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Acima dos muros, por Eliane Brum

Jornal GGN - Em sua coluna para o El País dessa semana, Eliane Brum deu espaço para quatro interlocutores que não se encontram nem à direita e nem à esquerda do cenário político atual.  Ao contrário dos que pensam que isso significa está “em cima do muro”, o filósofo Pablo Ortellado mostra outro lado: “Fugir da polarização é condição para pensar e para agir com autonomia e independência”, disse. "Para ter uma posição não significa está de um lado ou de outro. Para sair do impasse atual é preciso abrir mão das velhas identidades”, afirmou Moysés Pinto Neto escritor e doutor de filosofia. Confira as entrevistas, na íntegra:

Do El País

Acima dos muros

Por Eliane Brum

Em cima do muro. Isentão. Colaboracionista do golpe. Covarde. Omisso. Ingênuo. Burro.
 
Estes são alguns dos nomes dados a quem não está em nenhum dos lados do Brasil polarizado. Não se alinha – muito menos se enfileira – nem na narrativa #ImpeachmentJá nem na “#NãoVaiTerGolpe. Nem amarelo, nem vermelho. E, assim, é achincalhado pelos dois lados, como traidor de ambos.
 
Como disse Bruno Cava: “Me situo nesse lugar nada confortável de ser a esquerda que a direita gosta – e a direita que a esquerda gosta. Mas que, no fundo, ninguém gosta. Lugar de pensamento que ainda balbucia, mas que ainda pensa”. Ou, nas palavras de Bruno Torturra, que se apresenta como “desidentificado”: “Prefiro a vertigem da desidentificação do que o falso refúgio das bandeiras de sempre”.
Como afirmei em meu artigo anterior, não estar em nenhum dos lados é posição. E forte. Silenciá-la, pela desqualificação, é uma perda num momento em que, mais do que nunca, as vozes precisam ser ampliadas e não reduzidas. Muito menos caladas. “Os discursos partidários, pronunciados por muitos e sempre da mesma forma, tem sufocado, com sua abundância repetitiva, os discursos independentes”, diz Pablo Ortellado. Ou, na expressão de Moysés Pinto Neto: “É como um vórtice bipolar, sugando tudo para seu interior e reduzindo todas as posições às suas referências”.
 
O país está, aparentemente, dividido por muros que impedem qualquer contato que não seja aos gritos. Ou que se realiza pelo espancamento, na tentativa de deletar literalmente o outro do espaço público. Os muros dos condomínios fechados, as cercas eletrificadas ganharam as ruas. E ninguém mais se escuta, cada pessoa um muro em si mesma, um portão armado, um vidro blindado e com insufilm.
É preciso promover o desarmamento. É necessário tentar enxergar acima dos muros – e derrubá-los. Não a marretadas, mas pelo instrumento mais subversivo desse momento histórico: o diálogo. A conversa que só pode acontecer pelo reconhecimento do outro como alguém que pensa diferente, não como um inimigo a ser eliminado.
 
É muito duro sustentar o lugar de não saber. Penso que é com essa dificuldade que também nos deparamos. Tenho dúvidas se não é por isso que uma parte das pessoas, à direita e à esquerda, prefere aderir ao conforto de uma das narrativas, para pelo menos se iludir que há uma resposta, que há alguém que sabe. Aderir como tentativa de estancar a angústia de sentir-se sem chão. Talvez seja o momento de suportar o não saber e acolher as incertezas. Mas em movimento, no movimento da busca.
No que se refere ao campo das esquerdas, também tenho dúvidas se não há, de novo, mais uma exortação ao “menos pior”, à eterna esperança da tal guinada à esquerda. Ou algo correspondente ao “voto útil” aplicado às manifestações. Mais uma conclamação, como se viu em eleições recentes e especialmente na última. Será que os dias seguintes não mostraram, de forma bastante eloquente, que isso já não deu certo? Que isso só alargou o abismo e que já passou da hora de encarar o buraco e enfrentar os conflitos, por mais duro que seja, para que pelo menos exista uma chance de criar possibilidades?
 
O diálogo é tão urgente que tem de ser provocado em todos os lugares. Percebi que, neste momento, nem na minha própria coluna de opinião posso falar sozinha. Convidei para este espaço, para nos ajudar a nos movermos, para além do que cada um acredita, algumas pessoas que têm ousado pensar e escrever, em geral em blogs e nas redes, sobre esse momento tão movediço, em que poucos se arriscam a dizer além do já dito. E a pensar fora das narrativas de adesão de um e outro lado. Estas, que já decoramos.
Trago para este espaço as vozes abafadas, as daqueles que não estão “em cima do muro”, mas “acima dos muros”, no plural. Moysés Pinto Neto é escritor, professor da Universidade Luterana do Brasil, graduado em direito e doutor em filosofia. Sua leitura do Brasil pode ser acompanhada no blog O Ingovernável. Bruno Torturra se dedica a experimentar novos caminhos para a participação política e para o jornalismo, a partir das possibilidades de hiperconexão. Fundou a Mídia Ninja, essencial na cobertura de Junho de 2013, e se distanciou dela a partir do final daquele ano. Hoje, toca o Estúdio Fluxo. Pablo Ortellado é filósofo, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas na Universidade de São Paulo e coautor de Vinte centavos: a luta contra o aumento, entre outros. Ele testemunhou, como pesquisador, todas as manifestações contra e a favor do impeachment organizadas em São Paulo. Bruno Cava, autor de A multidão foi ao deserto, entre outros livros, e blogueiro do Quadrado dos Loucos, também é um atento investigador das ruas, pesquisador de lutas e movimentos urbanos há 11 anos, associado à Universidade Nômade.
 
Eles responderam, por e-mail, a três perguntas propostas por mim. Embora esses quatro interlocutores estejam próximos do campo das esquerdas, há diferenças consideráveis no seu modo de compreender esse momento. E há quem considere o conceito de esquerda, assim como o de direita, superados, insuficientes e redutores. De modos diferentes, os quatro são observadores atentos de Junho de 2013 – o ponto de inflexão que não parece ter sido compreendido por protagonistas de ambos os lados.
A ideia, aqui, não é construir um terceiro discurso – ou um terceiro lado. Isso também seria empobrecedor. Não há homogeneidade. E é mais interessante que ela não exista, que os discursos possam ser múltiplos. Talvez, por isso, também seja difícil – ou mesmo impossível – nomear esse fora dentro. Ou esse além dos muros.
 
A transgressão necessária, nesse momento tão delicado, é atravessar os muros com palavras. Mas essas palavras têm várias direções.
 
1) Por que você não está em nenhum dos lados ou dos polos da chamada "polarização do país"?
 
