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Fernando Horta
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Um país de costas para seus trabalhadores, por Fernando Horta

Um país de costas para seus trabalhadores

por Fernando Horta

É surpreendente como a ideia de se ser um “trabalhador” foi desmontada nos últimos 20 anos. No discurso atual, o trabalhador é quase um pária social. Alguém que vive de “benesses” do Estado, que espera ardentemente se aposentar, para então ser o que desde o início, segundo esta narrativa, ele sempre foi: um vagabundo. No meio tempo, o trabalhador tem a petulância de se juntar nestas nefastas organizações chamadas “sindicatos”. Fazem greves, bloqueando o trânsito (veja só!) e têm a audácia de querer ver no poder um dos seus.

Estes ataques começaram no final da década de 80 e início da de 90, com as tais normas ISO. Naquela época, fui incumbido de trabalhar pela certificação ISO de um laboratório e fiz alguns cursos a respeito. O objetivo das normas ISO, com todas as suas formas de backup de informações, rotinas e controles, era tornar o trabalhador totalmente dispensável. Mesmo com 20 anos de empresa, após a implantação das famigeradas ISO, você seria facilmente substituído por um jovem que pudesse ler e compreender suas rotinas diárias. O fato de o jovem ganhar menos do que o trabalhador “já de casa” era “um detalhe insignificante” frente ao “ganho de qualidade” que representava para a empresa.

Após este período, tivemos um ataque ao termo “trabalhador”. Virou “colaborador”. O objetivo (não declarado) era burlar, de qualquer forma, a aplicação das leis trabalhistas (aquelas que criam “vagabundos” que não gostam de trabalhar). Os juízes do trabalho tiveram uns dez anos de esforços conjuntos para conseguir enquadrar esta “estripulia linguística”. Agora, nos anos 2000, surgiram duas outras formas de atacar o trabalho. A primeira é o chamado “voluntariado” que passou a “contar pontos” nos currículos dos jovens, de forma bastante ideológica. Doar sua força de trabalho significa algo bom, meritório e em troca você ganhar um papelzinho atestando sua “iniciativa”. De preferência negando o termo mesmo “trabalho”, eis que surgiu o termo “voluntariado”. O objetivo é afastar a nódoa do trabalho, presente até mesmo no termo.

O segundo ataque ao termo veio da teologia do empreendedorismo. Não seja um trabalhador, seja um “empreendedor”. Cada vez que vejo, ouço em palestras ou vídeos, um indivíduo branco, cheirando a perfume estrangeiro, sem um calo nas mãos dizer do alto de sua arrogância que “para se ficar rico basta levantar cedo e ir trabalhar”, “mudar o mindset” eu perco a calma. O objetivo é o mesmo das conhecidas AmWay, Herbalife, Uber e etc. em que se colocam milhares de pessoas a trabalharem, sub-remuneradas no afã de sobrepujarem os baixos valores pagos pela quantidade de serviço remunerado. Claro que os CEO’s, estando no topo desta pirâmide semi-escravagista, carregam para si qualquer centelha de valor produzido que não fica com o trabalhador. E o sonho do “empreendedorismo” se encarrega de manter os trabalhadores em transe.

De outro lado, o trabalho é atacado pelo neopentecostalismo de ocasião. O trabalhador não é mais sustentado pelo fruto do seu suor, mas por uma barganha espúria feita com um deus, mediada por um “pastor”. Oferta-se ao pastor, como se a deus diretamente, e este benevolente ser celestial devolverá. O interessante e paradoxal é que o objeto da oferta a deus é algo que você deve reputar “sem valor”: dinheiro. Sua família, portanto, não é sustentada pelos seus esforços, mas pela sua fé e “desprendimento material”. A evidência fática de pastores milionários e fiéis pobres ou a evidência teológica de Jesus ter atacado exatamente os vendilhões do templo nada significa. A retórica fervorosa juntamente com os “milagres” sem nenhuma comprovação faz-nos pensar no retorno ao medievo.

