Revista GGN

Assine

A nova cantiga do Chico Buarque incomoda às “pessoas de bem”

Por Marcus Filgueiras

nova música do Chico Buarque (Tua cantiga) recebeu duras críticas nas redes sociais e também de alguns da crítica especializada. Uns dizem que ele é repetitivo. Outros, que faz apologia do adultério!! Li um crítico defender que se deve acabar com o mito de que o Chico não pode ser criticado como artista. (Esse mito existia mesmo?)

Bom, creio que criticar a música pela temática da letra é errar o alvo. É não compreender o papel da arte. Aliás, esse papel deveria ter sido ensinado na escola.

 

Na literatura, na música, na poesia ou por qualquer outra forma de expressão, o artista não está fazendo apologia do adultério quando relata a situação de um amante. Nem apoia, nem reprova. O mesmo acontece quando o personagem principal comete um crime e não é punido. A obra não está defendendo a impunidade. Isso não é problema do artista. Obra de arte não pode ser confundida com tratado de ética. O compromisso do artista é dialogar com o seu inconsciente, onde repousam todos os seus desejos e medos.

A bem da verdade, o que artista nos faz é um grande favor. Isso mesmo: um favor de revelar o retrato da alma humana, que é libertária e transgressora por natureza. Nem adianta negar. Basta uma leitura antropológica do livro do Gênesis para cortar as asinhas de qualquer moralista de plantão.

A propósito, recomendo vivamente a obra “A alma imoral” do rabino Nilton Bonder. Se preferir, assista à peça baseada no livro que está há mais de 10 anos em cartaz, encenada por Clarice Niskier. Acho que os mencionados críticos da obra do Chico não vão gostar muito, pois uma das consequências da obra - fundada na fé judaica - é forçar ao leitor/expectador a olhar para dentro, a visitar o seu próprio quintal.

Suspeito que a crítica movida contra a obra do Chico é apenas um pretexto para criticar o próprio Chico. Tem motivações de paixão política (baseada na desinformação de uma turma recém saída do armário autointitulada de “pessoas de bem”). É lamentável, mesmo sabendo que Chico estará possivelmente rindo de críticas como essas.

Mas, enfim, se a música do Chico não te fizer bem, não tem problema. É só jogar fora o álbum, se você cometeu o “erro” de comprá-lo. Ou poderá até fazer uma postagem dura nas redes sociais em nome das “pessoas de bem” e em defesa da família e dos bons costumes. É democrático. Assim como é democrático eu achar que é uma postura de pura ignorância.

Entretanto, aproveite a oportunidade para jogar fora também Shakespeare, Dostoievsky, Camus, Sábato, Jorge Amado, Neruda, Cortázar, Vinícius, Tom Jobim, Guimarães Rosa, Benedetti, Onetti, Saramago, Garcia Marquez, enfim, todos os verdadeiros artistas que se atreveram a revelar os segredos que rondam o seu quintal, especialmente aqueles desejos inconfessáveis.

6 comentários

Comentários

Espaço Colaborativo de Comentários

Opções de exibição de comentários

Escolha o modo de exibição que você preferir e clique em "Salvar configurações".
imagem de Josiel Loter
Josiel Loter

O que incomoda é a mesmice do

O que incomoda é a mesmice do Chico que alguns "letrados"insistem em transformar em obra prima literária. Chico vem enganando há muito, inclusive com esse posicionamento tosco e ultrapassado sobre política.

Seu voto: Nenhum (5 votos)
imagem de Ricardo Mendonça
Ricardo Mendonça

¨Por isso, não se meta a

¨Por isso, não se meta a exigir do poetaQue determine o conteúdo em sua lataNa lata do poeta tudonada cabePois ao poeta cabe fazerCom que na lata venha caberO incabívelDeixe a meta do poeta, não discutaDeixe a sua meta fora da disputaMeta dentro e fora, lata absolutaDeixe-a simplesmente metáfora¨

Seu voto: Nenhum (2 votos)
imagem de Armando Roda
Armando Roda

Parabéns! Muito bom texto. Só

Parabéns!
Muito bom texto.
Só gostaria de acrescentar que a música do Cristovon é um Lundu divino, a canção é genial.

