobby do tabaco lhe diz que são necessários mais estudos, em quem você prefere acreditar?
 
O estudo de Jon Christensen sobre a campanha de relações públicas dos fabricantes de cigarros revelou que a indústria muitas vezes foi retratada positivamente na imprensa porque muitos jornalistas eram fumantes. Esses jornalistas queriam a todo custo acreditar que seu vício era benigno, e esse fato os converteu em transmissores ideais da mensagem da indústria do cigarro.
 
Mesmo em um debate poluído pelo raciocínio motivado, poderíamos esperar que os fatos ajudassem. Mas não é necessariamente assim: quando ouvimos fatos que nos contestam, amplificamos seletivamente aquilo que nos convém, ignoramos o que não nos convém e reinterpretamos o que é possível.
 
Mais fatos representam mais combustível no motor do raciocínio motivado. O dramaturgo francês Molière escreveu: "O bobo erudito é mais tolo que o ignorante". A ciência social moderna concorda com ele.
 
Numa questão politicamente carregada, como as mudanças climáticas, a impressão que temos é que fornecer informações científicas precisas deveria promover um consenso. Mas o que acontece é o oposto, diz Dan Kahan, professor de direito e psicologia em Yale e um dos autores do estudo sobre as percepções de um protesto político.
 
Ele escreve: "Os grupos com valores opostos frequentemente se polarizam ainda mais, e não menos, quando são expostos a informações cientificamente validadas".
 
Quando as pessoas procuram a verdade, os fatos ajudam. Mas quando elas raciocinam seletivamente sobre sua identidade política, os fatos podem ter o efeito inverso ao procurado.
 
PÓS-VERDADES
 
Tudo isso forma um quadro deprimente para aqueles de nós que não queremos habitar um mundo de pós-verdades. Parece que os fatos não têm força. O esforço de rebater uma mentira deslavada com um conjunto de fatos complexos frequentemente acaba reforçando a mentira.
 
As verdades importantes muitas vezes são desinteressantes e chatas, e é fácil inventar alegações novas e que chamam a atenção das pessoas. E oferecer mais fatos às pessoas pode ter o efeito inverso ao desejado, com esses fatos gerando uma reação defensiva em pessoas que querem muito conservar sua visão de mundo atual.
 
"É uma realidade tenebrosa", diz Reifler. "Vivemos em tempos tenebrosos e assustadores."
 
Existe alguma solução? É possível que sim.
 
Sabemos que o domínio de conhecimentos científicos pode na realidade ampliar a divergência entre tribos políticos diferentes sobre questões como a mudança climática –ou seja, que liberais bem informados e conservadores bem informados divergem mais em suas opiniões do que liberais e conservadores com pouco conhecimento da verdade científica.
 
Mas um novo estudo de Dan Kahan, Asheley Landrum, Katie Carpenter, Laura Helft e Kathleen Hall Jamieson explora o papel não do domínio de conhecimentos científicos, mas da curiosidade científica.
 
Para medir a curiosidade científica, os pesquisadores fizeram aos participantes do estudo perguntas diversas sobre seus hobbies e interesses. Foi apresentada aos participantes uma seleção de sites para que lessem e fizessem uma prova de compreensão.
 
Alguns optaram pela ESPN, outros pelo Yahoo Finance, mas os que optaram pelo Science demonstravam curiosidade científica. As pessoas cientificamente curiosas também se dispunham a assistir a documentários científicos mais que a programas de fofocas sobre celebridades.
 
Como se poderia prever, existe uma correlação entre conhecimentos científicos e curiosidade científica, mas as duas medidas são distintas.
 
O que Kahan e seus colegas constataram, para sua surpresa, foi que embora o raciocíno politicamente motivado pese mais que o conhecimento científico, ele "parece ser negado pela curiosidade científica".
 
Lembre-se que as pessoas com conhecimentos científicos tinham mais tendência a ser polarizadas em suas respostas a perguntas científicas politicamente carregadas. Mas isso não acontecia com as pessoas cientificamente curiosas. A curiosidade aproximava as pessoas de uma maneira que os meros fatos não faziam.
 
Os pesquisadores teorizam que as pessoas curiosas têm uma razão adicional para buscar os fatos: "Para sentir o prazer de contemplar insights surpreendentes sobre como funciona o mundo".
 
