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A cobertura da mídia sobre crimes sexuais, por Suzana Singer

Sugerido por anarquista serio

Nassa com a bola toda. Enfim o reconhecimento.

OMBUDSMAN

SUZANA SINGER

Abuso sexual: erros e acertos

Seminário na Folha discute como a imprensa agiu nos casos da Escola Base e do médico Roger Abdelmassih

CASO A: os donos de uma pequena escola e os pais de um aluno são acusados de abusar sexualmente de crianças de quatro anos e de produzir fotos e filmes pornográficos.

O que existe contra eles: depoimentos de várias mães, um laudo do IML atestando que um garoto foi vítima de atos libidinosos e as convicções do delegado que interrogou os acusados.

O outro lado: Todos se dizem inocentes.

CASO B: o dono de uma famosíssima clínica de fertilização "in vitro" é acusado de abusar sexualmente de suas pacientes.

O que existe contra ele: uma investigação do Ministério Público, depoimentos de oito mulheres que não se identificam publicamente e de uma ex-funcionária, que tentou chantagear o médico.

O outro lado: "Seis ou sete mulheres? Tenho 20 mil pacientes".

Se você fosse editor, qual história publicaria? O caso A, que parece ter indícios mais fortes, ou o B, que se baseia apenas em algumas declarações anônimas?

Quem escolheu o primeiro engrossou o time dos que divulgaram o escândalo da Escola Base, que passou para a história como uma das grandes nódoas do jornalismo brasileiro. Os que assinalaram o caso B podem se orgulhar de ter contribuído para desmascarar o médico Roger Abdelmassih.

No meu currículo, constam A e B. Como editora do caderno "Cotidiano", fui responsável, há 20 anos, pelas reportagens sobre a Escola Base. Em 2009, estava na Secretaria de Redação quando a Folha noticiou, antes dos outros veículos, as acusações contra o médico.

A comparação entre os dois casos que envolviam denúncias de abuso sexual foi discutida em seminário interno da Folha, que reuniu 172 jornalistas na quarta-feira passada. Na Escola Base, a imprensa fiou-se nas acusações precipitadas de um delegado com vontade de aparecer, que, entre outras coisas, não explicou que era preliminar o laudo do IML que apontou lesões anais no garoto de quatro anos.

A história, que parecia fazer sentido, foi veiculada, com mais ou com menos sensacionalismo, por toda a mídia -apenas o extinto "Diário Popular" não entrou no caso.

Na Folha, graças à obediência ao "Manual da Redação", as reportagens traziam o "outro lado", e as acusações apareciam no condicional, o que não exime o jornal de sua parcela de culpa no episódio.

Foi o jornalista Luis Nassif, na TV Bandeirantes e na Folha, quem primeiro defendeu os acusados, que estavam escondidos em casas de parentes e já tinham perdido a escola, depredada em meio ao furor coletivo que exigia punição.

Depois que o delegado foi substituído, a história desmoronou rapidamente. O caso todo durou 21 dias e a conclusão do inquérito foi que os acusados eram inocentes.

Com a memória ainda fresca do fiasco da Escola Base, a cúpula da Redação discutiu muito se deveria levar em frente as denúncias contra Roger Abdelmassih. Era um especialista renomado, acusado por pacientes ricas, que, mesmo tendo sido atacadas, não procuraram a polícia -algumas continuaram o tratamento na clínica, sob a supervisão de outros médicos, para não abandonar o sonho de ser mãe.

A Folha publicou a reportagem de Lilian Christofoletti em 9 de janeiro de 2009 e, no mesmo dia, o telefone começou a tocar. O número de depoimentos contra o médico subiu para 14, depois para 25, 30, 61.

Sem a ajuda da imprensa, talvez o médico estivesse até hoje clinicando. O fim da história é conhecido: Abdelmassih foi condenado a 278 anos de prisão, mas fugiu do país.

A comparação entre os casos mostra que é impossível criar regras fixas para determinar o que será publicado e o que irá para a gaveta. Uma boa apuração -reunir o maior número de informações, questionar o que vem da polícia e do Ministério Público, ouvir com atenção a versão dos acusados- ajuda muito, mas, no momento de decisão, ainda entra uma boa dose de intuição.

O importante é ter sempre em mente que, como bem definiu uma das acusadas na Escola Base, "o jornalismo tem o poder de glorificar e de massacrar". É a força da imprensa que constrói e destrói reputações, para o bem e para o mal.

 

 

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Casoares

Este é o Brasil!

Duas histórias tristes que mostram exatamente como a mídia brasileira atua: esmaga os pobres e protege os ricos.

(Jornal) Folha: melhor não ler!

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A Suzana é boazinha

Suzana não quis desagradar o patrão e por isso evitou afirmar em alto e bom som que esse patrão(sic, padrão) seletivo é adotado por esse arremedo de imprensa  também ao abordar o campo econômico, politico, que o diga Passadena vs trensalão tucano, como se sabe, vários empresários do caso Siemens - Alstom estão sendo denunciados mas até agora nenhum politico que se deixou corromper, pq será

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...spin

 

 

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Luiz Gonzaga da Silva

"O outro lado: "Seis ou sete

"O outro lado: "Seis ou sete mulheres? Tenho 20 mil pacientes".