Não foi apenas o espectro da direita que atacou o trabalho. Na esquerda também viu-se um desconforto de se ser trabalhador. A esquerda comprou os termos discursivos todos que pudesse substituir “trabalho”. Ao fazer isto e fortalecer as identidades pós-modernas, a esquerda eclipsou a identidade “trabalhador”. Empoderam-se mulheres, LGBT, quilombolas, negros e, muitas vezes sem darmo-nos conta, a identidade proletária vai ficando escondida, carcomida e mesmo negada frente às novas (e necessárias sim) bandeiras. Recentemente, a esquerda se distanciou ainda mais dos trabalhadores ao cunhar o termo “pobre de direita”. É um ataque claro ao trabalho. Supostamente uma crítica àquele trabalhador sem consciência da sua posição de classe. Como se ler, conhecer e aceitar Marx fosse uma obrigação originária. Junto com a carteira de trabalho o sujeito recebesse uma cópia d’O Capital. O mais interessante é que, décadas de discussão entre o espontaneísmo da consciência de classe ou o trabalho diligente partidário nesta criação, somem no termo “pobre de direita”. No fundo, culpa-se o trabalho por estarmos na crise que estamos.

Não há o que se falar mais sobre a desconstrução do termo “Partido dos Trabalhadores”. O ataque diuturno midiático, jurídico, patronal é evidente. E neste embalo, hoje, o capital cristaliza nas mentes dos trabalhadores mesmos que retirar os parcos direitos conquistados “ser-lhes-á benéfico”. A propaganda do governo Temer é criminosa, para lá de imoral. Contam em telejornais que é preciso que o trabalhador amealhe um milhão de reais durante sua vida, para poder “fazer a sua aposentadoria” sem depender do “estado”. Num país em que altos funcionários públicos ganham subsídios para tudo (desde paletó, gasolina, moradia e escola) e políticos pedem quarenta milhões de reais para “comprar um apartamentozinho para a mãe no Rio”.

É preciso, para vencer o avanço da direita, recuperar o termo “trabalhador”. Recuperar a noção racional de que é do trabalho que é gerado valor. Não de algum deus ou de algum patrão benevolente. É preciso que nos reconheçamos como trabalhadores, e, com isto, compreendamos que temos muito em comum pelo que lutar. Não me interprete mal, todas as bandeiras são válidas, justas e necessárias. Mas sem trabalho nenhuma delas poderá ser erguida. Por inanição.

 

Muito prazer, Fernando Horta, hoje trabalhador da educação, mas já fui office-boy, auxiliar administrativo, gerente assistente, assistente de pesquisa, carregador de mudança, coordenador de CPD, cuidador de idosos e professor de xadrez.

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25 comentários

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Serjão

E as elites

Os parasitas do muindo são chamados de sua elite.

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Lou Albergaria

TRABALHADOR DA HISTÓRIA

E o principal você esqueceu: Autor das melhores análises de conjuntura da atualidade no facebook.  Fora as crônicas incríveis.

Grande Fernando Horta! Outro puta texto! Parabéns!!

 

 

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Oscarlinda Nunes krüger

Dizer o quê depois de ler

Dizer o quê depois de ler esse texto e ter visto o que está acontecendo agora em Brasília, onde representantes dos trabalhadores estão sendo tratados como quadrilheiros? Precisamos mudar o Brasil, urgentemente!!!!!!!!!! 

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Serjão

10 ESTRELAS

Obrigado, Fernando Horta.

Mais um texto certeiro, no alvo.

Preferiria que não tivesse nome, seria melhor; não despertaria tanta oposição. Humanismo e estaria de bom tamanho.

Pelas coisas do coração e pela memória afetiva:

 

 

 

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O pobre de direita

Bão, o probe de direita existe! Juro a ocês! E num me venham cum esse nhemnehem! Num é mula sem cabeça num sinhô. É qui por mode veiz, essis cara di isquerda fica contando lorota nos bar das isquina i si isquece do probe... tanto di direita como di isquierda... né sô.

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Boa, Fernando!Mas essa

Boa, Fernando!

Mas essa história vem de um pouco antes. O falso axioma diz que tempo é dinheiro, escondendo assim o trabalho. Tempo só é dinheiro assim, em relação direta, aos vagabundos rentistas. E mesmo dinheiro... o que é dinheiro, em seu fundamento, senão representação do trabalho? Só delírantes como Mises é que acham que dinheiro dá em árvore, que está solto por aí e que é só a pessoa entender as regras do jogo que vai lá e pega.