Moysés Pinto Neto - Não estar em um dos lados não significa não ter posição – sou contrário ao impeachment por questões jurídicas e políticas. Significa simplesmente não subscrever as duas principais narrativas. De um lado, a narrativa oposicionista, que define o PT como uma quadrilha que se apropriou do Estado para se manter no poder, garantindo sua permanência por meio de fraudes eleitorais e manobras populistas. De outro, a narrativa governista, que define o que está ocorrendo como um golpe de Estado travado pelas forças conservadoras, com vistas a atingir o processo de inclusão social levado a cabo nos últimos 12 anos. O problema é que essas narrativas estão incompletas.
 
A oposição desenha o cenário de modo a transformar o PT em alvo principal e ignora, propositalmente, a dimensão estrutural e universal que está sendo revelada nos processos de investigação da Operação Lava Jato. A situação, por sua vez, prende-se a importantes questões formais, baseadas em instituições jurídicas, mas não enfrenta o mérito de que o estrutural não elimina a responsabilidade de quem se envolveu e aprofundou o processo, muitas vezes blindando de forma idolátrica o partido contra toda e qualquer crítica.
 
Há tempos vem se construindo uma crítica ao modelo baseado numa noção de progresso unidimensional, que mede o sucesso das políticas públicas por meio dos índices quantitativos de crescimento, se sustenta em alianças com latifundiários, oligopólios econômicos e no alinhamento político com o "Centrão". A corrupção não foi um acidente, mas parte de um programa que aceitou como fato consumado a existência desse complexo oligopolista para promover o crescimento nacional. Os movimentos sociais de 2013 entenderam perfeitamente esse mecanismo quando usaram o lema #NAOVAITERCOPA.
Não estar na polarização significa ampliar narrativas que têm sido reprimidas em nome da simplificação maniqueísta.
 
Bruno Torturra – Enxergar o país sob a lente da polarização já se provou algo pior do que simplista. É, a essa altura, alucinatório. De certa forma, a polarização é o exato oposto do que estamos vivendo na política institucional – escancaradamente promíscua, fisiológica e amalgamada.
Hoje, vejo a polarização mais como um fenômeno entrópico de comunicação do que político. Ela se destaca e exerce toda essa força gravitacional em ruas, jornais e timelines justamente pela dificuldade imensa de leitura de uma paisagem política caótica, trágica e complexa demais para ser resumida em posts, manchetes ou palavras de ordem.
 
Essa complexidade é uma barreira enorme para novos léxicos, lideranças, símbolos e campos de identificação emergirem e se tornarem forças relevantes, críticas e propositivas no debate. É um terreno minado para a assertividade. Mas, à medida que a crise se aprofunda, cresce também a ansiedade pública e a necessidade de respostas, de posições firmes. Então os polos – por mais disfuncionais que sejam – se tornam os únicos aspectos facilmente identificáveis do terreno.
 
É uma pena, porque esse teatro esconde a causa que poderia, em um ambiente racional, unir grande parte dos dois campos e uma massa de desidentificados no caminho: a completa refundação do sistema de financiamento eleitoral em nome de um mais barato, público e transparente.
Pablo Ortellado – Essa polarização política, ao meu ver, tem dois motivos principais. O primeiro é o aparecimento, no Brasil, do que os americanos chamaram de “guerras culturais”, que são as disputas geradas pela moralização do debate político. Essa moralização aparece na proeminência no debate político de temas como casamento gay, aborto e endurecimento penal, em detrimento de questões tradicionais de política econômica e social. Além disso, a moralização aparece também no tratamento moral dado a esses temas clássicos da política econômica e social que opõe, de um lado, uma moralidade punitiva, associada à direita conservadora e, de outro, uma moralidade compreensiva, associada à esquerda progressista.
 
Assim, o Bolsa Família, por exemplo, não é mais discutido na chave da sua eficácia ou eficiência no combate à pobreza, mas suscita dois discursos morais inconciliáveis. Para um lado, ele é um instrumento que premia a indolência, a incapacidade de poupança e a falta de empreendedorismo. Para o outro, ele é uma política solidária que mitiga uma injusta pobreza estrutural.
Com a moralização da política, o debate perde as referências comuns e se torna apenas o agressivo choque de visões morais de mundo. Essa moralização do debate é reforçada e está entrelaçada com a rivalidade entre os dois grandes partidos políticos brasileiros, o PT e o PSDB, que organizam as demais forças políticas. Como estão bastante organizados e enraizados em diversos setores da sociedade brasileira, cada um deles tem a capacidade de coordenar um discurso unitário. Pouco importa se essa orquestração é fruto da adesão espontânea dos partidários a argumentos e frases de efeito ou se emana como ordem de um centro político. O resultado é que cada partido tem um discurso pronto, fechado e autorreferente que é igual em toda a parte: nas redes sociais, nos meios de comunicação e na conversa cotidiana.
 
Esses discursos partidários, pronunciados por muitas pessoas, sempre da mesma forma e em todos os lugares, sufocam, com sua abundância repetitiva, os discursos independentes que, pela própria natureza, são singulares e descoordenados. Fugir da polarização é, portanto, condição para pensar e para agir com autonomia e independência.
 
Bruno Cava – Fala-se em terceira via, mas estou do lado de uma segunda via, em relação a um sistema político-partidário esgotado, onde as polarizações dos líderes escondem barganhas, promessas e posicionamentos que, por trás da retórica, não passam da reposição do mesmo jogo de sempre. Então, estou polarizado contra essa falsa polarização, e é o que me faz continuar pensando.
 
Diante do clamor por mudanças pelo país inteiro, em todos os segmentos, os protagonistas dessa crise simulam que estão mudando, para que tudo continue como está. Seja essa simulação na forma da guinada à esquerda, seja na do fim do petismo. A diferença, em termos de dinâmica, entre as duas, está na capacidade de falar para fora. O verde-e-amarelo e a pauta anticorrupção são inclusivos e tendem a funcionar como guarda-chuva para as indignações, ao mesmo tempo que símbolos partidários não são bem vistos e podem ser vaiados. O vermelho e a invocação de pertencer a um grupo específico, a esquerda, faz da outra manifestação uma espécie de prova de coesão, com contornos claros.
Isto talvez explique, em parte, a diferença quantitativa entre uma e outra: a pessoa indignada, que não está acostumada a ir a manifestações, tende a ir nas de verde-e-amarelo. Eu acho isso particularmente irônico, porque, quando gritávamos "Não vai ter Copa", nos protestos de 2014, vestíamos preto e vermelho. Mas, naquele período, boa parte da esquerda dizia que não era hora de manifestar, que era hora de torcer. Ou seja: há apenas dois anos, era imoral *não* vestir verde-e-amarelo. Agora, essas mesmas pessoas atribuem ao verde-e-amarelo uma conotação negativa.
 
