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Carmem Craidy: “Tortura é crime hediondo, não tem anistia em lugar nenhum do mundo”

Enviado por IV AVATAR

do Sul 21

Carmem Craidy: “Tortura é crime hediondo, não tem anistia em lugar nenhum do mundo”

 
Carmem Craidy: "Ocupei todas as funções na JEC, e depois na JUC – Juventude Universitária Católica fui de regional a nacional. Fui da Ação Popular e de uma dissidência da AP" | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Carmem Craidy: “Ocupei todas as funções na JEC, e depois na JUC – Juventude Universitária Católica fui de regional a nacional. Fui da Ação Popular e de uma dissidência da AP” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Lorena Paim e Nubia Silveira

Desde os 14 anos Carmem Maria Craidy está envolvida com a luta política, tendo integrado os movimentos de juventude ligados à Igreja Católica. Professora recém aposentada da Ufrgs, ela agora é colaboradora na Faculdade de Educação, trabalhando com adolescentes em conflito com a lei. A pedagoga com título de doutora tem uma trajetória que passou pelo exílio de oito anos (na França e em Moçambique), uma imposição diante da prisão iminente, naqueles tumultuados anos 70. Longe do Brasil, sentia uma tristeza imensa, mas fez sua parte ajudando na acolhida a exilados que chegavam a Paris. No ano da anistia, 1979, voltou a Porto Alegre. “Anistia é para crime político. Tortura é crime hediondo, não tem anistia em lugar nenhum do mundo”, opina Carmem, que concedeu entrevista ao Sul21 em sua sala na Faculdade, em Porto Alegre.

Sul21- Como começou sua militância?
Carmem Maria Craidy –
 Comecei aos 14 anos, na Juventude Estudantil Católica (JEC) em Ijuí, quando estudante do ginásio e depois no ensino médio. Foi uma forma de me introduzir na política e na preocupação com o social. Fui vice-presidente da união dos grêmios estudantis da cidade. Ocupei todas as funções na JEC, e depois na JUC – Juventude Universitária Católica fui de regional a nacional. Fui da Ação Popular e de uma dissidência da AP.

“Eu falava de tudo, num programa de rádio, sem ter consciência do alcance do discurso”

Sul21- Em que consistia essa militância na JEC e depois na JUC?
Carmem -
 Tem uma evolução histórica bastante grande. Na JEC começamos com campanhas temáticas, fazíamos debates nas escolas, cartazes, reuniões. Um cartaz colocado na escola mostrava a comunidade de periferia e dizia: Por quê? Daí para a política estudantil foi natural, militei nos grêmios estudantis, fiz trabalhos em favela, e isso continuou na escola normal. Entrei na faculdade de Pedagogia na Fidene (atual Unijuí). Me formei em Pedagogia no ano do golpe, 1964. Durante a faculdade fui presidente do diretório acadêmico. A gente fazia alfabetização de adultos na periferia, teatro de politização em cima de caminhão, no meio rural. Os capuchinhos, que eram bem politizados na época, iam junto. Fazíamos também trabalho com os sindicatos operários. Eu tinha um programa semanal na Rádio Repórter de Ijuí onde falava de tudo, da crítica ao capitalismo a propostas revolucionárias sem ter muita consciência do alcance que este discurso tinha.

Em 1963, 64 foi uma agitação total. Quando houve o golpe, meu pai – que era da Arena e presidente da associação comercial – ouviu do comandante do Exército: “some com tua filha daqui, senão ela vai ser presa …”. Na nossa formatura o paraninfo foi o frei capuchinho Eugenio de Casca, que era militante. Eu fui a oradora da turma. Houve toda uma negociação com o bispo para o frei poder ir à formatura. Praticamente só foram as famílias, pois tinham medo que a formatura fosse invadida pela polícia.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

“Meus pais eram extremamente acolhedores. Os vizinhos achavam que eles estavam dando proteção aos comunistas” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21- Qual a posição de sua família?
Carmem -
 Disse a eles que iria para o Rio de Janeiro, para a coordenação nacional da JUC. O meu pai deu graças a Deus, ele sofria muito, mas não sabia mais o que fazer comigo. Ele nunca me proibiu de nada, entretanto. Meus pais eram extremamente acolhedores, hospedavam em nossa casa os estudantes da UGES (União Gaúcha do Estudantes Secundaristas), que vinham para fazer política. Os vizinhos achavam que ele estava dando proteção aos comunistas…