O mínimo de sensatez mostra que dinheiro não é nada exceto representação do trabalho. Aliás a partícula "eco" em Economia é a mesma partícula "eco" em "Ecologia". Economista que pensa o dinheiro e não o trabalho e a produção, já enlouqueceu e não serve para mais nada, acho.

Além disso, esse negócio de "tempo é dinheiro" também serve para manter a turma sob pressão. Ou, para usar vocabulário da moda, "estressado". E depois... dá-lhe drogas lícitas ou ilícitas para tentar se curar. Poucas coisas são tão subversivas quanto manter a calma, a serenidade, a concentração. "É preciso manter a turma carente, amedrontada, desesperada e fissurada (rachada) que só assim a gente ganha mais dinheiro dela." "Tranquilo e infalível como Bruce Lee", diz Caetano.

Pode ser que eu esteja errado, cada um julgue de acordo com o que quer, precisa ou pode acreditar, mas sempre que algo parece complexo, complicado e até confuso, acho que o melhor que se faz para não ficar igual barata tonta, macaco bêbado, é fazer o que você faz nesse texto: perguntar aos fundamentos.

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Serjão

Melhor ainda

Ouvi demais, cansei de escutar isso lá no início dos anos oitenta, até mesmo de amigos bem próximos.

"Quem trabalha não tem tempo para ganhar dinheiro."

 

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jose antonio santosjj

de acordo!

Prefeito!. O termo "trabalhador" virou palavrão.  A até o verdadeiro trabalhador o evita.

Viramos todos "colaboradores".

Estava hoje mesmo num supermercado  e pelos aito-falantes pediam para o "colaborador fulano de tal, favor se apresentar...",

Pensei comigo: mais um cretino que não sabe de nada....

Hoje todos sonham ser "empreeendedor" se esquecendo que o empreendedor precisa de trabalhadores para progredir.

Se todos nos viramos "empreendedor" quem vai fazer o trabalho?

 

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C.Poivre

Aragão: O golpe e o pecado

Aragão: O Golpe e o pecado

https://www.conversaafiada.com.br/politica/aragao-o-golpe-e-o-pecado

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Serjão

Sincrônico. Mais do que merecido estar aqui nessa matéria

O Golpe e o Pecado de Alianças com os Inimigos de Classe.

A perene:

Crime de rico a lei cobre,

O estado esmaga o oprimido.

Não há direitos para o pobre,

Ao rico tudo é permitido.

À opressão não mais sujeitos!

Somos iguais todos os seres.

Não mais deveres sem direitos,

Não mais direitos sem deveres.

(Hino A Internacional)

A realidade histórica que nossa esquerda política parece não ter compreendido até hoje é a da luta de classes. Não se trata necessariamente de um confronto físico, como imaginam fascistas ignorantes, mas de um confronto de condições políticas, econômicas e ideológicas. Há um antagonismo inexorável entre aqueles que se apropriam da riqueza social e aqueles que a produzem e padecem sob a tutela violenta dos apropriadores, ou, formulado de forma mais simples, entre os parasitas do capital e os expropriados do produto de sua força de trabalho.

É escandaloso que, enquanto a maioria das brasileiras e dos brasileiros vive com salário mínimo ou até menos, devendo com ele cobrir suas despesas de habitação, vestuário, alimentação e educação dos filhos, uma minoria abastada não se contenta com seus polpudos ganhos do estado e exigem mesadas empresariais de 50, 500 mil ou até milhões, para garantir vantagens indevidas aos contratados em obras e serviços para a administração. 