O grito antipolítico ou anticorrupção exprime uma tendência mundial de rejeição do atual sistema representativo, na sua dimensão política, econômica e ambiental, que não corresponde às potencialidades de uma democracia hoje possível, mas que é sistematicamente bloqueada. Atrás do “anti”, do “não”, do repúdio geral à figura do político, existe um “sim” maior, como vimos nas jornadas de junho de 2013, no Brasil, em Gezi Park, na Turquia, no movimento do 15M na Espanha, nas revoluções árabes, em todo um ciclo vivido intensamente pelo mundo. É possível trabalhar com esse sim.
 
2) Se você não está em nenhum dos lados, onde você está? Que posição é esta? E como nomeia esse “lugar” onde você está?
 
Moysés – Esse lugar tem tido sua nomeação proibida. Antigamente, chamavam pejorativamente de "terceira via", agora chamam de "isento". Na realidade, se "terceira via" se confunde com o liberalismo envergonhado de Tony Blair e "isento" se confunde com "sem posição", não vejo como esses termos poderiam ser adequados. Trata-se da tentativa do "vórtice" bipolar de sugar tudo para seu interior, reduzindo todas as posições às suas referências.
 
Esse "lugar" surge desde Junho de 2013, quando houve oportunidade inédita de enfrentar velhas oligarquias com novas forças políticas, formadas a partir de uma transição geracional mergulhada em uma mutação tecnológica e cultural. Ele parte da falência da democracia representativa em contexto mundial, cuja crise se expressa pela presença sintomática de movimentos críticos ao sistema (como Espanha e Grécia), pelo descontentamento popular com questões globais, apropriado pela extrema-direita (com Le Pen, Donald Trump etc), pelos coletivos auto-organizados (como Zapatistas, Rojava) e, por fim, com revoltas violentas difusas nas periferias e com fundamentalismos.
 
O contexto atual ainda coloca a questão emergencial do "Antropoceno", a entrada em um período geológico no qual o fator humano desempenha papel central na organização da Terra. A continuidade do programa de crescimento econômico baseado na hiperprodução e no hiperconsumo não faz mais qualquer sentido em um contexto material em que é necessário reduzir nosso impacto.
Alguns se perguntam se a própria noção de "esquerda" é útil para pensar esse porvir, entendendo-a como um marcador identitário que restringe a capacidade de disseminação das lutas e promove um fechamento "condominial", que gradualmente se apaixona pelas próprias ideias. E, quanto mais caminha ao extremo, mais rígida, em um sentido quase militar, se torna a identidade.
 
Por outro lado, mesmo se considerarmos a crise da mediação e a crise ecológica como novos termômetros políticos, que reposicionam a polaridade, é difícil simplesmente negar a existência de uma diferença que corta ao meio as posições: para onde vão essas transformações sociais, ecológicas, tecnológicas. A divisão social em dois grandes grupos, aqueles que são donos de tudo e de todos os direitos e aqueles que não têm direito algum, reduzidos à condição de "vida nua", parece ser o fio que corta necessariamente toda visão acerca do futuro, mesmo que marcada por esses novos termômetros.
 
Assim, pode até ser que o significante "esquerda" não diga mais nada sobre o porvir, já que sua herança humanista e parlamentar não dá conta dos problemas que o Antropoceno coloca. Do mesmo modo que a linguagem política dos direitos humanos pode ser insuficiente para compreender o contexto pluricultural que emerge no cenário globalizado, eliminado o privilégio ocidental de se colocar como a própria humanidade. Mas é inegável que há uma herança aí a ser apropriada: a luta por justiça que ultrapassa a noção de mera sobrevivência. A luta por justiça contra a divisão da sociedade em duas, uma com tudo e outra com nada.
 
Torturra – Acho que meu lugar é o da travessia. Impossível de ser posicionado com precisão. Pode ser um lugar muito desconfortável, mas necessário. Sempre me considerei – e ainda me considero – alguém de esquerda. Mas acredito realmente que a definição desse termo está, como todo o resto, em crise. Porque fica muito difícil saber o que é esquerda quando não sabemos mais onde está o norte. Quando não temos mais a clareza de que futuro, qual ideia de sociedade e democracia nosso campo vai oferecer para o século 21.
 
A forma, estética e ética das esquerdas do século 20 não dão mais conta. Por isso, nesse momento, eu acredito que a melhor posição não seja um “lado”, mas uma atitude desarmada, racional e realista. Abraçar a dúvida. Para, quando possível, ter mais clareza de léxico, propostas e ação. Para isso recorro às duas bases da minha formação política. Por um lado, autores iluministas e valores de crítica e autocrítica permanente. De rever e adaptar minhas opiniões aos fatos, nunca o oposto. E, do outro lado, voltando a buscar experiências psicodélicas com plantas e substâncias enteógenas – psicoativos que favorecem uma reconexão entre a natureza e seus processos. Elas me ajudam muito a compreender o intraduzível. A enxergar a política como uma propriedade emergente da psique humana. E trazem um pouco de calma no caos, alguma perspectiva e relativa lucidez nesse momento.
 
Ortellado – Me coloco fora da rivalidade dos partidos políticos, colaborando como posso com os movimentos sociais “autônomos”. Como dizem os zapatistas, busco estar “abaixo e à esquerda”. À esquerda no espectro político e abaixo (fora) do sistema partidário.
 
Acho que há uma conexão entre as manifestações de junho de 2013 e os protestos pró-impeachment de 2015 e 2016. Para além de qualquer dúvida, Junho de 2013 resgatou o protesto de rua como instrumento de pressão política e esse elemento foi incorporado no repertório de ação política, à direita e à esquerda.
Mas, de maneira mais profunda, pesquisas de opinião que conduzimos com os manifestantes anti-Dilma, em 2015, mostraram que eles compartilham as demandas centrais dos protestos de junho de 2013, que podem ser resumidas em: 1) rejeição da representação política; 2) defesa do sistema de direitos sociais. Ao contrário do que parecia, os manifestantes anti-Dilma não eram antipetistas seletivos, mas desconfiavam de todo o sistema político, PT à frente. Além disso, defendiam de maneira surpreendentemente forte a universalidade, o caráter público e a gratuidade dos sistemas de educação e saúde.
 
