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Presidente da Vale avalia positivamente estímulos ao setor produtivo

 
Jornal GGN - O presidente da Vale, Murilo Ferreira, enxerga má vontade nas críticas dos empresários de São Paulo. Ele afirma não concordar que o Brasil não esteja crescendo por falta de investimentos, lembrando que a Vale realiza hoje o projeto mais intensivo em capital de sua história, em Carajás. São US$ 19,5 bilhões. 
 
Murilo Ferreira acusa o crescimento mundial abaixo do esperado e a crise europeia de 2011 como alguns dos fatores responsáveis pelo desempenho negativo do empresariado brasileiro. Para ele, a disputa eleitoral aumenta o pessimismo do setor produtivo, destacando que hoje o país se encontra em pleno emprego, com destaque para o agronegócio e a mineração.
 
Da Folha de S. Paulo
 
 
Por DAVID FRIEDLANDER, RAQUEL LANDIM e ENVIADOS AO RIO
 
Para o presidente da Vale, mau humor do empresariado com a presidente está concentrado nos industriais de São Paulo à presidente Dilma. 
 
O presidente da Vale, Murilo Ferreira, acha que o mau humor do empresariado com a presidente Dilma Rousseff está concentrado nos industriais de São Paulo e compara esse relacionamento pouco amistoso a um "Fla-Flu" --Flamengo X Fluminense, clássico do futebol carioca que virou sinônimo de rivalidade acirrada.
 
Na visão do executivo, a indústria paulista abriga setores defasados tecnologicamente, que sentem mais os efeitos da crise global.
 
"Esse Fla-Flu é estimulado pela política rancorosa de São Paulo, do PT e do PSDB. É irradiado da Faria Lima [endereço dos principais bancos de investimento do país]".
 
Alinhado ao governo, que tem forte influência na Vale por meio do BNDES e de fundos de pensão estatais, Ferreira faz coro com assessores do Planalto, que enxergam má vontade nas críticas dos empresários de São Paulo.
 
Mineiro típico, que gosta de enfatizar seus hábitos simples e a falta de vaidade, o presidente da Vale costuma ser discreto em público. Desta vez, foi incisivo nas críticas, principalmente aos políticos. Diz que os brasileiros cansaram deles, estão impacientes com sua incapacidade de entender seus problemas e não os respeitam mais.
 
Folha - O Brasil está crescendo pouco por falta de investimentos. Por que as empresas não investem?
Murilo Ferreira - Não concordo com essa afirmação. A Vale está fazendo o projeto mais intensivo em capital de sua história, em Carajás. São US$ 19,5 bilhões.
 
Os números da Vale são sempre superlativos. No geral, as empresas brasileiras não estão investindo.
No Brasil, não prestamos atenção ao mercado internacional. O crescimento mundial está muito abaixo do esperado. O problema se tornou mais agudo depois da crise europeia de 2011.
O México e o Chile vêm avançando menos. Até 2016, não haverá mais indústria automobilística na Austrália. Mesmo na Ásia, só sinto um certo ânimo no Japão.
Vivemos um período muito diferente daquele em que a economia mundial crescia 4,4% e todos comiam o mamão com açúcar da globalização. Agora chegou a vez das frutas amargas. No Brasil, as pessoas não querem enxergar isso por conta da disputa eleitoral.
 
O sr. acha que a disputa eleitoral aumenta o pessimismo?
Claramente. Graças a Deus ainda estamos quase no pleno emprego e não vemos, como em outros países, uma juventude desesperançada.
O agronegócio é show de bola e tem uma produtividade superior à americana. Mineração e serviços são pontos fora da curva.
A amargura está concentrada no setor industrial. Lamento muito, mas é São Paulo que está pagando uma conta mais alta do que outros lugares do Brasil.
 
Mas os empresários não reclamam da crise global. Eles dizem que a culpa é do governo.
Certamente eles são capazes de justificar suas queixas do governo e devem ter razão em muitos pontos. Mas existem alguns setores --não gostaria de polemizar citando um ou outro-- em que falta tecnologia e inovação.
 
Por que a indústria perdeu competitividade?
Temos que fazer uma análise rigorosa.
 
Será que o empresariado de São Paulo tem o mesmo entusiasmo do pessoal do cerrado? Será que a nova geração tem o mesmo entusiasmo para investir em tecnologia e inovação?
Quando chego ao Japão e à Coreia, fico preocupado porque se estabeleceu um gap muito grande em relação ao Brasil.
Não sei se os empresários não se atualizaram ou não estão motivados, mas essa é a realidade.
 
O relacionamento entre Dilma e o empresariado hoje é ruim. Se ela for reeleita, como refazer essa ponte?
Os dois lados precisam procurar o interesse do Brasil. Não podemos continuar esse Fla-Flu político, que é estimulado por São Paulo, de onde vem os partidos que disputam a eleição, PT e PSDB.
A política em São Paulo está muito rancorosa.
É importante restabelecer as pontes para governar depois. Adversários têm ideias diferentes, mas não são inimigos.
 