É preciso colocar a mão na cabeça e perguntar-se: que diabos alguém faz com uma mesada dessas??? Para quê tanto dinheiro? Para comprar SUVs, viver em apartamentos de luxo, frequentar jantares e coquetéis em ambientes para poucos e comprar roupas de custo imoral? Enquanto isso, nossos irmãos lascados se abrigam em barracos e barracões, de lona, de madeira, de alvenaria e latão, submetidos a todas intempéries possíveis, expostos a ratos, lacraias, baratas, escorpiões e a uma polícia violenta que em nada perde para os bandidos em crueldade. Captam água sem tratamento, convivem com esgoto a céu aberto e acessam a energia elétrica por gambiarras. Não têm assistência efetiva à saúde e a educação que lhes oferecem padece de permanente subinvestimento. Vestem-se com roupas velhas doadas ou mais novas, compradas em brechós. São obrigados a sair de madrugada de casa para se espremerem em condução publica cara e de péssima qualidade para chegar ao trabalho, onde abaixam a cabeça para não perder o emprego e comem de suas matulas simples esquentadas, quando possível, num microondas ou frias mesmo, quando o empregador não o disponibiliza. Chegam em casa à noite, fugindo dos assaltos e, esgotados, ainda cuidam de seus filhos e de suas filhas. 

E nossa esquerda política, dizendo defender os desapropriados, não consegue, em nome de uma tal "governabilidade", deixar de parlamentar com os apropriadores aos sorrisos, fazendo-lhes concessões em troca de migalhas de poder. Migalhas, diga-se de passagem, até bem-vindas, porque permitem um mínimo de ação inclusiva e redistributiva. Mas são migalhas, nada mais do que migalhas, se comparadas com a capacidade da apropriação criminosa do patrimônio público e social. 

Compreender a luta de classes implica não aceitar arranjos de poder em detrimento do esforço de empoderamento da classe trabalhadora e dos excluídos. É não aceitar conchavos espúrios com o inimigo de classe. Acertos táticos eventuais com setores reacionários são possíveis apenas quando não agravam o desequilíbrio de forças no enfrentamento da profunda iniquidade. 

Os atores progressistas foram alvo de um ataque vil coordenado por políticos golpistas inescrupulosos, com apoio das instituições judiciais e parajudiciais e da mídia comercial. Seus objetivos são o completo aniquilamento do frágil estado social brasileiro, piorando as condições de vida de milhões de trabalhadores e excluídos, bem como a entrega barata dos ativos nacionais, submetendo o Brasil aos interesses dos Estados Unidos da América. Tudo em prol de negociatas que constituem um assalto à Nação e nossa capitulação ao crime organizado, incluído o tráfico internacional de drogas. Quaisquer alianças que preservem os interesses e objetivos dos usurpadores corruptos da soberania popular são incompatíveis com o projeto de um Brasil altivo, independente e inclusivo, sendo, por isso, inaceitáveis para quem padece da profunda desigualdade econômica e para quem tem consciência política. 

Fala-se que os partidos parceiros do golpe, PMDB e PSDB, afundados na lama das megapropinas, procuram "uma solução" para a crise em que enfiaram o País com auxílio da mídia e das agências persecutórias. Qual a solução? Desfazer o golpe? Reinstituir a presidenta eleita arrebatada covardemente por quem lhe devia lealdade de vice? Devolver o poder à soberania popular, para que escolha o caminho a seguir? Não, nada disso. Isso seria coisa de esquerdista. Querem aprofundar a agenda do golpe e, de preferência, com apoio do PT. 

Como assim? Os partidos do golpe estariam tentando convencer Temer a largar o osso o mais rapidamente possível, com garantias de leniência na persecução penal, para que possam manter o rumo das "reformas" com um sucessor escolhido por suas bancadas de trombadinhas entre pessoas que não têm nenhum compromisso com os interesses da maioria das brasileiras e dos brasileiros. E, segundo avaliação dos golpistas, não poderiam perder tempo, pois, do contrário, impor-se-ia, na contramão de seus planos anti-povo, a vontade das ruas. 

Vencida a hipocrisia, reina, agora, o cinismo absoluto. É evidente que esse Congresso contaminado por práticas de gatunagem na sustentação de um governo golpista ilegítimo não tem condições de escolher o futuro Presidente da República sem contaminar, também, seu governo com sua extorsão criminosa de vantagens materiais. Só a soberania popular manifestada em eleições diretas e livres poderá restaurar a democracia e permitir a afirmação dos interesses nacionais e da maioria das brasileiras e dos brasileiros. 

