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Saturnino Braga e a resistência política contra a ditadura

Jornal GGN - No último dia 24 de março, o jornalista Luis Nassif entrevistou no programa Brasilianas.org, o ex-senador e ex-prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Roberto Saturnino Braga.

"Me formei engenheiro achando que a ciência era a única atividade digna do ser humano. Depois da ciência eu descobri a música e achei que a música era a atividade mais digna do ser humano, ate que comecei a me interessar por politica, e passei a achar que a politica é a atividade mais digna do ser humano." afirma o ex-senador.

Aluno de Celso Furtado na Cepal, ingressou na vida politica em 1960, não chegou a ser cassado pelo regime militar, mas teve a sua candidatura impugnada na reeleição de deputado federal pelo Partido Socialista Brasileiro em 1966.

Anos mais tarde, Eleito senador pelo MDB, fez parte de uma bancada histórica no senado com Paulo Brossard, Marcos Freire, Itamar Franco, Orestes Quércia e Franco Montoro. Bancada que teve o primeiro foco e objetivo de resistência politica a ditadura.

Saturnino acompanhou de perto e foi figura chave das transformações que afetaram o Brasil nas últimas cinco décadas.

“Jonh Kennedy [presidente dos EUA] não poderia admitir em hipotese alguma uma segunda Cuba brasileira. Então eles trabalharam a radicalização para criar o clima e chamar os militares brasileiros pra intervir, agora se necessário fosse eles invadiriam aqui, e o Brasil ia virar um campo internacional.” diz o ex-senador sobre o período do golpe militar no país.

Após o fim do regime militar, Saturnino foi eleito prefeito do Rio de Janeiro em 1985.

A seguir, acompanhe a entrevista e o vídeo completo:

Nassif - Boa Noite Sr. Saturnino, eu queria que o senhor contasse um pouco sobre sua juventude, seu inicío de vida profissional até cair na politica.

Saturnino Braga - Bem, eu me formei em engenharia, não sou engenheiro e nunca fui engenheiro, mas sou diplomado engenheiro, porque eu gostava de ciência, de física, de química, de matemática, realmente eu era um craque na matemática, e a faculdade de filosofia já existia com a diplomação de física, mas não tinha expressão nenhuma, o grande templo da ciência do Brasil era a Escola Politécnica, uma escola de engenharia, por isso eu me formei engenheiro achando que a ciência era a única atividade digna do ser humano. Depois da ciência eu descobri a música e até tinha uma voz bonita...

Nassif - A música lirica...

Saturnino Braga - A música lirica, e achei que a música era a atividade mais digna do ser humano, ate que comecei a me interessar por politica, pelos caminhos, pelos conhecimentos que fui tendo, e na escola de engenharia, pelas leituras que fui fazendo de Marx e do capital eu fui descobrindo a politica e passei a achar que a politica é a atividade mais digna do ser humano. E resolvi me candidatar. Meu pai tinha sido deputado federal três mandatos, e em 1962 ele não quis mais se candidatar a deputado, ele quis tentar a eleição de senador, aliás não conseguiu. E então abriu-se um espaço pra eu me candidatar, só que meu pai era do velho PSB, conservador, e eu era um esquerdista e me inscrevi no partido socialista, e não tinha nada a ver com o eleitores do meu pai, os cabos eleitorais dele, então eu tive uma eleição muito complicada mas com muita sorte porque participei de uma coligação de pequenos partidos onde o Tenório Cavalcante, o Batistinha, que era o…

Nassif - O Tenório eu me lembro bem dele, o Batistinha qual que era a expressão dele ?

Saturnino Braga - O Batistinha era um grande líder ferroviário na Leopoldina, lá de Espirito Santo, de Campos [dos Goytacazes], Macaé, aquela linha toda. E foi indicado o candidato a deputado federal pelo partido comunista que estava na ilegalidade, mas tinha seus candidatos e colocava em outros partidos e todo mundo sabia quem eram os candidatos comunistas. E o Batistinha teve uma votação enorme, o Tenório... e eu com uma votaçãozinha pequena fui o terceiro colocado e me elegi.

Nassif - Antes de entrar nesse período conturbado da politica, o senhor participou do primeiro concurso do BNDES, queria que contasse um pouquinho sobre isso e como que foi a sua formação com o Celso Furtado na comissão econômica para a América Latina.

Saturnino Braga - Bom, eu trabalhava em Cabo Frio como engenheiro na companhia de Àlcalis, mas evidentemente eu nunca me vi construindo, sendo um engenheiro, eu gostava de economia, gostava de politica, gostava de música, e abriu o primeiro concurso do BNDE, o BNDE foi criado em 1954, mas o primeiro concurso foi aberto em 1955…

Nassif - Governo Juscelino já.

Saturnino Braga - Governo Juscelino. Eu me inscrevi nesse concurso morando ainda em Cabo Frio, estudei e passei até numa boa colocação e tudo, vi as minhas provas, os resultados, voltei a Cabo Frio, pedi demissão e vim para o Rio de Janeiro assumir, porque a posse era logo em seguida. Ai quando cheguei no Rio de Janeiro tive a noticia de que eu havia sido reprovado: Mas como ? eu vi as minhas notas, tive boas notas, estava classificado e aprovado. Não, mas é que o senhor não leu o edital. O edital além das três provas técnicas tem uma quarta prova de investigação social. O que é isso ? É a ficha do DOPS, ninguém pode ser funcionário de um orgão público sem ter a aprovação da ficha do DOPS. E a minha ficha era de comunista…

Nassif - A sua e de quem mais ?

