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Poemas casas e pássaros

Escreverei poemas que revelem o tormento da carne, talvez. Eis o tempo memorável. Repasso textos largos e lisos como cantos de pássaro. Espécie: golondrina. Indefesa como esse texto entregue regularmente ao jornal, como esse delirar fabuloso de acreditar que a palavra entrega avoares. Escreverei, esperem e os alcanço em céus vermelhos, refratária. Os galhos das árvores ajudam ao descanso e durante o pouso saem faíscas à terra. O pássaro tem seu peso medido pela força e fragilidade da natureza, a natureza dele mesmo e a do mundo exterior. Nem todo galho é ninho resistente, nem todo pisar é manso – como casas sendo arestas para tantos pontos de vista e cheias de gestos terríficos. Pássaros emanam estrondos como árvores frutíferas. E ambos fazem eclodir perfeitas suturas logo derrocadas pelo tempo. As naturezas colidem e o pássaro canta. Invadem casas como poemas que revelam o tormento da carne. Deixar a janela aberta e colocar alpiste na beirada, o pássaro confundido então pode entrar, bater as asas na quina da cozinha, derrapar na sala, ficar acuado, alerta ao perigo de nunca mais deslizar entre céus. Leia mais »

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Plantas e cinzas de cigarro, por Maíra Vasconcelos

Quem disse não ao fracasso? Viveu de acertos moderados e mortiços: aquele vizinho do andar de cima. Desculpe-me a indiscrição, senhor Facundo. Responder sim ao fracasso tem aparência amarela, ao meio-dia está-se revigorado para volver em outra manhã. Novamente, a pensar o fracasso. Conto até dez e a preguiça embola mais um nó em meus ossos. Melhoro a minha palavra em zero vírgula oito por cento, apenas. Então escrevo praticamente como ontem, mais uma vez. Vinte e quatro horas de reclusão do mundo e nenhum salto, o mesmo fracasso cutucando com unhas a minha janela. Qual será o tempo da melhor palavra? Olho o vizinho na tentativa de ter a cidade mais próxima. Qual cidade? Não cheguei. Leia mais »

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Outros espelhos, por Maíra Vasconcelos

Outros espelhos, por Maíra Vasconcelos

Belo Horizonte, maio de 2017.

Aprendi a acender velas. Um pouco sozinha, aprendi a ter o olho que vê a chama mais alta da vela. Para tanto, um olho cavalar. O olho que se direciona impávido ao mundo, cria uma personagem à espreita na sombra de uma árvore. O olhar que aprende a ter plantas e a cultivá-las, preservar harmoniosamente os verdes vivos até o corpo cantar. Como se plantas irrigassem a vida sólida, durante o café, após o café.

Junto a plantas não há solidão, pois sobre seus reinos talvez não exista completa apreensão. Será possível entender as plantas desde a raiz até sua última ponta de luz? Velas são mais acessíveis. Olhar fixamente a velas depende da introspecção que não teme a si mesma e mergulha. Ter cumplicidade com velas é um alívio. Mas toda vela puxa a solidão, aviso. E as plantas, não. Pode ser inquietante não se adaptar à interioridade que a vela exige. É como não saber encaixar-se dentro de si mesmo. Ao olhar a chama da vela o corpo se expande no interior, revela-se novo naquilo que não se vê, mas se sente.

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Gritos engavetados, por Maíra Vasconcelos

Gritos engavetados, por Maíra Vasconcelos

Facilitara o peito ao grito, pois a garganta se encheu encheu encheu. Já não resta nenhum grito? Está tudo pronto – quase, não fosse a existência flutuante do nada. Ficou fácil, talvez talvez. O grito cansado, como se na esquina pendurasse sapatos que por agora não mais irão caminhar. Os sapatos no cabide para quem aprecia o descanso. Ficou bonito? Como cenário de teatro: reparem. E não apenas os sapatos, aquela roupa tampouco seguirá. Outro cabide, por favor. Adeus. Desfiz-me aparentemente de quase tudo – quase. Apenas para gritar, pois a garganta se encheu encheu encheu.

Quando poucas coisas estão a servir, tem-se a ausência o ar frio o desmantelo. Após estabelecidos, finca-se o corpo mais ereto e saudável, como maçãs precisadas de tão pouco se já são vermelhas. Muito pouco seguirá, quando se necessita quase nada. Entra o sol em meus olhos, em meu peito: essas poucas coisas estão a caber. Ou seja, quase nada. Sapatos e roupas viraram enfeite teatral – quanto você calça?, uma pergunta íntima. O corpo parece mais apertado ou o mundo cada vez mais encostado em nós. 