Minha explicação para isso é a seguinte: Junho de 2013 despertou uma grande indignação transversal na sociedade brasileira contra o sistema político e em defesa de direitos sociais, a partir dos protestos pela redução da tarifa convocados pelo Movimento Passe Livre (MPL). Essa indignação mais ampla ficou órfã quando o MPL, por questões próprias do seu modo de fazer política, se recolheu ao seu trabalho de base voltado para a mobilidade urbana. Sem atores políticos à esquerda que fossem organizados e desvinculados de partidos políticos, essa indignação foi assumida como causa pelos novos grupos de direita, que começaram a transformar o impulso anti-institucional em antipetismo, atribuindo a má qualidade dos serviços públicos à corrupção. O passo seguinte, no qual trabalham agora, é transformar a crítica à corrupção numa crítica ao tamanho do Estado, propondo como solução a desconstrução dos serviços públicos.
 
Cava – Tenho discursos, trejeitos e instintos de uma cultura de esquerda. Hoje vivo essa tradição como uma limitação do meu poder de agir. Me desconecta da alteridade, me paralisa pelo medo. A multiplicidade de modos de vida no mundo, hoje, não admite essa dicotomia entre "pessoas de direita" ou "pessoas de esquerda". É artificial, forçada, e costuma servir apenas para fazer cordões sanitários entre grupos e redes mais amplos e transversais.
Como falar em esquerda e direita como estruturante do mundo político depois da Hungria 56 ou da Primavera de Praga 68? Talvez funcionasse em algum lugar do século 19, mas hoje existem vários polos que não encaixam bem aí, como direitos das minorias, ambientalismo, cultura digital, pensamento ameríndio etc.
 
Mas já sou de uma geração que não é mais a da fundação do PT, mas do ciclo alterglobalização de Seattle e Gênova, que tinha no zapatismo uma grande referência, se informava pelo CMI (Centro de Mídia Independente) e militava pela mundialização das lutas. Então, já é uma geração em êxodo com relação às formas engessadas que a esquerda assume, seja no movimento estudantil, nos sindicatos, nos movimentos sociais.
 
O ciclo de “ocupas” brasileiras no período de 2011-12 teve o efeito de demonstrar que se fortalece uma tendência transformadora que não passa pela esquerda. Ao contrário, seus símbolos representam elementos indesejados: aparelhamento, velhas lideranças, estruturas pesadas e centralizadas.
Em 2013, esse movimento de êxodo se tornou massivo e generalizado: no Rio tivemos lutas pelo transporte, moradia, anticorrupção nas obras da Copa e nas licitações de linhas de ônibus, contra a cura gay, campanha “Cadê o Amarildo?”, greves metropolitanas com professores e garis. Porém, para parte da esquerda, era mais importante proteger símbolos do que transformar o mundo.
 
De lá pra cá, ser de esquerda virou um tipo de estado civil, com cobranças, obrigações, certidões. Em vez de ficar estático, tento seguir os prolongamentos da tendência que citei, que hoje aparece de modo espalhado. É um tipo de solidão, pois sem lugar de conforto, mas que é compartilhada por muitos na solidão mesma, como um bloco do “nós sozinhos”. Num trocadilho com a música do Los Hermanos, quero dizer com isso o bloco dos sem representação, dos sem nome, daquele que está sozinho no deserto, mas encontra outros sozinhos. E sozinhos juntos se faz um povo nômade. Um deserto que é uma produção: não de solidão, de isolamento, mas de solidão ativa, recomeço, bando.
 
3) O que está acontecendo com o Brasil, visto deste lugar? Quais são os riscos deste momento histórico? E como sair desse impasse?
 
Moysés – Estamos nos tornando um novo país: as várias autoimagens brasileiras estão se dissolvendo. De baixo para cima, em contraste com o imaginário da mestiçagem, da malandragem e da cordialidade. E de cima para baixo, com o imaginário do coronelismo, da liderança paternal e do patrimonialismo. Os conflitos se estabelecem em nível micro e macro, ao mesmo tempo, colocando a sociedade em estado de hiperpolitização estressante.
 
A democracia implementada desde a Constituição de 1988 transformou o país, com a estabilidade do Plano Real e a inclusão social do período lulista. Mas a etapa posterior ainda está por ser escrita.
Contrariando suas ideias iniciais, o PT cada vez mais se identifica com o imaginário tipicamente trabalhista. Busca instaurar um Estado de bem-estar social nos moldes do capitalismo industrial nacionalista, que serviu de base para sua construção europeia. Mas esse contexto, hoje, com o poder de pressão do mercado financeiro, a dissolução de fronteiras culturais, a crise migratória e a universalidade dos problemas ecológicos, não está mais presente.
 
O grande risco, inerente a qualquer desconstrução, é que esse processo seja suspenso em nome de um gesto de unificação forçada. A "antipolítica" que emergiu em 2013, tanto à direita quanto à esquerda, mas que está presente e visível no mundo inteiro, pode ser capitalizada de diversas formas, tendo em comum apenas a rejeição em bloco de todo sistema de mediação.
 
Deslocando o problema para a conjuntura, parece nítido que o buraco da "corrupção" não vai ser tampado apenas com "garantismo" (defesa das garantias individuais e da legalidade nos processos de persecução criminal). Para que a esquerda se rearticule, precisará dar uma resposta a isso que não passe apenas por mudanças legais e mais punitivismo. O próprio punitivismo é uma demanda que envolve a nostalgia pela coesão social absoluta: sua luta "contra a impunidade" é uma tentativa de restabelecer laços sociais em estado de tremor, de buscar reafirmar a lei como elemento unificador.
 
Talvez o governismo simplesmente não seja mais capaz de dar essa resposta, dado que está envolvido até os ossos com a defesa do projeto atual. A reiterada defesa da Odebrecht por Lula é significativa disso. Mas certamente a esquerda, entendida como perspectiva de transformação social com justiça, precisará de uma resposta e mudança estrutural desse cenário e projeto, para que possa se reposicionar politicamente, despertando aquilo que é essencial ao vínculo com o Outro: a confiança.
 
A transformação do país passa, portanto, por um novo pensamento, um novo programa experimental e novas formas de organização. Sair do impasse atual da crise das mediações demanda repensá-las de modo radical: sem dogmas e abrindo mão das velhas identidades, escapando da polarização que herdamos do século 20 e que já não é capaz de dar conta da imensa quantidade de problemas que o século 21 passou a apresentar.
 
Torturra – Tentando resumir o impossível, me parece que não apenas o governo, mas o Brasil inteiro está sofrendo as consequências gravíssimas de um autoengano generalizado. Cada ator dessa crise – dos cidadãos aos partidos e instituições – está vivendo em profunda negação da autocrítica e responsabilidades pessoais. E buscando culpas em agentes no “outro polo”. O "corrupto", o "golpista", o "indignado seletivo", o "omisso" é sempre o outro.
 
