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A oposição opera no vácuo, por Aldo Fornazieri

A oposição opera no vácuo, por Aldo Fornazieri

O ano de 2016 começou de forma assemelhada de como terminou 2015: arrefecimento do processo de impeachment, a oposição operando no vácuo, denúncias em abundância particularmente contra o Lula e o governo com baixa capacidade de governar. Analistas e comentaristas domesticados pelo discurso hegemônico do mercado atribuem o arrefecimento do impeachment à definição do seu rito pelo STF. A conclusão é falsa. O STF nada mais fez do que restabelecer as normas constitucionais que vinham sendo violadas sem peias por Eduardo Cunha e a oposição.

O que fez arrefecer o processo de impeachment, em primeiro lugar, foi o despertar da consciência democrática e constitucional que percebeu a natureza golpista do processo. Esta percepção, além de mobilizar as paralisadas forças petistas, engajou pessoas e movimentos críticos do governo em favor da legalidade democrática. O ato dos intelectuais na Faculdade de Direito e as manifestações de rua de 16 de dezembro foram o marco da mobilização da sociedade civil. Diferentemente do processo de impeachment de Collor, quando havia uma forte mobilização da sociedade civil pelo afastamento do presidente, agora boa parte dela é contra o processo golpista em curso. Contra Collor estava também a maioria dos partidos políticos, algo que não ocorre no momento presente. Dilma, em que pese estar enfraquecida, ainda tem significativo apoio no Congresso.

Outro fator que enfraqueceu o impeachment foram os movimentos de Michel Temer. Ao contrário de que se alardeava acerca das qualidades de Temer de unificar o país, ele se revelou tão frágil que não consegue unificar o PMDB. Se ele for reconduzido à presidência do PMDB será à custa de muitas concessões aos grupos do partido que apoiam o governo. Em suma, Temer se revelou politicamente pálido, gerando desconfianças em diversos setores sociais e econômicos. Ademais, pesam sobre Temer algumas denúncias relacionadas à Lava Jato. Mas é preciso perceber que se o processo de impeachment arrefeceu, contudo, ele não está morto, principalmente por conta da fragilidade do governo.

A oposição e o vácuo

A oposição, particularmente o PSDB, não consegue crescer na crise do PT e do governo e no vácuo que esta crise gera. Pelo contrário, a oposição se desconstitui paulatina e progressivamente por operar no vácuo alheio. O PSDB abriu mão de ser protagonista de um projeto alternativo ao do PT. Dirigido por um presidente oportunista e irresponsável – Aécio Neves – inconformado com o resultado eleitoral de 2014, o PSDB, num primeiro movimento, colocou-se a reboque dos movimentos de protesto de março e abril do ano passado. Em nenhum momento o PSDB se apresentou como protagonista, como força dirigente da opinião pública. Do ponto de vista político, o PSDB capitulou às teses mais conservadoras, até mesmo autoritárias.

No momento em que os movimentos de rua se enfraqueceram e a proposta de impeachment transmigrou principalmente para o Congresso, o PSDB, oportunisticamente, colocou-se a reboque da figura política mais abjeta que surgiu na política brasileira dos últimos tempos: Eduardo Cunha. À espreita do desfecho da chantagem que o presidente da Câmara exercia contra o governo, logo que ela se consumou, a oposição começou a construir os cenários pós-impeachment, inclusive com a designação de alguns nomes para o governo Temer. 

As primeiras informações sobre a estratégia do PSDB e de seus aliados para 2016 indicam que a operação no vácuo alheio continuará. Trata-se de uma estratégia da fúria destrutiva de tudo, não importando com as consequências desastrosas para o povo brasileiro e com o país. É a oposição pela oposição, a oposição do quanto pior melhor, da oposição sem projeto e sem causa. É por isso que a oposição não se qualifica junto à sociedade, não agrega prestígio político e eleitoral. Com essa estratégia, o PSDB poderá caminhar para irrelevância e abrir espaços para o surgimento de novos protagonistas personificados, por exemplo, em Marina Silva ou em Ciro Gomes.

Denuncismo e governo

A operação Lava Jato, que tem seus méritos em desmantelar esquemas de corrupção e de promover um avanço republicano ao colocar empresários poderosos na prisão, corre o risco de desmoralizar-se. De operação séria, vem  se transformando numa lavanderia fajuta de vazamentos seletivos. O denuncismo seletivo, principalmente contra o ex-presidente Lula, adquiriu tal exorbitância e tal extravagância ao pondo de caminhar para o descrédito.

O denuncismo, que se viabiliza pelos vazamentos seletivos patrocinados por procuradores e policiais federais e catapultado por setores da imprensa, já provoca a sensação de saciedade e de fastio na opinião pública. As denúncias, muitas vezes provocadas por pressões de duvidosa legalidade sobre delatores desconhecidos, versam sobre tantos assuntos e carecem de tanta comprovação, ao ponto de ninguém mais saber acerca do que Lula e integrantes do governo são acusados. Cabe lembrar a “CPI do fim do mundo de 2005”, que investigou o céu e a terra, Deus e o demônio, e que resultou em nada.

O governo, por seu turno, continua não governando. Até agora, a substituição de Joaquim Levy por Nelson Barbosa, não passa da famosa troca de “seis por meia dúzia”. Ao mesmo tempo em que o ajuste fiscal é necessário, o governo não  tem a coragem de cortar o supérfluo, o secundário e de melhorar a eficiência do gasto público. Se não há como aumentar impostos, há que se cortar na carne sem afetar o social, a educação, a saúde e os parcos investimentos.

