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Eduardo Coutinho e o futebol em sua obra

Sugerido por José Carlos Lima

Do Impedimento.org

Três minutos e vinte segundos. Este foi todo o tempo que o diretor Eduardo Coutinho – morto no último domingo, aos 80 anos – permitiu que o futebol ocupasse em meio às duas dezenas de filmes que compõem sua obra, tida por muitos como a mais importante do documentário brasileiro.

Nessa nesga de tempo contida em Edifício Master (2002), um treinador de futebol relembra a vez em que ficou nu em pleno campo para protestar contra uma suposta roubalheira – além de dar uma bronca em seu cachorro, arriscar algumas palavras em inglês, francês e espanhol e cantarolar uma música de sua própria autoria.

É no mínimo intrigante o desinteresse de Coutinho pelo futebol, em se tratando de um cineasta que soube como poucos dar ao Brasil um rosto e uma voz (ou melhor, rostos e vozes). Afinal, em botecos e bancas de pós-graduação do país inteiro, proliferam teorias sobre como este esporte em que 22 barbados pisoteiam um gramado para bicar uma bola de couro foi capaz de forjar a nossa identidade, a exemplo do parasitismo da corte de d. João VI, a indolência dos índios nativos ou o batuque sobrenatural do candomblé.

Coutinho podia não se interessar de futebol, mas se interessava por gente. E de gente, de todos os tipos, o futebol está cheio. Inevitável pensar no quanto ganharia o esporte com Coutinho entrando em campo.

Não é que não existam bons documentários nacionais sobre o assunto. Garrincha, a Alegria do Povo (1963), de Joaquim Pedro de Andrade, tem o valor histórico de registrar um monstro do futebol mundial durante seu auge, enquanto Subterrâneos do Futebol (1965), de Maurice Capovilla, e Passe Livre (1974), de Oswaldo Caldeira, usam uma abordagem mais “sociológica” para desvendar as relações de poder dentro dos clubes e a fragilidade dos atletas em uma época anterior à Lei Pelé.

Já os três episódios de Futebol (1998), de João Moreira Salles e Arthur Fontes, apostam na tradição do cinema direto e seu estilo “mosca na parede” para registrar fatos cotidianos – junto a entrevistas em estúdio com ex-jogadores – para pintar um quadro abrangente sobre o esporte no país, fazendo a articulação entre passado, presente e futuro.

E se a ideia é mostrar só a bola rolando mesmo, há documento mais relevante que os closes em câmera lenta e a trilha sonora inconfundível do Canal 100 de Carlos Niemeyer?

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Mas o olhar de Coutinho fugiria de tudo isso. A empatia e a curiosidade sempre conduziram seu foco ao brasileiro comum, ao cidadão “anônimo”, aquele cujas histórias nunca seriam conhecidas se a câmera não estivesse ligada, se a lente não estivesse voltada para si e se o microfone não fosse colado em sua lapela.

Filmes seminais como Santo Forte (1998), Babilônia 2000 (2001), Edifício Master (2002) e Jogo de Cena (2007) se baseiam nessa troca entre Coutinho e seus entrevistados, na qual – nas palavras do próprio diretor – o documentarista se obriga a desaparecer para que o entrevistado esteja livre para transformar a si mesmo em personagem, e para que a matéria-prima do filme venha a nascer.

Para Coutinho, não interessava a figura pública, o big shot, o grande evento para o qual todas as atenções estão dirigidas. Quando os olhares em geral se voltavam para um ponto, sua câmera virava para o outro. Como ele mesmo comentou durante a pré-produção de Peões (2004), filme sobre os operários do ABC paulista que participaram das greves junto do futuro presidente Lula:

“Todo fato histórico tem uma dimensão que é cotidiana, das pessoas que estão na massa, se dissolvem na massa. Você pode jogar essa ideia em qualquer quadro histórico: pega, virando 180 graus, um comício do Hitler, com 100 mil carinhas. Quem são esses caras? Festejos do fim da II Guerra Mundial, e você vê aqueles anônimos. Quem eram? O que me interessa é esse lado.”

Assim, é inevitável pensar que grandes eventos como a Copa do Mundo e a Olimpíada do Rio ganhariam de Coutinho um tratamento bastante peculiar. Nada de craques, treinadores e dirigentes: suas vidas já são escrutinadas o suficiente pela mídia para que pouco seja deixado para a imaginação dos meros mortais.

(Por sinal, após a sua morte, foi noticiado que um de seus projetos futuros seria um documentário para a ESPN, cujo entrevistado seria o massagista da delegação brasileira nas últimas cinco Olimpíadas. Nada mais Coutinho que isso.)

Privados de maneira trágica de sua presença, ficamos livres para imaginar o que Coutinho e sua equipe poderiam fazer dentro do Maracanã, no próximo dia 13 de julho. Virar as costas para o campo e descolar uma história saborosa de um vendedor de esfiha, preso a um balcão no corredor de acesso do estádio enquanto Neymar faz o gol do hexa? Ou, dias após uma elétrica decisão por pênaltis, encontrar o roupeiro do time perdedor e descobrir o que só ele ouviu da boca do jogador que desperdiçou o chute decisivo? Ou talvez convencer um black bloc a tirar sua máscara e contar suas histórias, após um protesto contra o governo e a FIFA?

Certamente ele faria algo bem melhor que essas conjecturas sem imaginação. Ou talvez –provavelmente, pensando bem – ele não fizesse: nada. Já não está o Brasil cheio de brasileiros com histórias pra contar, apenas esperando uma câmera e um microfone serem ligados? E com esses estádios agora sanitizados, vendendo fast food e cobrando ingressos inflacionados, quem poderia falar algo minimamente interessante sobre futebol? Copa, quem precisa dela?

Rafael Spuldar

(Foto: Divulgação/Sesc-SP)

 

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