Saturnino Braga - Fomos três reprovados: eu, Ignácio Rangel e Juvenal Osório Gomes.

Nassif - Ou seja, três figuras centrais da história moderna do país.

Saturnino Braga - Mas o presidente de então era o Roberto de Oliveira Campos, e o Oliveira Campos foi ao Ministro da Justiça do Juscelino [Kubitschek], que era o Armando Falcão.

Nassif - Nossa, o Armando Falcão já aprontava naquela época…

Saturnino Braga - Já aprontava, pois é. Ele disse ao Falcão. “Olha, esse moços demonstraram conhecimento e essa coisa de ligação politica na juventude isso eu vou relevar, eu vou assumir a responsabilidade e vou nomear...

Nassif - É um depoimento importante também para entender o caráter do Roberto Campos, que independentemente de divergência politica era uma grande figura.

Saturnino Braga - Era, e tinha essa grandeza de reconhecer os valores…

Nassif - Agora, como que era ? porque o BNDE tinha lá o Roberto Campos e o Lucas Lopes, que já politicamente embora suas ideias fossem desenvolvimentistas como você já falou algumas vezes. Tinha o Rômulo de Almeida, tinha o Ignácio Rangel chegando, como que era esse burburinho intelectual lá ?

Saturnino Braga - Ah! era fantástico sabe, o BNDE deste período eu tive a sorte de participar, era um ambiente de trabalho extremamente mobilizador, motivador, amplo, porque a gente tinha a sensação de que estava desempenhando um papel importante como efetivamente estava de alavanca, de instituição que alavancava o desenvolvimento econômico que é uma expressão também nova, desenvolvimentismo, desenvolvimento econômico é uma expressão do pós guerra, antes se falava em progresso, depois passou a se falar desenvolvimento, desenvolvimento econômico, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico. Outro detalhe interessante, é que naquele tempo, nós do banco discutimos muito essa questão da orientação da politica do banco porque havia um clima que possibilitava a abertura pra esse tipo de dialogo, e havia alguns que achavam que o BNDE, não tinha o “S” naquele tempo. O BNDE devia também investir no social, especialmente na educação, haviam os que defendiam isso. Mas a maioria esmagadora, inclusive eu, participava desse ponto de vista, que hoje em dia revejo, mas a maioria achava que não, que a função do banco era alavancar o econômico, o resto vinha por gravidade, não vinha por politica…

Nassif - Que era o industrialismo da CEPAL não é ?

Saturnino Braga - Era, era.

Nassif - Agora, teve nessa época, nas memorias do Roberto Campos, ele tenta com o Café Filho, tenta com o Juscelino, o próprio Eugênio Gudin, a fazer uma desvalorização cambial vendo já o modelo da Coréia, eles diziam que teriam um grande salto por conta do câmbio, essa discussão chegou a entrar no BNDE ?

Saturnino Braga - Não, não. Essa discussão era mais do nível do Ministério da Fazenda. O BNDE tinha a função mesmo de financiamento da indústria.

Nassif - E o Celso Furtado começa a trabalhar indicadores macroeconomicos lá não é ?

Saturnino Braga - Sim.

Nassif - E de que maneira que aquilo se inseria nas politicas do banco ?

Saturnino Braga - Era uma novidade, e ele achava que o banco para aferir o seu desempenho precisava ter índices que demonstrassem esse desempenho, e ele começou a trabalhar pela primeira vez também.

Nassif - Poxa, olha conviver com esses construtores da pátria ai…

Saturnino Braga - Foi um privilégio, essa oportunidade de trabalhar no BNDE naquele momento foi realmente um privilégio. E eu devo esse privilégio ao Roberto Campos que foi lá e garantiu a minha posse.

Nassif - Aquela radicalização política que já começava, que já vinha do tempo do [Getúlio] Vargas, lá dentro do banco se manisfestava também ?

Saturnino Braga - Se manifestava, mas o banco havia uma certa unidade de pensamento em torno da participação do estado no desenvolvimento, a ferramenta desenvolvimentista tinha que ser estatal sob o comando politico do estado.

Nassif - Bom, daí nós damos um salto agora para o senhor como deputado no período Janguista…

Saturnino Braga- É. Eu fui eleito em outubro de 1962 e assumi em janeiro de 1963, e em março de 1964 aconteceu…

Nassif - E nesse um ano o que deu pra sentir do Jango e da deteriozação do regime ?

Saturnino Braga - Olha, naquele tempo a gente sentia a radicalização incontrolável, nós não percebiamos as razões, porque hoje a perspectiva do tempo e da história ilumina aspectos que no momento você não percebia, hoje eu estou convencido de que aquela radicalização era efeito da Guerra Fria, a Guerra Fria estava no auge, a União Soviética, sob o comando do [Nikita] Khrushchov, resolveu ser mais agressiva e começou a criar caso para os americanos, no quintal dos americanos, em Cuba por exemplo. Estou certo disso também que os EUA, Jonh Kennedy que era o presidente então, não poderia admitir em hipotese alguma uma segunda Cuba brasileira. Então eles trabalharam a radicalização para criar o clima, essa coisa de cabo Anselmo, de Sargento Garcia, isso tem dedo da CIA com certeza. Pra criar o clima e chamar os militares brasileiros pra intervir, agora se necessário fosse eles invadiriam aqui, e o Brasil ia virar um campo internacional. Coreia do Norte e Vietnã.