Por outro lado, o governo não apresenta planos para as pequenas e médias empresas, para investimentos em infraestrutura, para estímulo do consumo dos mais pobres, para concessões, para garantia do emprego etc. Lula tem razão: ou o governo apresenta planos críveis e viáveis nas próximas semanas ou o governo será condenado ao fracasso.

O governo precisa geram confiança e esperança. O que está em jogo não é apenas a sobrevivência do governo. O que está em jogo são milhões de empregos e o futuro do Brasil. Sem a viabilidade política do governo os empregos continuarão sendo cortados e o futuro do Brasil continuará cada vez mais sombrio. O que se quer do governo e da presidente Dilma é coragem e eficiência. Caso contrário, a história será implacável nos registros de um fracasso político.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

 

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11 comentários

Comentários

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wendel

E ..........................

 "Trata-se de uma estratégia da fúria destrutiva de tudo, não importando com as consequências desastrosas para o povo brasileiro e com o país."

Não precisa dizer mais nada, tudo já foi dito !!!!!!!!!!!!!!!

Aos derrotados pela eleição, que lutam desesperdamente para desconstruir os governos Lula e Dilma, além do PT, e fazem de tudo para destruir a Nação e galgarem o poder.

É como dissessem:"os fins justificam os meios" e nem que tenhamos que provocar o diluvio, para tomarmos o poder, o faremos !!!!!!!!!!!!!!! 

 

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Brutus

Excelente Post! Aldo

Excelente Post!

Aldo acertando, tirante algumas linhas contra Dilma, as quais deploro: mais do mesmo.

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O inquérito escondido....

"Escondido" por Barbosa, inquérito da PF sobre valerioduto é liberadoEm 2011, CartaCapital teve acesso ao documento e ajudou a esclarecer por que a investigação foi mantida em segredo por tanto tempo. Acesse a íntegrapor Redação — publicado 24/01/2014 12h18, última modificação 24/01/2014 17h56    Valter Campanato/Agência BrasilBarbosa

O presidente do STF mantinha sob segredo de Justiça o inquérito sobre valerioduto

 

Após quase sete anos de segredo, o Supremo Tribunal Federal liberou para consulta o Inquérito 2474, da Polícia Federal. Trata-se de uma investigação complementar, feita a pedido do Ministério Público, para mapear as fontes de financiamento do "valerioduto" na época das denúncias sobre o chamado "mensalão". O relatório, assinado pelo delegado Luís Flávio Zampronha, foi encaminhado à Justiça em meados de 2007 e usado em reportagens há cerca de quatro anos como suposta prova do esquema de compra de apoio parlamentar por parte do governo Lula. O inquérito estava sob segredo de Justiça desde então por determinação do hoje presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa.

CartaCapital teve acesso ao inquérito em 2011 e disponibilizou o documento em sua página na internet a partir de uma reportagem, assinada pelo repórter Leandro Fortes, sobre o real conteúdo do inquérito (leia a íntegra do documento clicando aqui). A análise mostrava como a mídia escondeu, à época, o trabalho do delegado para relatar que o esquema a envolver financiamento ilegal de campanha e lobbies privados começou em 1999, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, e terminou em 2005, na administração Lula, após ser denunciado pelo deputado Roberto Jefferson, do PTB.No inquérito o delegado indicava que nunca houve 'mensalão' (o pagamento mensal a parlamentares), mas uma estratégia mafiosa de formação de caixa 2 e que avançaria sobre o dinheiro público de forma voraz caso não tivesse sido interrompida pela eclosão do escândalo.

O inquérito apontava ainda a participação do banqueiro Daniel Dantas no esquema. “Pelos elementos de prova reunidos no presente inquérito, contata-se que Marcos Valério atuava como interlocutor do Grupo Opportunity junto a representantes do Partido dos Trabalhadores, sendo possível concluir que os contratos (de publicidade) realmente foram firmados a título de remuneração pela intermediação de interesse junto a instâncias governamentais”.

As apurações deste inquérito, como se sabe, foram também ignoradas durante o julgamento do "mensalão".

Releia o editorial e a reportagem publicada à época por CartaCapital sobre a precipitação da mídia em anunciar o inquérito como prova do "mensalão".

 

 

Editorial: Um desafio aos "imparciais"

Desde a renúncia de Fernando Collor para escapar do impeachment em 1992, quase todo repórter brasileiro se apresenta como um Bob Woodward ou um Carl Bernstein, a célebre dupla de jornalistas do Washington Post que desvendou o escândalo da invasão do comitê nacional do Partido Democrata no prédio Watergate. Em geral falta cultura, talento e coragem aos pares nacionais para tanto, assim como escasseiam inúmeros dos princípios basilares da atividade aos empreendimentos jornalísticos que os empregam. Apego à verdade factual, por exemplo. Neste momento, destacaríamos dois: a completa ausência de honestidade intelectual e de rigor na apuração.

Há quem entenda a emblemática apuração do caso Watergate como um conto de fadas. Num belo dia de verão, Woodward e Bernstein encontraram em um estacionamento uma fada madrinha chamada Garganta Profunda, ganharam um presente mágico, publicaram um texto e derrubaram o presidente republicano Richard Nixon. A vida real foi bem diferente. A dupla de repórteres publicou centenas de reportagens, checadas exaustivamente a partir de indicações nem sempre claras da fonte. Seu grande mérito foi seguir à risca uma recomendação: sigam o dinheiro.

