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As pedras no caminho da Pedra Furada

Por Daniel Afonso da Silva

Deu no Le monde (29/04/2015): as investigações de corrupção no interior da Petrobras afetam os decisivos investimentos do Petrobras Cultural na Serra da Capivara. Precisa dar na consciência de todos os brasileiros: essa é mais uma pedra no caminho da preservação do parque arqueológico dos mais importantes do mundo.

Quem vai ao site da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), que gere o parque, encontra na portada o anúncio “Pinturas rupestres milenares. Não as deixe apagar. Ajude o parque”.

Quem acessa a edição de 29/09/2015 do programa Roda Viva, da TV Cultura, com a arqueóloga Niède Guidon, diretora-presidente da Fundação, assiste a explícito, digno mas quase desesperado, pedido de socorro. A Serra da Capivara, que aloja, entre outras preciosidades, a Pedra Furada, clama por atenção.

No relato de Guidon, o parque sofre restrições orçamentárias desde sempre. Mas desde 2002 a situação vem deteriorando. A partir de 2010 o deterioro foi acelerado. Em 2015, no torvelinho da crise com a Petrobras, o parque recebe mais um golpe. De golpe em golpe corre-se o risco de não tardar a não sobrar pedra sobre as pedras do parque.

Muito falado, mas pouco conhecido do público brasileiro – como de resto a maior parte de nossos patrimônios materiais, culturais e artísticos –, o Parque Nacional da Serra da Capivara, no interior do Piauí, nas proximidades de São Raimundo Nonato, contém os mais preciosos resquícios da pré-história americana. Sua descoberta se deveu aos esforços de Niède Guidon.

A senhora Guidon é, na origem, meso brasileira e meso francesa. Seu pai, francês radicado no Brasil, era importador de vinhos e exportador de café. Sua mãe, de ascendência indígena, procedia da tribo dos caingangues. Dessa união Niède Guidon nascera em Jaú, em meados de março de 1933.

Formada em arqueologia pela Universidade de São Paulo, ela trabalhava no Museu Paulista pelos idos de 1963 quando recebeu a visita de alguém do Piauí comunicando a existência de pinturas rupestres no interior daquele estado. Intrigada com o informe, não tardou decidir ir averiguar. São Paulo rumo ao Piauí, no caminho encontrou ruída uma ponte sobre o rio São Francisco. Isso a obrigou ao aborto da expedição.

Nos meses que seguiram. Findou o ano. Veio 1964. Com ele, golpe civil-militar.

Niède Guidon foi hostilizada. Era tida como comunista. Sua escolha foi o exílio na França, em Paris, onde seria integrada como professora na prestigiosa École des hautes études en sciences sociales.

De volta ao Brasil em 1973 em missão de estudos, ela finalmente acede o interior do Piauí. Encontra a Toca do Boqueirão. Descobre a Pedra Furada. Recolhe amostras. Envia a um laboratório francês. Precisamente o da cidade de Gif-sur-Yvette.  Para a surpresa de todos, a datação dos fragmentos indica mais de 18.000 anos BP, before present. Outros extratos indicariam datação de 32.000 BP sobre o carbono 14.

Essas constatações puseram ainda mais em questão teoria de Clovis, do estreito de Bering, sobre as origens do homem americano.

De retorno a Paris, Niède Guidon convence as autoridades francesas da importância de seus achados em solo brasileiro. Em 1978, sob apoio e financiamento do Quai d’Orsay, ministério de assuntos estrangeiros francês, ela vai ao Piauí com uma equipe multidisciplinar. Suas descobertas e comprovações lançariam as bases para a criação, no ano seguinte, 1979, do Parque Nacional da Serra da Capivara.

Em 1991 ele seria tornado patrimônio mundial da UNESCO.

Desde 1992 Niède Guidon se mudou em definitivo para o Piauí.

Desde então ela intenta a construção de um aeroporto internacional às proximidades para facilitação do acesso de turistas nacionais e internacionais. Desde então ela intenta angariar recursos para a melhor manutenção e preservação do parque.  Desde então ela intenta mostrar o Brasil aos brasileiros. Pouco ou nada desse Brasil os brasileiros parecem querer ver.

Daniel Afonso da Silva é pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris.

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Re

É uma pena que as coisas

É uma pena que as coisas cheguem a este ponto, Niede lutou a vida toda, já está ficando idosa, e parece que o Brasil não entende a importância do trabalho e das pesquisas desenvolvidas lá. 

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