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Urariano Mota: “Almas socialistas estão sem descanso”

Jornal GGN - A imprensa alternativa de Recife nos anos de chumbo. O caso de assassinato mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil. E o que viu e viveu o autor dessas constatações. Como se estivesse declamando mais uma de suas obras, o jornalista e escritor Urariano Mota contou esses casos com a paixão para quem a luta ainda não terminou.

Confira a entrevista ao Jornal GGN, dividida em duas partes.

Na primeira delas, Uraniano caminha pelo mais sombrio da ditadura militar. Qual era o papel da imprensa e dos jornalistas naqueles anos. O que viveu Recife e as marcas deixadas na cidade pernambucana. E o incansável compromisso que o autor firmou com essa dolorosa herança.

Acompanhe, também, a segunda parte aqui.

Jornal GGN: Como era ser jornalista e escritor, com as suas colaborações de contos para os jornais de oposição, naqueles tempos?

Urariano Mota: Olha, na imprensa alternativa que existiu, que eu lembro claramente, os jornais Opinião, Pasquim e o Movimento, que veio depois do Opinião, essa imprensa alternativa era, sinceramente, um respiradouro. Vocês não podem imaginar o que era para nós receber, ler O Pasquim. Era uma coisa!

LER O Pasquim para nós era melhor do que o último selinho, era melhor do que o último filme de grandes mestres do cinema. Porque terminávamos fazendo uma irmandade, uma fraternidade de pessoas que estavam no sufoco. Então, é o seguinte: eu sempre quis ser escritor. E o meio era absolutamente contrário a isso.

Quando você vem de uma família de classe média, de alta classe média, ainda se aceita, mas quem é, por exemplo, do meio popular, isso é uma coisa que nem está no horizonte, e a minha participação para os jornais da imprensa alternativa se dava através daquilo que era mais caro para mim. Que eram os textos, de contos e crônicas.

Então, um belo dia, eu trabalhava no INPS nessa época – não era INSS, era INPS – e tinha uma banca de revista próxima ali, ao edifício JK, onde ficava a sede do INPS, e um belo dia quando eu vou na banca, está lá, na revista escrita, um conto meu.

Aquilo pra mim foi, sabe, eu não achava solo nos pés, entendeu? Porque a revista escrita era uma revista de circulação nacional. E tava lá, o meu primeiro conto publicado na imprensa de circulação nacional.

Depois eu publiquei no jornal Opinião. Um belo dia, eu também passo pelo Diário de Pernambuco, que tem uma banca de revista, e lá está o jornal Opinião e eu já fui lá atrás: era publicado na última folha. Estava um conto meu “Pensão Paraíso”, que havia sido lido e elogiado por Hermilo Borba Filho, que fazia parte do conselho editorial.

ENTÃO, esses contos, essas contribuições da imprensa de oposição, era ao mesmo tempo uma realização íntima e uma maneira de dizer: eu estou presente. Eu estou com vocês, vocês estão comigo.

Jornal GGN: Uma curiosidade a respeito disso, você naquela época colaborava para esses jornais de São Paulo e Rio de Janeiro, mas estava no Recife. Como era feito, você enviava?

Urariano Mota: Eu enviava, eu via o endereço no expediente lá atrás e enviava por carta. Era carta, datilografada. Que não havia computador. A gente datilografava, até o verbo é uma desgraça, a gente batia a máquina, o texto e mandava para o Conselho Editorial. A gente não sabia nem se havia sido recebida e como havia sido recebida, ficava aguardando. E não vinha nenhuma comunicação, não. Você, um belo dia, abria e estava lá. Era assim que era feito.

Jornal GGN: Corria o risco disso também não chegar e ser...

Urariano Mota: Sim, havia naturalmente, como era uma imprensa combativa, que combatia a ditadura, havia o risco de nem chegar, de ser aberto. E A PARTIR do nome publicado, mostrava que você também estava ao lado daqueles caras.