Evocamos o caso Watergate por conta do reaparecimento na mídia do chamado mensalão. No sábado 2, a revista Época publicou o que dizia ser o relatório final da PF sobre o escândalo que abalou o governo Lula. A reportagem da semanal da Editora Globo estimulou uma série de editoriais e inspirou colunistas a afirmarem que o relatório seria a prova da existência do mensalão, o pagamento mensal a parlamentares em troca de apoio ao governo.

Na quarta 6, CartaCapital teve acesso ao trabalho do delegado Luís Flávio Zampronha, base da “denúncia” de Época. Nas próximas páginas, Leandro Fortes conta o que realmente escreveu o delegado. A começar pelo simples de fato de que não se trata de um relatório final, como afirma a semanal da Globo, mas de uma investigação complementar feita a pedido do Ministério Público cujo objetivo era mapear as fontes de financiamento do valerioduto. Nas mais de 300 páginas, não há nenhuma linha que permita à Época ou a qualquer outro meio de comunicação afirmar que o mensalão tenha sido provado. Ao contrário. À página 5, e em diversos outros trechos, Zampronha foi categórico: “Esta sobreposição diz respeito apenas a questões pontuais sobre a metodologia de captação e distribuição dos valores manipulados por Marcos Valério e seus sócios, não podendo a presente investigação, de forma alguma, apresentar inferências quanto ao esquema de compra de apoio político de parlamentares da base de sustentação do governo federal”.

Não se trata de uma mera questão semântica nem, da nossa parte, um esforço para minimizar qualquer crime cometido pelo PT e por integrantes do governo Lula. CartaCapital, aliás, nunca defendeu a tese de que o caixa 2, associado a um intenso lobby e também alimentado com dinheiro público, seja menos grave que a compra de apoio parlamentar. A história do mensalão serve, na verdade, ao outro lado, àquele que nos acusa de parcialidade. Primeiro, por ter o condão de circunscrever o escândalo apenas ao PT e, desta forma, usá-lo como instrumento da disputa de poder. Depois, por esconder a participação do banqueiro Daniel Dantas, cujos tentáculos na mídia CartaCapital denuncia há anos, e a do PSDB, legenda preferida dos patrões e seus prepostos nas redações. Em nome desta aliança, distorce-se e mente-se quando necessário. E às favas o jornalismo.

Em 2005, quando a mídia desviou-se do núcleo do escândalo, desprezando a lição de Watergate, em busca de denúncias capazes de levar ao impeachment de Lula (quem não se lembra da lendária “reportagem” sobre os dólares de Cuba?), CartaCapital manteve-se firme no propósito de seguir o dinheiro. Temos orgulho de nosso trabalho. Fomos os primeiros a esmiuçar a participação de Dantas no financiamento do valerioduto. Demonstramos com detalhes incontestáveis a origem e as ramificações das falcatruas de Marcos Valério, sem poupar ninguém.

Em agosto daquele ano, quando veio à tona a viagem de Marcos Valério a Portugal, a mídia em coro afirmou que o publicitário viajara a Lisboa com o objetivo de vender o estatal Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) ao banco Espírito Santo. Nossa reportagem do mesmo período comprovava outro enredo: Valério tinha a missão de negociar a Telemig Celular, controlada pelo Opportunity e os fundos de pensão, à Portugal Telecom. E explicava como o então ministro José Dirceu. Associado a outros petistas, participara da tramóia a favor do banqueiro orelhudo. A venda da Telemig, da forma imaginada, levaria os fundos a perdas irreversíveis, renderia bilhões a Dantas e alguns milhões aos cofres petistas. Bastaria ao governo retirar Sergio Rosa do comando da Previ, a fundação dos funcionários do Banco do Brasil que resistiam bravamente às manobras dantescas. Em depoimentos que constam do inquérito do mensalão no Supremo Tribunal Federal, as fontes portuguesas que se encontraram com Valério em Lisboa confirmaram a história contada por CartaCapital.

Sempre enxergamos no lamentável escândalo do valerioduto uma oportunidade de o Brasil compreender a fundo o esquema de captura de partidos e governos por meio do financiamento ilegal de campanhas. O mensalão, em grande medida, se conecta a outros tantos casos recentes da história nada republicana do poder. O ministro Joaquim Barbosa, do Supremo, tem a oportunidade de pôr a limpo estes esquemas e de revelar por completo a influência de Dantas nos governos FHC e Lula, na mídia e no Judiciário. Acima dos interesses partidários, a bem do País.

O relatório de Zampronha é mais uma prova de que estávamos certos. Por isso, decidimos lançar um desafio. A partir da noite da quinta-feira 7 publicaremos em nosso site a íntegra do relatório da PF. Os interessados poderão assim conferir, livres de qualquer mediação, quem é fiel à verdade factual e quem não é. Quem pratica jornalismo e quem defende interesses inconfessáveis. Quem é independente.