Acordos com as forças da reação e do golpe só podem ser estabelecidos dentro desse objetivo: a realização imediata de novas eleições. Nada menos. Nossa preocupação é precisamente impedir a aprovação de medidas anti-povo. Só o restabelecimento de um governo legítimo conseguirá barrar as articulações espúrias no Congresso. Exigimos respeito! 

Enquanto em Brasília o MPF leva à frente, sempre com métodos policialescos e num viés moralista que nega a história, o desbaratamento de quadrilhas no poder político, em Curitiba permanece a intenção de destruir as lideranças de esquerda e, mais precisamente, do PT. A burguesia sabe cumprir seu papel. A destruição da política como um todo é a afirmação absoluta do poder econômico e do poder burocrático subserviente àquele. Na luta de classes, temos que combater isso com toda nossa energia. E, para tanto, não é bom confiar no ministério público, na polícia e no judiciário, instituições que fizeram papel sujo no golpe dos corruptos; instituições que não passam de instrumentos dos apropriadores criminosos, a quem sempre trataram com leniência que contrasta com a severidade do julgamento público e escandaloso do PT e da esquerda. Se hoje essas instituições não têm outra opção que a de se afirmarem no combate às forças corruptas, isso se dá porque foram atropeladas pelos fatos. Não o fazem, porém, para preservar os interesses nacionais, promover justiça social e proteger direitos dos mais fracos. Fazem-no na alavancagem corporativa e privilegiam bandidos aquinhoados, dando-lhes imunidade judicial porque expuseram seus comparsas. E ainda acham que isso é um prêmio para brasileiras e brasileiros! 

É importante não nos iludirmos. A saída eventual de Temer não altera nada na correlação de forças. Os golpistas mudam de cara mas não de tática e nem de estratégia. As forças progressistas continuam a ser alvos de um ataque destrutivo, com campanha de desmoralização midiática e com perseguição implacável. E, nesse contexto, não pode haver concessão nenhuma. A luta de classes não desaparece num passo de mágica, num apelo demagógico à união de todos as brasileiras e todos os brasileiros. Aceitar esse apelo é aceitar a aliança entre estuprador e estuprada. Precisam reconhecer o golpe que deram e reconhecer, como força política legítima, os vencedores das eleições de 2014 e, só depois, conversaremos sobre acertos pontuais táticos que permitam o avanço de nossa luta. 

Com inimigos de classe, só se negocia entre a capitulação deles e a vitória de trabalhadores e excluídos.

Eugênio josé Guilherme de Aragão

https://www.conversaafiada.com.br/politica/aragao-o-golpe-e-o-pecado

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José Eduardo de Camargo

O fenômeno descrito nesse

O fenômeno descrito nesse excelente artigo é mundial. Mas no Brasil desde a época colonial o trabalho sempre foi estigmatizado como indigno para os auto-nomeados "cidadãos de bem" (ou de bens, tanto faz!). A primeira coisa que o colonizador fazia quando aqui chegava era comprar um escravo. O trabalho era (e é ainda hoje!) considerado um fardo humilhante para os despossuídos e desprezível para os proprietários. Muitos empresários, porém, gostam de alardear que trabalham muito. Mentira! Pois eles não podem ser considerados trabalhadores pelo fato óbvio de que são os possuidores dos meios de produção. A precarização do trabalho, ainda que seja um fenômemo mundial no atual estágio terminal do capitalismo, no Brasil sempre foi estrutural. Afinal, 380 anos de escravidão deixaram sequelas indeléveis na formação nacional cuja superação já deveria ter ocorrido. E se não ocorreu antes é bem provável que nunca ocorra, infelizmente!

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Como Globonews e CBN criaram o “coxinha”

Hoje (5a feira 18/5, dia seguinte à divulgação do áudio do grampo em Temer) fiquei o dia todo pendurado na Bandnews, por conta dessa bomba. Fazia anos que não ouvia coisas do gênero, como CBN (que tava fora ar hoje).

É impressionante como essas rádios de noticia são "para yuppies":

- Todas têm "colunista de vinhos"; "investimentos no mercado financeiro"; “alta gastronomia"; “empreendedorismo e startups”; "fitness" (sim: em inglês!); “comportamento (descolado)"; etc.

Não é à toa que a classe média brasileira - ouvindo isso 24h por dia (no carro, na sala de espera do dentista, no táxi...) - passou a se achar "empreendedor", "investidor", "sofisticado".

