newsletter

Assinar
imagem de Renato Souza
Profissão Professor
Formação Dr. Administração - UFRGS

Conteúdos do usuário

Postagens

O suplício da democracia nas entranhas do poder

(Renato Santos de Souza)

“Há somente um mundo, e este é falso, cruel, contraditório, enganoso, sem sentido. Um tal mundo é o mundo verdadeiro. Precisamos da mentira para triunfar sobre esta realidade, esta ‘verdade’, isto é, para viver. A metafísica, a moral, a religião, a ciência, são como diferentes formas de mentira: com seu auxílio, acredita-se na vida”.

Nietzsche tinha razão, um século e tanto atrás, por isto ele nasceu póstumo. Ele não falava da Europa vitoriana, falava do Brasil atual, sem saber.

Durante algum tempo, acreditamos num ideal de democracia, uma mentira metafísica a nós contada por filósofos iluministas, um regime político e social fundado nas ideias racionais de liberdade, igualdade e humanidade, nesta ordem. Todos os seres humanos são igualmente livres, senhores da própria vontade, mesmo quando ela contraria os instintos mais primitivos. Por isto, igualdade e liberdade nos irmanam, e por isto somos humanos.

Era a jovem “humanidade” democrática contra a decadente “divinidade” e “animalidade” de antanho, fundadoras da aristocracia e da barbárie. Leia mais »

Média: 5 (1 voto)

SOBRE AS FALAS DO LULA E A ARTE LIBERAL DA SEPARAÇÃO

O momento é rude, e requer pressa. Por isto não vou me alongar (muito), como em outras vezes. Vou emitir apenas algumas opiniões sobre os vazamentos e o teor das falas do Lula na noite de ontem.

Primeiro, me parece que há uma ilegalidade flagrante no vazamento das escutas telefônicas, por um lado, porque envolve a Presidência da República, que está fora da jurisdição do Juiz Sérgio Moro, por outro, porque exatamente esta conversa foi feita após o próprio juiz ter determinado o encerramento das escutas. Mas este é um assunto jurídico legal, para o Ministro da Justiça, a OAB, o STF e o CNJ. Leia mais »

Sem votos

A essência oculta da crise política, por Renato S. de Souza

“As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam, porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões...”; assim cantou Elis Regina em 1979, da letra de Tunai e Sérgio Natureza

A essência oculta da crise política

por Renato Santos de Souza

“As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam, porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões...”; assim cantou Elis Regina em 1979, da letra de Tunai e Sérgio Natureza

Eis a crise política atual. Por trás da fumaça aparente do fogo de ideologias em cheque, um braseiro sutil e insinuante, porém sem as labaredas da paixão, queima a vegetação rasteira, e junto com ela a seiva e a teia de tudo o que alimenta e sustenta a grande floresta humana. No final, se ele houver, perderemos todos.

Boa parte desta crise política é feita de equívocos, à direita e à esquerda. Equívocos de interpretação, de posição e de ação política.

Parte da esquerda governista, apoiando-se quase exclusivamente na retórica da luta de classes, aposta na ideia de que o objetivo da oposição, da mídia, e do poder judiciário/policial envolvido na apuração da corrupção no Brasil, é destruir o seu projeto político popular.

Parte da direita opositora, tirando proveito do enfraquecimento do Governo e dos seus partidos, aposta na narrativa da cruzada anticorrupção oferecida pela mídia e pelo poder judiciário/policial – mesmo não tendo nenhuma credencial para tal -, por pura e fugaz conveniência.

A consequência disto é uma visão dualista, maniqueísta e simplista da realidade atual, que divide o Brasil entre nós e eles, entre a planície e o morro, entre a elite e o povo, entre os corruptos e os moralmente dignos, entre os miseráveis sociais que saíram da pobreza nos últimos anos e os miseráveis mentais que querem devolvê-los para lá.

É verdade que estas divisões existem e são perturbadoras, mas não são elas que comandam o espetáculo político atualmente. A corrupção é só um pretexto útil para as forças policiais e judiciárias empoderarem-se, e para a oposição e as corporações de mídia minarem o Governo atual e seu partido. E a luta de classes é apenas uma dentre tantas lutas que se travam nas complexas sociedades modernas, e certamente não é ela que protagoniza a crise política atual. A socialite que bate panela contra a lei das empregadas domésticas não é agente da crise, é só um produto patético das narrativas criadas para alimentá-la.