 

Releia a reportagem "A verdade sobre o relatório da PF", de Leandro Fortes

O escândalo do mensalão voltou à cena. Em páginas recheadas de gráficos, infográficos, tabelas e quadros de todos os tipos e tamanhos, a revista Época anunciou, na edição que chegou às bancas no sábado 2, ter encontrado a pedra fundamental da mais grave crise política do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entre 2005 e 2006. Com base em um relatório sigiloso da Polícia Federal, encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, a  semanal da Editora Globo concluiu sem mais delongas: a PF havia provado a existência do mensalão e o uso de dinheiro público no esquema administrado pelo publicitário Marcos Valério de Souza. Outro aspecto da reportagem chamada atenção: o esforço comovente em esconder o papel do banqueiro Daniel Dantas no financiamento do valerioduto. Alguns trechos pareciam escritos para beatificar o dono do Opportunity, apresentado como um empresário achacado pela sanha petista por dinheiro.

As provas do descalabro estariam nas 332 páginas do inquérito 2.474, tocado pelo delegado Luiz Flávio Zampronha, da Divisão de Combate a Crimes Financeiros da PF e encaminhado ao ministro Joaquim Barbosa, relator no STF do processo do  “mensalão”. Inspirados no relato de Época,  editorialistas, colunistas e demais istas não tiveram dúvidas: o mensalão estava provado. Estranhamente, a mesma turma praticamente silenciou a respeito dos trechos que tratavam de Dantas.

Infelizmente, os leitores de Época não foram informados corretamente a respeito do conteúdo do relatório escrito, com bastante rigor e minúcias, pelo delegado Zampronha. Em certa medida, sobretudo na informação básica mais propalada, a de que o “mensalão” havia sido confirmado, esses mesmos leitores foram enganados. Não há uma única linha no texto que confirme a existência do tal esquema de pagamentos mensais a parlamentares da base governista em troca de apoio a projetos do governo no Congresso Nacional.

Ao contrário. Em mais de uma passagem, o policial faz questão de frisar que o inquérito, longe de ser o “relatório final do mensalão”, é uma investigação suplementar do chamado “valerioduto”, solicitada pela Procuradoria Geral da República, para dar suporte à denúncia inicial, esta sim baseada na tese dos pagamentos mensais. Trata, portanto, da complexa rede de arrecadação, distribuição e lavagem de dinheiro sujo montada por Marcos Valério. Zampronha teve, inclusive, o trabalho de relatar como esse esquema a envolver financiamento ilegal de campanha e lobbies privados começou em 1999, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, e terminou em 2005, na administração Lula, após ser denunciado pelo deputado Roberto Jefferson, do PTB. Ao longo do texto, fica clara a percepção do delegado de que nunca houve “mensalão” (o pagamento mensal a parlamentares), mas uma estratégia mafiosa de formação de caixa 2 e que avançaria sobre o dinheiro público de forma voraz caso não tivesse sido interrompida pela eclosão do escândalo.

Na quarta-feira 6, CartaCapital teve acesso ao relatório. Para não tornar seus leitores escravos da interpretação exclusiva da reportagem que se segue, decidiu publicar na internet (www.cartacapital.com.br) a íntegra do documento. Assim, os interessados poderão tirar suas próprias conclusões. Poderão verificar, por exemplo, que o delegado ateve-se a identificar as fontes de financiamento do valerioduto. E mais: notar que Dantas é o principal alvo do inquérito.

Ao contrário do que deu a entender a revista Época, não se trata do “relatório final” sobre o mensalão. Muito menos foi encomendado pelo ministro Barbosa para esclarecer “o maior escândalo de corrupção da República”, como adjetiva a semanal. Logo na abertura do relatório, Zampronha faz questão de explicar – e o fará em diversos trechos: a investigação serviu para consolidar as informações relativas às operações financeiras e de empréstimos fajutos do “núcleo Marcos Valério”. Em seguida, trata, em 36 páginas (mais de 10% de todo o texto), das relações de Marcos Valério com Dantas e com os petistas. À página 222, anota, por exemplo: “Pelos elementos de prova reunidos no presente inquérito, contata-se que Marcos Valério atuava como interlocutor do Grupo Opportunity junto a representantes do Partido dos Trabalhadores, sendo possível concluir que os contratos (de publicidade) realmente foram firmados a título de remuneração pela intermediação de interesse junto a instâncias governamentais”.

O foco sobre Dantas não fez parte de uma estratégia pessoal do delegado. No fim do ano passado, a Procuradoria Geral da República determinou à PF a realização de diligências focadas no relacionamento do valerioduto com as empresas Brasil Telecom, Telemig Celular e Amazônia Celular.  As três operadoras de telefonia, controladas à época pelo Opportunity, mantinham vultosos contratos com as agências DNA e SMP&B de Marcos Valério. Zampronha solicitou todos os documentos referentes a esses pagamentos, tais como contratos, recibos, notas fiscais e comprovantes de serviços prestados. A conclusão foi de que a dupla Dantas-Valério foi incapaz de comprovar os serviços contratados.

As análises financeiras dos laudos periciais encomendados ao Instituto Nacional de Criminalística da PF revelaram que, entre 1999 e 2002, no segundo governo FHC, apenas a Telemig Celular e a Amazônia Celular pagaram às empresas de Marcos Valério, via 1.169 depósitos em dinheiro, um total de 77,3 milhões de reais. Entre 2003 e 2005, no governo Lula, esses créditos, consumados por 585 depósitos das empresas de Dantas, chegaram a 87,4 milhões de reais. Ou seja, entre 1999 e 2005, o banqueiro irrigou o esquema de corrupção montado por Marcos Valério com nada menos que 164 milhões de reais. O cálculo pode estar muito abaixo do que realmente pode ter sido transferido, pois se baseia no que os federais conseguiram rastrear.

