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Brasil, o ocaso de uma nação, por Miguel Srougi

Foto - CEBI

Jornal GGN – Em coluna deste dia 14 de agosto, na seção Opinião, da Folha, Miguel Srougi aborda o que incomoda. No país da prosperidade e da felicidade, milhões que vivem na pobreza vão dormir sem saber como será o amanhã, e vão acordar como se nada em sua vida pudesse mudar, quer pela incerteza do próximo prato de comida, ou do direito à educação ou mesmo à saúde. É a banalização da vida em cada canto deste país.

Esta abordagem vem em consonância com as ideias dos economistas Daron Acemoglu e James Robinson, que afirmam que a prosperidade de uma nação está apoiada em instituições comprometidas com o bem-estar da população, e não com planos econômicos lustrosos. E Srougi discorre sobre uma sociedade e outra, a que se compromete e a que se apoia somente em planos. E discorre sobre o Brasil, que se descomprometeu.

Leia o artigo a seguir.

na Folha

Brasil, o ocaso de uma nação

por Miguel Srougi

Como todos, estou desconcertado. Até há pouco ouvia que a prosperidade e a felicidade tinham se espraiado pela nação, mas o que vejo hoje são notícias e números aflitivos que desfilam impiedosamente nos textos e nas telinhas que habitam o nosso cotidiano.

Multidões de oprimidos pela pobreza vão dormir sem saber se disporão de um prato de comida ao amanhecer. Milhões sem acesso à educação, condenados a perecer num mundo inviável para quem não domina o conhecimento. Legiões de famílias encurraladas pelo caos e pela violência urbana, que esfacelam o porvir e a vida de seus filhos.

Amontoados humanos despencando nas portas impenetráveis dos hospitais públicos. Enfim, a banalização da vida em cada beco, por aqueles que nunca tiveram a chance de compreender o valor e os encantos da existência humana.

Pedindo desculpas por repetir essas obviedades, explico porque me manifesto nestas linhas. Explico apoiado em ideias dos economistas Daron Acemoglu e James Robinson, contestadas por alguns, mas que satisfazem meu intelecto.

Segundo eles, a prosperidade de uma nação tem menos a ver com planos econômicos lustrosos e mais com a existência de instituições robustas, comprometidas com o bem-estar da sociedade. Esses mesmos países costumam ser governados por agentes que representam e respondem genuinamente às aspirações dos seus cidadãos.

Nesse ambiente florescem as empresas e os sistemas políticos "inclusivos", que distribuem as riquezas da nação, atenuam a desigualdade e permitem que a existência possa ser usufruída com dignidade.

Em contraposto, as nações regidas por instituições e dirigentes avacalhados e pervertidos tendem a submergir de forma inapelável.

Por inoperância do Estado, proliferam as empresas "extrativistas", que na sua voracidade concentram ainda mais a renda e aumentam a desigualdade. Nesse ambiente, os agentes públicos e as corporações privadas estabelecem relações promíscuas para alimentar a ganância e se perenizarem.

Por falta de modelos, disseminam-se na sociedade a amoralidade, a corrupção e a desagregação. Ao final as nações derretem e são levadas pela enxurrada; os desvalidos, como sempre, arrastados na frente.

Daron Acemoglu e James Robinson não precisam ser convocados para nos dizer em qual cenário o Brasil está inserido. As poucas estrelas reluzentes na nossa infindável noite de breu não amenizam o meu sentimento de que a nação sucumbiu de maneira irremediável.

Obviamente, não me refiro a todos os brasileiros. O grupo dos 6,5 milhões de "incluídos", no qual Deus me inseriu antes mesmo de saber se eu merecia, sempre conseguirá aumentar a altura dos seus muros e desfrutar da pátria amada e seus lindos campos.

Falo do grupo dos 115 milhões de "extraídos", que talvez nunca mais poderão declamar que são filhos de uma mãe gentil.

Sem poder consertar o escangalho produzido na nossa sociedade pela degradação dos três Poderes de governança e pela ascensão de agentes e grupos equivocados, algumas vezes criminosos, só nos resta, como membros da ala dos "incluídos", estender a nossa asa protetora sobre os desvalidos que habitam o nosso entorno.

É urgente promover ações que possam amenizar seu sofrimento, já que salvá-los não dá mais. Procurar, também e até onde possível, impregná-los com os sentimentos da consciência crítica e da cidadania.

Mostrar a todos uma realidade que Albert Einstein tão bem soube descortinar: "O mundo é um lugar perigoso para se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer".

MIGUEL SROUGI, pós-graduado em urologia pela Universidade Harvard (EUA), é professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da USP e presidente do conselho do Instituto Criança é Vida

 

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10 comentários

Comentários

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Toque retal no Brasil

O crítico mais fervoroso do Mais Médicos e conspirador incansável do impeachment da presidente eleita deve estar com Alzheimer e depressão profunda pela metástase que provocou na próstata da nação.

Ele conseguiu enfiar o dedo em todo mundo de uma vez só.

