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Uma importante data para a democracia, por Ion de Andrade

Por Ion de Andrade

 

Esse 22 de março de 2014, sem que as forças democráticas tenham precisado mover uma palha, foi soldado por um avanço na percepção subjetiva da solidez da democracia no Brasil. Percepção subjetiva em política exprime na verdade o sentimento da correlação de forças entre as forças pró e contra o golpe. Noutras palavras o movimento que pretendia ser uma demonstração de força para intimidar e amedrontar os progressistas mostrou ser um espetáculo frágil e isolado. Isolou-se até mesmo pelo fato de pregar a ditadura com toda a liberdade de expressão, diferentemente do que praticou a ditadura com os seus opositores. A quem estarão se dirigindo os que festejarem o golpe de 1964? Agora sabemos, a uns poucos saudosistas.

Este erro da direita golpista revelou claramente que nem mesmo a direita tradicional joga mais as suas fichas em tais saídas, a marcha permitiu o dimensionamento político da mirrada direita violenta e xenófoba, que se exprime sem rosto nas redes sociais querendo matar e arrebentar: são franja desimportante até mesmo no campo conservador.

Acho importante salientar que a vitória é das forças democráticas, pois, e é preciso que se diga, não foi apenas uma vitória do governo e da esquerda, merece reconhecimento o fato de que as oposições conservadoras, fragilizadas, declinantes e vivendo período histórico de notório refluxo não cederam ao canto das sereias golpistas na vã tentativa de dar-lhes legitimidade. Não foi o caso de alguns jornalões que ensaiaram notícias de primeira página da pífia e inexpressiva marcha, recuando aos poucos tanto sob os contrapontos da blogosfera como pela desimportância que o movimento ia exprimindo.

Consolida-se portanto com plena e absoluta legitimidade a arena onde as lutas políticas são e serão travadas: o Estado de direito, forum único para a tomada de decisões da nação. Patrimônio político de todos nós, sobretudo dos setores progressistas, essa importante ferramenta democrática nos alinha ao mundo civilizado, onde a sociedade decide e os governantes têm que curvar-se.

O aperfeiçoamento do Estado de direito é a tarefa maior dos que se alinham com a ideia de que deva exprimir no seu seio, mais e mais, as vontades e os interesses das maiorias e que possa retornar para ela mais e mais civilização: o círculo virtuoso que nos conduzirá a condição de assegurar a nossa cidadania direitos, educação, cultura, prosperidade e paz social.

As marchas de hoje, 50 anos depois, nos demonstram que um ciclo da história brasileira se foi.

Parabéns ao Brasil. Não perderam a vida em vão os que tombaram nesta luta.

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Frame "democracia"

... como diz o macaco Simão: Olha o tucanes ai gente!

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Flics

Uma declaração de amor ao

Uma declaração de amor ao Brasil e a democracia,é poético.

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Manoel Teixeira

O Perigo Continua

As forças democráticas não se moveram como deveriam na marcha anti-fascista.

O movimento deveria ter recebido apoio total das forças democráticas para derrotar o quanto antes este movimento retrógrado.

Este ano foram menos de 500 pessoas pedindo intervenção militar, com a mídia apoiando, inclusive canais de televisão como SBT eTV Cultura de São Paulo, não podemos vacilar.

No próximo ano será necessário uma ação muito veemente do campo democrático, inclusive incluindo partidos além do PT.

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500 pessoas?

500 pessoas numa marcha em São Paulo, é melhor ignorar, fazer passeata e marchas anti-fascistas é dar visibilidade ao que não existe.

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Schell

No entanto, a mídia-de-sempre

No entanto, a mídia-de-sempre não está sendo capaz de dar publicidade ao fracasso. Sim, os maiores incentivadores dessa bizarrice pós-50 anos tem nome e endereço: Folha, Estadão, Globo, RBS, Veja et caterva.

E a dita Ana Amélia (desde sempre porta-voz da ditadura), ora senadora (pobre Senado), discursou para as mulheres do PP, em Floripa dizendo que há frustração, desânimo etc e tal: deve ter falado do que ela está sentindo como pré-candidata ao governo do RS, já que não acredito que a gauchada irá votar nela (por tudo que representa de ruim e atrasado. E a RBS, ó, dando a maior força através dos seus veículos (sem que o MPE-RS, diga-se, tome qualquer iniciativa legal).

Então, se a marcha das vivandeiras de quartéis não tenha prosperado: os ditatoriais continuam ativos e, com certeza, bem municiados para balizarem a nossa "democracia".

Não nos enganemos.

 

 

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A direita é viúva da ditadura!

Errado. A medida do compromisso da direita com a democracia não é o fracasso da marcha golpista.