O PT diz que o mercado financeiro faz terrorismo ao derrubar a Bolsa quando a presidente sobe nas pesquisas. O que o senhor acha?
De novo, isso é fruto da cultura política de São Paulo. Esse Fla-Flu permanente é irradiado da Faria Lima (avenida da capital paulista onde estão os grandes bancos de investimento).
 
O que o sr. acha de Marina Silva? A suposta intransigência dela nas questões ambientais poderia atrapalhar os projetos de infraestrutura?
Marina, Aécio ou Dilma --todos pensarão na nossa maior conquista, que é o pleno emprego. Nenhum deles será intransigente a ponto de elevar o desemprego.
 
Quais deveriam ser as prioridades do próximo governo?
A reforma política é a mãe de todas as reformas. Não deveríamos ter mais do que três partidos: oposição, situação e um fiel da balança.
 
O sistema partidário brasileiro hoje torna impossível qualquer definição. Como negociar programa de governo com essa geleia política?
Todo mundo fala das reformas tributária e previdenciária, mas será necessário um consenso que é impossível obter. Com 83% de aprovação, o presidente Lula não conseguiu fazer a reforma tributária. Que outro presidente vai conseguir?
Naturalmente os políticos não têm interesse em mudar isso. Eles se sentem mais importantes quando é preciso negociar um a um. Mas é preciso entender que a população está cansada.
 
Como fazer a reforma política contra os interesses dos políticos?
A classe política precisa perceber que está chamando uma crise sobre si mesma. As pessoas estão impacientes com a incapacidade dos políticos de entender sua insatisfação. E estão se tornando desrespeitosas com a classe política. Cabe aos políticos fazer a sua opção: querem ou não esticar essa corda?
 
Dos três candidatos mais bem colocados para a Presidência, quem teria o melhor perfil para executar essa agenda?
A reforma política é algo que os três candidatos almejam, porque querem governar. Resta saber se haverá uma conjugação de estrelas nesse sentido. Vai chegar o momento em que as pessoas vão achar que não vale a pena esse sistema político. Como em junho de 2013.
 
As manifestações foram um sinal desse descontentamento com a política?
Foram um forte sinal de apodrecimento do sistema político. Vamos ver até quando vão ignorar esse sinal.
 
Os economistas projetam um ajuste duro em 2015, com alta de juros e cortes de gastos. É necessário?
Até na Alemanha essa receita está sendo revista. Não dá para achar que funciona tomar os mesmos remédios utilizados no passado. Uma receita clássica pode levar infelicidade para os brasileiros.
 
Não é preciso reajustar os preços da energia e da gasolina?
Não vou discutir situações individuais, mas não é preciso fazer nada para amanhã. Temos que ter prudência. Não adianta nos prender a modelos da década de 90, quando o índice de desemprego estava acima de 10%.
 
Que política econômica maravilhosa é essa que só aumenta a disparidade?
Os políticos não podem trabalhar focados em PIB, inflação, deficit público ou câmbio. Os políticos devem trabalhar para que a população viva melhor.
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6 comentários

Comentários

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NNN

Resposta ao Steinbruch?

Falou o CEO de uma empresa que vive de fazer buracos no solo e exportar o que extrai para a China e outras paragens industrializadas. Como os plantadores de grãos...

Pelo menos ficou claro porque o governo se esforçou tanto para tirar o Steinbruch de lá.

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C. Acácio

Os industriais paulistas já

Os industriais paulistas já foram , em tempos idos , considerados os motores do desenvolvimento nacional. Subsidiados ou não , investiram em suas empresas e ganharam muito dinheiro. Os anos de juros altos , acima de qualquer ganho advindo do trabalho , criou uma classe de empresários rentistas. Qualquer governo que ousar diminuir os lucros que acostumaram-se a obter no mercado financeiro , será objeto de uma oposição dura , egoísta e anti nacionalista . O presidente da Vale , elegantemente , os classificou como preguiçosos e mal acostumados ...

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Laurindo

De vez em quando pinta uma luz

Puxa, que surpresa!!! Não imaginava que uma análise tão imparcial e democrática partiria de um diretor de uma empresa com os interesses, o tamanho e a importância da Vale. A maioria absoluta dos grandes empresários, por burrice (empatia com o PSDB e obediência a "imprensa" deles, a conservadora) se negam a investir, e querem porque querem apear o PT do poder, um governo que tentou tudo ou quase tudo p/ salvar a indústria brasileira, em plena crise mundial, tanto que, entre outras medidas, abriu mão de mais de 270 bilhões de incentivos nessa tentativa. Esse valor é maior do que o finaciamento do agronegócio, da agricultura familiar, dos gastos com o Bolsa-Família e os realizados com a Copa. Mas nem assim. Agora, com o perigo Marina, vamos nos f.... todos.