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WG

Assino embaixo o comentário

Assino embaixo o comentário do Rui. Tendo se manifestado contra o Mais Médicos, o doutor é Menos Humano. 

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Rodrigo ROAL

Incentivar o nilismo e a

Incentivar o nilismo e a caridade diante de uma "realidade que não pode ser alterada" também vai muito a calhar para o andar de cima, ao mesmo tempo em que purga a conciência pesada de seus membros mais "moralistas".

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Ora, ora, agora?

O crítico mais deslavado do Mais Médicos, eleitor declarado de Aécio Neves, crítico de Dilma e pró seu impeachment. Só espero que minha próstata não precise dele.  

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Tipico da FSP

um bla bla bla com ares de moderninho e pra frentex, e no final não há nada a se fazer. Somos todos responsáveis, portanto na prática ninguém e, e a plutocracia da qual os donos da FSP fazem parte, pode dormir tranquila.

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ze sergio

tipico....

40 anos de redemocratização. 30 anos de Constituição Cidadã. Uma década e meia de governos progressistas de PSDB mais uma década e meia de Governos Progressistas de PT. O resultado esta aí para até Fundamentalistas enxergarem. Resultados de governos seguidos e ininterruptos de Montoro, Covas, Amazonino, Genro, Marta, Erundina, Arraes, Campos, Dutra, Serra, Alckmin, Lula, Dilma, FHC, Teôtonio,.... Este resultado medíocre desta farsa de Estado é culpa de quem?  

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Eduardo Outro

O artigo é inquestionável,

O artigo é inquestionável, mas vindo de quem vem, seria sincero ou hipócrita ?

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Ivan de Union

A resposta eh simples:  conte

A resposta eh simples:  conte quantas vezes voce viu os choroes ao lado de um Estado -com maiuscula- na ultima decada.

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Eduardo Outro

Creio eu mesmo ter encontrado

Creio eu mesmo ter encontrado a resposta: Não foi convidado para ser o ministro da saúde do usurpador. Por detrás há um "santo". Como diz o Nassif, perdeu o medo do ridículo, julgando ser fácil reparar o passado.

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Curioso que o Professor

Curioso que o Professor Miguel Srougi ocupe espaço na Folha para denunciar o ocaso do Brasil enquanto nação. Há não muitos anos, o ilustre professor usou o mesmo espaço para desancar o Mais Médicos, programa que levou um pouco de dignidade na assistência à saúde daqueles que, segundo ele, perderam a esperança.

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Clever Mendes de Oliveira

Boa Informação

 

Aracy... (terça-feira, 15/08/2017 às 08:13),

Eu queria saber algo mais sobre Miguel Srougi, pois a referência a Kamer Daron Acemoglu e James A. Robinson não me sugeria boa peça.

Enviei um comentário, domingo, 22/09/2013 às 11:36, para Alexandre Schwartsman lá no post dele "Oito personagens a procura de uma desculpa" de terça-feira, 22/09/2013, em que eu menciono como as pessoas são enviesadas nas opiniões tendo em vista as referências elogiosas ao livro dos autores americanos feita por alguns comentaristas no post "Ah, "mardita"!", de terça-feira, 17/09/2013. Devo reconhecer que as referências foram decorrentes de menção pelo Alexandre Schwartsman do livro "Why Nations Fails", O que cabe, entretanto, destacar aqui é que as referências só não eram favoráveis na parte que havia elogio ao governo Lula.

O Eli Gaspari já havia mencionado o livro "Why Nations Fails" na coluna dele, o que era desabonador. E agora vem o Miguel Srougi e utiliza o livro para justificar a cantilena dele. Sem saber nada sobre Miguel Srougi, só considerei o texto banal. Com a sua informação já dá para saber que dai - tanto dele como do livro - não se deve esperar nada de bom.

Salvo na forma grosseira de destratar antagonistas, gosto sem entusiasmo do Alexandre Schwartsman, embora as idéias dele não me pareçam aplicáveis ao Brasil, sendo mais apropriadas a algum pequeno e rico país europeu, então a mera menção dele ao livro não me parecera desabonadora. Agora as referências dos comentarista no blog de Alexandre Schwartsman, do Elio Gaspari e do Miguel Srougi com esse handicap que você informa já mostram o atraso que deve ser o livro.

Aliás, não li o livro, mas imagino que ele deve ter sido escrito nos momentos de euforia com os Estados Unidos pela eleição de Barack Obama e o governo dele. É difícil imaginar uma reedição sem apendice durante o governo de Donald Trump, ainda mais agora com o que aconteceu em Charlottesville. Os liberais americanos nunca são capazes de perceber que o que é doentio é a sociedade americana e não apenas seus governantes. Os governantes só lhes dão o que a sociedade pede. Não é nenhum demérito à sociedade americana. O mundo todo é assim.

Clever Mendes de Oliveira

BH, 15/08/2017

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Antonio C.

Pois sim...

... até quem, um dia, apoiou o nazismo, se arrependeu.

Mas outros, ficam miudinhos...

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Ivan de Union

A mim tambem...

O texto tambem me da calafrios...

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