Aqueles que cometeram crimes contra a humanidade durante a ditadura foram julgados? Por que não? Quais interesses sustentam os carniceiros da ditadura impunes?

A marcha dos golpistas revelou a face caricata... mas também a mais verdadeira da direita. Os valores e anseios da nossa "elite" branca e rica foram muito bem representadas.

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Marcelo de Sousa Nascimento

O JN escondeu esse belo ato em SP

A Globo preferiu dar destaque as provocações do grupelho de fascistas no RJ pq será

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aliancaliberal

Que o fracasso da Marcha da

Que o fracasso da Marcha da Família sirva para ensinar algo em termos de consciência política para a direita BY 

Para o bem e para o mal, a Marcha da Família foi um fracasso monumental.

Em SP, a Marcha AntiFascista, organizada pela esquerda, chegou a levar mais pessoas. Não que isso significasse grande coisa, pois foram apenas 800 pessoas da esquerda, contra 700 da direita. Nesse show do bizarro, alguns manifestantes da Marcha da Família tomaram fãs do Metallica por black blocs e os xingaram de “lixo”.

Esse espetáculo deprimente, resultante de uma ingenuidade política monumental por parte de alguns direitistas, deve ter sido encarado pela esquerda como uma oportunidade inigualável. O rótulo “golpista” agora pode ser muito mais facilmente lançado sobre a direita.

Em suas racionalizações, os marchistas diziam: “Ah, mas a esquerda sempre ridiculariza a direita mesmo”. Mas mesmo assim era preciso facilitar? Outros poderiam dizer que “o grito estava entalado na garganta”. Sim, mas a fase em que nos limitamos a falar o que sentimos nos momentos de “desabafo” é a infância.

Eu dizia que a atual Marcha da Família é um tiro no pé de calibre tão alto que merecia até financiamento da esquerda. Em pleno 2014, tivemos pessoas (que alegam ser de direita, e eu acredito) dizendo “não queremos eleições, queremos intervenção” ou “deposição do governo eleito” sem receber um centavo sequer do PT. Ei, pessoal, errar de forma tão espetacular para ajudar o oponente mereceria alguma compensação. Comecem a cobrar financiamentos do PT para a próxima Marcha da Família. Fica a dica.

Esse show de horrores em termo de estratégia política é um sintoma de que ainda temos muito trabalho pela frente em termos de criar uma verdadeira consciência política na direita. Essa consciência política é formada pela aniquilação (na medida do possível) da ingenuidade política, e a construção de um pensamento focado em estratégia política. Em suma, não devemos entrar em campo para fazer ações estrategicamente ruins, mas para tentar obter resultados politicamente justificáveis e viáveis de acordo com o período em que vivemos.

Não é preciso ser muito investigador para chegar a conclusão de que hoje em dia quem usa os frames adequados consegue mais resultados. Da mesma forma, aquele que se mostra mais inclusivo, compassivo e tolerante em seus discursos obtém mais resultados – isso sem precisar ser nenhuma dessas coisas.

É por isso que a esquerda quer censurar o oponente mas fala “em nome da democracia’. Eles estão jogando o jogo político, cuja regras são claras. Horowitz, por parte da direita, e Alinsky, por parte da esquerda, já nos deixaram isso bem claro.

Enquanto a esquerda fala em democracia enquanto pede censura – ver o caso da inominável Jandira Feghali, do PCdoB, querendo censura sobre Rachel Sheherazade por ela ter dito algo que não agrada os criminosos violentos – por que a direita não faz uma manifestação em prol da liberdade de expressão (e, por isso, contra a esquerda) usando Rachel como símbolo? Uma manifestação deste tipo iria posicionar os petistas e seus aliados como censores perante a opinião pública.

Em outras palavras, somos nós, da direita, que temos o direito moral de usar o frame “democracia”, enquanto a esquerda não tem moral para falar em seu nome, principalmente depois das tentativas de implementar o marco governamental da Internet, propor suas leis de mídia e executar ações coordenadas entre vários partidos aliados (PT, PCdoB e PSOL) para censurar a opinião divergente.

Em tempos onde a esquerda luta de forma hercúlea para implementar a ditadura no Brasil, mas sempre usando o frame “queremos aumentar a democracia”, algumas pessoas da direita fizeram uma marcha dizendo “não queremos democracia”. Se isso fosse um filme, com certeza seria um filme trash, que de tão ruim chega a ficar engraçado.

Espero que os marchistas tenham aprendido uma coisa ou duas com a vergonha que passaram.

http://lucianoayan.com/2014/03/23/que-o-fracasso-da-marcha-da-familia-sirva-para-ensinar-algo-em-termos-de-consciencia-politica-para-a-direita/

 

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