Sul21- Como foi atuar na JUC nacional?
Carmem – 
Viajei para o Brasil todo. Estudávamos de tudo, a perspectiva era de engajamento. Desde 1960 a JUC proclamou o ideal histórico, uma espécie de utopia revolucionária, depois se evoluiu para a consciência histórica, formulação dada pelo Padre Vaz, que exigia transformação social e posicionamento revolucionário. Daí se originou a Ação Popular, fundada a partir da militância na JUC. A gente tomou consciência de que a militância política tinha que ser laica e não religiosa; era uma questão de outra natureza, na qual a Igreja não tinha que interferir. A Igreja, a essa altura, queria acabar com a JUC. Fui a todas as escolas e paróquias do Rio e não consegui lugar para uma reunião, pois os padres estavam proibidos de trabalhar com a JUC. Por que ela acabou? Primeiro porque os bispos tiraram toda a sustentação e, depois, a problemática que se vivia era muito aguda e transcendia aquela visão. As posições da Igreja não comportavam mais a problemática que vivíamos. Eu continuei por muitos anos vinculada ao cristianismo, depois ele desapareceu da minha vida, naturalmente.

“Minha primeira prisão ocorreu durante uma reunião da JUC”

Sul21- E então foi para a AP (Ação Popular)?
Carmem -
 Quando fui para a direção nacional da JUC, não fui para AP, a fim de não misturar as coisas, entre o movimento laico e o de Igreja. Era também uma questão de segurança, o pessoal estava sendo preso, e a JUC dava cobertura para fazer as coisas. Eu fazia questão de não saber o que estava acontecendo na AP, porque podia ser presa a qualquer hora.

Minha primeira prisão ocorreu durante uma reunião da JUC, numa casa em Petrópolis (RJ). Eu estava cansada, encostada numa poltrona e acordei com uma metralhadora no pescoço. O Exército levou todos nós para a prisão, que durou algumas horas. Foi só um susto. O bispo Dom Cândido Padim era nosso assessor (depois foi D. Vicente Scherer).

Sul21- Qual a acusação nesse caso?
Carmem -
 Nenhuma. Eles viam a JUC como antro de comunistas. Claro, estudávamos marxismo e os teólogos mais avançados. A visão que tinham de nós era adequada…

"Eles viam a JUC como antro de comunistas. Claro, estudávamos marxismo e os teólogos mais avançados. A visão que tinham de nós era adequada..." | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

“Eles viam a JUC como antro de comunistas. Claro, estudávamos marxismo e os teólogos mais avançados. A visão que tinham de nós era adequada…” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21


Sul21- Você tinha consciência do perigo?
Carmem -
 A gente sabia que era perigoso, mas achávamos que faríamos a revolução. A geração de 60 foi extremamente generosa e completamente utópica. Quando ocorreu o golpe em 1964, um assessor da JUC disse: “isso veio para ficar, é uma revolução e eles vão fazer uma reestruturação do país”. E alertou: “a borra vai subir”. A gente achou isso ingênuo, que aquilo ia durar pouco tempo e seria derrubado, mas ele estava certo.

Quando deu o golpe, eu estava temporariamente em Porto Alegre. Havia todo um movimento do ex-governador Leonel Brizola, nós fazíamos passeatas e acabamos indo nos esconder no porão da Igreja da Conceição, onde o então cônego nos dava cobertura. Eu fiquei na entrada, fazendo a ponte entre o porão e o pessoal de fora, dizendo quem foi preso e passando recados.

Participei da fundação da Ação Popular, quando Betinho (o sociólogo Herbert de Souza) veio a Porto Alegre e reuniu a turma. Antes disso havia o Grupão, que organizou a AP, liderado por Betinho, Vinicius Caldeira Brant, Henrique Novaes, Padre Vaz, Padre Alípio, Angélica Mores, entre outros.