Nassif - Agora o que a gente percebe é o seguinte, isso ai o próprio resultado final de 1964 mostra uma desproporção de força fantástica. Outro dia eu até publiquei um artigo, um trabalho na época do Wanderley Guilherme do Santos de 1962, que ele previu o golpe, em que ele foi conhecer as ligas camponesas, quer dizer, aquilo não existe, é uma miragem. Então parece o seguinte, foi criado uma miragem pela mídia e tudo e a esquerda acreditou na miragem.

Saturnino Braga - Acreditou, acreditou. Eu hoje até penso hipoteses... o partido comunista que era tão prudente, e que depois do episodio de 1935, o partido ficou muito experiente, vivido e prudente. Como é que o PCB embarcou nessa eu não sei, mas eu imagino que tenha havido algum aceno de fora.

Nassif - Outro dia eu consegui um livro do Afonso Arinos, um artigo dele de 1963 em que ele dizia o seguinte: teve o episodio da Baía dos Porcos, depois teve o encontro do Khrushchov com Kennedy, ele falou que isso selou o fim da Guerra Fria, mas a proporção continua levantando, ele sendo um dos principais parlamentares da oposição, continua levantando o fantasma da Guerra Fria e se o governo Jango não mostrar energia ele vai acabar com os militares ai…

Saturnino Braga - Hoje eu tenho uma visão muito favorável ao Jango, sou um admirador dele à distância porque ele, a meu ver, e eu sentia isso no momento também, ele percebeu que aquele sonho da revolução brasileira era completamente inviável, que aquilo ia acabar mal, mas por outro lado, ele como um lider trabalhista ligado ao movimento sindical, tinha que propor algum modelo de desenvolvimento que não fosse o desenvolvimentismo do Kubitschek, que era muito concentrador de renda, e tinha que propor alguma reforma distributiva a levantar a questão da reforma de base, mas ele chamou gente capaz de formular reformas viáveis. Santiago Dantas, Tancredo Neves, Celso Furtado, que fez o plano trienal, o próprio Walter Moreira Salles, chamou o…

Nassif - Franco Montoro..

Saturnino Braga - Franco Montoro, José Ermirio de Moraes, enfim, um time, mas a esquerda começou a bombardear.

Nassif - O papel da área mais radical do PTB, o [Leonel] Brizola por exemplo e o Darcy Ribeiro como é que seria ?

Saturnino Braga - Eles acreditavam que se a pequena Cuba fez uma revolução o Brasil com a sua dimensão, com sua expressão mundial tinha todas as condições de fazer e era absolutamente  necessário, eles não acreditavam, eles procuravam de todas as formas desacreditar, que eles chamavam da politica de conciliação do Jango, eles queriam enfrentar mesmo o poder econômico e fazer uma…

Nassif - Dentro do parlamento quem eram as grandes vozes da radicalização de esquerda e de direita ?

Saturnino Braga - Neiva Moreira, o Almino [Afonso], o Sérgio Magalhães, tinha um grupo que realmente puxava a corda e tencionava de tal forma, e a radicalização é um processo que se auto alimenta, porque um puxa de um lado e força o outro a puxar de outro...

Nassif - Quer dizer que a radicalização da direita enfraquecia o centro da esquerda.

Saturnino Braga - Isso, e o Jango se viu de repente sem poder de controle sobre isso, as forças eram muito maiores, era uma conjuntura internacional que pegou o Brasil, e a impressão que ficou depois e que também foi rotulada pela direita, o fato de o Jango ser incompetente, não era incompetência, aquilo era incontrolável pela natureza das coisas, como foi depois Salvador Allende no Chile que repetiu mais ou menos o mesmo processo radicalizou artificialmente, a CIA fomentava a radicalização pra chamar os militares.

Nassif - Saturnino, naquele período o Brasil era pequeno, era um Rio de Janeiro. Como era a convivência entre empresários ligados ao Jango, os empresários contra o Jango, desembargadores a favor do Jango, contra. Como que era esse caldo de cultura politica ?

Saturnino Braga - O Jango tinha uma certa habilidade pra lidar com isso, o Juscelino lidou muito bem, mais do que todos, mas o Jango ele era puxado pela radicalização e começou a criar atritos com a liderança econômica do país e foi se separando, se distanciando, e ele, não só admiro a capacidade, a visão que o Jango tinha da realidade das coisas, mas também o seu caráter, porque ele podia ter de repente se bandeado, virado a casaca e dito: Não eu preciso defender o meu governo, preciso defender os interesses do meu país, então eu vou me desligar, vou demitir os comunistas, que era a exigência da direita, “demita os comunistas”, mas ele não fez isso.

Nassif - Ele foi leal…

Saturnino Braga - Ele foi leal aos seus liderados, aos seus companheiros, ele  demonstrou sabedoria, demonstrou caráter e demonstrou amor ao Brasil, porque no final, no momento os radicais queriam ir a resistência, criar a resistência novamente, um terceiro exercito no Rio Grande do Sul, e ele Jango chegou a ir à Porto Alegre e viu que aquilo ia dar numa tremenda guerra civil, qualquer tentativa de resistência iria dar numa Guerra Civil e o Brasil seria dividido entre EUA e União Soviética, acabava sendo Coréia, Vietnã, um campo de guerra internacional, e ele percebeu aquilo e se mandou pra Paris.

