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O peso do compromisso, por Daniel Afonso da Silva

O peso do compromisso

por Daniel Afonso da Silva

L’histoire nous dépasse” [A história é maior que nós]. Essa tem sido a tônica do presidente Emmanuel Macron para justificar receber o presidente Donald J. Trump como convidado especial da festa nacional francesa no dia 14 de julho de 2017.

A tópica do festejo deste ano foi a celebração do centenário do ingresso dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial ao lado da França em 1917. Soldados norte-americanos participaram da preparação da comemoração e desfilaram ao lado dos soldados franceses. Seria formalmente minimamente deselegante deixar de solicitar a presença do mandatário norte-americano no evento.

O presidente francês oficializou o convite. E foi correspondido. Mas não por decoro, elegância, educação. E sim pela realpolitik.

A opinião pública francesa está longe de ser receptiva ao presidente norte-americano. Sua eleição foi recebida com espanto, desprezo e rejeição. Como, de resto, em toda Europa – e também no Brasil. Seus primeiros gestos puseram em dúvida a capacidade do establishment dos Estados Unidos em enquadrá-lo. O contencioso interno com James Comey do FBI foi apenas uma das diatribes que causaram repulsa em toda parte. Sua primeira turnê internacional deixou os europeus ainda mais céticos. O cenho cerrado de Sua Santidade o Papa Francisco no Vaticano harmonizou com o sombrio do vestido da primeira-dama Melania Trump. O mal-estar com os estados em débito com a Otan coincidiu com a má-vontade da chanceler Angela Merkel em tratar o locatário da Casa Branca com alguma cortesia mesmo que apenas diplomática. Os sinais de defecção norte-americana do Acordo de Paris sobre o clima deixou ainda pior sua imagem entre franceses e europeus.

Sua segunda viagem à Europa envolveu a Polônia e a Alemanha. Na primeira foi polemicamente mal-recebido seu discurso em Varsóvia. Críticos europeus e norte-americanos consideraram-no demasiado nacionalista. Alguns chegaram denominá-lo “demasiado populista”. Na segunda foi tecnicamente discreta a sua participação na reunião do G20 em Hamburgo. Seu encontro com o presidente Vladmir Putin esmaeceu o resto de sua participação no encontro. E, especialmente, o papel de sua delegação no lançamento do G20 Africa Partnership. E, talvez, claramente o próprio encontro. Observadores do mundo inteiro reforçaram o contencioso sobre o clima. E muitos chegaram a vaticinar certo “isolamento” do presidente Donald J. Trump.

Pois, poucos dias após Varsóvia e Hamburgo, o magnânimo trumperiano vem de ser recebido na França para uma visita de estado com direito a recepção de honra nos Invalides, jantar de gala na Torre Eiffel, passeio de bateau mouche para as primeiras-damas, desfile militar dos mais suntuosos da história francesa e palavras gentis da parte de sua contraparte francesa, o presidente jupteriano.

O presidente Macron justifica a sua receptividade ao “louco da América” na conta da história. “L’histoire nous dépasse”. Mas essa história é mais imediata que remota. É mais compromisso que símbolo. É mais demanda que memória.

Após o anúncio da rejeição dos Estados Unidos aos Acordos de Paris para o clima, o presidente francês não tardou atacar o presidente norte-americano com a sentença “make our planet great again”. Eram inícios de junho. Uma semana após o primeiro encontro com o seu homólogo na Europa e uma semana antes das eleições Legislativas na França.

É bastante provável que a reação do presidente francês não tenha passado de uma estratégia de marketing ao encontro dos eleitores dos candidatos de seu partido, La République en Marche, no pleito a seguir. Tanto que passadas as Legislativas, ele não demoraria a reiterar o convite para a presença do presidente Trump nas comemorações do 14 de julho em Paris.

Seria diplomaticamente deselegante deixar de reafirmar o convite ao mandatário norte-americano. Mas o convite não era um imperativo. Estava longe de ser incontornável. A diplomacia poderia ser alocada às favas. Tanto que setores próximos ao presidente francês hesitaram sobre o assunto.

Os Estados Unidos poderiam ser representados por outra autoridade. Ou mesmo somente pelos seus soldados ianques. Tudo isso foi cogitado. E, mesmo após o convite, o presidente norte-americano colocou em dúvida seu regresso à Europa pela terceira vez em 50 dias. O que levou o presidente francês a insistir.

O fundador da Quinta República Francesa, o general De Gaulle, redizia que “uma pessoa pode ter amigos; um estado, jamais”. Não é, por certo, por fruto de amizade trumperiano-jupteriana a insistência do presidente francês na presença do presidente norte-americano. Muitos acordos e muitos compromissos envolvem a relação transatlântica franco-norte-americana. A gestão de contenciosos na África e no Oriente Médio e a contenção do terrorismo na Europa são apenas algumas questões urgentes e complexas que impõem uma relação harmoniosa entre esses dois países. O peso do compromisso pesa.

 
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Duke

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Trump é um apresentador de game show, WWF e porta-voz/ator de pizza. Ele é um personagem de televisão e nada mais. Uma frente para alguma entidade corporativa sem nome. Tão falso e tão roteirizado quanto o resto da assim chamada eleição.

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