“No II Exército, fui interrogada durante nove horas, por nove homens”

"Quando me apresentei para depor no II Exército, vesti a melhor roupa, jóias, fui ao cabeleireiro. O taxista achou que eu era esposa de oficial e deitou elogios ao Exército... " | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

“Quando me apresentei para depor no II Exército, vesti a melhor roupa, jóias, fui ao cabeleireiro. O taxista achou que eu era esposa de oficial e deitou elogios ao Exército… ” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21- Como e por que saiu do Rio?
Carmem -
 Quando saí da JUC nacional, em 66, fui para São Paulo dar um tempo. Os últimos tempos de equipe nacional tinham sido estafantes. Fiz um curso de especialização em orientação educacional. Passei a orientadora pedagógica do Colégio Vocacional do Brooklin. Era um modelo que deveria nortear a reforma do ensino em São Paulo. Mas todo mundo do Vocacional foi processado pelo Exército. O motivo? Porque trabalhava as questões sociais e não alinhava com as proposta educacionais que foram impostas. Respondi ao primeiro processo. Muita gente foi processada junto e o processo foi tão grande e heterogêneo que não deu em nada. Uma amiga e colega já tinha sido presa e torturada. Quando me apresentei para depor no II Exército, vesti a melhor roupa, jóias, fui ao cabeleireiro. O taxista achou que eu era esposa de oficial e deitou elogios ao Exército… Foi em 1970, véspera do Mundial de Futebol. Fui interrogada durante nove horas, por nove homens. Eu sabia o que todos os companheiros já tinham falado e cheguei lá treinada. “A senhora não tem medo de ser presa?”, me perguntaram. “Tenho parentes no Exército”, respondi. (Eram os Kruel, parentes distantes). Nesse meio tempo, o Brasil ganhou a Copa do Mundo, me interrogaram de novo noutro dia e me mandaram embora.

"A luta armada não tinha perspectiva e só fez acirrar a repressão que já existia desde o golpe." | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

“A luta armada não tinha perspectiva e só fez acirrar a repressão que já existia desde o golpe.” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21- Qual era a sua militância na época?
Carmem – 
Eu tinha entrado numa dissidência de AP, ligada a Vinicius Caldeira Brant. Acreditávamos na luta política. A luta armada não tinha perspectiva e só fez acirrar a repressão que já existia desde o golpe. Ela começa com assalto a banco a fim de fazer fundos para organizar a guerrilha urbana. A repressão foi tão violenta que foi desproporcional à força que o pessoal da luta armada tinha.

Sul21- Você é uma crítica da luta armada.
Carmem -
 Nunca aderi à luta armada, pois sempre achei que era inviável, como realmente se mostrou. Fiz o contato com eles como única forma de resgatar minha amiga que estava presa. Faziam os sequestros e trocavam por presos políticos. Eu era contra no sentido de que não era nossa opção. Mas ajudei muita gente de luta armada a fugir. Havia solidariedade. Uma parte da AP foi para a luta armada, outra não. Acho que ela reforçou a repressão, que aí começou a se justificar, a ficar mais forte. Quando Lamarca, um oficial do Exército, sai e leva toda a sua companhia para a luta armada, a coisa começou a ficar preta.

Quando saiu o AI-5, a luta armada estava aparentemente muito forte, só aparentemente. Não havia condições históricas para isso. Começou a fazer assalto a banco para fazer a guerrilha urbana, que não chegou a se constituir. Pretendia fazer grupos foquistas e nós não acreditávamos na teoria do foco, hoje o próprio autor (o filósofo francês Régis) Debray revê isso. Consistia em fazer focos de guerrilha para o povo aderir.

“Em São Paulo, passávamos o dia inteiro a esconder gente”

"Por telefone, de São Paulo, um companheiro me aconselhou a sair do país. Fiquei 40 dias em Porto Alegre, mudando de casa" | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

“Por telefone, de São Paulo, um companheiro me aconselhou a sair do país. Fiquei 40 dias em Porto Alegre, mudando de casa” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21- Como seu grupo caiu?
Carmem -
 Eu caí quando trabalhava no setor de documentação da Editora Abril. Caí porque minha amiga que estava presa ficou bem doente e queríamos tirá-la da prisão. Por acaso conheci uma pessoa que tinha contato com o pessoal da luta armada que consultamos a fim de tirá-la da prisão. Esse contato caiu e caímos todos por causa dele. Mas não tínhamos nada a ver com a luta armada. Em São Paulo, entre 1966/71 passávamos o dia inteiro a esconder gente, a tirar gente para o exterior – fui ao Uruguai, depois, levar essa amiga que iria para França. Quando o Vinicius foi preso, sua esposa ficou em nossa casa. Na época todos os moradores de São Paulo tinham que fazer ficha e todos os que entravam num prédio precisavam se identificar. Um dia a mulher do Vinicius saiu e não voltava. Na madrugada bateram na porta, pensávamos que podia ser a polícia. Era ela. O táxi no qual estava teve um acidente e precisou testemunhar na polícia. Ninguém descobriu quem ela era…