Nassif - Bom, teve esse período de 1964, veio o golpe da bancada do PSB, o senhor pelo fato de ser iniciante é o único que sobra, e depois é impedido de se candidatar a reeleição, como fica a sua vida então ?

Saturnino Braga - Quando veio o golpe, eu era um deputado novo, inexpressivo, muito jovem, e imagino os militares que tomaram o comando imediatamente após o golpe, eles tinham a preocupação de dar uma faxada que não fosse caracterizada de golpe, mas um impedimento da revolução comunista, qualquer coisa assim, mas pra restabelecer a democracia. Então eu imagino que eles tivessem pensado, olha é bom que lá alguns deputados esquerdistas…

Nassif - Inclusive eles mandam o Lacerda pra Europa pra convencer que era um revolução democratica…

Saturnino Braga - Exatamente, e eu sobrei nessa, não fui cassado, mas ai eu comecei a ter uma atuação correspondente ao meu pensamento e ao meu compromisso politico de socialista, ai eu fui assumindo posições mais claramente esquerdistas durante 1965, 1966 e quando chegou a reeleição de 1966 eu não podia mais ser cassado, porque a faculdade de cassação tinha encerrado e depois reabriu em 1968 com o AI-5, mas naquele momento eu não podia ser cassado, mas então eles impediram minha candidatura, o SNI oficiou ao tribunal regional do estado do Rio de Janeiro que eu era comunista e que não podia, e o tribunal foi de uma… eu tenho a copia do julgamento que foi uma coisa assim, um relator disse: É, o deputado nega essas acusações, mas o SNI é uma instituição que merece fé. Então eu voto pelo impedimento. E ai os outros desembargadores todos ficaram de acordo com o relator, e ai eu fui impedido. Ai eu voltei para o BNDE, porque eu não tinha sido cassado, eu era funcionário concursado, voltei mas eu não podia dentro do banco assumir nenhum cargo de chefia, eu voltei a ser soldado raso, engenheiro de contar os tijolos, nas fábricas, e tive que aturar isso, fiquei tão chateado que num certo momento pedi licença sem vencimentos, fui trabalhar numa consultoria de transportes, mas também depois vi que ter patrão é uma coisa muita chata, eu preferia ser funcionário e então voltei pro banco, ai entrou o novo presidente do banco Marcos Vianna.

Nassif - Provavelmente o mais brilhante presidente da história do banco.

Saturnino Braga - Sem dúvida nenhuma. O Marcos Vianna me nomeou chefe do departamento de planejamento, o mais importante departamento do banco, e ele me nomeava interinamente, depois eu fui chefe de gabinete dele, mas para responder… então eu não tinha que consultar o SNI e foi assim, o Brasil é isso.

Nassif - Agora em 1974 começa a tomar corpo os grandes ventos do oposicionismo e o senhor embarca nessa.

Saturnino Braga - Embarco, sendo que eu não embarquei no inicio de 1974… fui chamado pra ser candidato a deputado federal mas eu não quis, porque eu estava bem no banco, eu estava satisfeito, o BNDE estava numa fase muito boa, mas quando chegou em setembro de 1974, a eleição era em novembro, o candidato do MDB ao senado no estado do Rio de Janeiro… porque eu era deputado do estado do Rio de Janeiro antigo, minha família, meu pai eram todos de Campos, eu já nasci no RJ, mas a minha vida politica começou no antigo estado do RJ. E o candidato era o Afonso Celso Ribeiro de Castro, lá de Campos, que teve um AVC e não poderia continuar na campanha.

Nassif - Isso em setembro ? 2 meses de campanha ?

Saturnino Braga - Em setembro, olha eu lembro exatamente o dia porque foi no dia do meu aniversário, dia 13 de setembro, o Amaral me chamou, me fez aquele apelo.

Nassif - Amaral Peixoto…

Saturnino Braga - Amaral Peixoto… olha você não precisa pensar em ser eleito, acho que você tem condições, mas você vai prestar um serviço ao partido, ao Brasil, a politica, você sera reconhecido mais tarde, e você não perde nada, se você perder a eleição você volta pro banco, claro que eu ia perder posições, então ele disse uma coisa que me tocou, ele disse: Sabe, a um fator que muita gente não está considerando, vai ter televisão, vai ter programa de televisão gratuito, pela primeira vez, um programa do TRE, e era um programa…enfim, cada partido tinha meia hora, eu sei que eu tinha cinco minutos por dia para falar como candidato, e aquilo realmente abriu… meu Ibope era zero e de repente passou pra 10, 15, 20…

Nassif - Seu concorrente quem era ?

Saturnino Braga - Meu concorrente era o então senador Paulo Torres, tinha sido governador, era filho da familia tradicional do estado do Rio de Janeiro, o Augusto Torres tinha sido líder do PSB… enfim, uma família politicamente muito importante, tinha aquele jornal “O Fluminense”, e era considerado imbatível, ele tinha uma articulação politica que ninguém, nenhum deputado federal ou estadual, candidato do MDB queria assumir a candidatura por que era considerado impossível, era uma derrota certa, e eles não queriam ficar sem mandato, eles queriam continuar na vida politica... então o Amaral Peixoto me chamou e eu aceitei, e o adversário Paulo Torres tão seguro de si, quer dizer, seguro da sua força politica, não seguro da sua capacidade de se apresentar, ele não foi a televisão, o tempo dele ficava cinco minutos parado e meu Ibope subindo, e os assessores dele disseram: Mas senador, o Saturnino está crescendo, o senhor tem que ir! Ai ele resolveu ir.