Então como podemos incentivar a curiosidade? É difícil fazer a reforma dos bancos ou a reversibilidade do Artigo 50 parecer mais interessantes que futebol, "Game of Thrones" ou programas de culinária. Mas parece ser isso o que é necessário. "Precisamos incluir as pessoas na história, em narrativas humanas de ciências, mostrar às pessoas como a ciência funciona", diz Christensen.
 
Nós, jornalistas e analistas políticos, não podemos forçar ninguém a prestar atenção aos fatos. Precisamos encontrar um jeito de levar as pessoas a querer procurar os fatos. A curiosidade é a semente da qual podem brotar decisões democráticas sensatas.
 
Parece que ela é uma das únicas curas para o raciocínio politicamente motivado, mas também é a cura de uma sociedade em que a maioria das pessoas não presta atenção aos jornais impressos ou de TV porque acha as notícias entediantes ou confusas.
 
O que precisamos hoje é de um Carl Sagan ou David Attenborough da ciência social –alguém que seja capaz de suscitar um senso de maravilhamento ou fascínio, não apenas com a estrutura do sistema solar ou a vida dos animais em uma floresta tropical, mas diante do funcionamento de nossa civilização: saúde, migração, finanças, educação, diplomacia.
 
Nosso candidato para isso teria sido o médico e estatístico sueco Hans Rosling, morto em fevereiro. Ele atingiu um público surpreendente com algo que, essencialmente, eram simples apresentações de dados oficiais de organismos como o Banco Mundial.
 
Ele descreveu o que fazia como transmitir os fatos às pessoas: "descrever o mundo". Mas os fatos precisam de defensores. Eles raramente se defendem sozinhos: precisam de alguém que nos faça nos importar com eles, que desperte nossa curiosidade em relação a eles. Foi isso o que Rosling fez.
 
E, diante da possibilidade apocalíptica de um mundo em que os fatos não interessam às pessoas, esse é um exemplo que precisamos seguir.
 
Tradução de CLARA ALLAIN

 

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Comentários

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texto encomendado pelos neocons

me parece mais um texto cheio de tolices encomendado pelo neocons em sua campanha para justificar a derrota contra o Trump. Entre essas tolices, nos querer fazer crer que o facebok é o guardião da verdade e que a mídia empresa é vítima da "pós-verdade"... Questionar o capitalismo e sua guerra ideológica para disputar corações e mentes, isso o funcionário da mídia empresa que escreveu esse prolixo, chato e repetitivo texto não faz. 

Seu voto: Nenhum

Claudionor Damasceno

imagem de Luiz Pauli
Luiz Pauli

cigarro

QUANTA BOBAGEM.  Um texto escrito por um NÂO FUMANTE.  É assim, quem não sente falta de algo, detona com os outros.   o problema, são essa gente antitabaco, e não as industrias de cigarro, nem o fumantes.  Vamos banir essa gente arrogante e prepotente, que precisa viver na midia para sustentar seus egos.

Seu voto: Nenhum
imagem de Marcelo Simba
Marcelo Simba

Aff... DEPOIS TERMINO DE LER...

O texto parece ser fantástico e trata de algo q intuitivamente já venho testando nas minhas relações com as pessoas pró ou contrárias às minhas ideias, mas é um texto denso, gigantescooo para os padrões da Internet e com mtas referências a serem pesquisadas (talvez por ser um txt da gringa).

Eu vou imprimir e depois que ler volto pra comentar sobre o conteúdo.

Obrigado!

Seu voto: Nenhum

Artigo muito longo. Pode ser

Artigo muito longo. Pode ser resumido em: "A iniciativa privada, sem regulação do estado, faz qualquer coisa para ganhar dinheiro, inclusive mentir, matar, roubar, saquear e até corromper a administração pública infiltrando privatistas." E bastava citar a mentira das armas de destruição em massa de Bagdad.

Tá difícil algo que venha dos EUA e não seja bullshit anida que disfarçado...

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Rodrigo castro

Na verdade tua resposta

Na verdade tua resposta exemplifica muito bem o que diz no texto, e isso não é um elogio.

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Egomet Leão

A bem da razão e com

A bem da razão e com objetividade, para tentarmos comprovar efetivamente a verdade sobre o cigarro - no duro mesmo!... sem mais-mais!... - posso sugerir um teste.

Peguemos um grupelho de pessoas amigas e tranquemo-lo dentro de um cômodo (uma garagem residencial espaçosa, por exemplo) e coloquemos neste grupo dois ou três que fumem. Deixemo-los passar a noite ali dentro jogando cartas em volta de uma mesa, contando anedotas, batendo papo, jogando conversa fora...

