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O filme Batismo de Sangue e os dominicanos presos pela ditadura

Sugerido por Mara L. Baraúna

Do Repórter Brasil

 
Cerca de 60 frades reuniram-se quinta-feira (25) para ver o filme “Batismo de Sangue”, ainda inédito, que mostra a atuação dos dominicanos contra a ditadura pós-1964. Entre os presentes, religiosos que foram perseguidos e torturados pelo regime
 
Por André Campos

“Vocês vão ver que é um filme muito forte”, já alertava frei Betto à platéia antes de a projeção começar. “E mais forte foi a realidade”, completa. Anualmente, os dominicanos do Brasil – representantes da Ordem dos Pregadores, fundada há oito séculos por São Domingos de Gusmão – reúnem-se para uma semana de reflexões sobre os rumos da atuação religiosa posta em prática pelos seus membros.

Este ano, contudo, os debates sacros foram momentaneamente interrompidos para a revisão de um passado tão mundano quanto doloroso. Na última quinta-feira (25), cerca de 60 membros da Ordem foram até o cinema para assistir a uma exibição fechada de “Batismo de Sangue”, filme ainda inédito no país. O longa-metragem – uma ficção baseada no livro homônimo de frei Betto – retrata a atuação dos dominicanos no combate ao regime militar instaurado após o golpe de 1964.

Durante os primeiros anos da ditadura, jovens frades seguidores de São Domingos desempenharam papel importante na resistência às forças armadas. Deram cobertura à Ação Libertadora Nacional (ALN), grupo guerrilheiro comandado por Carlos Marighella – ex-deputado federal e um dos principais opositores do governo. Os frades defendiam que viver o evangelho era integrar-se à comunidade através de práticas sociais concretas, que defendessem os injustiçados. Pagaram alto preço: perseguição, cadeia, tortura e exílio.

Em 1969, os freis Ivo e Fernando foram os primeiros dominicanos a cair. Capturados pela polícia e submetidos a fortes torturas, acabaram forçados a servir de isca e marcar um encontro com Marighella. A emboscada revelou-se um sucesso: após troca de tiros, morreu o líder da ALN.

Frei Tito, então com 24 anos, foi o próximo dominicano colocado atrás das grades, capturado no próprio convento dos dominicanos. Cinco dias depois, frei Betto – hoje conselheiro pessoal do presidente Lula – também foi preso. Estava escondido no Rio Grande do Sul, ajudando opositores do governo a fugirem do país pela fronteira.

Dentre todos esses religiosos, é a história de frei Tito que o filme aborda com mais profundidade. Durante 42 dias, ele foi submetido ao pau-de-arara, a choques elétricos nos ouvidos e genitais, a socos, pauladas, palmatórias e queimaduras de cigarro, entre outras perversidades. Em certa ocasião, foi lhe ordenado que abrisse a boca para receber a “hóstia sagrada” (dois eletrodos com corrente elétrica). Teve a boca queimada a ponto de não conseguir falar. Tentou suicídio nessa época, cortando-se com uma gilete. Os militares, no entanto, o mantiveram vivo e sob tortura psicológica.

Em dezembro de 1970, Tito foi incluído na lista de presos políticos trocados por um embaixador suíço sequestrado. Partiu para o exílio, passando pelo Chile e pela Itália antes de se estabelecer definitivamente na França. Do Brasil, contudo, Tito não saiu sozinho. Levou consigo a lembrança obsessiva do delegado Sérgio Paranhos Fleury, seu principal algoz nos porões ditadura.

Alucinava o espectro de seu torturador e sentia sua presença entre as árvores do convento de La Tourette – onde passou a viver. O delegado lhe dava ordens: não entrar, não deitar, não comer… Tito oscilava entre resistir e obedecer. Em 1974, atormentado por essa realidade, o frade enforcou-se em uma árvore nos arredores do convento.