Sul21- Como decidiu sair de São Paulo?
Carmem -
 Minha sobrinha morreu e eu fui a Porto Alegre para o enterro. Quando voltei a São Paulo, nossa turma já tinha começado a cair. Muitos foram presos e torturados. Aliás, todas as semanas iam prender alguém na Abril. Seria meu último dia na Abril, já estava pensando em fugir. Disseram que um homem queria falar comigo na recepção. Pensei que era a polícia. Conseguiram convencer a polícia que eu não estava lá. Os colegas Juca Kfouri e Regina Panuchi trouxeram todo o pessoal da Veja – que na época era de esquerda – os quais encheram o corredor e me cercaram, eu no meio, até o elevador. Juca encostou o Fusca na porta e eu deitei no chão. Ele passou voando pela portaria, troquei de carro várias vezes. Junto com minha irmã fui levada por um parente à rodoviária de Santos, local que era menos vigiado, e viemos fazendo baldeações até chegar a Porto Alegre. Meu pai tentou me convencer a me entregar, a dizer que eu tinha ajudado pessoas por caridade. Não adiantou. Por telefone, de São Paulo, um companheiro me aconselhou a sair do país. Fiquei 40 dias em Porto Alegre, mudando de casa. A empregada de minha cunhada viu chegar uma camionete Aero Willys, de São Paulo (eram da Oban), procuravam por mim. Ela disse que não sabia de nada, que eu não tinha estado aqui.

Sul21- Como saiu do Brasil, então?
Carmem -
 Minha família me tirou do país. Minha irmã tinha sido presa pelo delegado Pedro Seelig e foi levada a São Paulo, sendo acareada com o pessoal ligado a mim. Durante muito tempo, ela era interrogada todos os anos. Só para incomodar. Decidi ir para França. Era 1971. Meu cunhado me levou de carro ao Uruguai, pelo Chuí, fui com documentos de minha outra irmã. De Montevidéu fui a Buenos Aires, onde entrei legal, com o meu próprio passaporte. Cheguei sem nenhum endereço, só com a mala e dinheiro para ir até Paris. Procurei o padre Pasqual e ele me colocou em contato com antigos militantes da JUC argentinos, que me receberam super bem (foi quando conheci a cantora Mercedes Sosa). Os argentinos até me deram a passagem a França. Usei meu passaporte que possuía antes de ter caído e segui legalmente para Paris – onde já estavam alguns amigos.

“Não sei o que faria se tivesse sido torturada. Não julgo ninguém”

Sul21- Qual o seu sentimento ao deixar, de fato, o país?
Carmem – 
Me lembro até hoje de passar a fronteira. Não queria ir, queria ficar clandestina. Me deu uma tristeza, porque sabia que estava saindo em definitivo. Mas não tinha condições de ficar, meus amigos estavam sendo presos, torturados.

"Uma pessoa foi torturada e não me entregou. Me senti culpada, angustiada, sofrendo por causa dela" |Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

“Uma pessoa foi torturada e não me entregou. Me senti culpada, angustiada, sofrendo por causa dela” |Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21 – Como foi a chegada em Paris?
Carmem -
 Lá já estavam parceiros da JUC. Me matriculei na universidade para fazer mestrado, afinal tinha entrado legalmente na França. Conheci Daniel de Andrade, que viria a ser meu marido (hoje ex) e pai de meus dois filhos. Ele usava o nome de Reginaldo Faria Leite. Foi mandado clandestino para Dinamarca, pois a França estava saturada de exilados. Dali foi colocado na fronteira da Alemanha, sem documentos. Fizemos uma campanha grande para trazê-lo para a França. O medo era que fosse mandado para uma prisão comum ou a um campo de refugiados, uma espécie de limbo, onde a pessoa ficava sem cidadania. Consegui apoio de gaullistas liberais; numa reunião com eles eu estava tão estressada que comecei a chorar. Meu choro fez o que todas as campanhas não conseguiram. Ficaram com pena da “fiancée” (noiva) e ele conseguiu voltar.

Sul21- O que pensa das pessoas que não resistiram e delataram companheiros?
Carmem -
 Não sei o que faria se tivesse sido torturada. Não julgo ninguém. Eu não fui pega. Uma pessoa foi torturada e não me entregou. Me senti culpada, angustiada, sofrendo por causa dela. Queria ser presa, era o meu sentimento.