"Muito diferente do povão", né... fala sério!

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hehe... nem fale, caro

hehe... nem fale, caro Romulus. Já viu o samba do crioulo doido que são as capas de sites como o Estadão", o "UOL" etc.?

"Saiba aqui tudo o que você tem que saber para cozinhar macarrão".

"Descubra quais são os 10 carros mais caros do mundo."

"Os 12 erros de brasileiros em Orlando" e "Os melhores lugares para compras fashion" (essas peguei de lá, agora)

"Claudia Leitte vai à manicure." (com dois tês, mesmo, rs...)

Lembro de uma amiga sábia: o ser humano é o único animal que precisa ler numa revista quantos copos d'água precisa beber ao dia. E daquela articulista do Chicago Tribune que escreveu um aviso aos jovens alertando-os de que provavelmente estão desperdiçando suas juventudes com essas bobagens: "Não leia revistas de beleza, elas te farão sentir-se feia."

http://www.chicagotribune.com/news/columnists/chi-schmich-sunscreen-column-column.html

A propósito não é interessante que, de tudo o que a articulista escreveu, o que a mídia capitalista pinçou trocando até o título do artigo foi "use filtro solar"? Cosmética pouca - e terrorismo pouco - é bobagem, né?

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A pasteurização da linguagem

Ao excelente texto do Fernando, eu acrescentaria apenas o meu profundo incômodo com a "pasteurização da linguagem", que consiste junstamente na abolição de palavras sob um pretexto fajuto de "equalizar tudo", escondendo as diferenças que existem na sociedade.

Assim, o termo "funcionário", que no sentido original - como é em francês - de designar "aquele que exerce a função pública" passou a se aplicar a qualquer trabalhador: trabalhador rural, operário, empregado (de empresas, doméstico), etc.

O primeiro passo para corrigir os graves problemas de desigualdade social é usar as palavras adequadas para designar aquilo que na sociedade diferencia as pessoas. 

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Desconstruiram o termo trabalhador

E essa novilingua criada em torna do trabalho funcinou tão bem que os proprios trabalhadores, como alerta Fernando Horta, sentem vergonha de serem chamados de trabalhadores. Trabalhador é pejorativo no Brasil, pois é sinônimo de pobreza. Eh uma perversidade tamanha a desconstrução do operario, do trabalhador, que então entende-se como também desconstruiram o PT.

Acho que o Partido dos Trabalhadores deveria lembrar mais vezes o que significa sua sigla e nela falar com orgulho. Aposto que muita gente nem sabe direito.

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manipulação da linguagem

como arma na luta de classes. Lembrei-me, durante a leitura do texto extraordinário de Horta, da frase colocada na entrada de Auschwitz: Die Arbeit macht frei", o trabalho liberta. O trágico aí está no contexto. Falar em libertação dentro de um campo de concentração?

Curiosamente, é possível constatar uma metamorfose linguística nas petições de advogados trabalhistas. Há um horor às palavras trabalhador e trabalho. Ninguém mais trabalha, e, sim, labora. Durante a ditadura, igualmente, registrei uma aversão àquelas palavras. Hoje, o eufemismo 'colaborador' generalizou-se. Como se chamar alguém de trabalhador fora um grave insulto.

A imagem mais cara e pedagógica que permanece em minha mente e em minhas emoções é a de meu pai, sobretudo quando voltava, suarento, de sua jornada de 12 horas em uma usina de açúcar. Foi meu pai que vi em uma gravura de um livro de história antiga, em que escravos arrastavam pedras gigantes para a construção de pirâmides no Egito. Em comum, tinham o trabalho, cuja etimologia nos leva ao 'tripalium', talvez um instrumento de tortura de escravos.

Não, Horta não pressupõe que antes a realidade do trabalho fosse menos cruel. Apenas atualiza.

Grande texto, tremenda reflexão.

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Fabian Bosch

Essa é a interpretação do

Essa é a interpretação do "brasileira tipico" defendida pelo Barroso. Todos só querem arrumar um emprego público, viver pendurado em uma autarquia qualquer esperando pra se aposentar aos 50 anos. É a soma de todos os clichês.