Segundo o relatório, existem triangulações financeiras típicas de pagamento de propina e lavagem de dinheiro. Em uma delas, realizada em 30 de julho de 2004, a Telemig Celular pagou 870 mil reais à SMP&B, depósito que se somou a outro, de 2,5 milhões de reais, feito pela Brasil Telecom. O total de 3,4 milhões de reais serviu de suporte para transferências feitas em favor da empresa Athenas Trading, no valor de 1,9 milhão de reais, e para a By Brasil Trading, de 976,8 mil reais, ambas utilizadas pelo esquema de Marcos Valério para mandar dinheiro ao exterior por meio de operações de câmbio irregulares, de modo a inviabilizar a identificação dos verdadeiros beneficiários dos recursos. Em consequência, Zampronha repassou ao Ministério Público Federal a função de investigar se houve efetiva prestação de serviços por parte das agências de Marcos Valério às empresas controladas pelo Opportunity.

A principal pista da participação de Dantas na irrigação do valerioduto surgiu, porém, a partir de uma auditoria interna da Brasil Telecom, realizada em 2006. Ali demonstrou-se que, às vésperas da instalação da CPMI dos Correios, em 2005, na esteira do escândalo do “mensalão” e no momento em que a permanência do Opportunity no comando da telefônica estava sob ameaça, a DNA e a SMP&B celebraram com a BrT contratos de 50 milhões de reais. Dessa forma, as duas empresas de Marcos Valério puderam, sozinhas, abocanhar 40% da verba publicitária da Brasil Telecom. Isso sem que a área de marketing da operadora tivesse sido  consultada.

Ao delegado, Dantas afirmou que, a partir de 2000, ainda no governo FHC, passou a “sofrer pressões” da italiana Telecom Italia, sócia da BrT. Em 2003, já no governo Lula, o banqueiro afirma ter sido procurado pelo então ministro-chefe da Casa Civil, o ex-deputado José Dirceu, com quem teria se reunido em Brasília.

Na conversa com Dirceu, afirma Dantas, o ministro teria se mostrado interessado em resolver os problemas societários da BrT e encerrar o litígio do Opportunity com os fundos de pensão de empresas estatais. O Palácio do Planalto teria escalado o então presidente do Banco do Brasil, Cassio Casseb, para cuidar do assunto. Casseb viria a ser um dos alvos da arapongagem da Kroll a pedido do Opportunity. O caso, que envolveu a espionagem de integrantes do governo FHC e da administração Lula, baseou a Operação Chacal da PF em 2004.

Dantas afirmou ter se recusado a “negociar” com o PT. Após a recusam acrescenta, as pressões aumentaram e ele teria começado a ser perseguido pelo governo. Mas o banqueiro não foi capaz de provar nenhuma das acusações, embora seja claro que petistas se aproveitaram da guerra comercial na telefonia para extrair dinheiro do orelhudo. Só não sabiam com quem se metiam. Ou sabiam?

O fundador do Opportunity também repetiu a versão de que um de seus sócios, Carlos Rodemburg, havia sido procurado pelo então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, acompanhado de Marcos Valério, para ser informado de um déficit de 50 milhões de reais nas contas do partido. Teria sido uma forma velada de pedido de propina, segundo Dantas, nunca consolidado. O próprio banqueiro, contudo, admitiu que Delúbio não insinuou dar nada em troca da eventual contribuição solicitada. Negou, também, que tenha mantido qualquer relação pessoal ou comercial com Marcos Valério, o que, à luz das provas recolhidas por Zampronha, soam como deboche. “O depoimento de Daniel Dantas está repleto de respostas evasivas e esquecimentos de datas e detalhes dos fatos”, informou no despacho ao ministro Barbosa.

Chamou a atenção do delegado o fato de os contratos da BrT com as agências de Marcos Valério terem somado os exatos 50 milhões de reais que teriam sido citados por Delúbio no encontro com Rodemburg. Para Zampronha, a soma dos contratos, assim como outras diligências realizadas pelo novo inquérito, “indicam claramente” que, por algum motivo, o Grupo Opportunity decidiu efetuar os repasses supostamente solicitados por Delúbio, com a intermediação das agências de Marcos Valério, como forma de dissimular os pagamentos.

Os contratos da DNA e da SMP&B com a Brasil Telecom, segundo Zampronha, obedecem a uma sofisticada técnica de lavagem de dinheiro, usada em todo o esquema de Marcos Valério, conhecida como commingling (mescla, em inglês). Consiste em misturar operações ilícitas com atividades comerciais legais, de modo a permitir que outras empresas privadas possam se valer dos mesmos mecanismos de simulação e superfaturamento de contratos de publicidade para encobrir dinheiro sujo. No caso da BrT, cada um dos contratos, no valor de 25 milhões de reais, exigia contratação de terceiros para serem executados. Além disso, havia a previsão de pagamento fixo de 187,5 mil reais mensais às duas agências do Valerioduto, referente à prestação de serviços de “mídia e produção”.

