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Urariano Mota: “Reconstruí Soledad com guerreiras da luta”

Jornal GGN - A imprensa alternativa de Recife nos anos de chumbo. O caso de assassinato mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil. E o que viu e viveu o autor dessas constatações. Como se estivesse declamando mais uma de suas obras, o jornalista e escritor Urariano Mota contou esses casos com a paixão para quem a luta ainda não terminou.

Confira a entrevista ao Jornal GGN, dividida em duas partes.

Na segunda delas, Uraniano nos absorve na fascinante obra “Soledad no Recife” (Editora Boitempo, 2009). Durante o período mais pesado do poderio militar, o governo de Garrastazu Médici, o livro descreve a passagem da militante paraguaia pela cidade pernambucana. Nela, Soledad Barret foi assassinada, sofrendo a maior traição que a ditadura poderia materializar. Nos jornais, o caso ficou conhecido como a Chacina da Chácara São Bento.

Acompanhe, também, a primeira parte aqui.

Jornal GGN: Abordando a sua obra “Soledad no Recife”. Gostaria de entender a sua proximidade com a personagem principal, Soledad: se deu meramente temporal e geograficamente? Houve algum laço afetivo, de amizade?

Urariano Mota: Essa dúvida que você tem Patricia é uma dúvida que acompanha o livro, que acompanha todos os leitores. Não só, como o primeiro leitor dele, que foi Flávio Aguiar, escritor também, professor aposentado da USP, que foi quem primeiro leu “Soledad no Recife”, depois a própria editora. As pessoas pensam, realmente, que eu namorei Soledad ou tive alguma paixão platônica por ela.

Na verdade, é o seguinte, não estão muito longe da verdade, porque eu tive por Soledad uma aproximação do tempo, na fase, e geográfica, no Recife. Mas eu nunca vi, nunca tive contato com a pessoa dela. Então, PARA reconstruir, essa paixão do narrador por Soledad, eu tive que reconstruir as dezenas de mulheres guerreiras que eu conheci na vida dura, de belíssimas mulheres guerreiras. E que a beleza vinha mais do que faziam do que das formas físicas.

Você sabe que o amor é um sentimento muito subjetivo, então essa subjetividade incluía
aquela expedição, aquele risco, aquele futuro
que apontava nelas e eram o contrário do comum da mulher brasileira, que na época era profundamente passiva dona de casa, então essas mulheres apontavam o futuro. Eram as musas. Aí, eu pude reconstruir a pessoa de Soledad, a partir da minha vivência com outras mulheres, com outras guerreiras da luta.

Agora, estar frente a frente com ela, não.

Jornal GGN: Enquanto corre a leitura, mistura-se muito a realidade com ficção, propositalmente ou não, mas a obra apresenta esse incrédulo dos anos de chumbo, que muito parecia ficção. Diante da constatação do que falou agora, de ter se inspirado nas mulheres da época que lutaram, nós, brasileiros, somos todos um pouco narradores de “Soledad no Recife”?

Urariano Mota: Essa é uma pergunta que eu gostaria, sinceramente, que fosse respondida fundamentalmente pelos leitores. Mas a minha ambição não foi outra. Eu quis realmente deixar todos os jovens brasileiros como narradores de Soledad. Porque o livro transcorre na juventude, no meio jovem que combatia a ditadura, e hoje eu gostaria que os jovens tivessem a reconstrução desse tempo que é fundamental na formação de toda uma geração, na formação da história brasileira. Agora, essa mistura de realidade com ficção, foi absolutamente proposital. Não foi casual. E é um absolutamente de propósito de tal maneira que o leitor, eu sei, é incapaz de separar o que é ficção do que é fato.

Eu imagino que eu tenha conseguido, que é como pele e músculo. Estão juntos, ligados. Agora, nisso não há truque nenhum. Não há truque, nem perícia, nem habilidade. A questão fundamental é a seguinte, Patricia, PARA QUEM leva a sério a literatura, nós só temos um dever: fala a verdade. Fala a verdade. Fala o que não foi falado. Diga o que tu fez, diga o que viveste. É isso. E é assim que se mistura ficção e realidade.