Leia mais »

Média: 4.1 (12 votos)

O Tao da Democracia, por Renato Santos de Souza

Por Renato Santos de Souza

Na antiga filosofia taoista chinesa, o Tao é uma realidade última e indefinível. Sinteticamente, é a unidade, o que tudo abarca e em tudo se completa. Mas também é a dinâmica, o movimento, a mudança incessante e de natureza cíclica. Nas palavras de Lao Tzu, o retorno é o movimento do Tao, e progredir significa retroceder.

Fritjof Capra, no livro parafraseado no título deste texto, afirma que todos os movimentos da natureza e das situações humanas exibem características cíclicas oscilantes, de expansão e contração. Para ele, os chineses creem que sempre que uma situação se desenvolve até ao seu extremo, está destinada a encontrar o seu oposto. Esta crença básica fornece-lhes, em tempos de desgraça e crise, coragem e perseverança, bem como modéstia e cautela nos tempos de bonança e sucesso.

Tenho pensado muito sobre a realidade política que vivemos no Brasil atualmente, e lamentado o extremismo autodestrutivo a que chegamos, e que se tem visto na violência de algumas manifestações de rua, nas ofensas em restaurantes, na virulência das redes sociais, nas manobras tendenciosas de vários setores para mudar decisões de urna, e por aí afora.

Não escrevo este texto para pregar a iluminação e a parcimônia orientais às mentes conturbadas que se nos apresentam diariamente, mas para buscar possibilidades de interpretações integradoras junto à sabedoria chinesa, ante um ambiente de franca degenerescência do espírito humano em nosso país. Escrevo para buscar equilíbrio em tempos de cólera, se isto for possível.

O taoismo, a meu ver – e escrevo aqui ciente de que conheço muito pouco a respeito dele – propõe alguns enunciados muito férteis para uma interpretação minimamente equilibrada do momento atual da política e da democracia brasileira, e é isto que eu pretendo fazer. Espero que os taoistas não se ofendam com minhas analogias, e relevem as limitações de compreensão que tenho de uma cultura que sequer a nossa língua ocidental, tão esquadrinhada semântica e sintaticamente, consegue traduzir em sua riqueza e complexidade.

Leia mais »

Média: 5 (5 votos)

Por que só investir na educação básica não é suficiente

O problema da direção da causalidade é muitas vezes uma armadilha para o pensamento. E em política pública, isto pode ser fatal. Se não se sabe o que influi no que, o que causa o que, não se pode realizar políticas com um mínimo senso de consequência, e ainda se fica sujeito a toda a sorte de críticas.

Ultimamente, o Brasil foi tomado por um discurso político que coloca a educação básica no centro da redenção nacional, como se só a educação pudesse reduzir as desigualdades sociais e promover a justiça social. Ou seja, a (des)educação é a “causa”, as desigualdades, a violência e as injustiças sociais são as consequências. Então, provendo mais educação e educação de melhor qualidade, promover-se-ia igualdade e justiça social.

Daí vem deduções lógicas: como as camadas mais pobres da população só tem acesso às escolas públicas, e a educação pública brasileira é de péssima qualidade, os pobres não conseguem ascender socialmente, não conseguem entrar nos cursos universitários mais concorridos, nem nas melhores universidades, nem nos melhores empregos. E continuam pobres, criando filhos que reproduzirão a sua pobreza e as desigualdades sociais no país. Leia mais »

Sem votos

Sobre Jürgen Habermas e o Brasil de 2015

O tolo ignora o “todo” ou supõe o todo a partir da sua própria parte. O cínico conhece o todo, mas desconsidera-o por interesse ou conveniência; o ingênuo sonha ser possível desprezar o todo, ou mudá-lo apenas a partir das partes, por ato de pura vontade.

Para fazer ou pensar a política sem a superficialidade dos tolos, a falsidade dos cínicos ou o voluntarismo dos ingênuos, é preciso entender os limites da própria política e das ações dos governos face à totalidade em que estão inseridos.

