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Este é o Brasil ou a Macondo de García Marquez?; por Ronaldo Dal Cilea

E se...Testássemos Hipóteses

"O preço da liberdade é a vigilância Eterna" Thomas Jefferson

Por Ronaldo Dal Cilea

Imaginem qual seria a reação de uma sociedade, de um povo, se, dia após dia, os mais diversos meios de comunicação viessem a destacar espalhafatosamente qualquer desvio, de qualquer tipo, de qualquer pessoa ou integrante de determinada instituição, mesmo sem qualquer tipo de prova, apenas lançando suspeições sem embasamento em fatos concretos. E isso fosse feito por mais de dez anos.

É possível se chegar a uma conclusão, mesmo subjetiva, sobre a imagem que se teria criado dessa pessoa ou instituição?
 
Façamos de conta que em determinado momento histórico, em um país fictício, seus meios de comunicação oligopolizados, consorciados com outro país, com grande parte do seu setor econômico, com partidos políticos, com seu establishment, resolvesse assumir determinada posição, em vista de medidas e resultados obtidos por um governo eleito e que não se coadunassem com seus interesses.
 
Pensemos que o establishment resolvesse fazer um ataque progressivo, torpe, injurioso e difamatório, todo dia, toda semana, todo mês, todo ano, durante dez anos a esse governo, a pessoas que o integram e ao seu principal partido de apoio. E que na medida em que esses ataques fossem se demonstrando infrutíferos e acabassem por força de circunstâncias não mais controláveis e manipuláveis pelo dito consórcio, deixando claro que os malfeitos não se restrigiam a um grupo apenas, mas sim a todo o espectro político. Essas suspeições teriam que ser ampliadas a outras instituições políticas e outras pessoas e partidos. E que, nessas demais instituições, pessoas e partidos, também acabassem surgindo suspeitas de que estariam tão envolvidos nas acusações feitas anteriormente, quanto àquelas feitas ao governo, ao partido do governo, aos militantes e simpatizantes desse governo e desse partido.
 
Uma dedução lógica seria que todos os políticos, todos os partidos e instituições que compõem o sistema político teriam sua credibilidade totalmente abalada, vistos com absoluta desconfiança e que mitigariam substancialmente sua capacidade de cumprir com seu programa, seus ideais, seus objetivos públicos, econômicos e sociais.
 
Seria um debacle do povo como um todo, afetando de forma negativa todas as dimensões e princípios republicanos que dão sentido e valor à Nação. Inclusive, voltando-se contra aqueles que começaram o movimento buscando atingir apenas um determinado alvo, achando que conseguiriam delimitar o campo de investigação e publicidade, ficando protegidos de seus mais diversos crimes e atos ilegais.
 
Você não sentiria nojo, vergonha, desconfiança, repulsa de todas as instituições e pessoas que compõem o sistema político?
 
Agora façamos um exercício usando como hipótese a atuação do sistema judiciário de um determinado país, a partir das situações e circunstâncias relatadas acima.
 
Conjecturemos sobre certas atitudes e decisões tomadas por determinadas instituições e pessoas que integram esse sistema judiciário.
 
Projetemos que um juiz das instâncias inferiores do judiciário determine que sejam gravadas as conversas de um determinado investigado. Presumamos que esse investigado converse por telefone com o Chefe de Estado do país fictício. Imagine, ainda, que se suspeite de escuta ambiental no gabinete do Chefe de Estado. Ou, então, que, sendo a escuta feita apenas no telefone da pessoa investigada, que o juiz determine a suspensão da escuta em determinado horário, mas, inexplicavelmente, a ordem de suspensão não seja cumprida pela autoridade responsável por sua execução. Ou, ainda, a autoridade responsável por sua execução jogue a responsabilidade pela ilegalidade cometida em terceiros. Na sequência, o juiz responsável pela autorização da escuta a torne pública, mesmo que a tenha suspendido anteriormente, usando o argumento não previsto na Constituição Federal de divulgação por interesse público, portanto afrontando diretamente a Carta Magna.
 
Também imaginemos que esse mesmo juiz de instância inferior convoque coercitivamente para depoimento um ex-Chefe de Estado. E que a lei desse país determine que uma pessoa para ser convocada coercitivamente tenha que anteriormente já ter sido intimada a depor e tenha se recusado a se apresentar, o que não ocorreu.
 