Surpreendentemente, e contra todas as evidências, Dantas disse nunca ter participado da administração da BrT. Por essa razão, não teria condições de prestar qualquer informação sobre os contratos firmados pela então presidente da empresa, Carla Cicco, indicada por ele, com as agências de Marcos Valério. De volta a Itália desde 2005, Carla Cicco informou à PF não ter tido qualquer participação ou influência na contratação das agências, apesar de admitir ter assinado os contratos. Disse ter se encontrado com Marcos Valério uma única vez, numa reunião de trabalho com representantes da DNA.

O protagonismo de Dantas no valerioduto e o desmembramento da rede de negócios montada por Marcos Valério, desde 1999, nos governos do PSDB e do PT são elementos que, no relatório da PF, desmontam, por si só, a tese do pagamento de propinas mensais a parlamentares. Ou seja, a tese do “mensalão”, na qual se baseou a denúncia da PGR encaminhada ao Supremo, não encontra respaldo na investigação de Zampronha, a ponto de sequer ser considerada como ponto de análise.

O foco do delegado é outro crime, gravíssimo e comum ao sistema político brasileiro, de financiamento partidário baseado em arrecadação ilícita, montagem de caixa 2 e, passadas as eleições, divisão ilegal de restos de campanha a aliados e correligionários. Por essa razão, ele encomendou os novos laudos detalhados ao INC.

Uma das primeiras conclusões dos laudos de exame contábil foi que Marcos Valério usava a DNA Propaganda para desviar recursos do Fundo de Incentivo Visanet, empresa com participação acionária do Banco do Brasil, e distribui-los aos participantes do esquema do PT e de partidos aliados. O fundo foi criado em 2001 com o objetivo de financiar ações de marketing para incentivar o uso de cartões da bandeira Visa. O Visanet foi, inicialmente, constituído com recursos da Companhia Brasileira de Meios e Pagamentos (CBMP), nome oficial da empresa privada Visanet, e distribuído em cotas proporcionais de um total de 492 milhões de reais a 26 acionistas. Além do BB participam o Bradesco, Itaú, HSBC, Santander, Rural, e até mesmo o Panamericano, vendido recentemente por Silvio Santos ao banqueiro André Esteves. “Para operar tais desvios, Marcos Valério aproveita-se da confusão existente entre a verba oriunda do Fundo de Incentivo Visanet e aquela relacionada ao orçamento de publicidade próprio do Banco do Brasil”, anotou o policial.

O BB repassava mais de 30% do volume distribuído pelo fundo, cerca de 147,6 milhões de reais, valor correspondente à participação da instituição no capital da Visanet. Desse total, apenas a DNA Propaganda recebeu 60,5% do dinheiro, cerca de 90 milhões de reais, entre 2001 e 2005, divididos por dois anos no governo FHC, e por dois anos e meio, no governo Lula. Daí a constatação de que, de fato, por meio da Visanet, o valerioduto foi irrigado com dinheiro público. O que nunca se falou, contudo, é que essa sangria não se deu somente durante o governo petista, embora tenha sido nele o período de maior fartura da atividade criminosa. Quando eram os tucanos a coordenar o fundo, Marcos Valério meteu a mão em ao menos 17,2 milhões de reais.

De acordo com o relatório da PF, Marcos Valério tinha consciência de que agências de publicidade e propaganda representavam um mecanismo eficaz para desviar dinheiro público, por conta do caráter subjetivo dos serviços demandados. Mas havia um detalhe mais importante, como percebeu Zampronha. Com as agências, Valério passou a lidar com a compra de espaços publicitários em diversos veículos de comunicação. “Esta relação econômica estreitava o vínculo do empresário com tais veículos e poderia facilitar o direcionamento de coberturas jornalísticas”.

As Organizações Globo, proprietária da revista Época, sonegou a seus leitores, por exemplo, ter sido a maior beneficiária de uma das principais empresas do valerioduto. À página 68 do relatório, e em outras tantas, a TV Globo é citada explicitamente. Escreve o delegado: “A nota emitida pela empresa de comunicação destaca-se por sua natureza fiscal de adiantamento, “publicidade futura”, isto é, a nota por si só não traz qualquer prestação de serviço, como também não há elementos que vincule os valores adiantados ao fundo de incentivo Visanet”. Zampronha se referia a contratos firmados em 2003 no valor de 720 mil reais e 2,88 milhões de reais. Entre 2004 e 2005, a TV Globo receberia outros pagamentos da DNA, no valor total de 1,2 milhão de reais, lançados na planilha de controle do Fundo Visanet.

Mesmo tratado com simpatia na reportagem da Época, o Opportunity não perdoou. No item 17 de uma longa nota oficial em resposta, o banco atira: “Na Telemig, segundo informações prestadas à CPI do Mensalão, a maioria dos recursos eram repassados às Organizações Globo. Por isso, a apuração desses fatos fica fácil de ser feita pela Época.”

Segundo Zampronha, o objetivo do valerioduto era criar empresas de fachada para auxiliar na movimentação de dinheiro sujo e manter os interessados longe dos órgãos oficiais de fiscalização e controle. O leque de agremiações políticas para as quais Marcos Valério “prestava serviços” era tão grande que não restou dúvida ao delegado: “Estamos diante de um profissional sem qualquer viés partidário”. Isso não minimiza o fato de o PT, além de qualquer outra legenda, ter se lambuzado no esquema. Não fosse a denúncia de Jefferson, o valerioduto teria se inscrutado de forma absoluta no Estado brasileiro e se transformado em uma torneira permanemente aberta por onde jorraria dinheiro público para os cofres petistas.