O filósofo alemão Jürgen Habermas, um dos mais importantes intelectuais e humanistas do século XX, disse certa vez, em entrevista à Bárbara Freitag e Sérgio Pulo Rouanet, nos idos anos de 1995: “devo confessar que, desde 1989, lamentei pela primeira vez não ser economista”. Para ele, com o processo de globalização da produção e do mercado de capitais, “o Estado Nacional, visivelmente, já não controla as condições de produção da sua própria economia. Temos hoje uma globalização do mercado de capitais que afeta as condições de produção, provocando uma generalização e globalização da própria produção, cujas condições perderam seu caráter nacional” (Folha de São Paulo, 30/04/1995).

Leia mais »

Média: 3.4 (13 votos)

15 de março de 2015: a ficção da vida real

Por Renato Souza

Às vezes custo a acreditar no que vejo e ouço vindo das manifestações do dia 15; parecem obra de ficção.

Parecem mesmo, ficção científica! Senão vejamos.

No delicioso filme oitentista De volta Para o Futuro, o viajante do tempo Martin MacFly viaja ao passado, à época em que seus pais se conheceram, e interfere desastrosamente no evento em que eles deveriam se encontrar, correndo o risco de provocar um “paradoxo temporal”, paradoxo lógico segundo o qual uma intervenção no passado altera o futuro e, portanto, altera a própria condição futura daquele que viajou ao passado, fazendo com que a viagem mesma não pudesse existir. E não existindo, ele não poderia ter voltado no tempo para alterar o passado.

Por isto, viagens no tempo são refutadas do ponto de vista lógico. O tempo só anda para frente; ou, como disse aquele famoso alemão barbudo, a história só se repete como tragédia ou como farsa. Leia mais »

Média: 4.5 (39 votos)

SOS Democracia: política e as convenções democráticas

Existem basicamente duas formas de se pensar e definir a atividade política em sociedade, e por consequência, a autoridade política.

Na primeira, a política é vista como a mobilização de recursos de poder visando o domínio de um determinado campo de ação, por uma pessoa, grupo ou classe social. O objetivo é impor à sociedade determinados fins, que representam as ideias, interesses e valores destes indivíduos ou grupos. Neste caso, a autoridade política é conquistada pela concentração de recursos de poder, sejam eles quais forem, e é uma consequência do poder: ou seja, a autoridade é uma “imposição”, pois ela é imposta poder.

Segundo esta visão, a autoridade política não se sustenta necessariamente na aceitação ou no consentimento em relação a ela: ela se sustenta no poder que detém, não raramente mediante a força, a coerção ou a alienação dos demais.

Na segunda forma, a política é vista como uma valorosa e indispensável atividade social, responsável por viabilizar a vida coletiva e a realização de propósitos comuns em sociedades que sejam plurais, formadas por pessoas e grupos com interesses, ideias e valores diferentes. Com origem em Aristóteles, para quem o objetivo da política era o bem comum e a produção da felicidade, esta visão é retomada por autores modernos como Hannah Arendt, que via a política como a lida da convivência entre os diferentes. Política é a capacidade de agir em concerto em condições de pluralidade humana, dizia ela.

Leia mais »

Média: 5 (5 votos)

O Taylorismo educacional no discurso eleitoral

Autor: 

Em 1911, o engenheiro americano Frederich Taylor publicou uma obra que mudaria a história do capitalismo: Princípios de Administração Científica. Nela, contra a gestão empirista e amadorista das fábricas de então, ele propôs princípios científicos de administração: seleção científica dos trabalhadores, planejamento científico das tarefas usando o estudo de tempos e movimentos, treinamento dos trabalhadores e, vejam só que atual, pagamento por produtividade.

Foi o germe de uma revolução. No campo administrativo, a aplicação de suas técnicas elevou a produtividade do trabalho nas fabricas de forma sem precedentes desde a revolução industrial; no campo econômico e político, porém, gerou desemprego, intensificação do trabalho e “robotização” do trabalhador, o que levou à exacerbação da tensão entre sindicatos e empresas, e por certo apressou as revoluções socialistas em curso.

Leia mais »

Média: 4.3 (8 votos)

Mais sobre o Banco Central Independente da Marina

(por Renato Santos de Souza)

Assim que a candidata Marina Silva lançou seu programa de Governo, eu escrevi aqui neste mesmo jornal o artigo “O verdadeiro sentido do Banco Central independente da Marina” (http://jornalggn.com.br/fora-pauta/o-verdadeiro-sentido-do-banco-central...). Nem imaginava que o tema esquentaria tanto e que se tornaria um dos principais divisores de água entre as candidaturas de Dilma e Marina.