O outro lado tinha mais do que milhares de pacientes, tinha do seu lado uma justiça pronta a proteger os bem de vida, ainda que condenados a centenas de anos de prisão. Uma justiça pronta para confiscar passaporte e manter em regime fechado  réus condenados, injustamente, a sete anos e poucos meses, mas bastante condescendente com um  verdadeiro "serial killer".

Abdelmassih pode contar com a preciosa ajuda de um juiz especializado em dar Habeas Corpus a condenados ricos e poderosos. O tal magistrado, que já foi acusado por um de seus pares de ser chefe de jagunços,  a cada dia que passa mais parece ser um deles. Hoje em entrevista, o supremo juiz tenta explicar o inexplicável, ou seja, a diferença de tratamento entre os réus da AP 470 e  AP 536. Diz que que a ação sobre os petistas era uma "teia", logo, todos deveriam ser julgados juntos.

 A AP 470 vai deixar para  História duas "criativas" novidades jurídicas. A primeira, sob inspiração da culinária, temos a "Teoria da Fatiamento", suculenta obra de autoria de Barbosa/ Gurgel. Agora, sob inspiração da vida dos aracnídeos, temos a "Teoria da Aranha" de autoria do ex-advogado geral de FHC. Sem esquecer, é claro, da "Teoria do Domínio do Fato" que com a queda da tese de formação de quadrílha ficou sem domínio e fato.

 

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Se tem essa força de - para o

Se tem essa força de - para o bem ou para o mal -  construir e destruir reputações, por que continuam ainda insistindo nesse jornalismo declaratório, de indícios, com uso de uma cadeia interminável tipo "fulano disse que o sicrano ouviu de beltrano......."? 

SIm, não é fácil criar "regras fixas" para determinar o que deve ou não ser publicado. Uma das características do jornalismo é a pressão pela instantaneidade; o fantasma da tempestividade. Mas um mínimo de cautela pode, e deve, ser imposta em nome da ética. 

Ser "furado" não é uma tragédia. Perder audiência ou assinantes/leitores é circunstancial. Agora a destruição de um ser humano, a perseguição política mesquinha, e a tendenciosidade rasteira, é imperdoável. Inaceitável. 

O maior ativo de uma empresa de comunicação é a sua credibilidade. O resto, parodiando um frase famosa, "são secos e molhados".

 

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Dulce (Madame X)

Ainda faltam...milhares de

Ainda faltam...milhares de reporteres SEGUINDO E DESCOBRINDO O PARADEIRO DO MÉDICO...todos se omitem porque CONCORDAM com  o procedimento dele...lembram do caso Georgina (do antigo INPS?) quando querem descobrir...decobrem.

Fertilização in vitro sempre foi um tratamento CARO...a minha vingança é que MUITOS DA GRANDE IMPRENSA QUE CONTINUAM A PROTEGÊ-LO...ESTÃO EM CASA COM SEUS PIMPOLHOS, COM A CARA DO MÉDICO!!!!!

Os que se omitem...se merecem!

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Ivan de Union

"Depois que o delegado foi

"Depois que o delegado foi substituído, a história desmoronou rapidamente. O caso todo durou 21 dias e a conclusão do inquérito foi que os acusados eram inocentes":

Bom lembrar tambem que a "indenizacao" das vitimas -que "saiu" do judiciario menos de dois meses atraz mas muito provavelmente ainda nao foi paga- nao da nem pra comprar um lote pra uma escola.

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A imprensa é o 4º Poder. Um

A imprensa é o 4º Poder.

Um poder sem legislação, obrigações ou fiscalização!

No Brasil a mídia já elegeu e derrubou presidentes. 

Hoje perdeu o poder que tinha, mas ainda é muito poderosa!

As 5 famílias estão transformando o Brasil numa nação de FASCISTAS!

Aguardo ansiosamente quando a mídia vai começar a discutir a farsa do Mensalão.

Li essa semana que o Mensalão Tucano não foi desmembrado e o principal envolvido foi remetido a 1º instancia!

A midia nada cobra ou fala... enquanto isso fracas reportagens são suficientes para que um juiz abra sindicancias e mais sindicancias...

Se sentiu tão poderoso que achou que podia peitar um governador... caiu a ficha e meteu o rabo entre as pernas!

Em VEJA falam que o poder do PT tirou o corajoso juiz... ousou a desafiar o PT... como diz Paulo Nogueira... Pausas para rir!

Até agora o SBT não se pronunciou sobre a Srta. Sherazade repórter que incentivou o linchamento e justiça com as próprias mãos!

Essa é a nossa triste mídia!

"Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma" 

Pulitzer.

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Faltou citar o nome da "boa

Faltou citar o nome da "boa alma" que ajudou o médico na fuga...

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