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Mulheres de Bergman ou a imaginação criadora, por Maíra Vasconcelos

Mulheres de Bergman ou a imaginação criadora

por Maíra Vasconcelos

Como se quase se aproximara a uma personagem de Bergman. Bastou olhar ao espelho com olhos de sonífera e então era ela mesma. tchan. Achou assim o reflexo do extremo absurdo, aquele tormento criador. O tormento de toda criação artística, mas que somente acontece na puríssima calma e sublimação do tempo. Depois caminharia pelas lareiras, logo, pelas escadas, separadamente. Primeiro a agitada quentura, depois o lento desgarro do sacrifício. A língua queima queima queima, mas ninguém para de falar falar falar – claro, meus estimados, é preciso buscar o desejo. E estar em movimento é o mínimo do ser. tchan. E se o corpo padece do tédio: banal. Afinal, quem se propõe a uma prece íntima?, três horas de interioridade absoluta para iniciar e terminar o dia, e o beijo na testa de um amor.

Os pés cansados pela tensão e as pernas amolecidas pelas subidas. E a vida é um pouco isso também: entre lareiras e escadas, diz a célebre criação metafórica. Mas quando se tem prazer o mundo é contemplado. Sentar-se frente às montanhas, um pouco de céu, a visão sem limites: o prazer todo adentro como se fosse o corpo do outro, e não é, é apenas o inalcançável fazendo brisa na gente. Essa natureza de alívios, e depois tudo isso vai embora. Basta levantar-se e despedir-se da paisagem que somente é estática na imaginação, porque o corpo, de novo, é aquele em movimento. A paisagem fica, o corpo vai. ADEUS.

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A comoção de um homem, por Maíra Vasconcelos

A comoção de um homem, por Maíra Vasconcelos

Ele tinha olhos conclusivos demais e desfeitos do simples ato de apenas olhar. Como se apenas olhar já não bastasse, como se pouco fosse isso pelo qual o olho se faz útil diante de outro homem como ele mesmo. Não admitira a semelhança e tivera que ir além, até perfurar alguma coisa que permitisse quase definir a alma daquele outro. Aquele outro homem que, arrogantemente, ele nunca o havia visto antes daquele nascer do sol.

Seus olhos recusavam-se a essa ignorância que nutre a busca por tantas dúvidas. Aquela ignorância que admitida permite conhecer melhor uma existência no mundo. Ele perdera qualquer interrogativa e estava possuído de afirmações. Porque sendo aquele outro homem tão pobre e despossuído de tudo, era assim mais fácil sabê-lo e atravessá-lo em sua vida. Seu cheiro rançoso o confundira, levemente, e apenas por alguns segundos vacilara numa mudança de entendimento. Mas estava possuído demais por certezas inabaláveis. Ele sabia que aquele homem não prestava.

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Qual tempo, por Maíra Vasconcelos

Qual tempo, por Maíra Vasconcelos

A mulher tem no corpo o sangue pisado. Depois, quando um pouco da mulher se esvai, é o sangue pisado que para de fruir, o sangue deixa de sair devagar e seca um pouco daquilo que era nosso choque com o mundo. No sangue, a proteção e a unicidade. Essa diferença fria e palpitante do ser: quem é você se não tem na vida do corpo o sangue pisado? O outro chegando para atiçar a diferença, seja bem-vindo, muito prazer. Amanhã nos deitamos mulheres com sangue ou sem sangue? Dois sangues juntos? É, juntas também pode. Minha vizinha disse que começou a ter mais sangue agora, depois dos quarenta. Vixi, mas que pena, eu disse, fiquei assim com dó para disfarçar o temor. Leia mais »

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A ressaca, por Maíra Vasconcelos

A ressaca

por Maíra Vasconcelos

Pausa. O momento da ressaca após tantas palavras. A ressaca bem-posta à mesa em plena hora do chá, num domingo em fim de tarde. E logo após tanto chá, o dia quase acabou. Mas permaneço avidamente desperta, às vinte e três horas e quatro minutos. A escrever, mais uma vez. Pausa. O chá um pouco forte, conhecem? A camomila após passada em água quente se parece a um monte de abelha morta amontoada e quietinha. Assim o chá de camomila se parece à morte da abelha em mim.