O artigo recebeu muitos comentários, favoráveis e críticos, como convém ao bom debate. Pelo valor que a discussão tem apresentado, e como retorno aos comentários recebidos, resolvi escrever esta continuação, para esclarecer questões que não deixei claras anteriormente, e também para responder a algumas críticas recebidas.

Inicialmente, gostaria de justificar porque usei o termo “independência” e não “autonomia operacional” do Banco Central, termo que seria mais correto segundo alguns comentários. Leia mais »

Média: 4.7 (14 votos)

O verdadeiro sentido do Banco Central independente de Marina

Por Renato Santos de Souza

A “nova política” da Marina Silva é, na verdade, tão velha quanto Adam Smith.

Está lá, no seu Programa de Governo!

Nem eu acreditava nisto, pensei que seria mais um destes programas cheios de boas intenções e de valores nobres, mas vazio de opções e de propostas, ou então cheio de propostas feitas para um outro mundo que não o nosso, como sugere a ideologia da Rede.

Mas não, o Programa da candidata deixou claro que ela é a mais nova versão do neoliberalismo monetarista: submissão dos governos aos interesses do mercado financeiro, associado à "metáfora" da sustentabilidade para travar investimentos produtivos brasileiros, favorecendo os interesses estrangeiros de quem quer ocupar o nosso mercado e ocupar mercados sobre os quais o Brasil tem avançado.

Melhor para os bancos e para os interesses estrangeiros.

O exemplo mais simbólico desta ideologia conservadora é a tal "independência do Banco Central", a mais nova pregação da presidenciável.

"Entendemos que era preciso dar um sinal forte, dizendo que a autonomia de fato, que agora estava sendo desacreditada, precisava agora ser institucionalizada" disse ela recentemente, sobre a proposta que consta no seu Plano de Governo.

Mas o que é isto, que no discurso fica tão bonito e dá até uma certa autoridade técnica para a candidata: independência do Banco Central? E o que ela realmente representa?

Bem, vai aqui uma rápida explicação, rememorando os meus tempos de professor de economia, para aqueles que ainda flutuam sobre o tema sem conhecê-lo por dentro.

Leia mais »

Média: 4.6 (52 votos)

POR QUE A MÍDIA E AS ELITES NÃO VÃO APOIAR MARINA ATÉ O FIM

Por Renato Santos de Souza

Minha aposta, embora reconhecidamente precipitada, contraria muito do que eu tenho lido e ouvido por aí (e por aqui) sobre o tal “fator Marina”. Leia mais »

Média: 5 (1 voto)

O Poder, o Direito e a Democracia

Os rumores (anti)democráticos da Arena Corinthians (e agora também do Maracanã)

Por Renato Santos de Souza

 

Aquele era só mais um destes filmes excitantes sobre os tribunais norte americanos: intrigas sub-reptícias, conspirações políticas e exibições de poder, estas coisas que a política norte americana sabe protagonizar tão bem. Leia mais »

Sem votos

Normose, a doença da "normalidade" no mundo acadêmico

Autor: 

Doença sempre foi algo associado à anormalidade, à disfunção, a tudo aquilo que foge ao funcionamento regular. Na área médica, a doença é identificada por sintomas específicos que afetam o ser vivo, alterando o seu estado normal de saúde. A saúde, por sua vez, identifica-se como sendo o estado de normalidade de funcionamento do organismo. Leia mais »

Média: 4.6 (25 votos)

A GAIOLA DE AÇO

Por: Renato Santos de Souza - UFSM/RS

- “ELA sabe o caminho e, mais, sabe os desdobramentos das coisas”

Leia mais »

Média: 5 (3 votos)

Fotos

Sem colaborações até o momento.

Vídeos

Sem colaborações até o momento.

Documentos

Sem colaborações até o momento.

Áudio

Sem colaborações até o momento.

Comentários

18/03/2016 - 18:19

Meu caro, vou falar mesmo que você não queira ouvir.

Imagine o tamanho do Brasi, do Oiapoque ao Chui, com serviços federais entrando em cada rincão, Banco do Brasil, Correios, etc. Agora imagine o número de secretarias de Estado, órgãos federais, empresas estatais, institutos, universidades, centros de pesquisas, hospitais, postos de saúde, aeroportos federais, etc. etc. etc.