Isso explica um pouco da imprevisibilidade e da escalada punitivista no país. E explica o próprio impeachment. Para mim, a deposição de Dilma não é um golpe, como muitos preferem chamar. Mas a culminação dessa sanha literalmente expiatória. Que é liberar a culpa de todo um organismo político e social pela imolação de um corpo em praça pública. Uma sociedade afogada em contradições, uma imprensa majoritariamente cínica e um congresso encalacrado em escândalos querem assar a pizza da Lava Jato usando a presidente como lenha.
 
O risco, nesse momento, é altíssimo. E talvez o desenrolar da crise já esteja com o script definido. Mas, caso o impeachment seja o grande “pacificador”, a irracionalidade vai sair vitoriosa, confirmada e livre para capitalizar eleitoralmente. Em nome da unificação nacional, vamos perder a chance de discutir, pautar e refundar o sistema de financiamento eleitoral. Dado o enorme vácuo de novas e críveis lideranças, oportunistas e demagogos podem ocupar esse espaço em muito breve.
 
Minha tênue esperança, nesse momento, vem, justamente, de acreditar que o enorme e pouco reconhecido campo dos desidentificados seja o mais fértil do país. Que essa metástase do corpo político possa ser capaz de abrir caminho para o aprofundamento da nossa própria ideia de democracia, para além do voto. Como? Nem me arrisco a ser objetivo aqui. Mas penso que direitos humanos, transparência de gastos, um respeito incondicional aos ecossistemas e uma maior permeabilidade do Estado à participação cidadã devem ser os norteadores de qualquer nova visão política de país. Por isso, meu único mantra a esse ponto é o seguinte: manter as perspectivas mais amplas do que as expectativas. É duro, mas hoje prefiro a vertigem da desidentificação do que o falso refúgio das bandeiras de sempre.
 
Ortellado – Por um lado, a questão do impeachment está ofuscando questões mais substantivas, relativas à perda de direitos sociais, que estão sendo promovidas, com ênfase diferente, pelos dois grupos políticos em disputa. Por outro lado, um impeachment agora terá com certeza grandes repercussões no futuro próximo. As pedaladas, que nada mais são do que uma manobra contábil, são um pretexto ridículo para remover uma presidente que perdeu popularidade e apoio político no Congresso. Nessa chave, impedir a presidente agora é um recurso abusivo e perigoso, porque impeachment não é recall – votação de meio de mandato pela permanência ou não do mandatário. Ainda que o processo seja legal e institucional, ele banaliza um instrumento que devia ser utilizado de maneira excepcional. No entanto, se alguns dos indícios levantados pela Lava Jato se confirmarem – por exemplo, as acusações feitas pelo senador Delcídio Amaral –, aí sim teremos motivos para um pedido de impeachment. Mas ainda não é o caso.
 
Independentemente de tudo isso, o que estamos vendo agora é um ataque aos direitos sociais. Começou com a limitação do seguro-desemprego, passou por cortes expressivos nos gastos sociais e caminha rapidamente para cortes nas aposentadorias. Seja quem for que ganhe a disputa, provavelmente teremos redução de direitos. Por isso, a questão mais importante agora é fortalecer os movimentos sociais, principalmente aqueles que atuam por fora do sistema político. Consolidar os movimentos sociais que estão fora do modelo petista de fusão entre partido e movimento.
 
O PT não é um partido social-democrata tradicional, como o Partido Social-Democrata alemão ou o Partido Trabalhista inglês. No modelo social-democrata europeu, o partido tenta controlar e dar orientação aos movimentos, desde fora, oferecendo a eles um planejamento político de longo prazo. O PT é o contrário disso: é um partido construído em grande medida pela base, a partir da convergência de quase todos os movimentos sociais atuantes no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Isso gerou um modelo de participação e colaboração entre sociedade civil e Estado que vemos tanto na participação de movimentos na direção do partido, como em instrumentos institucionais de participação no Estado, como as conferências, os conselhos e as audiências públicas.
 
A partir dos anos 1990 e 2000, esse modelo, que se tornou dominante, começa a ser rejeitado pelos novos movimentos sociais construídos pelos mais jovens. É esse processo de construção – que vemos no Movimento Passe Livre, no movimento dos estudantes secundaristas, no novo movimento feminista, nos movimentos contra a violência policial nas periferias, entre muitos outros – que precisa ser amadurecido, para inaugurarmos uma nova etapa na esquerda brasileira, na qual a sociedade civil pressiona o Estado por mais direitos desde fora.
 
Cava – Gramsci dizia que crise é quando o velho já morreu e o novo ainda não pôde nascer, intervalo durante o qual ocorrem as mais diversas expressões mórbidas. O problema é que nenhuma das posições que está sobre a colina deixa o novo nascer, o que está levando o país – e o mundo – ao ponto do paroxismo. O maior risco é tirar a escolha das pessoas. É a chantagem em tom policial de que você tem que escolher um lado, senão... É preciso desconfiar de qualquer campo de possibilidades em que você não tenha escolha, e diante disso escolher a escolha.
 
Quando se coloca que há poucas escolhas, ou o afunilamento em apenas duas, "tudo" ou "nada", seria interessante deslocar essa colocação: que tipo de agência eu – e cada eu é muitos, muitas redes – posso construir assim? Se enquadrarmos a intensa mobilização social no Brasil de 2016 como uma dicotomia, será que não cancelamos qualquer possibilidade de agência?
 
Por exemplo: no dia 18 de março, em São Paulo, onde estive, o PT colocou pra girar toda a sua estrutura na capital e cidades vizinhas, aglutinou todas as forças sindicais, das juventudes, dos movimentos sociais, e contou com o reforço das pessoas ligadas à oposição de esquerda e, sobremaneira, da universidade. O problema é que, conforme o ato ia evoluindo, ele era sucessivamente verticalizado em palavras de ordem, até atingir o clímax que foi o discurso do Lula. Toda a organização se deu de modo arborescente, quase um zigurate, para Lula falar. Lula sai dali e vai negociar com os caciques do PMDB, como vinha fazendo no ano passado, com o poder de barganha conferido pelo orçamento do governo.
 
Foi uma capitalização política em que os participantes tiveram pouca ou nenhuma agência. Ou pior, se agenciaram para favorecer não o que queriam, a "guinada à esquerda", mas a blindagem do sistema político ao único vetor que conseguiu passar pela brecha de Junho de 2013, a operação Lava Jato – o que é a delícia e o drama dela, uma operação policial. A abertura das planilhas de obras e campanhas apenas está comprovando o que já desconfiávamos: como em termos de financiamento político e compromissos ocultos os principais partidos não diferem em nada. Nessa crise de esfacelamento, se a Lava Jato está exercendo o papel de Glasnost de uma governabilidade desenvolvimentista, o desastre ambiental em Mariana foi o seu Chernobyl.
 