Apesar da insistente grande ressaca, melhor sobrevivo após o chá. Por ocasião dessa ressaca, tomarei quantos chás de camomila! Exclamação. Assim mato as abelhas que, talvez, não devam mais me pertencer. Quiçá, as tenha em demasia e devo ater-me ao trabalho de espantá-las. Sai, abelha, vá. Quantas abelhas podem vagar em um só corpo? Quantos animais podem representar a nossa alma?

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Como intervalos na música

Há nada aqui. Nada mais. Apenas considerações sobre a palavra e algumas flores. Pode ser este o fim das crônicas no jornal. 1,2,3.. voltarei amanhã. Há nada aqui. Apenas considerações detalhadas sobre como recolher muitas flores e tê-las em mãos. Poderia nomear cada flor, mas isso cansa tanto. Repito margaridas, apenas. Alguém sabe sobre o cansaço das flores? E o cansaço de se escrever entre flores? Acontece, e isso cansa enormemente toda minha alma.

Há nada aqui. O céu caiu durinho feito cadáver após tantas perguntas. E nunca qualquer resposta considerável. Sim. Tudo aqui pode ser desconsiderado e a vida no mundo prosseguirá. Essas palavras e sua inutilidade plena. O que escrevo é a desconsideração absoluta de todo padrão para se viver sem regras. Não nos engessemos tanto porque todo corpo duro se parece a morte. A paralisia do corpo em vida expõe o não poético. E há nada aqui. Deixem-me em paz. Tudo bem, há apenas alguns elementos como mar, Deus, rios, cores e tintas, bichos, essas coisas que ora estão, ora desaparecem. Assim, como música no rádio.

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A poesia de cada um, por Maíra Vasconcelos

A poesia de cada um

por Maíra Vasconcelos

Cada palavra grita como a indecente alegria efêmera de um pássaro. Assim, estou a preparar todos os dias a sua livre vestimenta. Essa vozinha que se  es ga ni ça  para ser escutada. E o mundo um pouco surdo um pouco sujinho até os tímpanos comprometido. E cada palavra grita como pássaros puros e desejosos. E ao olhar este cenário fico tão estarrecida.

Quando no animal há algo de frio por tão disciplinado, muito também de inconsciente e impensado, e tudo isso se pareceria a nós mesmos num estágio afirmativo da humanidade prestativa. Aquela parte do humano que é para todos um fruto um fruto. Quando tudo isso no animal é a óbvia e ditada natural sobrevivência. Pois o animal não para de dar frutos, esse fruto que em nós pode ser a sofrida construção reconstrução, o polimento do humano que não é pronto. Mais uma vez, nunca sorridentes, verdadeiramente – há sorrisos que são como objeto à venda em lojas de fantasia; que bela mascarita, meu senhor, ótima para horas matinais. Enquanto há sorrisos que emanam o prazer pelo voo pelo desejo pelo estalo pulsativo do outro – oh, tu, pássaro de alegrias! Exclamação.

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a mãe

pergunto até quando 
e depois de novo tranço,
na cozinha não há outra conversa, sempre o dia de hoje
fervendo como pedaço de boi na panela.

passo desfiando um-a-um, o dedo até coça de espera
pelo próximo assunto que irá fazer a janela se abrir.
tranço tudo há mais de dez anos, menino doido
acha que sua mãe nasceu na cidade que vem pronta?

a sala também é lugar bom, mas às vezes não pertenço
seu pai ocupa o sofá cheio de olho maior que a barriga,
depois de novo tranço, lá na cozinha mesmo
não tem jeito, aprendi foi a cortar costela de boi.

vejo pedaço sangrando igual em filme de arte, 
que sangra mas é bonito porque significa vida esvaindo-se
espraiando-se, e a janela escancarada agora faz até gosto
nem parece que a cozinha cheira a boi mortinho da silva.

se penso que amanhã existe, faço só rezar e rezar no cotovelo
saio da cozinha, paro de trançar, ajoelho lá no pé da cama. 
o grito do seu pai parece eco do escuro, até me cega e bambeio,
vadia disse ser meu nome, no meio da reza, mas sorte você dormia. Leia mais »

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Ossos de flores, por Maíra Vasconcelos

Ossos de flores, por Maíra Vasconcelos

Quantos corpos carregamos em uma só vida? Ontem, me esqueci que detinha a posse de um corpo. Aquele corpo que atravessou tantas ruas. Já me despedi de um corpo que também era eu mesma. E aquela voz guardada para um corpo que não há mais. Aquela voz que para sempre em mim se calou. Sim. A despedida de uma voz tão espaçosa que não cabia de tão esfomeada.