Nassif - Ai Desabou…

Saturnino Braga - Ai Desabou (risos) eu ganhei com 66%.

Nassif - Com dois meses de campanha…

Saturnino Braga - Dois meses de Campanha.

Nassif - Naquele período de 1974 o senado acaba criando uma bancada opocisionista que seria digamos a grande propulsora da oposição dos anos seguintes. Quem que era esse pessoal ?

Saturnino Braga - A eleição de senador era a única eleição majoritária do país, porque não tinha governador, prefeito de capital, presidente muito menos, então a eleição de senador mobilizou muito, e o MDB ganhou nos dezesseis dos vinte e dois estados, então aquela bancada que entrou no senado teve um significado todo especial era o surgimento de uma oposição parlamentar de grande expressão.

Nassif - Nós aqui na planice, nós víamos os ecos dos debates, dos diálogos, o seu nome, o nome de Paulo Brossard, e outros, era um alento. Como era internamente, os grandes embates se davam entre quem lá ?

Saturnino Braga - Em primeiro lugar, a abancada MDB, que tinha Brossard, tinha Marcos Freire, Itamar Franco, Orestes Quércia e a grande figura realmente era o Brossard. O líder da bancada era o Franco Montoro, que era um excelente articulador, ele tinha habilidade, ele tinha o problema paulista dele com o Quércia, mas ele conseguia articular a bancada e distribuir mais ou menos as responsabilidades e tarefas. Eu por exemplo, eu era o porta voz dessa bancada no setor econômico, então ele articulava bem, e a ARENA não tinha o que dizer, essa que é a verdade.

Nassif  - Tinha o Jarbas Passarinho…

Saturnino Braga - Tinha o Jarbas Passarinho, muito inteligente, muito competente, e tinha o Petrônio Portela…

Nassif - Como é que era Petrônio e Brossard ?

Saturnino Braga - Era interessantissimo, quando Brossard anunciava um discurso o senado enchia, Brasília tomava conhecimento e ia pra galeria pra ouvir, e os discursos do Brossard eram irrespondíveis. E o Petrônio tinha por obrigação que responder, e nem acreditava no que dizia (risos) e ficava aquela fraqueza. E ele uma pessoa tão inteligente e tão articulada, um bom orador, mas ai ele ficava completamente…

Nassif - Agora, naquele momento começasse a articular aquela frente que depois leva as eleições diretas mais adiante, tinha Ulysses [Guimarães], Tancredo [Neves]… da qual o senhor fazia parte também…

Saturnino Braga - Eu era o vice-presidente do MDB, era Ulysses, Brossard, eu e Tancredo vice-presidente, e Thales Ramalho era o secretário geral…

Nassif - Que diziam que era um grande articulador politico...

Saturnino Braga - Grande articulador, e o Ulysses tinha uma confiança ilimitada nele porque eles vinham do antigo PSD, eles ambos eram pesedistas…

Nassif - E aquela personalidade do Ulysses juntando todas essas pontas…

Saturnino Braga - Ulysses era de um lado o realista, muito sagaz e sabia lidar com as pessoas e articular, e de outro lado ele usava o carisma da oração, ele era um orador e gostava de ser reconhecido e de fazer vibrar o auditório, ele antes de qualquer discurso, evidentemente, ele trabalhava mais frases e jogava aquelas frases no momento certo e fazia um efeito fantástico. Mas ele tinha um talento inegável.

Nassif - Agora, ele e o Tancredo [Neves] como eram os acordos e as rixas…

Saturnino Braga - Velhos pesedistas se entendiam. Ele, o Tancredo, Amaral Peixoto, Thales Ramalho eram os antigos pesedistas que se entendiam muito bem e ele respeitava muito o Tancredo, só que o Tancredo sabia muito bem que… o Tancredo tinha suas informações e ligações no setor militar, o Ulysses era  rejeitadissimo, o Tancredo fazia uma especie de ponte, de ligação. E o próprio Ulysses quando chegou o momento da eleição do Tancredo no colégio eleitoral o próprio Ulysses… porque o presidente deveria ser ele, ele era o chefe da oposição, então no momento em que a oposição ganhava a presidência era natural que fosse ele, mas ele compreendeu que ele não era o homem pra esse momento.

Nassif - A transição não se daria com ele…

Saturnino Braga - Não se daria com ele, e ele percebeu e deu toda a força…

Nassif - E essa bronca dos militares veio da retórica dele ?

Saturnino Braga - Acho que sim, dessa figuração dele que irritava os militares profundamente.

Nassif - O Petrônio Portela tem um papel relevante na transição também, e como se dava o dialogo fora das câmeras, fora dos holofotes, entre o Petrônio e o MDB.

Saturnino Braga - O Petrônio tinha essa facilidade de comunicação, o Petrônio foi traído pela saúde, mas ele se julgava o primeiro civil... com a redemocratização, qual seria o líder civil da revolução dos militares ? era ele Petrônio. Então ele trabalhou isso e trabalhava o MDB para que o MDB não exercesse a oposição mas não desorganizasse o que ele estava fazendo.

Nassif - A entrada do Figueiredo como presidente muda o quadro ou já estava uma deteriorização irreversivel ?