Aqui no Recife, eu ia esquecendo isso, uma coisa importantíssima, aqui nós criamos a nossa imprensa alternativa. Eu, Luiz Paulo, Geraldo Sobreira, Graça Ferreira, Ral, fundamos o jornal A Xepa, e isso no ano, se não me engano, de 1974 ou 75. Fundamos A Xepa, mas A Xepa conosco só durou dois números. Havia censura prévia. Teve que ser registrada na Polícia Federal, os textos irem pra lá, e só depois liberados. Houve isso também aqui no Recife.

Jornal GGN: Durante essas apenas duas publicações, receberam algum tipo de ameaça, ou durante as suas colaborações, uma vez apresentado o seu nome, naqueles jornais?

Urariano Mota: Não, eu não cheguei a receber qualquer tipo de ameaça. Mas hoje, só agora entendo o que ocorreu comigo na minha chamada vida funcional. Na época, tinha passado para um concurso no INPS, mais adiante entrei para o Banco do Brasil, e sempre fui preterido, sempre fui jogado de lado em todas as promoções. Eu não sabia como havia gente absolutamente sem um mínimo de qualificação que era promovida.

Hoje eu sei por que. O MEU nome devia constar na lista dos serviços internos de informações, que toda empresa pública no país havia o serviço de informações. Isso ainda não foi levantado pela Comissão da Verdade. Vai ter, sinceramente, é uma mina, é um tesouro extraordinário de serviços de informações que havia no Banco do Brasil, nos Correios, na Caixa Econômica Federal, na Petrobrás, em todas as empresas públicas. E eu, seguramente, hoje entendo por que fui jogado de lado.

Mas ameaça, pessoal não. Agora, é claro. Sofri ameaça séria na ditadura Médici a partir do momento em que houve os seis assassinatos no Recife, que eu falo no livro “Soledad no Recife”.

Jornal GGN: Cinquenta anos depois, nós ainda vivemos o luto da ditadura militar?

Urariano Mota: Sim, é claro. Nós ainda não superamos esses traumas, repare bem, existem traumas da ditadura que não estão claros, os traumas não atingiram somente os torturados nas prisões – com eles fundamentalmente, que as torturas foram bárbaras e selvagens, tem pessoas que estão acabadas pelo resto da vida, que carregam sequelas, e o que eu acho pior são as sequelas morais, os pesares morais.

Eu faço parte de uma lista, não estou autorizado a dizer o nome da pessoa, em que ela havia feito um trato com o seu companheiro, de que não se entregariam vivos, sob hipótese nenhuma. Havia militantes que carregavam, é incrível isso, tinham um pacto com a morte. Não se entregavam vivos, porque sabiam que a tortura ia ser de tal maneira que eles poderiam abrir informações preciosas, que carregavam a outros companheiros e combatentes.

OS JOVENS de hoje não entendem, havia uma questão de ponto de honra em não abrir nada. A gente sabe que isso é muito difícil ou impossível. Como disse Dilma, no depoimento, no Senado, em que ela desbancou completamente aquele sacana que é daqui do Rio Grande do Norte, quando ele disse que ela havia mentido durante a ditadura. Ela virou-se para ele e disse: “você não sabe o que é mentir sob tortura, é preciso muita coragem para mentir sob tortura”. Ela é a voz viva da experiência.

Dilma, soube-se depois, que com hemorragia, no hospital, recebeu o conselho de não parar a hemorragia, porque SE PARASSE estava boa para tortura. Ela disse que quando ia parar, ela começava a pular para voltar a hemorragia. As pessoas não sabem o que é isso.

Havia um ponto de honra em não abrir, isso é muito difícil ou impossível. Houve pessoas que abriram, o que é plenamente compreensível. Dizer, numa boa, sentado nesta cadeira, que não se deve abrir é uma coisa. Outra coisa é você estar passando por afogamento, pau de arara, ameaça de cortar os bicos de seios com tesouras. Entende? Vendo seu filho, sendo torturado na sua frente, o seu filho sendo apresentado a você torturado, como há depoimentos, de filhos que diziam: mamãe, por que a senhora tá toda verde? Não conheciam o que era isso.