Jornal GGN: Em entrevista a Conceição Lemes, de Viomundo, em 2009, você falou que “o crime contra Soledad é o caso mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil”. Diante de tantos casos, por que você considera esse?

Urariano Mota: A minha compreensão disso é que eu acho que é um caso raro, não só no Brasil, como também no mundo, de um agente duplo que era o cabo Anselmo entregar a própria companheira.

Quando fui pesquisar para escrever “Soledad no Recife” – que foi apoiada em cima da minha vivência e também, naturalmente, de pesquisa – para entender o cabo Anselmo, ele deu uma pista quando disse que adorava literatura policial. Fui pesquisar. E na melhor literatura policial está a história de agentes duplos.

Pude ver que os agentes duplos têm um ponto de honra: eles entregam tudo, só não entregam o próprio sangue. Não entregam a própria esposa e o filho, o resto, não cruza não que eles entregam. E o cabo Anselmo é o caso único que entrega a própria mulher. Com um detalhe: a mulher estava grávida.

Até hoje, ele procura como um amenizante do crime. COMO aquele assassino que diz: eu não matei 50, não, só matei 10, ele quer dizer que Soledad não estava grávida. Mas existem inúmeros depoimentos de pessoas outras que tiveram contato com Soledad e que atestam que estava grávida.

É por isso que eu disse a Conceição Lemes, de Viomundo, que esse era o caso mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil.

Jornal GGN: O que foi de real e inventado na Chacina da Chácara São Bento?

Urariano Mota: A primeira coisa que eu tenho que esclarecer é o seguinte: a maioria das pessoas, quando falam de ficção tem uma ideia equivocada, porque parece que ficção é mentira. Eles não estão sabendo de nada.

O que acontece é que a ficção é fundamentalmente uma investigação do real. Ela é uma prospecção do aprofundamento do real. Então ela avança sobre fatos, coisas, que não estavam ditas ou exploradas ainda.

Agora, tem muito ficcionista que pensa que pode abusar da imaginação, achar que a imaginação é superior à realidade. Balela, esse cara não está sabendo de nada. A REALIDADE é o dom supremo.

Nesse caso da chacina da Chácara São Bento, tudo que eu digo ali [no livro “Soledad no Recife”] é real, é documentado. Ali não está nada inventado. Agora, o inventado entre aspas que eu faço em torno da Chácara São Bento são os dilemas que atravessam a consciência de Anselmo na véspera de entregá-la a morte. Mas para fazer aquilo, eu tive que pesquisar muito o Anselmo. De ver como ele se manifesta, quais são as defesas.

Porque repare bem, ACHO QUE posso usar a palavra aqui, todo filho da puta não quer aparecer como filho da puta para sua própria consciência. Se pegar um ladrão, por exemplo: eu roubo para sustentar a minha família; se pegar um assassino violento, ele diz: ele já tava condenado, por isso que fiz. Procura se justificar à própria consciência. Eu sabendo desse recurso, que é universal, procurei ver que discurso Anselmo deu a sua própria consciência para entregar Soledad. Aí é que está esse dilema.

Aquela festa, no aniversário de Soledad é real. Mas não da maneira como eu narro. Porque eu morava numa favela do Recife, Brasília Teimosa, na época era favela, e lá havia uma igreja que foi gente dessa igreja que deu a festa de aniversário para Soledad, esteve presente, e fotografou Anselmo no dia do aniversário dela. No outro dia, ela estava entregue à repressão. Então, a festa houve, atestada por padres da igreja no Recife. Mas não da maneira como eu narro.

Aquela reunião que existe em Olinda, aquela casa, eu tive que ver qual era a casa ideal para ter havido aquela reunião. Agora, o fato é que Anselmo e Soledad moraram em Olinda e tiveram uma boutique, a quem ele deu o nome de boutique Mafalda. Existe arapuca maior do que isso na ditadura? Com o Quino censurado? Arapuca você sabe o que é. Aquilo era uma armadilha.