Saturnino Braga - A entrada do Figueiredo… eu lembro que surpreendeu a nós todos, porque todo o Brasil tinham a imagem do Figueiredo como o durão do SNI, o cara cavalariano que gostava de cavalos, ia duro na sua posição politica, mas o Geisel ao fazer a indicação do Figueiredo… porque o Geisel realmente fez uma primeira tentativa de abertura lenta, gradual e segura mas não foi bem sucedido, mas tirou o ministro…

Nassif - Silvio Frota…

Saturnino Braga - Silvio Frota, quer dizer o Geisel tinha uma certa projeção de uma redemocratização lenta, gradual e segura, e escolheu o Figueiredo...eu até hoje não…

Nassif - Não tinha sutileza nenhuma…

Saturnino Braga - É, mas deve ter havido um entendimento entre eles, não sei, mas o fato é que o Figueiredo também uma vez na presidência não repetiu a atuação dele de linha dura do SNI, ele realmente foi o homem da anistia, da eleição de governadores, enfim o restabelecimento gradual, lento e seguro como diria o Geisel.

Nassif - O Goubery [do Couto e Silva] tinha contatos com vocês na época pra essa transição ?

Saturnino Braga - Não tinha muito não, deveria ter talvez com o Tancredo, comigo não, mas também naquele momento da candidatura do Figueiredo, pela primeira vez aquele bloco monolítico militar rachou com a candidatura Euler Bentes apoiado pelo Hugo Abreu. Sabe, aquilo foi a primeira manifestação de dissidência no setor militar... eles se entendiam muito bem, disputavam muito bem entre si, mas acatavam militarmente pela disciplina e hierarquia militar acatavam as decisões, mas o Euler Bentes…

Nassif - A oposição deu um pouco de gás pro Euler…

Saturnino Braga - Deu, ele foi candidato pelo MDB e o Brossard foi vice dele, mas o fato e que na época, o próprio Tancredo foi muito contra, mas a candidatura Euler desempenhou um papel, porque mostrou que aquele dispositivo monolítico não era mais tão indestrutível assim.

Nassif - Senador, então vem 1982, todo aquele processo eleitoral, a oposição começa a se articular e depois voltam os exilados [Miguel] Arraes, Brizola. E então sua vida politica tem algumas mudanças quando o senhor sai do MDB e vai para o PDT, conta um pouquinho dessa transição da posição.

Saturnino Braga - Naquele momento o grande líder politico do MDB  no Rio de Janeiro era o Chagas Freitas, pela força eleitoral que ele tinha comandava o jornal e a própria ação dele pragmatica era muito eficiente.

Nassif - Ele era um legitimo representante do ademarismo no Rio de Janeiro.

Saturnino Braga - Era mesmo, mas tinha uma força eleitoral muito grande e comandava o diretório com bastante controle, mas ouve um momento… que eles devem ter recebido, ele [Chagas Freitas] e o Tancredo Neves devem ter recebido alguma mensagem do sistema militar que eles deveriam formar um partido de oposição mas que fosse uma oposição consentida, moderada e eles assim fizeram, saíram ambos do MDB e fundaram o PP, mas o PP em seis meses demonstrou que era inviável, então eles retornaram ao MDB e o Chagas retornou ao MDB do Rio de Janeiro no principio de 1982 . E eu… era pra ser o Chagas candidato, mas ele debandou, a principal liderança do MDB do Rio de Janeiro era eu. Cheguei a ser lançado como candidato a governador pelo Rio de Janeiro, Ulysses foi ao Rio de Janeiro lançar minha candidatura, mas quando houve a volta do Chagas evidentemente ele é quem ia mandar escolher o governador e ele escolheu o Miro Teixeira, mandou me dizer que a minha vaga de senador estava absolutamente garantida, mas eu senti tão contrariado com aquilo e impossibilitado de conviver com o Chagas depois de tudo que eu tinha dito… porque o Chagas teve conhecimento do episodio do Riocentro…

Nassif - Ah é ?

Saturnino Braga - Teve, a policia militar se recolheu, não tinha policiamento militar no dia...e ele sabia, ele tinha essa ligação, então eu não ia ficar… e o Brizola chegou e acenava comigo: Você vai ser o nosso senador. E eu embarquei, o Brizola tinha um Ibope de 2%, e então as pessoas diziam, você se suicidou politicamente, você tinha uma reeleição garantida agora vai pro brejo com o Brizola, mas eu não podia ficar naquela convivência..., então eu aceitei a candidatura junto com o Brizola, e então o fenômeno Brizola incendiou o Rio de Janeiro e de 2% ele subiu, passou e ganhou…apesar da Proconsult, daquela tentativa, mas ele ganhou a eleição e eu me reelegi senador naquela onda Brizolista no Rio de Janeiro que foi um colosso.

Nassif - Nesse período politicamente havia uma posição sistemática da Globo, dos meios de comunicação, mas se você pegar os demais setores políticos como era a distribuição de poder lá ?

Saturnino Braga - A hegemonia do Brizola, a liderança do Brizola foi realmente arrasadora, a oposição mesmo era a Globo… logo depois, em 1985, abriram as eleições de prefeitos de capital e eu acabei tendo que aceitar a candidatura a prefeitura, meu adversário foi o Rubem Medina…

Nassif - Que não tinha expressão nenhuma...

Saturnino Braga - Nenhuma, quer dizer, não havia uma liderança no Rio de Janeiro capaz...  