Nas jornadas de junho de 2013, os coletivos pelo passe livre questionaram as planilhas do transporte coletivo municipal, para examinar os negócios e pegar os "pulos do gato". Além dos obstáculos colocados pela repressão, se deparavam com uma contabilidade paralela, onde se enroscam os acordões empresariais e políticos-eleitorais. Hoje, três anos depois, a Lava Jato está escancarando as caixas pretas da governabilidade, relativas às grandes obras, os contratos públicos, os projetos urbanos.
 
Podemos levar adiante esse questionamento. Essa, aliás, não foi só uma das demandas de Junho, como também de uma recente mobilização em favor de uma constituinte por reforma política, centrada no financiamento eleitoral, mas paralisada com a desculpa da ausência de "correlação de forças". Hoje, essa correlação não mudou para favorecer as mudanças?
 
Spinoza falava, sobre a servidão voluntária, que não se pode enganar o desejo. Você pode frustrar o interesse – e não o desejo. Seria interessante perguntar então, por qual mecanismo se é levado a lutar pela própria frustração, pelo próprio fracasso. Daí tantas leituras "existencialistas" – signo de interiorização de uma crise onde não se encontra agência – que vão falar em angústia, desespero etc. Claro que, em 18 de março, ouvi inúmeros relatos sobre isso, existiam margens, linhas de fuga, grupos deslocados com relação à verticalização. Dentro da massa vermelha havia matilhas.
 
Mas isso passa justamente por não se deixar subjetivar por um lado como contraposição ao outro, e buscar a terceira margem – a segunda via, em termos de potência de agir. Isso não significa não agir ou não decidir. Eu só acredito em refugiar-se quando tem um sentido tático, como quem se joga no chão pra escapar de uma bomba, mas logo se levanta e faz alguma coisa.
 
É preciso agir sim, falar, estar nas ruas, debater nas redes, enxergar linhas minoritárias em meio aos macroblocos que cobram coesão. Existe uma energia grande à solta, buscando emergir desde as jornadas de junho de 2013, que a polarização partidária vem violentando de maneira ortopédica. Aconteceu algo semelhante na Argentina de 2001, que desembocou no movimento de panelaços e piqueteiros com o grito que se vayan todos. Sem respostas à altura da parte do sistema político-representativo, a indignação vai fazer um strike que nem no boliche.
 
A crise é um momento em que temos a oportunidade de viver intensamente o nosso tempo histórico. Em que o futuro é uma incógnita, em que podemos portanto contribuir, num sentido ou em outro, para materializar esse futuro aqui e agora. Querer sair do impasse já é, em certa medida, negá-lo. Como se existisse uma saída à mão, um "abre-te sésamo". A esquerda, quando fala em "saída pela esquerda", lembra o Barão de Munchhausen: para sair do atoleiro, resolveu puxar-se pelos próprios cabelos. Vai arrancar alguns, mas não vai sair.
 
Eu não tenho a resposta do "como fazer" em sentido estrito, ela não vai sair de uma fala ou análise individual. Na verdade, ela só pode ser desdobrada de um campo de relações, redes e agenciamentos de que cada um já participa, mesmo que isto signifique divorciar-se de alguns deles, porque crises também são momentos de reconfiguração. Junho de 2013 foi vivido assim por bastante gente: como tempo que urge.
 
Temos que assumir o impasse como potência. Não tem como sair, tem que entrar nele.
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26 comentários

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Danilo Morais

Descompromisso pintado de "independência"

Há certos momentos na história das sociedades que posicionamentos pretensamente "independentes" são fudamentais para colaborar com a barbárie.

Diversos movimentos sociais, fóruns e redes de ativismo, bem como intelectuais e artistas que são críticos do governo Dilma e do PT tem se posicionado corajosamente contra o golpe em curso no Brasil. Sabem que a derrubada de Dilma, a caça a Lula e a possível destruição do PT serão terríveis para nossa frágil democracia e a senha para desconstruir os ainda incipientes direitos de cidadania duramente conquistados no país.  Já Eliane Brum e seus "colaboradores" acham falsa essa polarização... São como os comunistas que na República de Weimar (governo social-democrata na Alemanha antes do nazismo) diziam que não havia diferenças fundamentais entre social-democratas e nazistas... Foram todos dizimados, obviamente, quando Weimar cai e os nazistas ganham o poder.

Vou dizer o que é coragem e independência: é fazer como Hannah Arendt, que foi contra todo o pensamento vigente nos EUA e em Israel para melhor compreender a expressão do mal, quando se recusa a caracterizar Eichmann simplesmente como um monstro a ser destruído. De pensadora celebrada ela passa a ser perseguida intelectualmente na academia, na mídia e por um público feroz pela satanização do inimigo.

São "dois lados" que estão no Brasil de 2016 sendo satazados e transformados em monstros? Existem por acaso "dois lados" com o mesmo poder, que se equivalem e que por essa razão o melhor é ser "independente"? Desculpem, a "terceira via" aqui proposta por Brum é simplesmente uma noção distocida de pensamento crítico, temperada com muito medo de se comprometer com a luta política real.

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Viuvas de 2013. Aquilo sim

Viuvas de 2013. Aquilo sim foi revolussaum.

Pra que tanta pose pra ficar no muro.

 

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André-Kees Schouten

Acho que entendi!

Acho que entendi: além e acima dos muros, por meio de agenciamentos transversais da multiplicidade da potencia do outro, a saída é inevitavelmente pela esquerda!

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Ao povo, a Pax dos fascistas?

Esse pessoal que se apropria das manifestações de 2013 desconhece que explodiram por asco à covardia da repressão pela Polícia Militar do Estado de São Paulo a um protesto pacífico contra o aumento da tarifa dos ônibus. Agora há uma insistência em que se aceite a ideologia adversária.

Mas ninguém cita busca de se incriminar só o PT pela corrupção de um sistema político fisiológico desde sempre. Em ações coordenadas entre setores do judiciário e da polícia, sob cobertura gigantesca e má intencionada da “grande imprensa” escrita e televisiva. Um golpe de Estado está sendo conduzido por um Cunha, criminalizando uma Presidente por um crime inexistente e somos ameaçados pela palavra paz!

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Putsgrila

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Edivaldo Dias Oliveira

Pode ser um Fla X Flu mas...

É final de campeionato.

É escolher entre Jesus e Barrabás.

E eles preferm se abster?

Nem diria que preferem lavar as mãos, pois a meu juízo, ao contrário do que muitos pensam, Pilatos interviu sim, a favor de Jesus, ao perguntar a assembléia por mais de uma vez se mantinham sua opção por Barrabás enquanto afirmava: "Este homem nada fez" , apontando para Jesus, "enquanto esse outro é um salteador", referindo-se a Barrabás. Portanto, Pilatos tomou partido sim. Mais, não deu vóz a nehum representante do salteador para defender sua soltura como seria natura e democrático vito que ele Pilatos interviu a favor de Jesus.Só então foi que ele lavou as mão em sinal de respeito a decisão da assembléia majoritariamente judaica.