Então é essa mistura do real e do inventado. E, mais, no livro talvez eu fui a primeira pessoa a dizer que a Chacina da Chácara São Bento era mentira. ERA UMA farsa, aquilo estava inventado. E dizia mais, que nos jornais da ditadura, você não acredite nem nas datas que estão lá. Quando o jornal aparecia 9 de janeiro, você não sabia, se era 10, se era 8. “Ontem”, esse ontem ninguém sabia o que era, principalmente porque havia segurança previa. O informe que saia da segurança era o mesmo reproduzido em toda a imprensa brasileira.

A Chácara de São Bento houve, agora o fato que eu desmontei foi, primeiro, aquela chácara não existiu, não existiu, como treinamento de guerrilha. Não existiu como ponto em que os militantes foram assassinados. E, recentemente, na Comissão da Verdade de Pernambuco, o ex-major Ferreira declarou, claramente, que o negócio da Granja São Bento foi um teatrinho montado pelo Exército brasileiro.

Jornal GGN: Desde que publicou o livro, em 2009, até hoje, mudou sua observação sobre o cabo Anselmo?

Urariano Mota: Pelo contrário, se aprofundou. Eu tenho acompanhado ele, em depoimentos, como houve no Roda Viva, e outros programas, através de relatos, de um advogado dele que gravou e está no Youtube.

Ele é uma pessoa absolutamente cínica, continua sendo uma pessoa fria, venenosa. O veneno dele não tem limite. NÃO PENSE que o cabo Anselmo parou de trabalhar. Ele continua a trabalhar e tem o apoio de setores a direita, tanto das Forças Armadas, como da polícia, como de empresários. Ele continua a ser sustentado por essa gente.

Ele é profundamente venenoso, que procura atingir a memória de Soledad até entre parentes de Soledad. Acredite se quiser. Plantando informações.

Não pense que a partir daí, ficou mais claro pra mim o seguinte, que Anselmo não é de índole uma pessoa violenta. Não é interessante isso? Eu acredito até que o cabo Anselmo tem horror a barata. Ele não pode ver sangue de barata. Ele é incapaz de puxar o gatilho. Não é ele quem puxa o gatilho, como ele diz muito bem “não fui quem matei”. Ele apenas indicou as pessoas para serem mortas. Eu asseguro a você, se ele levar uma porrada, ele não reage. Agora, ai de quem der uma porrada, entra na agenda dele. Ou seja, como todo covarde, ele não enfrenta, ele é de atacar pelas costas. E temos que nos precaver não é dos corajosos. Os corajosos tem que ser respeitados, os covardes é que são profundamente perigosos.

ELE CONTINUA com a obra dele, porque continua a existir a direita no país. De lá para cá, o sentimento que eu tenho em relação a ele apenas se aprofundou. Ele continua a ser um indivíduo inteligente, venenoso e perigoso.

Jornal GGN: Urariano, você não teria vontade de entrevistá-lo, um dia, cara-a-cara?

Urariano Mota: Muita! Muita! É UM DOS meus sonhos! Muita! Muita vontade de fazer isso. O, meu Deus do céu, como eu gostaria e nunca tive a oportunidade. Eu gostaria de ouvi-lo, eu gostaria de estar cara-a-cara com ele, pra conversar com ele, pra saber dele.

Porque, pra mim que sou escritor, ele continua a ser um objeto de estudo. Sinceramente, vamos e venhamos, é típico da história de toda a literatura. Os grandes personagens terminam sendo os vilões também. Isso desde sempre, até hoje. Ele é um vilão, é um personagem extraordinário à complexidade. Ah, se eu pudesse!

Patricia Faermann: Na obra “Soledad no Recife” você cita em “almas socialistas”. Depois de Os Corações Futuristas, você se considera um jornalista, ou escritor, a serviço de almas socialistas?

Urariano Mota: Eu me considero um escritor a serviço de almas socialistas. Isso eu coloquei em “Soledad no Recife”.

Aí, eu peço licença para observar uma coisa que é meio supersticiosa. Depois dos “Corações Futuristas”, eu tinha recebido uma correspondência de uma jornalista italiana, e eu não sei italiano, e procurei uma pessoa da Sociedade Brasil Itália, pra que traduzisse aquilo.