Ao saírem de lá na manhã seguinte, ainda que felizes, alguns estarão cansados, outros reclamando dos fumantes... mas ninguém exagerando nada.

Por outro lado, se repetirmos a experiência na mesma garagem e, em lugar de colocar os fumantes, pusermos um automóvel ligado próximo à mesa e funcionando em marcha-lenta mesmo (pode ser um carrinho qualquer - até um de motorzinho 1.0), o que irá acontecer?

Com certeza absoluta, muito antes de a noite se aprofundar, todos estarão mortos.

E é estranho que ninguém defenda que não se ligue mais os motores de automóveis, mesmo sendo sabido que a fumaça dos veículos desce, fica entre nós e tem um poder letal fabuloso. E a fumaça do cigarro, que sobe e se dissipa em poucos instantes, é a mais perseguida pelas pessoas e pela Ciência.

Cabe-me informar que já fumei dos dezoito até os sessenta anos e há uns quinze já não o faço. Ah! e até o presente, não tenho qualquer sinal de doença relativa ao fumo, nem de outra natureza também - considerando-se, é claro, que velhice não seja doença. Graças a Deus!

Por isso é que estranhei, durante a leitura do texto, a insistente menção ao tabagismo como bruxa solta, sem sequer mencionar que a luta pela comprovação de doenças relativas ao uso do tabaco (que, diga-se, eu até creio piamente que existam sem sombra de dúvida) seja adotada como pano-de-fundo, porque - a bem da verdade - a muitos parece que, no meio de tantos males, há outros piores que o tabaco.

O problema deve ser o de que ninguém (até eu!) abre mão do automóvel, não é?   

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Mario Ferreira

Foco na  eleição de deputados

Foco na  eleição de deputados e senadores: a saída para viabilizar um projeto de esquerda na era da pós-verdade.

É difícil encontrar um período político tão tenso e com tão pouca  luz no fim do túnel. O problema é que  uma opressão  sórdida e brutal está sendo imposta exatamente por membros dos poderes que deveriam ser os pilares do modelo democrático: O legislativo e o judiciário. Chantageados ou em conluio com a mídia, o alvo deles não é apenas o PT mas qualquer projeto político que seja desenvolvimentista, prime pela soberania da nação, defenda uma política de juros baixos e que foque na geração de empregos, no respeito ao trabalhador e no combate à desigualdade.

Nem a eleição de um Presidente comprometido com essas bandeiras garante a reversão desse quadro: rasgaram a Constituição com o afastamento de Dilma sem crime de responsabilidade e transformaram o presidencialismo em um parlamentarismo de ocasião. A ultra direita, a direita e os evangélicos estão bem organizados em torno de mentiras que circulam nas redes sociais, na mídia tradicional e nas igrejas, já formaram uma bancada expressiva, estão dilapidando os avanços sociais, e trabalham para ampliar suas bancadas. E a esquerda, como está se organizando para a próxima eleição de parlamentares? É vital para a democracia nos comportarmos como se o regime fosse parlamentarista e trabalharmos, em parceria, para a eleição de uma maioria de deputados e senadores comprometida com projetos que sejam alternativas ao neoliberalismo. Nesse quadro, a troca de farpas entre PSOL, PT e outros partidos  confunde o eleitor e só é aplaudida pelos reais inimigos de um projeto político de esquerda.

O que adianta ser eleito presidente e governar com um legislativo conservador? Há espaço, no primeiro turno, para todos os bons candidatos de esquerda desde que o foco principal seja viabilizar votos para parlamentares realmente afinados com esse projeto.  Luiza Erundina, do PSOL, Ciro Gomes, e até mesmo Marina Silva, são nomes a serem considerados; Lula é outro exemplo, o que levou vários artistas e intelectuais a assinaram um manifesto  estimulando-o a lançar sua candidatura,  http://www.peticaopublica.com.br/inviter.aspx?pi=BR97926. Os candidatos dessa frente de esquerda defenderiam seus projetos, mas fariam acordo de respeito mútuo no primeiro turno e de apoio ao candidato mais votado no segundo turno. Se essa frente sair vitoriosa, o eleito desse grupo se comprometeria a apoiar, em 2022, o segundo candidato da frente de esquerda mais votado no primeiro turno de 2018. Um acordo como esse pode viabilizar a criação de uma frente de esquerda pois impedirá que o PT, caso saia vitorioso em 2018, queira ser cabeça de chapa na eleição seguinte para a Presidência, o que termina inviabilizando algumas tentativas de acordo.