Essa pessoa da lista que participo, ela tinha um pacto com o esposo. O companheiro dela foi morto, e ela não conseguiu se suicidar, não conseguiu engolir um veneno. Não fez, fraquejou. ACREDITE você, até hoje ela carrega isso como uma culpa. Como uma culpa de ter faltado a palavra, com o companheiro que ela viu cair fuzilado, no cerco de um aparelho, que era o reduto onde eles estavam clandestinamente.

Essas são as sequelas mais gerais.

Mas há outras sequelas, outros traumas. O meu particular foi ter visto companheiros assassinados, presos, e ter risco de cair também, quando o cabo Anselmo entregou os seis militantes aqui no Recife.

Jornal GGN: Explica um pouco melhor do que se trata essa lista?

Urariano Mota: Eu participo hoje da lista “Os Amigos de 68”. É uma lista na internet, por email. Uma participante da lista dos Amigos de 68, que é ex-presa política, nos relatou isso de uma maneira muito traumatizada, que havia faltado a palavra com o companheiro. Aí, fui pesquisar a história dela, e fui entender o porquê.

O companheiro dela foi morto tentando fugir de um apartamento pela outra janela e foi fuzilado. E ela fraquejou. Eu não estou autorizado a dizer o nome dela.

Jornal GGN: Até hoje se negam tais relatos de tortura. Até hoje tem quem acredite que os mortos da ditadura foram terroristas. Como isso soa para alguém que testemunhou o tamanho das crueldades?

Urariano Mota: A primeira coisa que ocorre em relação a isso é um sentimento de indignação, é um insulto isso. Quando algumas vítimas da tortura escaparam, estão vivas. É insulto quando a gente viu e soube de pessoas que foram trucidadas. Que foram destruídas, não só físicas como psicologicamente.

Há relatos da advogada Mércia Albuquerque, uma extraordinária mulher, que ainda tem que ser recuperada para a história do Brasil, Mércia dizia que quando visitava presos políticos que tinham sido torturados, eles estavam sabe como na cela? Estavam comidos, em posição fetal. O QUE é isso? O que é isso? É uma pessoa no mais absoluto desamparo! Na absoluta nulidade, procurando o ventre da mãe. Em posição fetal!

Quer dizer, isso é um escárnio! Isso é insulto! E a extrema-direita insiste nessa conversa de terroristas. Terroristas foi a ditadura, que fez um terror de Estado, calculado e claro.

Recentemente, eu vi um relato de que um militar que estava com um prisioneiro do PCdoB no Araguaia e chegou a fazer quase uma amizade com ele porque ficavam jogando dominó. De repente, vem a ordem de Brasília para executá-lo. A ordem vinha lá de cima. Querem dizer pra gente que os torturadores eram desalmados pessoais que agiam por sua conta e risco. Isso é falso! AS EXECUÇÕES vinham de cima. A ordem é de cima. Agora, os seus serviçais executavam a ordem suja.

Jornal GGN: Em entrevista em 2011 para uma TV Universitária, você diz que ambos os livros, tanto “Soledad no Recife” como “Os Corações Futuristas”, são literatura, e que você não estava ali como jornalista, mas como escritor. O ponto comum de um escritor da ditadura e um jornalista, é que ambos reportam a memória daqueles anos. A sua escolha por falar com poesia foi uma forma de enfrentar a frieza do período?

Urariano Mota: Também. E tem uma outra coisa Patricia, é que o escritor não está amarrado ao gancho. Um dos grandes defeitos da profissão do jornalista é ele ser amarrado ao gancho. Então, o escritor é fundamentalmente a memória. Ele fala à memória. ENQUANTO a imprensa normalmente quer o espetacular, o escritor é a memória por excelência. É contra o jornal velho. Por outro lado, eu também exercia a função de jornalista e sei, naturalmente, das limitações. Quando escreve em um jornal, você está limitado pelo espaço, pelo editor, pelo anunciante. Você não tem condições de aprofundar, não tem tempo de aprofundar. Você está, na verdade, correndo contra o tempo.