Sul21- Como se supera essa fase de ver amigos presos e torturados?
Carmem -
 Meu sentimento era de fracasso, de falta total de perspectiva ao chegar a Paris. Sentimento de quem não tem lugar no mundo. Tinha uma dor de cabeça tão forte que acharam que era um tumor na cabeça. Só dormia com remédio. Mas era de fundo emocional. Levei um ano para descobrir que Paris era bonita, pois a dor era muito grande. Era difícil falar por telefone com minha família, atingida naquele período por doenças e morte. Estudei muito, em grupos de brasileiros e na universidade. Fazia trabalho burocrático na Anistia Internacional. Fiz recepção dos exilados, ajudando a achar moradia, trabalho para eles – foi quando conheci Daniel. Quando nasceu nosso filho, registrei-o como mãe solteira, pois o pai era exilado e ele, portanto, seria apátrida.

“Em Moçambique, por dois meses comemos só carapau (peixe) e batata”

" Estávamos cansados de estar em Paris sem fazer nada, vivendo de biscates. Fomos para Moçambique" | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

“Estávamos cansados de estar em Paris sem fazer nada, vivendo de biscates. Fomos para Moçambique” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21 – Por que saíram da França?
Carmem – 
Em 77 eu, Daniel e nosso filho fomos para Moçambique, graças a contato feito com Miguel Arraes (ex-governador pernambucano). Viajamos no avião que levou as comissões da Europa e da África para o terceiro congresso da Frelimo, quando eles se declararam marxistas. Estávamos cansados de estar em Paris sem fazer nada, vivendo de biscates. Daniel não podia voltar ao Brasil. Eu podia, pois tinha sido absolvida por falta de provas. Fomos como funcionários do governo de Moçambique. Daniel formou a primeira geração de fotógrafos no país, eu dava aulas na universidade e trabalhava na direção nacional de educação. Foi muito difícil, havia boicote a remédios e até a comida. Por dois meses ficamos comendo só carapau (peixe) e batata. Felizmente eu tinha levado muito leite em pó, que durou quatro ou cinco meses.

Sul21- Como voltou ao Brasil?
Carmem -
 Meu filho de dois anos de idade ficou muito mal, teve sarampo e infecção generalizada. Havia poucos médicos em Moçambique. Não havia local para isolamento de sarampo. Quando o menino saiu da condição de perigo, voltei com ele para o Brasil. Eu estava grávida de oito meses. Foi uma viagem complicada e longa. Perdi a conexão na África do Sul, depois demoraram a liberar a minha bagagem no Rio. Cheguei a Porto Alegre. Logo depois minha filha nasceu. Quando ela tinha 20 dias de vida, eu fui chamada na polícia e interrogada o dia inteiro. Eu disse que não tinha nada para falar. Fui tirada dali pelo advogado Mariano Beck, que era presidente da OAB/RS. “A gente tem ordem de interrogar todo mundo que volta”, era o que diziam. E isso é significativo. Quando pedi anistia política, solicitei minha ficha na ABIN. Eles controlaram todos os meus passos até 1990. Desde 1979, quando voltei ao Brasil, constava como infiltrada comunista no Ministério da Educação. Na verdade, eu estava trabalhando lá. E assim faziam com todo mundo que esteve no exílio ou preso. Depois isso parou, diz hoje o presidente da comissão de anistia. Eu espero que sim.

Sul21- O esquema de repressão não parou?
Carmem -
 Não. O delegado Pedro Seelig foi condecorado e está aí, os arquivos da ditadura não foram abertos. Apagaram Fleury, que era arquivo perigoso. Na África do Sul, Mandela fez uma comissão de anistia em que o cara tinha que ir e declarar o que tinha feito. O objetivo era que a verdade aparecesse. Aqui, não. Deram-se ao luxo de controlar as pessoas até1990, no governo democrático.

“Tivemos uma transição negociada. Por isso não conseguimos abrir os arquivos da ditadura”

"A nossa sociedade é violenta e autoritária. O que a ditadura fez foi aprofundar essa situação" | Foto: Bernardo Ribeiro

“A nossa sociedade é violenta e autoritária. O que a ditadura fez foi aprofundar essa situação” | Foto: Bernardo Ribeiro

Sul21- Por que a decisão de voltar ao Brasil?
Carmem -
 Era um contexto novo, havia uma conjuntura de abertura, a campanha da anistia estava na rua. Logo saiu a anistia e Daniel conseguiu voltar ao Brasil, e com seu nome verdadeiro. O pessoal de Moçambique ficou chateado porque não voltei mais, pois lá havia carência de quadros muito grande e eu tinha renovado o contrato com a Universidade.