Lula se mostra digno desse manifesto pois, embora  exaustivamente investigado, nada se encontrou que manche sua honra. Não fosse assim ele já estaria preso, o que pode ainda acontecer, dado que, para a lava-jato, o que importa são as convicções e não as leis ou provas. Isso não é bom para a democracia pois pode ser usado, amanhã, contra Luciana Genro,  contra Ciro Gomes ou qualquer outro. O objetivo imoral e ilegal é simplesmente impedir a candidatura de um cidadão por sua força eleitoral e por seu legado: Seu governo  livrou o país da política recessiva do FMI, baixou taxa de juros, investiu em infraestrutura (ferrovias, portos, transposição do rio São Francisco, hidroelétricas), deu atenção especial à cadeia produtiva do Petróleo e gás, e investiu fortemente em políticas sociais e no aumento real do salário mínimo. Os resultados apareceram no CENSO 2010 http://www.censo2010.ibge.gov.br/ e repercutiram até na revista Veja, para a qual tínhamos um Brasil “que consome mais, estuda por mais tempo, ganha melhor e tem mais emprego.”. Por não ter maioria parlamentar comprometida com um projeto de esquerda, Lula teve que aceitar, no Governo, políticos do PMDB e de outros partidos que terminaram se revelando corruptos. Mas não se pode dizer que isso foi completamente ignorado pois seu governo, em contrapartida, fortaleceu a Policia Federal, aceitou que o Ministério Público indicasse o Procurador Geral, único com poderes para investigar membros do governo, fortaleceu a Controladoria Geral da União e permitiu o combate efetivo da corrupção, como destaca Jorge Hage em seu livro “O combate à corrupção no Governo Lula” http://csbh.fpabramo.org.br/uploads/Brasil%20em%20debate_Vol%201_Jorge%20Hage.pdf.

Esse legado, juntamente com a perspectiva de aplicação dos lucros do pré-sal na educação e na saúde, causaram a sensação de que esse projeto político ficaria imbatível eleitoralmente. Passou a ser urgente desestabilizá-lo a qualquer custo:  Desde então, pessoas  são pagas para espalhar nas mídias sociais boatos e notícias falsas (Lulinha/Lula são donos da OI, Friboi, de helicóptero, iate, fazendas, capa da Forbes, PT é ladrão, partido de corruptos, etc)  http://jornalggn.com.br/noticia/do-boato-ao-fato-a-central-do-desmonte-de-mentiras-virtuais http://jornalggn.com.br/noticia/os-boatos-que-nao-se-tornaram-fatos-30-anos-de-mentiras-para-criminalizar-lula. A mídia, fortalece esses boatos, omite as notícias boas, escandaliza as noticias ruins, e mantém uma agenda negativa permanente  em relação ao PT. A classe média, em parte já predisposta pelo seu viés ideológico,  recebe essas informações sem  espírito crítico e as incorpora como verdades absolutas, o que resultou em um sentimento de  ódio ao PT. Filhos da classe média, os membros da lava-jato herdaram  a “convicção” de que Lula é corrupto, não importando o quanto as inúmeras e  rigorosas investigações mostrem o contrário.

Fará bem à classe média, e aos eleitores como um todo, ficarem atentos aos boatos das redes sociais e às manipulações das famílias Marinho(Globo), Frias(Folha), Mesquita(Estadão), Civita(Veja). Eles são empresários preocupadas com seus negócios e não vão ter escrúpulos em derrubar governos para ampliarem seus lucros. Por isso é fundamental  dá espaço para  visões mais críticas e, quem o fizer, pode se surpreender e perceber, por exemplo, que o mensalão foi, na essência, a primeira tentativa para desestabilizar o PT. A denuncia de Roberto Jefferson, feita quando ele foi pego na corrupção dos Correios, dizia que o PT comprava parlamentares. O PT informou que fez empréstimos através das empresas do publicitário Marcos Valério e que financiou os partidos aliados. O relatório do delegado da PF Luis Zampronha encontrou provas dos  empréstimos mas a mídia noticiou,  à exaustão, que houve compra de parlamentares com dinheiro público. Essa acusação não foi provada e um fato muito simples mostra isso:  Nenhuma votação foi invalidada pelo STF por compra de votos.