História de resistência

Entre os dominicanos presentes à exibição do filme, muitos participaram ativamente dessa história. Um deles é Xavier Passat, hoje coordenador da campanha de combate ao trabalho escravo da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Xavier nasceu na França e viveu em La Tourette nos anos 1970. Acompanhou de perto o calvário de frei Tito – tendo saído ele próprio, em algumas ocasiões, a sua procura após as constantes fugas do convento.

Para Xavier, ao contrário do que muitos pensam, o suicídio de Tito não pode ser considerado um ato de entrega. Na verdade, foi uma tentativa de libertar-se do jugo de Fleury, que continuava a torturá-lo de dentro de sua mente. Um último ato resistência contra a opressão da ditadura, encarnada na figura daquele sinistro delegado. “Melhor morrer do que perder a vida”, havia escrito Tito um pouco antes de falecer.

Frei Oswaldo, hoje diretor da Escola Dominicana de Teologia em São Paulo, foi outro a rever o próprio passado em “Batismo de Sangue”. Era ele o dominicano que originalmente fazia a ponte entre Marighella e os frades. Mas como estava muito exposto, seus superiores decidiram enviá-lo para a Europa pouco antes das prisões começarem. Acolheu Tito quando este veio à França, acompanhou seu calvário de perto. Só retornou ao Brasil há oito anos.

“Em maior ou menor grau, esse período foi traumático para os dominicanos envolvidos e para a Ordem em seu conjunto”, explica Oswaldo. “Todos os grandes projetos que nós tínhamos foram talhados, impedidos de continuar.” Entre eles, o frade destaca o Instituto de Teologia Católica na Universidade de Brasília (UnB) – iniciativa comandada por frei Mateus que foi abortada – e o extinto jornal de esquerda Brasil Urgente, também capitaneado por dominicanos.

Oswaldo afirma que a repressão levou a Ordem dos Dominicanos a não acolher nenhum novo membro no país durante quase quinze anos. “Como iríamos aceitar jovens que, pelo simples fato de ingressarem, já eram considerados suspeitos?”, indaga.

Mas já diziam os militares: “apesar de poucos, fazem muito barulho”. Estão hoje espalhados pelos quatro campos do território, envolvidos com diversas organizações religiosas e humanitárias. Combate ao trabalho escravo, defesa dos direitos indígenas, das mulheres e dos presidiários são apenas algumas das linhas de atuação adotadas pelos seus membros.

Segundo Oswaldo, há hoje um clima de retomada de projetos dominicanos em desenvolvimento no Brasil. A lembrança daquele passado, no entanto, jamais se apagará de sua memória. “É curioso. Há tempos na vida, às vezes três, quatro ou cinco anos, em que a intensidade é tal que parece termos vivido um século”, reflete o frade.

Do Câmera Lenta

BATISMO DE SANGUE (HELVÉCIO RATTON, 2006)

27 de março de 2013 · por Fernanda F. Kalaoun · em Câmera Nacional. ·

Batismo de Sangue PosterTítulo Original: Batismo de Sangue
País: Brasil
Direção: Helvécio Ratton
Roteiro: Helvécio Ratton
Duração: 110 min

A produção nacional “Batismo de Sangue”, dirigida e escrita por Helvécio Ratton, em parceria com Dani Patarra, é mais uma dentre tantas obras que descrevem o período mais crítico da política brasileira, a Ditadura Militar.

Uma salva de palmas para Ratton que, ao contrário de Bruno Barreto no adorado “O que é isso, companheiro?”, não se manteve em cima do muro, não humanizou carrascos militares, nem demonizou revolucionários de esquerda. O diretor e roteirista colocou cada personagem em seu respectivo lugar.

Quem estudou sobre a história da Ditadura Militar no Brasil, sabe que os padres tiveram grande participação na luta em favor da democracia, liberdade e direitos civis. E o filme de Ratton, sob um olhar macroscópico, mostra isso. Conta a história mais conhecida do envolvimento de padres contra os militares naquele período. A razão de o fato ser tão famoso, é o livro homônimo de Frei Betto, lançado em 1983 e ganhador do prêmio Jabuti.