Sul21- Como vê a anistia brasileira?
Carmem -
 Foi uma anistia negociada e imposta nos termos que a ditadura quis. Foi uma anistia possível. Não tivemos uma vitória contra a ditadura.Tivemos uma transição negociada. Por isso não conseguimos abrir os arquivos da ditadura. Por isso ficaram restos do autoritarismo até hoje. Os seus defensores aceitaram porque era a única condição apresentada. Não foi total e irrestrita. Anistia é para crime político. Tortura é crime hediondo, não tem anistia em lugar nenhum do mundo.

Sul21- Qual a situação hoje?
Carmem – 
A nossa sociedade é violenta e autoritária. O que a ditadura fez foi aprofundar essa situação. A polícia mata, e não só ela, a sociedade também. Embora tenhamos avançado muito após a ditadura, temos a democracia possível, não a desejável.

Sul21- Acredita em retrocesso?
Carmem -
 Em golpe hoje, não. Há uma sociedade com medo e, contraditoriamente, esse medo avançou junto com a democracia. Acesso aos direitos, ao consumo e à educação criaram aspirações que não se pode satisfazer imediatamente. Há uma socióloga, Angelina Peralva, que analisa isso. Por exemplo, os meninos que fazem surfe ferroviário se arriscam ao máximo como forma de controlar o próprio risco. Aqui os jovens morrem mais do que nos países em guerra; 70% das mortes são por causas externas.

Sul21- Qual o caminho?
Carmem – 
A saída é a luta democrática, a organização social, o aprofundamento da educação, do acesso à cultura. Acredito que nossa democracia pode se consolidar. Em parte o retrocesso é fruto do neoliberalismo, que cria aspiração ao sucesso a qualquer preço, o consumismo desenfreado, a crença que cada um é responsável pelo próprio sucesso. E os governos são obrigados a gerir a crise atual financeira e civilizatória.

As recentes manifestações de rua dos jovens são manifestação de crise estrutural profunda, eles querem uma sociedade mais justa, mas não sabem como. Houve disputa de sentido e ausência de propostas concretas, além de participação da direita no final. Vivemos uma conjuntura tal que nos próximos dez anos é imprevisível o que vai acontecer no mundo.

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a atribuição de responsabilidade

"A acusação de “revisionismo revanchista” não faz sentido porque a percepção que se tem da história nunca é estática. O que, no passado, pareciam ser termos de um acordo recíproco de anistia, hoje são, por exemplo, questionados. Excluir a atribuição de responsabilidade por graves violações de direitos humanos é, para a geração do presente (na qual me incluo), inaceitável."()

http://blogs.estadao.com.br/direito-e-sociedade/o-interesse-publico-pelo...

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“Contra ratos não há argumentos.” (Palmério Dória)

Carmem Craidy e Ivanisa Teitelroit Martins

Boa entrevista! Carmem sempre foi uma lutadora em defesa dos direitos humanos e sociais. Já tive o grande prazer de trabalhar com ela em defesa de princípios constitucionais.

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Ivanisa Teitelroit Martins

imagem de agincourt
agincourt

jabuticaba

“Tortura é crime hediondo, não tem anistia em lugar nenhum do mundo”

É feito jabuticaba: só tem aqui.

(Em rigor, e infelizmente, não é bem assim. Na África do Sul também teve – é claro que não me refiro à jabuticaba.)

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A famigerada Lei da Anistia impede a cicatrização de feridas

É como se Hitler, no auge da Segunda Mundial, anistiasse os criminosos de guerra e, após o seu término, isso continuasse valendo, evitando assim a penalização dos réus no Tribunal de Nuremberg. Pois foi exatamente isso que aconteceu no Brasil: No auge da ditadura militar, no governo Figueredo, em 1979, os torturadores fizeram aprovar a Lei da Anistia que, como sabemos, já na democracia foi referendada pelo STF, esse mesmo STF que mantém Zé Dirceu em situação de prisão ilegal. Tudo isso é muito revoltante, não houve ruptura com a ditadura:

Passados 50 anos desde o golpe militar no Brasil, entidades de direitos humanos clamam pelo fim da "impunidade" que a polêmica anistia de 1979 instaurou no país durante e depois da ditadura (1964-1985).

Aprovada há 35 anos por um Congresso que servia como "fachada democrática" ao regime militar, a anistia impede o julgamento de acusados de crimes como tortura, sequestro e assassinato cometidos durante a ditadura e é hoje duramente criticada por movimentos sociais que exigem castigo para os crimes contra a humanidade.