Um escritor, pelo contrário, ele utiliza a memória, ele aprofunda aquilo que a imprensa não pode dizer. Agora, é claro, existem grandes repórteres. Recentemente, você vê o trabalho que o Mário Magalhães fez da biografia de Marighella, um grande trabalho. Mas Mário Magalhães atuou ali, fundamentalmente, como pesquisador. Ele teve que se ausentar das redações. Disse que foi sustentado pela mulher durante esse tempo todinho.

A opção por ser escritor é, primeiro, de vocação e, segundo, é estratégico. Para ter tempo de aprofundar um tema. Repare bem, o personagem como o cabo Anselmo ainda merece ser analisado. As cartas não estão postas na mesa ainda. Uma personagem como Mércia Albuquerque, advogada, ainda não está valorizada a altura de seu grande papel de advogada na ditadura.

Várias coisas, por exemplo, não podem ser feitas na imprensa do dia-a-dia. Infelizmente.

Jornal GGN: Na obra “Soledad no Recife” você cita em “almas socialistas”. Depois de Os Corações Futuristas, você se considera um jornalista, ou escritor, a serviço de almas socialistas?

Urariano Mota: Eu me considero um escritor a serviço de almas socialistas. Isso eu coloquei em “Soledad no Recife”.

Aí, eu peço licença para observar uma coisa que é meio supersticiosa. Depois dos “Corações Futuristas”, eu tinha recebido uma correspondência de uma jornalista italiana, e eu não sei italiano, e procurei uma pessoa da Sociedade Brasil Itália, pra que traduzisse aquilo.

Quando eu chego lá, eu tinha saído de um câncer, tinha feito cirurgia, a mulher chegou pra mim e disse: “me dê a sua mão”. Eu dei, “o que essa mulher quer com a minha mão?”. Ela começou a olhar, olhar, e disse: “olhe, você tava pensando que ia morrer, você não vai morrer agora. Você ainda tem um grande trabalho pela frente, e seguramente...”

AÍ ELA usou esta expressão, uma expressão feliz e emocionante [Urariano dá uma pausa, comovido]: “EXISTEM almas socialistas. Que pedem uma recuperação”.

Foi isso. Eu sou escritor a serviço delas.

Jornal GGN: Durante a pesquisa da sua biografia, vi que você é ateu. Continua sendo ateu, depois dessa situação?

Urariano Mota: Eu continuo a ser ateu, mas sei lá, ÀS VEZES um ateu meio abalado. Eu não digo ateu graças a Deus, mas digo um ateu meio abalado. Inclusive com algumas coisas que, sinceramente, são sem explicação. Não tem explicação.

Por exemplo, nos “Corações Futuristas”, eu coloquei o nome na principal personagem de Cintia. Mas o modelo dela era Mirtes, uma lutadora extraordinária cearense que esteve no Recife. Quando eu mandei o livro para Mirtes, ela leu e depois ligou pra mim de Fortaleza.

Disse pra mim: “De onde foi que você tirou esse nome de Cintia?”. Eu parei assim, e disse “Mirtes, eu não sei, mas eu achei sinceramente que a personagem tinha cara de Cintia, eu não sei por que botei, mas só podia ser Cintia”. Ela falou: “Você não sabia, não? Ninguém lhe disse?”, eu falei “não”.

 CINTIA é o nome de minha primeira filha, que nasceu na clandestinidade, aí em Pernambuco.

Quer dizer, eu fico sem entender, fiquei besta, não é possível isso. Ninguém nunca me falou isso.

Em “Soledad no Recife”, eu coloquei coisas que eu não sabia, não tinha certeza, absoluta, não tinha. Mas como é um trabalho de ficção, eu fui fundo, fui mais longe. E eu não sabia, mas depois se confirmaram. Havia razão naquilo que eu julgava como hipótese, e não era hipótese.