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pericles

elogio

Sintese excelente! Vamos que vamos! A luta continua! Não há inimigo que não possa ser vencido! Mas, temos que mudar a abordagem, pois infelizmente, uma grande parcela desse grupo social, acredita nas novas formulas milogrosas que o capital lhes impõem! Temos, que aproveitar que eles (capitalistas e rentistas) "ressucitaram" a luta de classes e encontrar uma linguagem que permita as pessoas entenderem que: " os patrões e as patroas não gostam delas, mas sim do seu trabalho!"

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roberto ribarcki

Fenando! Parabéns pelo texto!

Fenando!

Parabéns pelo texto!

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Iurutaí

Concordo em gênero número e

Concordo em gênero número e grau!Só não percebe esta realidade quem, por opções de classe,posição ou compromisso "acadêmico",insiste em voltar-lhe as costas. Só acrescentaria que estas manobras discursivas correspondem a um processo de proletarização do trabalho cada vez mais abrangente: do profissional liberal à academia,do empreendedor individual ao bóia-fria, o capitalismo monopolista transforma todos em proletários (acredito que vem daí a famosa crise das identidades:na verdade a crise de identidade de uma classe,que se descobre viver do mesmo lado que sempre abominou).
Prá terminar, queria lembrar a um dos comentaristas acima,que denunciar a situação atual não quer dizer que "já foi melhor", e sim situar as transformações que um dado termo ou conceito no contexto da História. Que as classes dominantes sempre estiveram de costas para o trabalhador é uma verdade,a novidade é que este - e aqueles que dizem partilhar de seu campo ideológico - também o façam.

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J J Lopez

Reinaldo Azevedo

O ultradireitista Reinaldo Azevedo que falou barbaridades da Dilma, dos movimentos sociais agora posa de coitado nas gravações do qual foi vítima. É claro que as gravações se não foram autorizadas não são  defensáveis, porém grande parte dos blogs ditos sujos que também sofreram seus ataques o defendem como se ele fosse um santinho.

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Parabens, Fernando!

Sem mais delongas, Fernando Horta disse tudo. Parabens!!! Estou tentando fazer com que coxinhas de minha familia leiam seus textos, Fernando, mas continuam se recusando a enxergar as coisas como elas são. Tentarei mais uma vez com esse texto!

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Discordo. O autor presume que

Discordo. O autor presume que o Brasil sempre tratou bem seus trabalhadores, o que é uma mentira. Os operários eram super-explorados no início do século. As pequenas mudanças da era getulista, que melhoraram a situação de algumas categorias urbanas, nunca chegaram ao campo. Após 1964 a participação dos salários no PIB foi drasticamente reduzida. As greves eram e continuam sendo reprimidas de maneira brutal. Direitos trabalhistas básicos como FGTS, horas extras, registro em carteira e Piso Salarial são sistematicamente sonegados por empresários grandes e pequenos abarrotando a Justiça do Trabalho de reclamações. Quando foi que o Brasil não deu as costas aos seus trabalhadores?

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H Menon Jr.

Excelente... Excelente... Excelente!

No exato momento em que o jornalismo tradicional tenta verbalizar o sacrossanto direito das chamadas "fontes" (claro... quando lhes convém... quando não, dão vazão aos vazamentos com incontida alegria...), estamos vendo aparecer alternativas de leitura jornalística da melhor qualidade. Mais um magnífico texto de Fernando Horta. Que, graças a Internet, não precisa estar vinculado a nenhuma dessas vergonhosas empresas jornalísticas. 

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Evocando Simone Weil

"A grandeza do homem é recriar sempre a sua vida. Recriar o que lhe é dado. Forjar isso mesmo que ele padece. Pelo trabalho, ele produz a sua própria existência natural. Pela ciência, ele recria o universo por meio de símbolos. Pela arte, ele recria a aliança entre seu corpo e sua alma. (cf. o discurso de Eupalinos). Notar que cada uma dessas três coisas é  pobre,  vazia e vã, tomada em si e fora da relação com as outras duas. União das três: cultura operária. 
(tu podes sempre esperar)..." 
(Simone Weil, "A gravidade e a graça", Martins Fontes, p. 201).

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