"O Brasil é o país da impunidade", afirmou à Agência Efe o advogado Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH) do Rio Grande do Sul.

Ativista na luta contra a ditadura, Krischke ressaltou a "falta de interesse" político para revogar a norma e questionou a decisão do Supremo Tribunal Federal de não revisar a lei, aprovada por um Congresso servil ao regime e no qual um terço dos membros foi designado a dedo pelos militares.

"Nossa Suprema Corte tomou uma decisão de maneira contrária ao que o mundo entendia. Temos que mudar a lei no Congresso para que o STF entenda que não é possível viver na impunidade", ressaltou.

Em 2010, diversos movimentos sociais exigiram a anulação da anistia, mas o Supremo referendou a lei por sete votos a favor e dois contra.

Meses depois da decisão, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CorteIDH) emitiu uma sentença na qual pedia ao Estado brasileiro que punisse os responsáveis por violações aos direitos humanos durante a ditadura.

Embora a CorteIDH tenha se referido concretamente à Guerrilha do Araguaia, diversas organizações humanitárias consideram que a sentença desse órgão interamericano é "extensível" a todos os crimes cometidos durante o período ditatorial.

O deputado Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão da Verdade do estado de São Paulo, que investiga os crimes durante a ditadura, qualificou como "terríveis" as consequências da anistia, sancionada em 28 de agosto de 1979 pelo general João Baptista Figueiredo, o último dos governantes militares.

"Por culpa da Lei de Anistia, não saímos do capítulo da memória e não ingressamos nem no capítulo da verdade, nem no da justiça", declarou Diogo em entrevista à Efe.

Da mesma forma que o deputado, a presidente do Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, Cecilia Coimbra, considerou que a norma de 1979 é uma lei de "autoanistia" criada para beneficiar os militares que cometeram "atrocidades".

A lei "foi feita para os opositores da ditadura, mas os juristas incluíram uma nova interpretação. Incluíram os agentes do Estado que torturaram e tomaram pessoas ilegalmente", comentou a ativista, que foi sequestrada e torturada em 1970 junto com seus irmãos e seu marido.

Segundo Diogo, mais de 400 pessoas morreram em "confrontos diretos" durante a ditadura, e 90 mil foram presas e torturadas durante os 21 anos nos quais os militares governaram o Brasil.

Nesse sentido, não existem dados realmente oficiais, embora haja movimentos de direitos humanos que cifrem o total de mortos em mais de mil e o de desaparecidos em cerca de 400, números que a Comissão da Verdade tenta esclarecer.

"É necessário fazer uma revisão da Lei de Anistia. Quando for revogada, todos os crimes serão esclarecidos, todos os arquivos serão abertos, a verdade será contada e a justiça será feita. Caso contrário, não se saberá dos crimes do passado, muito menos dos crimes do presente", concluiu Diogo.

Fonte: Agência EFE

http://noticias.terra.com.br/brasil/politica/polemica-anistia-impede-cicatrizacao-das-feridas-da-ditadura,144366d7b6805410VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html

 

 

 

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" Segundo Diogo, mais de 400

" ...   Segundo Diogo, mais de 400 pessoas morreram em "confrontos diretos" durante a ditadura, e 90 mil foram presas e torturadas durante os 21 anos nos quais os militares governaram o Brasil.

Nesse sentido, não existem dados realmente oficiais, embora haja movimentos de direitos humanos que cifrem o total de mortos em mais de mil e o de desaparecidos em cerca de 400, números que a Comissão da Verdade tenta esclarecer.

"É necessário fazer uma revisão da Lei de Anistia. Quando for revogada, todos os crimes serão esclarecidos, todos os arquivos serão abertos, a verdade será contada e a justiça será feita. Caso contrário, não se saberá dos crimes do passado, muito menos dos crimes do presente", concluiu Diogo   ... "

 

Fico aqui fazendo meus calculos, se uma ditadura de 21 anos produziu tudo isso, o que dira de uma que existe desde de 1959? ( 54 anos ate o momento... )

O tal do Diogo ja fez esse estudo?

E para complementar o raciocinio , se a analogia entre alemanha nazista ( matou só de judeus e minorias + 6 milhoes de pessoas por ato direto do estado ) fora as que morreram devido as guerras causadas pode ser comparada com a noss ditadura, haveria algo igual na terra qeu possa ser equivalente a ditadura Cubana?