CartaCapital não espera, como de costume, que esta reportagem tenha repercussões na mídia nativa. À exceção da desbotada tese do mensalão, que serve à disputa político-partidária na qual os meios de comunicação atuam como protagonistas, não há nenhum interesse em elucidar os fatos. O que, se assim for, provará que a sociedade afluente navega tranquilamente sobre o velho mar de lama.

 

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daniel diniz

Concordo, quase totalmente, exceto...

Exceto por um porém que creio ser determinante e que está na base da análise: a ideia de que a sociedade civil organizada barrou o impeachment (ou, ao menos, dificultou o caminho do mesmo). Isso é dar muito peso às esquerdas na rua - que saíram com vontade, que foram com afinco, mas que, por si, não dariam para tanto. O que ajudou a barrar o processo, ou diminuir seu ímpeto, me parece ter sido o papel político da Casa Civil - na figura do ministro Jacques Wagner, que diferentemente da múmia do Mercadante, assumiu o controle político da situação. Se fizermos o percurso do processo, entre fins de novembro e primeira quinzena de dezembro de 2015, veremos que o governo controlou (na medida do possível) o processo de abertura de impeachment e, sobretudo, é possível que tenha articulado em algum grau (fazendo política legítica e legalmente) a virada de mesa no Supremo. Ao governo o que é do governo. Para mim, um dos indícios que sustentam esta hipótese está no fato de Wagner ter se tornado, logo após isso, figura a merecer holofotes das denúncias da grande imprensa como se tivessem percebido em quem mirar para desarticular o governo.

A minha dúvida, caso a hipótese se sustente, é a seguinte: se foi exitosa a estratégia da Casa Civil, sob Wagner, de reverter a tragédia que se desenhava no horizonte em relação ao impechment, por que o governo não consegue sair das cordas no que tange à governabilidade em si? Ou, ainda, por qual motivo o governo tem tanta dificuldade em governar se parece que encontrou o caminho para reestruturar sua base política? Wagner estaria medindo forças dentro do governo? Se sim, com quem?

De resto, Aldo Fornazieri nos brinda com mais uma reflexão brilhante - notadamente, ao meu ver, quando trata do vácuo petista/governista em que brinca de existir, sem nenhuma luz própria, o PSDB.

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daniel diniz

Concordo, quase totalmente, exceto...

Exceto por um porém que creio ser determinante e que está na base da análise: a ideia de que a sociedade civil organizada barrou o impeachment (ou, ao menos, dificultou o caminho do mesmo). Isso é dar muito peso às esquerdas na rua - que saíram com vontade, que foram com afinco, mas que, por si, não dariam para tanto. O que ajudou a barrar o processo, ou diminuir seu ímpeto, me parece ter sido o papel político da Casa Civil - na figura do ministro Jacques Wagner, que diferentemente da múmia do Mercadante, assumiu o controle político da situação. Se fizermos o percurso do processo, entre fins de novembro e primeira quinzena de dezembro de 2015, veremos que o governo controlou (na medida do possível) o processo de abertura de impeachment e, sobretudo, é possível que tenha articulado em algum grau (fazendo política legítica e legalmente) a virada de mesa no Supremo. Ao governo o que é do governo. Para mim, um dos indícios que sustentam esta hipótese está no fato de Wagner ter se tornado, logo após isso, figura a merecer holofotes das denúncias da grande imprensa como se tivessem percebido em quem mirar para desarticular o governo.

A minha dúvida, caso a hipótese se sustente, é a seguinte: se foi exitosa a estratégia da Casa Civil, sob Wagner, de reverter a tragédia que se desenhava no horizonte em relação ao impechment, por que o governo não consegue sair das cordas no que tange à governabilidade em si? Ou, ainda, por qual motivo o governo tem tanta dificuldade em governar se parece que encontrou o caminho para reestruturar sua base política? Wagner estaria medindo forças dentro do governo? Se sim, com quem?

De resto, Aldo Fornazieri nos brinda com mais uma reflexão brilhante - notadamente, ao meu ver, quando trata do vácuo petista/governista em que brinca de existir, sem nenhuma luz própria, o PSDB.

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Marco Abi

A fraqueza da oposição impressiona

O natural, em qq canto do mundo, seria uma oposição fortalecida com a crise da desgovernabilidade da inacreditável segunda gestão (?) Dilma. Mas aqui acontece o contrário: a oposição empaca. Isso qdo não perde eleitorado. Simplesmente porque não sabe o que fazer.

Sem saber para onde seguir (impeachment ou não?), dispersa e difusa (PSDB numa ponta, Gilmar Mendes na outra, descoordenados), a oposição não oferece alternativas ao descalabro em que o governo Dilma enfiou o país.

Triste de ver o PSDB liderado por um inacreditável Carlos Sampaio da vida. Triste e lamentável.

Triste de ver o outrora elegante porta-voz Merval Pereira fazendo papel de mero torcedor (mesmo que refinado, erudito e rebuscado -- ainda assim, apenas um torcedor).

O PT agradece, mais uma vez, à oposição.
 

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Otimismo

Em linhas gerais, me parece uma análise lúcida da situação, mas, em alguns momentos, sugere-me apresentar um otimismo não justificado.

Por exemplo, quando diz que “o que fez arrefecer o processo de impeachment, em primeiro lugar, foi o despertar da consciência democrática e constitucional que percebeu a natureza golpista do processo”. Despertar da consciência democrática e constitucional... soa muito bonito... juro que gostaria de ver ou de acreditar nesse despertar, mas acho difícil. Para mim, essa consciência democrática, no Brasil e no mundo está cedendo cada vez mais espaço para uma consciência fascista de direita.