Os autores são como dizem, intelectuais, portanto não são dignos se quer da compreensão divina; "Pai, perdoa, ele não sabe o que faz" em referencia aos centuriões.

Os autores sabem muito bem o que estão a fazer e por isso não merecem perdão.

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arkx

o salto do tigre (2)

a falência do velho. o arcabouço institucional do país expirou sua validade em Junho de 2013. desde então, a representação política entrou em colapso. e agora, diante de todos, o sistema de poder está ruindo. qualquer sobrevida deste modelo em escombros será um rearranjo de curta existência.

a irrupção do novo. na dinâmica da resistência ao golpe repete-se o segundo turno das eleições de 2014. os principais responsáveis pela eleição de Dilma não foram sua campanha oficial e seus marqueteiros milionários guiados por pesquisas. foi o Povo sem Medo, os aguerridos eleitores que através de suas inúmeras pequenas batalhas cotidianas conquistaram a memorável vitória da candidatura que apoiaram. quando há uma aceleração e catalisação do tempo histórico, o livre arbítrio se impõe ao determinismo. os homens já não mais fazem História sob circunstâncias determinadas. há escolhas a serem feitas num “tempo do agora”. um tempo liberto do legado transmitido pelo passado. um tempo no qual os vivos se encontram momentaneamente não mais sujeitos ao pesadelo da opressão de todos as gerações mortas. um tempo no qual os atos individuais se fundem e ganham efeito social. o tigre dá o seu salto sob o céu livre da História.

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O espaço para o "não sou

O espaço para o "não sou contra nem a favor muito pelo contrário" não mais existe, a pobreza do discurso golpista midiático tirou essa opção dos brasileiros e tornou as opções  limitadas a 2, é muito simples de entender, de um lado apoiar a investida para destituir de forma totalmente torpe e ilegal uma presidenta eleita e reeleita constitucionalmente para  por no seu lugar um grupo liderado por nada mais nada menos que Eduardo Cunha, e do outro se opor a essa quebra descarada da ordem democrática instituída pela constituição de 1988 e apoiar a legalidade.

Você pode gastar 30.659 caracteres, 5.836 palavras, 77 parágrafos, 583 linhas e mais a paciência de quem se der ao trabalho de ler esse mastodôntico manifesto, mas não mudara em nada a realidade e nem as terríveis consequências que brotarão de uma improvável vitória do golpe jurídico/parlamentar.

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Srªs Senadoras e Srs. Senadores, a Transparência Internacional divulgou, nesta terça-feira, a classificação anual dos países mais corruptos do mundo, e a situação do Brasil, sob o império do “lulismo”, só piorou. Demóstenes Torres 08/10/2003

comentaristas de estirpe

É isso: abunda o bla bla blááá para justificar o injustificável e, às vezes me parece, numa tentativa de aliviar "consciências". Esta visão de cima é ótima para tempos de paz e bonança.
Não é o caso.
Não confundir com "não vem ao caso".

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pscm

Diálogo

Já que os debatedores valorizam tanto o diálogo, eu gostaria muito de saber o que cada um deles teria a dizer para o personagem que aparece neste vídeo:https://www.facebook.com/jacqueline.heluy/videos/1110817298969772/

Ou vocês não o reconhecem enquanto um interlocutor válido  ?

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A política das cores e os radicais-de-centro.

Parabéns pelo texto,

 

Também estou cada vez mais envolvido nessa batalha. Pelo reconhecimento dessa minoria política que quer o diálogo e que não se reconhece na esquerda ou na direita.

 

Não é pauta negativa. Tem propostas e princípios. E afirma a existência e validade da posição de centro. Não um centro qualquer, sem força para lidar com a polarização. Por isso o movimento é denominado radical de centro.

O primeiro texto da proposta pode ser lido no link abaixo:

 

http://centro-radical.blogspot.com.br/2016/03/a-politica-das-cores-e-os-radicais-de.html

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Falando em política das cores, há 1 texto de Drummond aplicável

A Cor de Cada Um

Carlos Drummond de Andrade

  • A cor de cada um

    Na República do Espicha-Encolhe cogitava-se de organizar partidos políticos por meio de cores.

    Uns optaram pelo partido rosa, outros pelo azul, houve quem preferisse o amarelo, mas vermelho não podia ser. Também era permitido escolher o roxo, o preto com bolinhas e finalmente o branco.

    - Este é o melhor - proclamaram uns tantos. - Sendo o resumo de todas as cores, é sem cor, e a gente fica mais à vontade.

    Alguns hesitavam. Se houvesse o duas-cores, hem? Furta-cor também não seria mau. Idem, arco-íris. Havia arrependidos de uma cor, que procuravam passar para outra. E os que negociavam: só adotariam uma cor se recebessem antes 100 metros de tecido da mesma cor, que não desbotasse nunca.

    - Justamente o ideal é a cor que desbota - sentenciou aquele ali.

    - Quando o Governo vai chegando ao fim, a fazenda empalidece, e pode-se pintá-la da cor do sol nascente.

    Este sábio foi eleito por unanimidade Presidente do Partido de Qualquer Cor.
     

a

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arkx

o salto do tigre

interregno. estamos numa travessia. a falência histórica do velho já aconteceu, mas não sua falência política. neste vácuo ocorre a construção de um novo sistema de poder, através da luta entre os diversos setores sociais.

um outro Brasil. há um novo Brasil se erguendo poderosamente. a articulação da sociedade civil e a retomada do protagonismo dos movimentos sociais são a ponta de lança de um outro Brasil, que surge dos escombros do atual cerco à Democracia. enquanto as instituições se desintegram, uma imensa,  heterogênea e descentralizada resistência se opõe ao cerco. embrião de um novo sistema de poder.

transmutador histórico. numa crise estrutural, quando o sistema entra em colapso, tudo se torna instável e volátil. pequenas ações podem gerar enormes mudanças. ocorre uma aceleração e uma condensação do tempo histórico (historischer zeitraffer). na linearidade do tempo pendular e mecânico, a tirania do relógio capitalista, irrompe um tempo qualitativo e catalisador no presente de todos os momentos de revoltas no passado. um tempo prenhe das possibilidades de um futuro indeterminado. aproxima-se o instante do salto do tigre sob um Sol imóvel no meio de seu curso.

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Quanta besteira numa frase só. Uma verdadeira "embrometion".