Eu vejo o trabalho de pesquisa como um iceberg, o que aparece é o que está nas páginas, mas existe uma base sustentando embaixo.

 Por exemplo, eu tinha visto um relato de uma pessoa que diz que Soledad, um belo dia, ficou ninando o seu filho, cantando em Guarani, cantigas guaranis para bebês. E eu fui atrás, fui atrás, terminei descobrindo um disco de crianças guaranis cantando, invocando os espíritos para a ressurreição dos guerreiros. Eu disse: “isso me fere, isso é para Soledad”.

Aquela imagem das santas paraguaias, que tem uma lua nos pés, mas no caso de Soledad era um feto, aquilo me ocorreu também através de pesquisa e de intuição.

A intuição não é uma coisa só do artista. É uma coisa também da Ciência e de todo o conhecimento humano. E ESSA intuição, sinceramente, a gente não explica. As razões positivistas de causa e efeito ficam sem explicação. Eu não sei, sinceramente, eu não sei.

Jornal GGN: Você acredita que, um dia, essas almas socialistas vão te deixar dormir?

Urariano Mota: Eu creio que as almas socialistas não dormem nunca. O trabalho delas é incansável. É permanente. É de construção e de reconstrução do mundo.

Mas, ENQUANTO houver torturadores impunes, enquanto houver o escárnio, enquanto houver Bolsonaros, essas almas socialistas estão sem descanso.

Eu acho sinceramente, que nós temos o dever. Nós, que levamos tanto tempo pra reconstruir o mundo. Nós temos o dever de dizer: “olha, nós queremos dar uma pausa nessa impunidade, eu quero que vocês reflitam sobre isso”. É assim que eu penso.

***

Ouça a entrevista de Urariano Mota ao Jornal GGN, na íntegra, aqui.

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Urariano

Patricia Faermann realizou um

Patricia Faermann realizou um belo trabalho de edição e fidelidade ao espírito da entrevista. Foi isso que valorizou minhas, nossas palavras.

Laura Machado acrescentou música que realçou o texto.

Sou grato ao talento de Patricia, à intervenção de Laura e à oportudade oferecida por Nassif.

Abraço fraterno.

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Urariano - o protetor das almas socialistas

Amigo Urariano, quanto tempo, hein?

Hoje foi um dia diferente...  As lembranças dos que partiram “num rabo de foguete” é sempre dolorosa... Mas a emocionada entrevista do escritor que está a serviço das “almas socialistas”, nesse dia onde o famigerado Golpe de 64 é mais lembrado, tocou-me profundamente.

Como a música, muitas vezes, fala mais do que mil palavras vou deixar duas, especialmente, para o amigo. Grande abraço.

- “Mordaça” (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro) # Márcia/Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro)

- “Pesadelo” (Paulo César Pinheiro/Maurício Tapajós) # Joyce.

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OTAVIO BARROS

Os anos de chumbo no norte goiano

 

Os anos de chumbo no Norte goiano...

 

Em Brasilia, os órgãos de informação do Governo Militar insistiam na tese de haver “terroristas” articulando no norte goiano uma reação armada. Em conversa com um professor em Porto Nacional, ele dizia que “terrorista” era o governo, que fazia um terror de Estado contra pacatos cidadãos. Na região, os moradores desconheciam qualquer mobilização de luta armada contra a ditadura militar. Esse e outros assuntos são rememorados em nossa “MEMORIA DO TOCANTINS – Primeiro Volume”, obra a ser lançada nos próximos dias em Palmas, Porto, Gurupi e Araguaina.

 

Nos anos 70 somente as cidades de Araguaina e Gurupi mantiveram jornais impressos. No ano de 1973, passo a editar o semanário TRIBUNA DA AMAZONIA (depois. O ESTADO DO TOCANTINS, a partir de 1975), com a redação em Araguaína e impresso na vizinha cidade de Carolina. Na época fazia e refazia textos para não mexer com os milicos. Não havia nem rádio e nem televisão no norte goiano. À noite, o rádio só tinha sintonia com emissoras da “guerra fria” (Voz da América, BBC de Londres e rádios da Rússia, China e Cuba) e pedaços da Voz do Brasil, retransmitidos por rádios de Belém do Pará. Fora da estrada Belém-Brasilia o isolamento dominava a paisagem regional.