Nassif - O lacerdismo tinha esgotado completamente ? Tinha a Sandra Cavalcanti…

Saturnino Braga - É, a Sandra. Lembra que na eleição do Brizola em 1982, em julho quando eu resolvi aceitar a candidatura a senador, o Brizola tinha já 4% de Ibope, mas a Sandra Cavalcanti tinha 50% do Ibope, depois vinha o Miro Teixeira com 30% e o Brizola lá em baixo, e o Moreira Franco nem aparecia. E no final a disputa foi entre Brizola e Moreira Franco, e eles tentaram pela Proconsult jogar no Moreira, então no fundo a Sandra naufragou ali, o Miro Teixeira se desgastou, Chagas se desgastou e o Brizola como que devastou…

Nassif - Foi a oratória dele na televisão ?

Saturnino Braga - A oratória e a vida dele, a biografia dele, o carisma, o Brizola era carismático, então o Brizola devastou a oposição. E foi a eleição mais fácil da minha vida. Bom, mas o que aconteceu ? Um ano após a minha eleição de prefeito foi a eleição de governador, o Brizola lançou o Darcy Ribeiro e perdeu a eleição e perdeu mesmo, porque o Moreira Franco ganhou do Darcy e não teve mais Proconsult, foi no voto mesmo. A politica tem dessas coisas. O Brizola tinha liderança pessoal, mas não é que ele elegesse um poste, o Darcy Ribeiro era uma bela figura, mas o Brizola não conseguiu eleger.

Nassif - Agora, você pega a prefeitura num período absolutamente ingrato…

Saturnino Braga - No fundo do poço, mas eu tinha que aceitar, mas aceitei sabendo, porque o prefeito anterior era o Jamil Haddad que era meu grande amigo desde PSB, de João Mangabeira, e o Jamil me disse: Olha, não tem nada, você não vai poder fazer nada porque não tem um tostão furado. E eu sabendo disso comecei a querer inovar pela gestão, uma gestão participativa, criei os conselhos governo-comunidade e realmente foi uma experiência esplêndida, pena que o problema da falência jogou por terra tudo que era da minha gestão e inclusive essa ideia dos conselhos governo-comunidade, da participação na gestão, não só apenas no orçamento, que depois veio acontecer em Porto Alegre, o orçamento participativo, mas naquela época foi a gestão participativa, cada um desses conselhos discutiam a gestão da prefeitura, a educação, a saúde. Esse conselho reuniu o chefe do distrito de educação, de saúde, de limpeza urbana, de conservação… e citava as prioridades, qualquer investimento que eu fizesse respeitava as prioridades indicadas por esse conselho, então foi uma experiência extremamente motivadora e que infelizmente se perdeu.

Nassif - Foi mencionado aqui o episódio Proconsult que veio depois da anistia e agora esta sendo retomado. Teve o caso do atentando que matou a secretaria da OAB. Como que era essa convivência com esses grupos terroristas no Rio de Janeiro ?

Saturnino Braga - Sabe, existia porque nos sabíamos...mas não tínhamos a possibilidade, quem podia controlar era o poder militar, mas não controlava. Agora, eles procuravam evitar... essas manifestações se davam a margem do poder por iniciativas que fugiam do controle e que as vezes resultavam em tragédias como a da secretária da OAB, a Lydia. E também houve um vereador do Rio de Janeiro que recebeu uma bomba também, perdeu uma vista… o Antonio Carlos. Enfim, eram episódios que fugiam do controle... nos íamos realizar comícios e de repente vinha o aviso, “olha tem uma bomba no palanque”, ai esvaziava aquilo, procurava a bomba, ai era falsa, então nos estavamos sujeitos…

Nassif - Vocês tinham contato com os comandos militares pra tentar estabelecer algum tipo de disciplinamento ?

Saturnino Braga - Não tinhamos, enfim é a história da radicalização, nós não queriamos reconhecer aquele poder. Nós consideravamos o poder falso, então…

Nassif - Senador, a constituinte…

Saturnino Braga - Eu estava na prefeitura, eu seria constituinte, mas em 1985 me elegi, em 1986 assumi e tive que renunciar a minha cadeira no senado e assumiu o Jamil Haddad que era meu suplente. Completou o mandato e foi constituinte.

Nassif - Foi um sopro de renovação que o Brasil nunca teve. O que aconteceu pra que os diversos grupos conseguissem se libertar das influências politicas, econômicas ?

Saturnino Braga - Eu acho que tudo começou na eleição de 1974, quando houve aquela manifestação... a primeira manifestação efetivamente pública da sociedade brasileira de repúdio, por que até então o poder militar tinha apoio..., então tinha sustentação, a mídia toda sustentava o poder militar, então a partir de 1974 começaram estas manifestações, e isso foi evidentemente se ploriferando e emergindo daqui e dali e as pessoas vão ganhando mais ousadia e forçando aqui e ali…

Nassif - O Relacionamento com a mídia no Rio de Janeiro como é que se dava ?

Saturnino Braga - Muito Ruim, o MDB tinha os jornais do Chagas, “O DIA” e “A NOTÍCIA”, mas eram jornais orientados pelo poder militar. E tinha “O GLOBO” e o “JORNAL DO BRASIL”. “O GLOBO” inteiramente entregue e o “JORNAL DO BRASIL” procurava ainda fazer certo meio de campo, mas passou a ousar mais a partir  de 1974, quer dizer o “JORNAL DO BRASIL” compreendeu que havia uma opinião, o setor da opinião pública que crescia velozmente e queria redemocratizar e foi um pouco na onda disso.