Hoje, vejo a polarização mais como um fenômeno entrópico de comunicação do que político. Ela se destaca e exerce toda essa força gravitacional em ruas, jornais e timelines justamente pela dificuldade imensa de leitura de uma paisagem política caótica, trágica e complexa demais para ser resumida em posts, manchetes ou palavras de ordem.

Besteira nº1: polarização e entropia são fenômenos inversos, a entropia sugere a desordem do meio, logo se algo é polarizado quer dizer que tem polos definidos que atraem as opiniões logo até ficaria mais bonito em falar de uma inversão da entropia natural e não de um Fenômeno antrópico.

Besteira nº2: De novo uma contradição, se há uma força gravitacional esta deveria fazer as partes convergirem e não divergirem, pois pelo que ainda sei de física, que deve ser corretamente empregada em analogias, que uma força gravitacional levaria a atração para uma mesma direção e não ao contrário que o resto da frase quer dizer.

Besteira nº3: Quando não se quer definir algo cita-se o caos (pobrezinho do caos), pois caos é uma palavra extremamente utilizada dentro do contexto real do mesmo. CAOS é algo que acontece a partir de fenômenos perfeitamente determinísticos que na sua evolução temporária parece aleatório, mas na realidade é algo que segue uma determinada sequencia lógica.

O que se vê neste parágrafo são frases desconexas com verdadeiras "palavras de ordem" da "enrolation", querendo fugir da explicação da interpretação devida do fenômeno político através de uma pseudo-complexidade do mesmo. 

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Alguém lembra de uma tabela geradora de blablablá?

Era uma tabela de 4 colunas, e vc podis formar inúmeras frases combinando qualquer elemento de uma das colunas com um a esmo de cada uma das outras. Dava frases muito impressionantes, rs. Essas frases aí parece que foram geradas assim. Por favor, se alguém tiver a tabela, me passe.

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Ivan de Union

TODO MUNDO da direita comenta

TODO MUNDO da direita comenta sem ler um puto paragrafo de referencia, sem ler um livro, sem estudar o assunto, sem  saber merda nenhuma a respeito de merda nenhuma.

Antes fosse somente no Brasil...

Eh embarassante que logo o GGN replicaria esse item mutante.

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Edna Baker

Porisso o nazismo foi

Porisso o nazismo foi possível na Alemanha. Ficaram os alemães todos em cima do muro.

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radicais?

Como podem ser radicais se apenas uma única vez citam a palavra capitalismo (e mesmo assim, de passagem) para identificar os problemas atuais.

Realmente é paroles paroles paroles, uma embromação pós-moderna sem fim...

Se for pra seer além-muros é melhor ficar com a oposição total dos marxistas radicais da crítica do valor, com à qual concordo; ou a apatia total do alienados, que pelo menos não enchem tanta linguiça.

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picia

disse um comentarista no post

disse um comentarista no post anterior de Pinto Neto: 'Não vamos dizer que ficam emcima do muro porque 'Não existe muro!' Queira não queira todos estamos de um dos lados

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Nihilismo alucinógeno

Esse nihilismo alucinógeno do tal Torturra dá um sono...  zzzzz.....

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Jotage

Muro maldito

Eliane provavelmente idolatrava Janot, aquele do "pau que dá em Chico, também dá em Francisco".

Creio que ele não leu o artigo de Eliane e arrancou a fantasia mostrando sua real cara, com a pérola da recomendação ao supremo a respeito de Lula.

Quem é o mequetrefe para dar pitacos ao supremo? Lula será considerado pela segunda vêz como cidadão que não está protegido pelo direito e pela constituição?

O problema de descer do muro é que quem normalmente está lá é para esconder sua falta de caráter.

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Ok, mas não estamos nas eleições!

Ok para tudo que foi escrito (e muita coisa foi!) Mas, apelando ao óbvio: não estamos às vésperas das eleições de 2014! Não estamos debatendo como nos alinhamos às ideologias de PSDB vs. PT vs. Marina (!?) vs. PSOL. 

Como retórica de todo o texto, ainda nos primeiros parágrafos se lê:

"mas pelo instrumento mais subversivo desse momento histórico: o diálogo. A conversa que só pode acontecer pelo reconhecimento do outro como alguém que pensa diferente, não como um inimigo a ser eliminado."

Pois bem, este impeachment, como tem sido feito, é justamente a ruptura do diálogo, a quebra das pontes entre os diferentes setores da sociedade (ou entre aqueles que "pensam diferente" conforme o texto).

A questão é mais pragmática: como você se posiciona frente a um duro golpe à democracia ou ao instrumentos garantidores do diálogo propriamente dito!?

Existe algo mais valioso, que o faça "descer do muro", do que a democracia em si? 

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Somos intelectuais, não sujamos as nossas mãos com política.

Realmente iria mais fundo do que a AnaLu, isto é uma visão quase que aristocrática da realidade, são pessoas que veem a política como algo que envolve a negociação, e a negociação não se escolhe com quem se deve ou é necessário negociar.

Melhor até que fossem coxinhas assumidos, pois no fundo são adeptos da meritocracia e se acham acima de tudo e de todos, esta visão me dá verdadeiros arrepios, olham com uma visão que transcende meros mortais que estão se enlameando na luta política. Eu não tenho vergonha de ter que sujar as minhas mãos trabalhando por algo, pois somente trabalhadores que as sujam e talvez achem isto nojento. São chiques porém inúteis.

Quando não tem pão eles comem brioches.

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Matias

defesa da democacia nao é de esquerda ou de direita

Defesa da Democracia e da Legalidade  nao deveria ser de esquerda o de direita,so que uma parte do pais

empurrada pelo Partido das Midias, por politicos e juristas irreponsaveis usado o ODIO para nao aceitar 

a Vitoria Presidencial da Presidenta DILMA nos leva a esta situaçao dramatica. Eu sabendo que  eu vou

ganhar a eleiçao em 2018 qual é o problema de esperar um pouco e obter a vitoria limpamente.

Temos que dialogar e debater com respeito entre pessoas que nao compartem opinioes, é a base de uma

sociedade civilizada. Todos temos uma parte incivilizada mas o respeito a Democracia nos permite de

viver baixo o mesmo ceu brasileiro. PAZ E AMOR

 

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Paroles, paroles, toujours des

paroles... (Dalida e Alain Delon)

Um prémio para quem fizer um resumo de cada um das respostas dos 3 entrevistados!

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rgudes

fácil

só os polarizados que polarizem contra a polarização são suficientemente "complexos".

 

resumo:

Entrevistado no. 1:  Marina

no. 2:  Marina

no. 3:  Marina

 

Só o marinismo salva. (Até a Luciana Genro já percebeu.)

 

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Tantos tópicos p/ defender a neutralidade impossível

Haja vaselina!

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