 

Algumas vezes era convocado pelo Batalhão da Polícia para esclarecer notas do jornal, mas a situação mais crítica foi quando um oficial do Exército exigiu minha presença ali para explicações sobre uma nota em que denunciava militares que protegiam grileiros. Na redação, passei a praticar a autocensura, antes da impressão do jornal, e não mais publicava denúncia de posseiros contra grileiros, mas orientava as vítimas a denunciar diretamente em Brasilia.

 

Em Gurupi o jornalista pernambucano Buchinho (Antonio Poincaré Andrade, pai do prefeito Otoniel e do deputado Toinho) fez editar o jornal A VOZ DE GURUPI e começou a publicar uma série de denúncias contra funcionários da Rodobrás (empresa estatal para construção da Belém-Brasilia) e de gente poderosa do Sul de Goiás. Foi preso pelos militares como “subversivo” à Segurança Nacional. Mudou-se para a cidade de Porto Nacional, onde fundou o PORTO NACIONAL JORNAL, sendo eleito, depois, prefeito.

 

Por questão de direito de posse, no Vale das Cunhãs, em Arapoema, o empresário Ademar “Boa Sorte” tem apoio do irmão Benedito, então deputado federal, e o recém-chegado à região Siqueira Campos é denunciado e preso no Batalhão da PM em Araguaína. Com a eleição do deputado Benedito para senador biônico, Siqueira viu ai um buraco para enfrentar os “Boa Sorte” na eleição para deputado federal.

 

Nas cidades havia os “informantes” (dedo-duro, araponga), moradores recrutados e pagos pelo militares para denunciar os “inimigos do governo”. A gente que morava no norte goiano vivia um período de muita insegurança e muito medo porque a qualquer momento podia ser denunciado pelo “informante” como inimigo da ditadura... Nas estradas, os militares e seus agentes paravam os veículos para identificar os passageiros... Se fosse localizada arma de fogo ou o rosto do passageiro mostrasse alguma semelhança com as fotos dos “terroristas”, o coitado do passageiro ficava detido para investigação. Em Araguaína o barulho de helicópteros militares dia e noite tirava o sossego da gente.

 

Esse negócio de direitos humanos era desconhecido pelo nortense, hoje tocantinense. A população, de maioria analfabeta, desconhecia a organização sindical para pleitear direitos. Não tínhamos uma elite intelectual para orientar os chefes políticos. Somente os estudantes da CENOG entraram em ação em nome do povo explorado no campo. Era preciso expulsar os grileiros da região e fazer a reforma agrária para os posseiros. Muitos estudantes da CENOG foram presos em Porto e Pedro Afonso Em Porto Nacional, estudantes e professores foram vítimas de tortura física para denunciar os “terroristas” e seus colaboradores na região. O bispo Dom Alano e o professor Maya salvaram a vida de muitos inocentes.

 

O povo só foi entender a palavra “terrorista” após a Guerrilha de Xambioá (hoje chamada de guerrilha do Araguaia), com a execução do último guerrilheiro, em 1975... 

 

Otavio Barros

 

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Lindamar Alves Faermann

Urariano Mota: “Almas socialistas estão sem descanso”

 

Para muitos a tragédia da ditadura foi apenas um fato. Para os tiranos e conservadores uma necessidade e para outros uma experiência terrível cujas conseqüências ecoam até os dias atuais. Essa reportagem ajuda-nos a lembrar a história exatamente do jeito que ela é. Quem esquece o passado corre o risco de repeti-lo... Resquícios da ditadura estão presentes no cotidiano da vida. Combatê-los é uma tarefa de todo dia.

Linda reportagem!

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