Abraçis

Seu voto: Nenhum (2 votos)
imagem de Ed Júnior
Ed Júnior

Em relação às mulheres, Chico

Em relação às mulheres, Chico Buarque é o que sempre foi.
Músicas como Mulheres de Atenas, Geni e o Zepelim e Cotidiano mostram bem seu apreço pelas mulheres.
O cara é de esquerda, porém é de outra época.

Seu voto: Nenhum
imagem de Alchimist
Alchimist

Geni e o Zepelim não trata de

Geni e o Zepelim não trata de mulher. Ou você não entendeu? Sobre artísta e época, a épocoa do artista é a época em que ele vive, qualquer coisa fora disso é preconceito.

Seu voto: Nenhum (1 voto)
imagem de Gilson Ribeiro
Gilson Ribeiro

O eu poético do Chico Buarque

O eu poético do Chico Buarque é uma espécie de ator. Nunca temos a perspectiva do Chico, mas de personagens que o Chico encarna e através dos quais se expressa poeticamente. Aqui é a mãe dum menino de rua, ali é um caminhoneiro em disputa amorosa com um grande amigo , noutro momento é um bebê dirigindo-se edipianamente à sua mãe. Numa obra prima recente ouvimos o lamento de um escravo sendo mortalmente açoitado. A única música que me lembro ser o Chico falando como Chico é Paratodos, mas ali o faz pra falar dos cânones do cancioneiro nacional, suas influências, e não dele mesmo. Acho incrível a capacidade dele em mergulhar na visão subjetiva de um personagem e transmitir isso textualmente. Nos romances ele leva isso às últimas consequências, em jogos de espelho identitários supra pirandelianos. Ninguém é obrigado a se identificar nem a se sentir ou não representado por suas incursões líricas. A fruição de sua obra é, em parte, um passeio pela ótica subjetiva de personagens imaginários. Alguns torpes, outros nobres, ou sob qualquer outra possibilidade de adjetivo. Todos autêntica e invariavelmente humanos.

Seu voto: Nenhum

Fenômeno interessante esse

Fenômeno interessante esse agora.

Quer dizer que aos 73 anos Chico ainda incomoda? ...e incomoda aos moralismos tacanhos!... Imaginem então quando as "redes sociais" descobrirem Nelson Rodrigues!... Suspeito que as "redes" estão uns 50 anos atrasadas da realidade estética brasileira. E depois, esses bostas ainda se acham o supra-sumo da modernidade...!!!

Só o que ouvi nesse tema foi o Chico sisudamente clássico. Nem se trata desse Chico de 10 anos pra cá, em que seus temas mais parecem mantras que roçam o atonalismo (teria Chico adotado o figurinho pós-estruturalista da desconstrução?...). É Chico clássico mesmo, de cantiga de roda, com uma letra que na década de 70 passaria quase desapercebida. Repetitivo? Por que o ideal do rupturismo deveria ser alçado à condição de padrão totalitário? Aos 73 anos, Chico ainda teria alguma coisa a provar a alguém?

Quanto aos caminhos inexplorados pelo próprio Chico, e que ficaram para trás, talvez a única coisa a insistir seja que ele honre a dívida com o finado Piazzolla, e ponha letra num tema prenhe de evocações que o gênio argentino lhe presenteou. O problema é que é um tema cheio de notas, e o Chico gosta de pôr uma sílaba em cada nota. Por aí a coisa não vai andar nunca.

Para quem quiser saber algo mais sobre essa última história, talvez valha uma lida num artigo recente que publiquei na Cult: https://revistacult.uol.com.br/home/astor-piazzolla-revolucao-do-tango/.

Seu voto: Nenhum (1 voto)
imagem de claudio marcos
claudio marcos

Os críticos de Chico são os

Os críticos de Chico são os mesmos que na época da ditadura aplaudiram quando os militares praticamente o enviaram para o exílio, só que naquela época não havia as redes sociais. Chico tem sido atacado até mesmo fisicamente como  no episódio em que alguns vagabundos, filhos de milionários, resolveram insultá-lo na saída de um restaurante no Rio. Não gostar de Chico é não gostar de seu posicionamento ideológico, de sua coragem de mostrar que o rei está nu. Chico, incomoda como incomodaram artistas como Lorca e Neruda, eles estão no andar de cima da natureza humana.

Seu voto: Nenhum (7 votos)

Comentar

O conteúdo deste campo é privado e não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.