Restou ao STF improvisar e interpretar que o financiamento do PT aos partidos aliados era uma “tentativa” de compra de votos, mesmo a justiça eleitoral permitindo que um partido possa financiar outro. Para quem acha que o fato da maioria do STF ter sido indicada pelo PT mostra que o julgamento foi imparcial, o ministro Lewandoviski, revisor do processo, recentemente reconheceu: “a imprensa acuou o supremo...votamos com a faca no pescoço...”. Para sustentar a tese de corrupção, e não de caixa 2, O STF interpretou que os 73,8 milhões, que a VISANET destinou ao Banco do Brasil para propaganda da bandeira VISA, era de caráter público mesmo a empresa VISA sendo privada. A narrativa dizia que o contrato de publicidade não foi executado pelas empresas  de Valério e que os recursos recebidos  eram desviados para o PT. Ignorou-se o relatório do Delegado Zampronha e o fato de que  quatro diretores do Banco do Brasil, além de membros da Visanet, acompanhavam o contrato. Processou-se apenas  Pizzolato, único Diretor ligado ao PT, fato até hoje omitido pela mídia. Não foram essas as únicas questões nebulosas. Por que o STF julgou mais de trinta pessoas sem foro privilegiado se, posteriormente, esse foi o procedimento adotado no mensalão do PSDB? A resposta é óbvia:   um processo com mais de 50 mil páginas  é mais fácil de se manipular. Isso fica claro quando se tenta responder a uma pergunta crucial: Por que a Visanet, dona dos recursos, nunca pediu a restituição dos valores pagos se, segundo a narrativa, os serviços não foram prestados? O livro “A outra história do mensalão” http://delubio.com.br/blog/wp-content/uploads/2013/08/A-Outra-Historia-do-Mensalao-Paulo-Moreira-Leite.pdf e sites alternativos desvendam bem as nuances desse processo. http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/mensalao-a-reportagem-que-   desvendou-o-erro-grosseiro-do-stf/.

Outro exemplo é a Lava-jato, polêmica até para um promotor de justiça do estado de São Paulo http://jornalggn.com.br/noticia/lava-jato-polemica-e-absurda-por-antonio-alberto-machado. A pretexto  de investigar o cartel que corrompia a Petrobrás, membros da lava-jato, ligados ao PSDB, aproveitaram a oportunidade para criminalizar apenas o PT,  mesmo após os diretores da estatal confessarem que eles já praticavam esses crimes no governo do PSDB. A lava jato  interpretou que todas as doações ao PT, dadas por empresas do cartel, eram propina, ignorando que essas empresas atuavam em todo o país, e que adotavam, por décadas, uma política de doações regulares a todos os partidos, como mostra a Lista da Odebrecht. A lava jato, com apoio da mídia, conseguiu seu primeiro objetivo: criminalizaram o partido e tiraram o mandato de Dilma sem ela ter cometido nenhum crime de responsabilidade; o segundo objetivo é condenar Lula, mesmo sem provas. Em troca, a mídia recebe de Temer um aumento absurdo de verbas de publicidade. Juízes, como Moro, ganham mais de  R$46.000,00 por mês, burlando, inclusive, o teto estabelecido pela Constituição; ainda assim Temer os premiou com um aumento de 41,5%. Multinacionais, que não investiram nada nas pesquisas do pré-sal, vão poder explorar o petróleo descoberto pela Petrobrás e estão comprando partes da empresa em um momento em que as ações estão depreciadas. Os bancos, que a cada ano aumentam seus lucros com os juros altos, vão aumentar ainda mais seus ganhos com a previdência privada, estimulada pelo anuncio da reforma da previdência oficial. Os empresários da FIESP vão lucrar pagando menos direitos aos trabalhadores com a anunciada reforma trabalhista.

A classe média, entretanto, nada ganhou http://jornalggn.com.br/noticia/classe-media-foi-enganada-pela-midia-que-fez-o-trabalho-sujo-do-golpe-diz-jesse-souza– e ainda não dimensionou os empregos perdidos com a quebra da economia provocada pela forma com que a Lava-jato conduziu o processo e com os efeitos recessivos da  PEC 241/95. Ela, que não teve dúvidas em bater panelas e ir  para as ruas, ainda não se deu conta  de que a corrupção  na Petrobrás já acontecia e o próprio FHC confessou, em sua auto biografia, que tinha conhecimento. É essa a  diferença omitida pela mídia – a corrupção foi amplamente investigada com o fortalecimento da Policia Federal, como destaca o delegado Armando C. Neto. http://jornalggn.com.br/noticia/injustica-dos-delegados-da-pf-contra-dilma-%E2%80%93-3-por-armando-coelho-neto

Essa preocupação com os fatos “vai realmente levar a um eleitorado mais bem informado, a decisões melhores, a um respeito renovado pela verdade?”,  indaga Tim Harford em um artigo sobre as várias mentiras modernas que, vitoriosas, fundaram a era da “pós-verdade”   http://jornalggn.com.br/noticia/como-a-industria-do-cigarro-usou-a-pos-verdade.  Não se sabe ao certo a resposta, mas o futuro da democracia depende de quantos digam sim a essa pergunta. 

