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Em Berlim, frei Aloísio Fragoso e teólogo alemão discutem Igreja no Brasil em 1964

do Deutsche Welle

"Igreja era única instituição forte para enfrentar ditadura", diz frade

Durante palestra do Brasilientage em Berlim, frei Aloísio Fragoso, da Arquidiocese de Recife, e teólogo alemão discutem a resistência da instituição nos anos que seguiram o golpe de 1964.

por Renata Miranda

A resistência desempenhada por integrantes da Igreja Católica no Brasil durante a ditadura militar foi o tema de uma palestra do Brasilientage em Berlim na última sexta-feira (04/04).

Para o frei Aloísio Fragoso, da Arquidiocese de Recife, apesar de, em um primeiro momento, a Igreja ter apoiado o governo militar, com o passar do tempo a instituição mudou de opinião, tornando-se um dos opositores mais ferrenhos do regime.

Fragoso conta que a mudança ocorreu a partir de 1968, com a implementação do Ato Institucional número 5 (AI-5). "As torturas, os assassinatos e os desaparecimentos se tornaram política do Estado, que também passou a perseguir bispos, padres e freiras", diz o frade (na foto, o terceiro da esquerda para a direita).

"A tortura aplicada pelos militares não era só para obter informações, mas também para eliminar toda a força moral da vítima", afirmou.

Segundo ele, o distanciamento da Igreja em relação aos militares foi um duro golpe para o governo da época. "Naquele momento, a Igreja era a única instituição forte o bastante para enfrentar o regime. Os militares sabiam disso e nem mesmo eles queriam ter de lidar com um inimigo tão poderoso."

Fragoso lembrou que durante os Anos de Chumbo a Igreja ganhou força porque era um lugar onde a oposição podia se expressar livremente. Já que a resistência não podia tomar as ruas, os opositores ao governo militar ocupavam os espaços das igrejas e paróquias. Nesses encontros, além de discutir ideias, os manifestantes cantavam músicas de protesto e davam apoio uns aos outros.

"Até mesmo a narrativa bíblica passou a ser lida com um novo foco", ressalta o frade. "O Êxodo, por exemplo, não era mais visto apenas como a história do povo hebreu, mas como a história de qualquer povo que sofre opressão. Era também a história do povo brasileiro daquela época", disse.

Ameaça comunista

Fragoso lembra que, no início, a Igreja tinha medo do comunismo, que pregava o ateísmo, e, por isso, deu apoio ao golpe.

Com o passar dos anos, porém, os líderes da entidade viram que a ideologia comunista não era ameaçadora a ponto de legitimar a ditadura. "O golpe foi um grande e sangrento retrocesso na história do Brasil", afirma o frade.

O teólogo alemão Michael Ramminger, do Instituto de Teologia e Política de Münster, lembrou de como a posição da Igreja Católica em relação ao comunismo foi importante na Alemanha para combater governos autoritários.

"O anticomunismo da instituição é um ponto central na hora de debater a resistência da Igreja", disse Ramminger, que lembrou o poder da entidade de influenciar acontecimentos sociais.

Brasilientage

Os 50 anos do golpe de 1964, que transformou o Brasil numa ditadura militar por mais de duas décadas, estão sendo lembrados com uma série de eventos no Brasil e na Alemanha até o fim do ano.

De março a novembro, o grupo teuto-brasileiro "Nunca Mais – Nie Wieder" organiza seminários, debates, ciclos de palestras, exposições de arte e mostras de filmes e documentários em ambos os países.

Entre as cidades incluídas na programação estão Berlim, Bielefeld, Bonn, Colônia, Frankfurt, Hamburgo e Leipzig, na Alemanha, e São Paulo e Rio de Janeiro.

O evento terá um encerramento simultâneo, em novembro, em Berlim e São Paulo. A ideia dos organizadores é que o fim das atividades coincida com a entrega do relatório final da Comissão Nacional da Verdade.

 

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Miguel Zibboni

Vinicius Moralis

''Às vezes quero crer, mas não consigo, é tudo uma total insensatez /

Aí pergunto a Deus: - Escute, amigo/Se foi pra desfazer, por que é que fez?''

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De fato, alguns poucos

De fato, alguns poucos expoentes da igreja católica se insurgiram contra a sangrenta ditadura militar, mas em função de suas consequências e prestaram sim inestimável ajuda aos perseguidos pelos militares. Não obstante, a igreja católica não peitou o regime em sua totalidade, se conformando com sua institucionalização no pós-golpe. O papado e as instâncias superiores da igreja católica no Brasil se omitiram, talvez acovardados, talvez contentes com a colaboração da ditadura para por fim àquilo que era denominado de ameaça comunista. A igreja católica, aliás, tem uma vasta experiência em colaborar com os regimes que pretendem por fim ao que chamam de comunismo. Como exemplo, podemos citar a atuação dessa igreja durante o regime nazista na Alemanha durante o papado do papa fígado pio XII, que colaborou com o  III Reich, na esperança de que Hitler exterminasse o povo da União Soviética. A guerra de extermínio alegrava pio XII, a ponto de manter boquinha de siri sobre a existência dos campos de concentração.

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Gilmar Toledo

que coisa, nem ateu postou

que coisa, nem ateu postou aqui!  a verdade e dura de engolir para pessoas que somente aceitam uma versão e não a verdade!  

 

 

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