Agora escrevo, mais uma vez. Às sete horas da manhã. Uso essa vozinha e o corpo desnudo diante do mundo. Um corpo visto ao amarelo, repetidamente visto a cada gesto do sol. Podem ver? Numa mudança de pele, de quartos fechados, de tantas cadeiras. Numa mudança de cidade, essa cidade que ainda não sei. Leia mais »

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À boa gula, por Maíra Vasconcelos

Imagem - Dreamstime

À boa gula, por Maíra Vasconcelos

Respiro. Escrevo novamente tudo a que me proponho. Uma história, uma mulher-animal desnuda exposta ao sol ao amarelo. Com tantas flores. Tomo nota de cada detalhe e desafio o mundo em cada palavra. Bebo flores de um sobral. Tomo nota de cada detalhe e absorvo toda pergunta a ser escrita. Tantas perguntas ainda sem respostas cabíveis, respostas que são comodidades frívolas, tantas vezes. Respostas que nessa história nunca ganham fôlego. Respiro. Entre flores e nodosas perguntas, todas elas em minhas mãos. Quem atira essas flores ao chão?

E o embaraço de nunca saber essa história, realmente. Essa incerteza constante como a de se viver cada dia. Já viram a luz? Talvez durante o inverno aquela primeira faísca de luz. Bebo flores de um sobral. tim-tim. Enquanto permanece a primavera. Todos os dias. E todas as estações bem juntas porque o tempo foi devastado. Adentro às variadas estações e estampo possíveis luzes – luzes de Anita, luzes de Seurat. Ah, esses tantos cansaços na solidão deste quarto.

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Flores costumeiras, por Maíra Vasconcelos

O que seriam flores costumeiras? Entre estações indefinidas, pergunto-me. E desde a primeira palavra tenho flores em minhas mãos. Detida pela obediência e olhos sempre tão abertos. O olho cavalar. Esses olhos encharcados pelo mundo. Para ter e falar uma história que ainda não sei. Talvez, a história à espera de um novo momento, apenas. Quando virá este inusitado momento?

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Grande efeito da alma, por Maíra Vasconcelos

Imagem - grafitte David Walker

Grande efeito da alma, por Maíra Vasconcelos

Aquela vida em que digo ter sido. E depois essa outra vida. Admitam a mistura a alternância. Qual a proporção? Um pouco de cada, um pouco. Quantas vidas se misturam em um só corpo? Um tempo uma vida, um tempo uma vida. Quais tempos são vividos em uma vida? O passado entranhado, o passado misturado àquele tempo inapreensível. Amanhã. O tempo como uma falácia seriamente saborosa. E assim a necessidade da mentira, a mentira e a fantasia, a mentira e a fantasia. Admitam a mistura a alternância. Pelo grande efeito da alma, esta alma que requer a luz do sol. O amarelo. Todos os dias.

Vivo de elaborações fantasiosas: há tantas flores no teto deste quarto. Sim. Neste quarto tão maciço como o tranco de uma árvore. Escrevo, mais uma vez, escrevo. E a mente cria apenas quando em estado profundo profundo. Recaio sozinha pelas profundezas e nem vejo. Caí. Pode ser bonito e sombrio ver-se brotar: não ter medo da própria floração. Pelo grande efeito da alma, essa alma que requer fantasias rechonchudas. Posso escavar um enorme chão e ainda manter tantas flores bem debaixo dos meus pés. Estando ainda neste quarto, tão quieta e mansa nesta cadeira. A escrever. Todos os dias.

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Documentos

A Formalidade dum Absurdo

Às vezes, como está a acontecer agora, sinto-me perdida com as palavras, com a escritura, com os modos da escrita que não a detenho, senão ela retém-me a mim. Fico aturdida por não saber como será, como virão as palavras de amanhã, tendo que aceitar a forma como saem e o modo como são repassadas ao claro-estar. Aparecendo como são! Mas queria poder fazer um pedido: dá-me a mim a minha vida, porque justo é quando somos donos do nosso pleno viver. Não posso ser pessoa dependente daquilo que não sei como administrar exatamente e acertadamente, sendo pega de surpresa constantemente. Quando as pessoas escolhem do que depender, e dependem alegremente daquilo que querem. Eu fui caindo na escritura sem saber onde estava indo, e continuo sem saber, e já é tarde para o abandono. Isso é uma constatação: estou no ponto em que não se larga mais as mãos da escrita, ela foi apoderando-se dos dedos dos ossos e virou segunda pele. E não se mata aquilo que é vida. Porque o escrever é um desenvolver de processo tão antigo e alargado no tempo, um estado sem trégua nem remanso. Leia mais »

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