Acho que nao...rs

Que coisa heim?

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leonidas

Isso vale para Cuba

Isso vale para Cuba tambem?

Eu acho estranho como essa galera que vive falando, falando e falando sobre como é importante denunciar a ditadura, que tortura é crime atemporal , que torturador e ditador tem que pagar pelos seus crimes e bla bla bla

E  incrivelmente nao vemos nenhum deles fazer um " adendo " para denunciar a permanencia de uma ditadura em plena america latina que é a Cubana!!!! 

Porque observem, quando a ditadura militar brasileira começou a Cubana ja existia a quase 5 anos.

A ditadura militar Brasileira acabou faz 30 anos !!!! e a Cubana permanece!!!!!!!!!!!

E esses ditos Humanistas de araque nao denunciam algo( que deveria incomoda-los enormemente ) que a julgar pelos criterios usados por eles é MUUUUUUITO GRAVE

Por isso eu digo e repito ,essas historias tristes nao me comovem pois nao se prestam a lutar contra ditadura nenhuma, se fosse elas teriam a OBRIGAÇAO de denunciar o fato gravissimo que um regime da mesma natureza ainda existe na região.

E ser solidarios aos que estao passando por algo que eles ja passaram, mas nada disso!

Nao ha empatia deles com os seus similares cubanos ( que ao contrario deles ainda vivem neste inferno )

Ficam tudo caladinho, falando mal de ditadura aqui, e apoiando ditadura lá

Torturado, morto, estuprado só tem valor e merece ter seus agressores presos se os tais forem brasileiros né?

As milhares de vitimas cubanas que FORAM , SAO , E AINDA SERAO mortas, torturadas , perseguidas e estupradas nao conta certo?

E muuita falta de vergonha na cara por parte dessa turma que vive pedindo cadeia para os militares brasileiros...

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leonidas

imagem de Marcelo de Sousa Nascimento
Marcelo de Sousa Nascimento

Acorda militonto

O post aborda um problema brasileiro e não cubano

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quando quiser criticar a

quando quiser criticar a anistia brasileira nao cite o fato que na Argentina ou Chile as coisas foram diferentes ok?

porque é um assunto brasileiro ok?

kkkkkkkkkkkkkk

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leonidas

hum... interessantissimo

hum...

interessantissimo ponto de vista...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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leonidas

Muito boa a entrevista.

Muito boa a entrevista. Sincera, objetiva e bastante rica em informações sobre a resistência à ditadura militar. 

Mas o que fica de mais mimportante é a frase que deu título ao post: "tortura é crime hediondo, não tem anistia em lugar nenhum do mundo". 

Verdade: jamais um torturador pode merecer qualquer tipo de condescendência. É um degenerado moral. A borra da escumalha humana. Qualquer outro tipo de crime se eclipsa perante o da tortura. 

Mas, indagariam alguns, e o delito contra crianças, estupro, contra velhos e inválidos, o sequestro? Pois aí é que está: a tortura sempre inclui todo esse universo de vítimas. Torturador estupra; furta materialmente a vítima e rouba sua "almas; espanca velhos e crianças; induz a abortos; sequestra vítimas....O que precisa escrever mais?

E as condicionantes psicológicas e sociológicas? Que eles são detentores de sérios distúrbios psiquícos é evidente. Mas não de natureza que o façam inimputáveis ou perdoáveis. Um facínora latrocída pode ser avaliado à luz desses parâmetros. Pode ser egresso de um meio social degradante e assim se tornado uma vítima do determinismo social perverso. 

O torturador, não. Normalmente é bem situado socialmente e só faz o que faz por puro masoquismo. O mal pelo mal. 

 

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DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS 
 Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948

Artigo V

Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

Resolução 39/46, da Assembléia Geral das Nações Unidas,

Artigo 1
Para os fins desta Convenção, o termo "tortura" designa qualquer ato pelo qual uma violenta dor ou sofrimento, físico ou mental, é infligido intencionalmente a uma pessoa, com o fim de se obter dela ou de uma terceira pessoa informações ou confissão; de puní-la por um ato que ela ou uma terceira pessoa tenha cometido ou seja suspeita de ter cometido; de intimidar ou coagir ela ou uma terceira pessoa; ou por qualquer razão baseada em discriminação de qualquer espécie, quando tal dor ou sofrimento é imposto por um funcionário público ou por outra pessoa atuando no exercício de funções públicas, ou ainda por instigação dele ou com o seu consentimento ou aquiescência...

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