Dizer que a oposição age, basicamente, dentro do vácuo deixado pelo governo, parece-me acertado. Como não existe espaço vazio de poder, bem ou mal, algum grupo de atores político o preenche. Também me parece que o PSDB perdeu e continua perdendo o bonde do protagonismo político. Mas e daí? O discurso político está sendo substituído cada vez mais por um discurso moral rasteiro. O que vemos sendo pautado pela imprensa não é a discussão por uma alternativa de projeto político de país, mas um discurso falso moralista contra a corrupção puro e simples. E por mais absurdo que pareça, a esquerda que historicamente era portadora do discurso contra a corrupção, terminou na defensiva, acuada contra as cordas levando jabs de direita.

Se Aécio, Marina, Ciro, Bolsonaro ou Joaquim Barbosa, o nome pouco importa e sim o fato de que corremos o sério risco de um crescimento da direita mais retrógrada, retrocesso dos pequenos ganhos sociais que tivemos e uma avassaladora política econômica de concentração de rendas e alinhamento com os Estados Unidos. O poder econômico não precisa mais do que um vácuo da esquerda para levantar um nome qualquer que o represente e possa dar livre prosseguimento ao seu projeto.

Outra afirmação que diz que o vazamento seletivo que pulula nos jornais “já provoca a sensação de saciedade e de fastio na opinião pública”, parece-me não corresponder à realidade. Penso que a opinião pública não sente fastio ao perceber o critério falso ou tendencioso dos vazamentos (se fosse assim, talvez substituísse a Veja pela Caros Amigos), mas por achar que os corruptos – no caso petistas e principalmente Lula – ainda não foram presos e que tudo vai terminar em pizza, apesar da luta heroica de Moro e Gilmar Mendes.

As consciências formadas pelo PIG sentem fastio em achar a polícia prende e a justiça solta; que menores matam e o ECA os protege; que a maioridade penal ainda não foi reduzida para, quem sabe, 12 anos; que criminosos e traficantes – todos negros, pardos, pobres e da periferia – continuam soltos e matando cidadãos e policiais inocentes e que os direitos humanos só se preocupam com bandidos; e que o PT formou uma quadrilha para aparelhar o Estado e transformar o Brasil em uma nova Cuba ou Venezuela, e que se não se tomar uma providência séria contra isso, corre-se o risco da bandalheira continuar. Enfim, que a justiça só protege os criminosos em detrimento da família brasileira, cristã, branca, machista e hetero e que, apesar dos constantes ataques gays e comunistas, ela ainda resiste sob a graça de Deus.

Finalizando, gostaria de pensar estivéssemos a testemunhar o surgir de uma compreensão um pouco mais crítica do jornalismo global ou o despertar da consciência democrática, mas tenho sérias dificuldades nesse sentido.

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altamiro souza

cabe a nós e a rodas as

cabe a nós e a rodas as pessoas responsáveis pela defesa da  democracia

tentar gertar uma confiança e uma esperança necesárias  a

uma saida politica que interesse a toda a população brasileira

e não apenas a  um punhado de

golpistas, os quais  querem somente  travar a economia

e qualquer atuação do governo no sentido de avançar  nas conquista dos últimos 12, 13 anos....

a repetição da palavra crise é uma falácia, já que no dia a dia

as coisas não estão rão ruins quanro se propala.....

quanro ao texto, acho que o o cientista analisou bem a incapacidade

da oposição de oferecer altenativas programaticas

para uma saída política consentanea com

as necessidades democráticas....

nem vou criticá-lo por criticar dilma.  pois  sou defensor do atual

governo.e especialmente da presidenta..

portanto, meio suspeito para falar nisso.

mas tenho a imnpressão de que alguns obstáculos já foram

superados e há um caminbo aberto para que se retome o crescimento....

 

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André STK

bonna,bonna,bonna.....¨menas¨

bonna,bonna,bonna.....¨menas¨.

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Belíssimo texto

Resumindo.

A oposição não tem projeto e não inspira confiança..

O govenro não tem rumo nem inspira confiança.

A justiça não funciona e não inspira confiança.

O legislativo é comandado por dois criminosos.

Bem, resta ao povo o que mesmo ???

Talvez esperar que pelo menos os professores de sociologia consigam explicar o fenômeno de uma nação que após 30 anos de liberdades política e individual conseguiu se reduzir a isso aí, e não ficar papagaiando o que todo mundo já sabe.

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"Nascem demasiados homens, para os supérfluos criou-se o Estado"  Zaratustra

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Hamilton

No lugar de sociólogos

melhor chamar astrólogos.

Jornalistas e economistas também não são recomendados.

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maria cecília p binder

Professor Fornazieri

Como sempre, Aldo Fornazieri faz uma análise política pondo os pingos nos "is", numa linguagem clara, de fácil compreensão. Temer e Cunhas (os dois) se merecem. São incapazes de pensar além do próprio umbigo, ou seja, da ânsia do poder pelo poder. O Brasil que se lixe. Os trabalhadores brasileiros (no sentido da classe-que-vive-do-trabalho, segundo R. Antunes) que se lixem também. Até quando? E ainda há quem acredite que Deus é brasileiro!   

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