Nassif - Com a redemocratização, a oposição meio que perde o rumo ali naquela fase Sarney. Como que o senhor observa os diversos grupos de oposição, que já não eram mais oposição se colocando ?

Saturnino Braga - Na verdade, a oposição e o Ulysses eram muito concientes disso e falava muito, por exemplo comigo ele falava: Você é um socialista, não tem nada haver comigo, nos estamos juntos nesse barco pela redemocratização, mas depois, nós estamos em barcos diferentes, porque o MDB congregava tudo… redemocratizar o país era preciso, as tendencias politicas e pensamentos politicos se organizarem já em termos  de projeto de ideologia, e isso não se deu imediatamente, custou um pouco, é claro que a liderança do Brizola congregou o PDT, mas o PSB…

Nassif - O Arraes chegou a ter alguma expressão nacional ?

Saturnino Braga - O Arraes teve antes do golpe, depois do golpe, claro ele teve expressão regional, mas nacional não. A expressão nacional sempre acaba caindo emtre Rio de Janeiro, São Paulo ou Minas Gerais, muito dificil…o partido politico é um organismo vivo que precisa ter a sua infância, adolescencia, precisa de um certo tempo de maturação, e a abertura veio e desfez a grande frente que era o MDB, mas não custou um certo tempo pra sedimentar, a rearcar a construção dos partidos programaticos e ideológicos. E ai surgiu o PT nessa esteira, com um projeto novo, de renovação da politica e isso pertubou muito evidentemente a oposição como um todo. O MDB continua sendo a grande força da oposição mas sem a estrutura  programática era mais uma composição eleitoral, um ajuntamento eleitoral que não tinha definição.

Nassif - E como o senhor vê o papel de Fernando Henrique Cardoso e do Lula na construção da nova politica brasileira ?

Saturnino Braga - Bem, o Fernando Henrique Cardoso virou a casaca, porque eu o conheci como um homem de esquerda, convivi com ele no senado, era da oposição do MDB, nos tínhamos uma convivência boa, e de repente ele se rendeu...quando o Itamar Franco o chamou pro ministério, ele se convenceu que a viabilidade do país estava em seguir os interesses da elite dominante econômica, e ai ele se rendeu ao neoliberalismo completamente e nos deixou. E passou pela expressão que ele tinha, expressão intelectual, liderança intelectual que ele tinha, ele passou a ser realmente o líder principal da solução neoliberal, da solução de mercado, que não é uma solução brasileira e que nunca foi, mas que naquele período dos anos 90 conduziu o país e ele assumiu essa posição. E Surgiu o Lula, extraordinariamente competente em sensibilidade, em politica, em faro, em liderança e capacidade de articulação, mas ele… eu lembro muito bem do Lula quando emergiu como liderança e várias vezes era perguntado: Mas você é socialista, é trabalhista, o que você é ? E ele dizia: eu sou um torneiro mecânico. Então quer dizer ele não queria uma definição ideológica ele queria montar um partido que defendesse  os interesses no dia a dia da classe trabalhadora, foi o que ele falou. O PT surgiu assim, mas o PT foi se ligando aos movimentos sociais, com muita influencia com a igreja esquerdista, e o PT emergiu e o Lula como o grande. Mas o Lula tem o sentido da viabilidade das coisas. O Lula não quis repetir o episodio Jango e Allende, ele foi muito realista e conseguiu realizar avanços importantes no social sem cair na inviabilidade.

Assista ao vídeo completo da entrevista:

 

 

 

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Grandes história, ao mesmo

Grandes histórias, ao mesmo tempo triste de ver a decadência que tomou conta da política no país posteriormente.

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Nosso judiciário é teleguiado pelo poder/midia

faz muito tempo:

"um relator disse: É, o deputado nega essas acusações, mas o SNI é uma instituição que merece fé. Então eu voto pelo impedimento. E ai os outros desembargadores todos ficaram de acordo com o relator, e ai eu fui impedido."

isso foi nos anos '60...

Os ditadores só precisaram retirar 2 membros do STF para ter lá um canil de estimação.

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Não sei de onde saiu a ideia de que Jango era fraco.

Sobre este boato comentei, no link: Jango era fraco?

Saturnino Braga - Isso, e o Jango se viu de repente sem poder de controle sobre isso, as forças eram muito maiores, era uma conjuntura internacional que pegou o Brasil, e a impressão que ficou depois e que também foi rotulada pela direita, o fato de o Jango ser incompetente, não era incompetência, aquilo era incontrolável pela natureza das coisas, como foi depois Salvador Allende no Chile que repetiu mais ou menos o mesmo processo radicalizou artificialmente, a CIA fomentava a radicalização pra chamar os militares.

Em uma entrevista recente para Nassif, Almino Afonso afirma:

"Desmistifica a visão de um Jango débil. "Era o mais sábio de todos nós, ao perceber a disparidade de forças e ao recomendar o reformismo cauteloso", contou.

Em algumas oportunidades, Jango teve a chance de um golpe. Narra como foi procurado pelo general Osvino Ferreira Alves, o chamado "general do povo". que mandou um recado a Jango: "Diga ao presidente que na hora em que ele quiser, fecharemos o Congresso". Quando Almino, algo constrangido, passou o recado, Jango reagiu vigorosamente. Disse que jamais seria presidente de uma ditadura."

Um dia a história resgatará a verdade sobre Jango.

 

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