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Giusepe

Excelente artigo, trabalhei

Excelente artigo, trabalhei muitos anos na Vale, e pude constatar a isonomia e competência de suas administrações, sobretudo nessa última governança que tem a frente o ceo Murilo ferreira.

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A MINERAÇÃO SAINDO DA SUA “ZONA DE CONFORTO”

A mineração é uma atividade em transição, desde a antiga zona de conforto (energia barata, teores elevados nas jazidas, depósitos de bilhões de toneladas) para uma zona atual de preocupação e até de desespero para alguns (baixos teores; vida curta dos novos empreendimentos; falta de logística; maiores riscos na pesquisa; elevado preço de insumos; incertezas do mercado de commodities). Mas, assim e tudo, há dinheiro nas atuais operações, por trás de cada eventual ineficiência, oculto em cada circuito, em produção reprimida, em consumo excessivo de  kWh, em corpos moedores e em reagentes.

Historicamente os projetos agüentavam muito desaforo, viabilizando forçadamente poucas toneladas/hora marginais, de elevadíssimo custo agregado, junto com outras toneladas/hora baratas, feitas com baixo investimento. O projeto se pagava assim mesmo. Ou seja, a meta era obter retorno ao capital e não necessariamente ganhar dinheiro minerando, por ganho operacional. Esse quadro é perverso e a mineração ficou muito ligada ao setor financeiro e bancos. 

Nesta transformação do mercado devemos repensar os novos projetos e, também, as usinas atualmente em operação. Cada ator deste mercado deverá lutar dentro do seu escopo:

NOVO PROJETO: O mais enxuto quanto possível. Mínimos CAPEX e OPEX. Qualquer ganho marginal ou esforço em melhoria de recuperação deverá ser comprovado posteriormente. Primeiro gere caixa e depois siga reinvestindo em refinamentos (se valer a pena). Considerar sempre estudos de pré-concentração. Gerar mínima quantidade de rejeitos.

BANCO: Tradicionalmente, se o projeto gerava o mínimo de VPL, este era aprovado pelo Banco mesmo se o projeto pudesse ter sido feito com a metade do dinheiro. A monetarização dos projetos de mineração aumentou em forma alarmante nos últimos anos. A mineração deve sair deste desequilíbrio, que serve apenas ao capital financeiro, e deverá gerar mais dinheiro para o investidor efetivo ou empresário - quem corre risco o operacional. Têm projetos atualmente na UTI, trabalhando apenas para pagar empréstimo bancário.

INVESTIDOR/EMPRESÁRIO: Quem corre riscos e ganha com o exercício operacional da atividade, de modo que para ele é melhor a maximização do ganho operacional que o mero pagamento do serviço da dívida eventualmente contraída. Para ele é importante a redução de CAPEX e de OPEX. Neste investidor dói o bolso quando a usina anda mal.

FABRICANTES/FORNECEDORES: Estão reduzindo a presença dentro do CAPEX e tentando entrar fortemente no OPEX das usinas. Por exemplo, é mais “negócio” vender barato o moinho e depois fornecer as bolas. Ainda, existirá maior oferta de PPT (preço por tonelada) em todas as atividades à montante da atividade principal da usina (lavra; britagem e até moagem); maior aceitação de equipamentos chineses; instalações semimóveis; estímulo ao mercado de equipamentos usados e de tamanho padrão. 

ENGENHARIA: Reduzidos pelo lado conceitual, com Clientes mais preocupados na definição interna dos seus projetos e, pela outra ponta, espremidos pelos projetos chave em mão (que executam a engenharia de detalhes) e por grandes fornecedores que assumem a engenharia da área ou da operação unitária envolvida. Empresas de engenharia deverão procurar maior especialização em determinadas áreas e na oferta de Serviços de apoio Operacional ou “Operational Services” (melhorias, rearranjos, na zona Brown Field). 

FUNCIONÁRIOS E OPERÁRIOS: Deve-se destacar a importância de cada funcionário no resultado final da empresa, desde o Diretor até o mais simples operário. O sucesso dos trabalhos de melhoria depende de todos e de cada funcionário, de modo que a equipe deverá estar ciente e afim em qualquer atividade que altere os procedimentos vigentes. Deve-se deixar germinar, na equipe, a sensação do ganho gerado, em cada ação empreendida. Oferecer participação em lucros e resultados. 

O melhor combate para reduzir custos é estimular funcionários e não demiti-los. 

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Alexis, mais uma vez com grande contribuição!

alias, faz anos que não dá para ler algo tão concreto e interessante na tal "mídia especializada"...

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