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Saudade, de Renato Braz

Renato Braz acaba de lançar nos Estados Unidos o CD Saudade, produzido pelo grande Paul Winter, um dos primeiros músicos de jazz a descobrir a bossa nova. O CD tem um repertório de primeiríssima com as interpretações clássicas de Renato

Renato me deu a honra de escrever o release do disco.

 

Saudade

A saudade é negra, a saudade é cafuza, a saudade é mulata, é a nostalgia branca do colonizador europeu pelas glórias perdidas, ou do colonizado brasileiro por lembranças impressentidas de tempos que jamais viveu.

É o sentimento comum, o fio invisível que costura todos os ritmos e raças que compõem a nação musical do Brasil, da batida do samba ao crepitar do frevo, da dolência da toada e do lundu, à cadência da marcha rancho.

Desde sempre, todos os ritmos brasileiros celebraram a saudade. E celebraram com tal intensidade que, quando  a música brasileira definitivamente se internacionalizou, o hino que anunciou os novos tempos dizia "Chega de saudade" e cantava "vai, minha tristeza".

Nos anos 50, período de profundas transformações sociais e musicais no Brasil, João Gilberto foi a síntese do que de melhor a música brasileira havia produzido até então. Foi buscar Ary Barroso e Dorival Caymmi, Geraldo Pereira e Pedro Caetano, o samba sincopada e o samba-choro e apresentou-os à juventude dourada que, a partir de Ipanema, se lançava para o mundo. O ponto em comum era o ritmo, fazendo com que Brasil musical e continental se tornasse homogêneo pela batida do violão que simulava o surdo e os tamborins do samba. O Brasil daqueles tempos cabia no Rio de Janeiro.

Da síntese de João Gilberto nasceu, nos anos seguintes, a mais rica geração de compositores do país, os filhos de João e Tom Jobim que dominaram o cenário musical dali para frente.

Hoje em dia, o Brasil passa por transformações tão profundas quanto às dos anos 50, um Brasil mais robusto, menos desigual, com vários polos regionais de desenvolvimento econômico e musical e, provavelmente, a mais rica geração de música instrumental da sua história.

De todos os pontos do país emergem de novas formas musicais ao renascimento de gêneros clássicos, que se supunha extintos, como a canção semierudita, a toada mineira, o caipira paulista, a guarânia.

Nesse novo cenário, Renato Braz desponta como o João Gilberto do século 21, mais eclético, contemporâneo. Não apenas se tornou o melhor cantor brasileiro da atualidade, com uma extensão vocal e uma capacidade única de adaptar a voz a cada estilo de interpretação, mas também virou um centro de referência de um novo discurso musical, com características diversas dos anos 50.

O baiano João trouxe o Brasil para o Rio de Janeiro e deu-lhe uma feição carioca e universal. O paulista Renato celebra todos os Brasis do interior, com o sotaque musical adequado a cada região.

Do mesmo modo que João, neste CD Renato traz o melhor do rico período que vai do pós-bossa-nova até os tempos atuais, passando por alguns clássicos intemporais, como Noel Rosa e Zé do Norte.

Esse Brasil multifacetado está disperso na Internet, nos vídeos do Youtube, um universo caótico, apropriado a desses tempos em que a tecnologia multiplica e dilui as informações. Daí alguma dificuldade em se enxergar a nova revolução musical que se desenha no Brasil e terá em Renato um de seus pontos de referência.

 

 

 

 

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3 comentários

Comentários

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Caro Renato Braz,

Caso vc esteja lendo a publicação do seu amigo Luís Nassif, nós, seus fãs incondicionais, pedimos, suplicamos, imploramos: 

1) a exemplo de outros artistas, abra uma página na internet, sabe aquele negócio com história, discografia, e, se não for pedir muito, a AGENDA, para que nós, seus admiradores incondicionais, possamos ir nos seus shows. Só você tem um fusquinha anos 60, bege com pneus faixa branca, e só você NÃO tem página na internet (O último hippie.GUDIN, Eduardo);

2) não sendo possível a alternativa anterior, arrume uma alma caridosa que atualize a sua página no Facebook, tipo assim que a gente possa curtir a página e, depois, ficar sabendo da sua AGENDA de shows, onde encontrar CDs, essas coisas. Estamos em 2016;

3) Vc é o maior cantor do Brasil. E o maior tocador de caxixi, segundo Toninho Horta. 

Imensamente grato.

 

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Amanda Pedrosa

Já falei isso para o Renato

Já falei isso para o Renato também, ele me respondeu "um dia terei". ahahah

 

é uma pena, se ele quisesse eu faria de graça esse serviço de atualizar o facebook :P

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Ivan de Union

Credo!!!  Alguem ja

Credo!!!  Alguem ja cronometrou o vibrato desse cara?!?!?!

Eh rapidissimo!

Aparentemente falha no "o" (de "meu vovo", que eh exemplo meu por falta de acentos e nao esta no disco):  o  "o" de "amor" nao sai vibrato e nem "dor" (ouch!, que rimas ruins!)), mas eh um dos mais rapidos que ja ouvi na vida inteira.

Em "nao tem medo de bAaAaAaAaAambar" ou "transformou o sAaAaAaAaAaAaAamba", por exemplo, nunca ouvi esse som antes de uma garganta humana!  E isso eh algumas fracoes de segundo:  ele canta igual computador o tempo todo no disco.

Se nao me engano, o vibrato essencial minimo dele eh de 3 vezes pra qualquer vogal.  E frequentemente eh muito maior.

Eu nao sabia que isso existe.

Eu vou ali rimar "amor" com "calor" agora nesse minuto e ver se funciona pra mIiIiIiIiIiImmm!

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Excelente! Lembrou-me outro

Excelente!

Lembrou-me outro cabra que trilha pelo mesmo caminho, o Geraldo Maia, pernambucano que tem como trabalho mais conhecido a belíssima interpretação de A deusa da minha rua, com o Yamandu Costa e suas proezas nas cordas.

Voltando ao cabra, gostei! Ele saboreia cada nota, sem pressa e com muita sensibilidade. A primeira mesmo,, fantástica!

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