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Não estou aguentando mais.

O Blog está parecendo mais uma tele. Talvez desista de comentar mesmo. Estava conectada e escrevendo meu comentário. Pois bem, enquanto escrevia fui desconectada. Porém meu comentário continuava ali, assim como outros. Não é que qdo consegui fazer o login, todos os comentários tinham sumido, inclusive o meu.

Como diria FHC "Assim não pode, assim não dá !., "Seo" Nassif e equipe.

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lenita

A falácia da fé positivista na ciência

Este texto é falacioso e é muito fácil contestá-lo com a realidade dos fatos.

A classe média é bem formada cientificamente. Quem passa nos concursos públicos de alto nível (promotores, juízes, auditores fiscais, delegados, gestores etc)  são pessoas inteligentes, cientificamente curiosas, bem informadas e questionadoras.  Empresários da nova geração são, em sua esmagadora maioria, bem formados cientificamente, assim como profissões de ponta: profissionais de informática, engenheiros, médicos, advogados etc.

E todas, TODAS ESSAS CATEGORIAS E CLASSES SOCIAIS são majoritariamente "coxinhas", consumidores cegos do que se chama, hoje, de pós-verdade, que nada mais é que a velha manipulação ideológica da informação em favor do capital. E como não seriam? Afinal foram formados, desde a infância, acreditando no credo liberal-iluminista, na nobreza do trabalho e do mério pessoal. Dificilmente conseguem se desprender da caixa ideológica que acreditam ser a verdade absoluta do universo e criticá-la.

Isso acontece porque toda a formação social, política e científica desse pessoa se dá dentro do pensamento iluminista-positivista, cuja fé na ciência e na sua neutralidade ideológica é uma das bases dessa formação. Mais ciência não adianta nada para as pessoas, muito pelo contrário, só as afundam mais na crença da neutralidade ideológica do discurso científico.

As pessoa precisam é TOMAR CONSCIÊNCIA da loucura que é o capitalismo e o uso da ciência e tecnologia que ele promove: sugar a vida das pessoas e da natureza para transformá-las em dinheiro.

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Ivan de Union

Acho que voce nao entendeu o

Acho que voce nao entendeu o ponto, Wilton!

"E todas, TODAS ESSAS CATEGORIAS E CLASSES SOCIAIS são majoritariamente "coxinhas", consumidores cegos do que se chama, hoje, de pós-verdade, que nada mais é que a velha manipulação ideológica da informação em favor do capital. E como não seriam?":

Eh isso que ele diz.  Que quem tem curiosidade inata eh menos extremista enquanto os que tem formacao tendem ao extremismo.

Poucas vezes eu li um texto tao bom no blog!

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Ciro Medeiros

"É como se a equipe do

"É como se a equipe do presidente estivesse seguindo o manual de instruções da indústria do cigarro". No caso do cigarro, era o vício na droga que fazia as pessoas enxergarem apenas o que queriam ver; No caso do Trump, é o vício em quê que faz as pessoas exergarem apenas o que elas querem ver?

 

Quanto a curiosidade científica - somente amor ao conhecimento produz isto; seria interessante correlacionar os dados de presença/ausência de curiosidade científica com tipos de personalidades HA/HE (Hierarchy-attenuating/Hierarchy-enhancing) e, depois disto, fazer ainda uma terceira correlação entre esses dois fatores e a Dark Triad 

https://www.researchgate.net/publication/223695683_The_role_of_dark_pers...

 

De novo; no caso do cigarro, era o vício na droga que fazia as pessoas enxergarem apenas o que queriam ver; No caso do Trump, é o vício em quê que faz as pessoas exergarem apenas o que elas querem ver? 

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WG

Texto fundamental. Despertar

Texto fundamental. Despertar a curiosidade em conhecer como o mundo funciona é essencial. É bizarro ver que quase todo o mundo é viciado em celulares, mas não se encontra ninguém que tenha curiosidade em saber como essas máquinas funcionam.  Se nada for feito, a pós-verdade transformará toda a humanidade em coxinhas-zumbis. 

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