Quando eu chego lá, eu tinha saído de um câncer, tinha feito cirurgia, a mulher chegou pra mim e disse: “me dê a sua mão”. Eu dei, “o que essa mulher quer com a minha mão?”. Ela começou a olhar, olhar, e disse: “olhe, você tava pensando que ia morrer, você não vai morrer agora. Você ainda tem um grande trabalho pela frente, e seguramente...”

AÍ ELA usou esta expressão, uma expressão feliz e emocionante [Urariano dá uma pausa, comovido]“EXISTEM almas socialistas. Que pedem uma recuperação”.

Foi isso. Eu sou escritor a serviço delas.

Jornal GGN: Durante a pesquisa da sua biografia, vi que você é ateu. Continua sendo ateu, depois dessa situação?

Urariano Mota: Eu continuo a ser ateu, mas sei lá, ÀS VEZES vezes um ateu meio abalado. Eu não digo ateu graças a Deus, mas digo um ateu meio abalado. Inclusive com algumas coisas que, sinceramente, são sem explicação. Não tem explicação.

Por exemplo, nos “Corações Futuristas”, eu coloquei o nome na principal personagem de Cintia. Mas o modelo dela era Mirtes, uma lutadora extraordinária cearense que esteve no Recife. Quando eu mandei o livro para Mirtes, ela leu e depois ligou pra mim de Fortaleza.

Disse pra mim: “De onde foi que você tirou esse nome de Cintia?”. Eu parei assim, e disse “Mirtes, eu não sei, mas eu achei sinceramente que a personagem tinha cara de Cintia, eu não sei por que botei, mas só podia ser Cintia”. Ela falou: “Você não sabia, não? Ninguém lhe disse?”, eu falei “não”.

– CINTIA é o nome de minha primeira filha, que nasceu na clandestinidade, aí em Pernambuco.

Quer dizer, eu fico sem entender, fiquei besta, não é possível isso. Ninguém nunca me falou isso.

Em “Soledad no Recife”, eu coloquei coisas que eu não sabia, não tinha certeza, absoluta, não tinha. Mas como é um trabalho de ficção, eu fui fundo, fui mais longe. E eu não sabia, mas depois se confirmaram. Havia razão naquilo que eu julgava como hipótese, e não era hipótese.

Eu vejo o trabalho de pesquisa como um iceberg, o que aparece é o que está nas páginas, mas existe uma base sustentando embaixo.

Por exemplo, eu tinha visto um relato de uma pessoa que diz que Soledad, um belo dia, ficou ninando o seu filho, cantando em Guarani, cantigas guaranis para bebês. E eu fui atrás, fui atrás, terminei descobrindo um disco de crianças guaranis cantando, invocando os espíritos para a ressurreição dos guerreiros. Eu disse: “isso me fere, isso é para Soledad”.

Aquela imagem das santas paraguaias, que tem uma lua nos pés, mas no caso de Soledad era um feto, aquilo me ocorreu também através de pesquisa e de intuição.

A intuição não é uma coisa só do artista. É uma coisa também da Ciência e de todo o conhecimento humano. E ESSA intuição, sinceramente, a gente não explica. As razões positivistas de causa e efeito ficam sem explicação. Eu não sei, sinceramente, eu não sei.

Jornal GGN: Você acredita que, um dia, essas almas socialistas vão te deixar dormir?

Urariano Mota: Eu creio que as almas socialistas não dormem nunca. O trabalho delas é incansável. É permanente. É de construção e de reconstrução do mundo.

Mas, ENQUANTO houver torturadores impunes, enquanto houver o escárnio, enquanto houver Bolsonaros, essas almas socialistas estão sem descanso.

Eu acho sinceramente, que nós temos o dever. Nós, que levamos tanto tempo pra reconstruir o mundo. Nós temos o dever de dizer: “olha, nós queremos dar uma pausa nessa impunidade, eu quero que vocês reflitam sobre isso”. É assim que eu penso.

***

Ouça a entrevista de Urariano Mota ao Jornal GGN, na íntegra, aqui.

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