Betto, também jornalista, escreveu do que viveu ao lado de Frei Tito e os frades dominicanos Oswaldo, Fernando e Ivo, em São Paulo.

Comovidos com tantas notícias de violência contra os jovens por parte dos militares, e motivados por ideais de cristianismo e democracia, os frades decidem se unir ao grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional, liderado por Carlos Marighella, o revolucionário mais procurado pela Ditadura à época.

Na busca por Marighella, os padres acabam pegos e torturados por militares comandados pelo delegado Sérgio Fleury, um dos piores carrascos do Regime. Frei Tito, cujo olhar norteia o andamento do filme, consegue ser liberto. No entanto, fica severamente perturbado após as sessões de tortura nos porões do Dops. Mesmo exilado na França, as memórias das violências sofridas no Brasil o atormentam.

Um longa-metragem altamente informativo, sem perder a humanidade. Uma brilhante atuação de Caio Blat, como o protagonista Frei Tito. Daniel de Oliveira encarna o narrador, Betto. O filme levou para casa os prêmios de melhor diretor e melhor fotografia no Festival de Cinema de Brasília. 

Livro Batismo de Sangue

 

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A morte de Marighela

Dada a sua luta, a sua história, é junto da morte de Bacuri, a que mais dói para mim.

Que sua memória seja eterna no país, e que nosso governo, talvez de esquerda, tenha coragem de elevar esse homem à merecida posição de herói nacional.

 

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Mauricio Salles

E...

E o Frei Betto vai convidar o seu indicado ao STF Joaquim Barbosa para assistir esse filme? Quem sabe o ministro refresque a memória sobre as pessoas de alto valor que o apoiaram...

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AlvaroTadeu

Assassinato covarde: Marighella estava desarmado.

Mara, nem li o post todo. Parei quando li que Marighella foi morto após troca de tiros. Carlos Marighela foi ASSASSINADO na Alameda Casabranca, bairro do Jardim Paulista, São Paulol. Na minuciosa biografia de Marighella, de Mario Magalhães, o autor conta que Marighella foi assassinado dentro de um fusca e estava desarmado. Ele não portava armas, pois assim achava que corria menor risco de ser apanhado.

A "troca de tiros" relatada pelo megatorturador Sergio Fernando Paranhos Fleury foi para justificar a barbeiragem dos policiais assassinos, que além de Marighella, fuzilaram uma policial que participava da ação e recebeu "fogo amigo" e mais um alemão que não tinha nada a ver com o peixe. O alemão passava de carro, foi confundido com um companheiro de Marighella, recebeu ordens de parar, pensou que se tratava de assalto, tentou fugir e foi fuzilado.

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Mara L. Baraúna

Alvaro Tadeu Pode parecer

Alvaro Tadeu

Pode parecer mesmo que Marighela estava armado e trocou tiros, mas como você diz, a versão oficial sobre a morte dele foi uma grande farsa. Houve uma fuzilaria sim, mas só por parte dos policiais que o aguardavam. 

http://file:///F:/Documentos/Downloads/Mario%20Magalhaes%20-%20Marighella.pdf

p. 436: "Escrupulosamente fiel ao discurso, não se rende. Luta até o fim para decidir seu destino, à sua maneira. Sem pronunciar uma palavra, estica as mãos até a pasta e se abaixa à esquerda para abrir o zíper amarelo. Tarde demais: atiram à queima-roupa, e a fuzilaria sacode a alameda Casa Branca. Uma bala perfura as nádegas e provoca quatro ferimentos. Outra, calibre 45, aloja-se no púbis. A terceira queixo. A falange do dedo indicador da mão esquerda é arrancada, talvez quando Marighella tentasse se escudar de um tiro quase encostado. Até que, de uma janela do Fusca, acertam-no no tórax, lesionam a aorta, e ele não se mexe mais. Fernando ouve o grito de Fleury: “Para, para!”

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Lenilson

Assistirei.

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