Suponhamos, também, que esse mesmo juiz determine que investigados sejam encarcerados e apenas depois de terem aceitado fazer uma "delação premiada" recebam o benefício de relaxamento de prisão.
 
Presumamos, também, que os delatores citem diversos nomes de políticos de diversos partidos. E que ocorram vazamentos ilegais e seletivos de denúncias, ainda não comprovadas, apenas de determinado grupamento político, mesmo que tenha sido relatado envolvimento de outros grupamentos políticos.
 
Por mais estapafúrdio que possa ser, ampliemos as asas de nossa imaginação para que seja considerado como totalmente normal o fato de que esse juiz de instância inferior divulgue nota pública dizendo ter ficado tocado com o apoio recebido do povo em manifestação política contra Chefe de Estado, contra determinado grupo político ou pessoas que o integram e que estejam sendo parte de processo por ele conduzido.
 
Conjecturemos mais ainda. Que inquéritos e investigações sejam abertos sobre apenas um grupamento político possivelmente envolvido e sobre os outros grupamentos provavelmente envolvidos não se tome nenhuma providência.
 
Consideremos que um Juiz da mais alta corte do país fictício vá almoçar com uma das partes interessadas em ingressar com um processo sobre determinada temática. Que esse Juiz pronuncie-se em uma sessão dessa corte sobre o tema conversado durante o almoço, mas que não faz parte da pauta tratada na citada sessão. Que esse Juiz seja escolhido como o relator de ação impetrada pela parte com a qual havia compartilhado seu almoço, que teve processo aberto a posteriori sobre o tema citado acima e sobre o qual havia conversado durante a refeição e atenda o interesse da parte envolvida.
 
Vamos adiante e reflitamos juntos sobre o fato de que esse Juiz não se considere impedido de julgar esse processo, no qual uma associada sua em entidade privada seja protagonista e parte. Tentemos pensar que o processo referido acima e sobre o qual o Juiz tenha tomado decisão trate-se de mesma matéria na qual ele tenha sido beneficiado por 37 vezes anteriormente. Mas agora ele a julga ilegal.
 
Independentemente de qual seja o assunto tratado por determinado grupamento político anti-governo esse Juiz posiciona-se a seu favor, inclusive e preferencialmente de forma pública e no mais das vezes sobre matérias que futuramente deverá julgar. Invariavelmente manifesta-se contra as posições jurídicas defendidas por quaisquer pessoas, entidades ou instituições simpatizantes do governo.
 
Consideremos também, que em rumoroso processo o já citado juiz de instância inferior tenha sido assessor e auxiliado na elaboração de minuta de voto lida por Juiza em sessão plenária da mais alta corte e que se pronuncia textualmente: "Não tenho prova cabal contra Siclano - mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite".
 
Meditemos que esta mesma Juiza não se sinta impedida de julgar matéria de interesse do mesmo grupamento político ao qual pertence a pessoa que ela condenou, mesmo admitindo não ter prova.
 
E, para completar, imagine que um réu deste mesmo grande processo de investigação, seja acusado de desviar milhões de dólares na Suíça, e mesmo assim esteja liderando o processo de impedimento do Chefe desta Nação.
 
Você não sentiria nojo, vergonha, desconfiança, repulsa de todas as instituições e pessoas que compõem o sistema judiciário?
 
Esse país é o "Brazil" ou a cidade de "Macondo" do romance escrito pelo mestre do realismo fantástico e Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel Garcia Marquez?
 
Ronaldo Dal Cilea
 

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3 comentários

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James Gressler

Gabo

E o papel da velha que explorava a perseguida da neta vai para :FFHH

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Jos

   

   

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paulmoura

Ora...ora ...ora...

nem Gabriel o escritor ou qualquer outro anjo, mesmo os caidos, poderiam conceber tamanho irrealismo.

Desculpe Gabriel Garcia Marquez a quem admiro de personalidade e visão, soa infantil sua Macondo e seus Cem Anos de Solidão, ou, O Outono do Patriarca, ou, Crônica de Uma Morte Anunciada, ou, O Amor no Tempo do Cólera.

A ignorância de parte de nossa pequena burguesia controlada por incisto de superioridade de elite brasileira é um enxovalhar de qualquer realismo fantástico.

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Eduardo Almeida

Deve ser....

...o Brasil, já que o Gabriel não conseguiria colocar tanta coisa numa cidade em só livro.

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