É sério, você imagina mesmo que o Presidente da República sabe o que se faz nas entranhas de cada um destes órgãos, como se comporta cada agente público federal dos milhares de cargos existentes Brasil afora? Principalmente pensando que são pessoas inteligentes, e que dissimulam seus crimes?

E você acha mesmo que o Presidente tem que ser responsabilizado, sem qualquer prova do seu envolvimento, pelos crimes que cada um deles comete? Como se o dono mundial da Wall Mart fosse responsabilizado pelo desvio perpetrado pelo gerente da unidade paulista do Big.

Ou você finge que acredita nisto só porque este é o caminho mais fácil para tirar de circulação um cara de quem você não gosta?

Se for a primeira alternativa, então você é, digamos, cognitivamente limitado, prá usar um termo pouco ofensivo.

Se for a segunda, bem, aí você é moralmente deplorável, cínico mesmo.

Você escolhe, ou me apresente uma alternativa plausível. Prometo que eu vou ler.

Vi que você se intitula aliança liberal, mas parece deplorar o liberalismo, pois este teu juiz está corrompendo todos os princípios das democracias liberais. Um deles é o respeito às leis e às instituições, e a separação dos poderes, o que significa que o judiciário não faz política. Se fosse nos EUA, por exemplo, e ele tivesse divulgado a gravação de uma conversa privada do Obama, do Bush ou do Clinton, teria amanhecido em Guantanamo. 

26/02/2016 - 15:41

Jair, obrigado pelo comentário. 

Esclarecendo, o texto não visa uma defesa do Parlamentarismo, tampouco acho que o parlamentarismo seria uma solução para a crise atual. Fiz apenas uma análise, em regimes parlamentaristas este tipo de crise política em que estamos vivendo provavelmente seria abreviada. Mas aqui, no nosso tipo de sistema, as disputas majoritárias impedem que questões relativas à concertação entre a estrutura do Estado e do Governo sejam encaminhadas pelo parlamento. Tampouco este tipo de solução vinda, do executivo, vingaria no Congresso. Bem, mas este tema entrou de forma muito periférica no meu texto, mas sem qualquer pretenção de discuti-lo. 

Porém, é preciso entender, para enchergar o fenômeno da crise de forma abrangente, que esta crise tem a estrutura que tem também em função do nosso sistema político presidencialista, o que não significa que mudar o sistema seria a solução.

Eu realmente acho o Parlamentarismo um sistema político superior em determinadas circunstâncias, mas muito limitado em outras. Ele é melhor para garantir a estabilidade política, e com isto, inclusive, poupar o país de crises econômicas causadas por este tipo de crise e pela impotência dos governos, como a que estamos vivendo agora. Por outro lado, num país em que urgem políticas agressivas nas áreas sociais, econômicas, infraestruturais, educacionais, e tantas outras como o nosso, o Parlamentarismo seria um atraso. Além disso, ele exige uma cultura política e estrutura partidária que estamos longe de ter.

Então, certamente este não é o caso para agora.

 

11/05/2015 - 17:47

Ricardo

Não costumo responder aos que criticam o que escrevo, por entender que gostar ou não, concordar ou não, achar fraco ou forte o que escrevi faz parte do jogo, e deve ser um pressuposto daquele que expõe o próprio pensamento ao público aceitar estes julgamentos como legítimos.

Porém, costumo tentar esclarecer questões que não tenham ficado claras, sobretudo quando me imputam erros que entendo não ter cometido, como você fez aqui.

Não concordo que tenha incorrido em “sério problema de lógica conceitual” ao considerar o mundo concreto, material, como uma “totalidade”, referindo-me, obviamente, ao conjunto da economia mundial e não apenas ao âmbito da política econômica nacional. A alegada concepção aristotélica de "totalidade" como categoria do pensamento, no sentido de não haver um “todo” externo ao indivíduo é apenas uma dentre as concepções ontoepistemológicas sobre a “realidade”. Esta questão, representada por concepções opostas como realismo x idealismo/nominalismo, é das mais controvertidas na filosofia da ciência, e é divisor de águas entre diferentes paradigmas em ciências sociais, como o positivismo, o interpretativismo e o materialismo histórico dialético.

Portanto, entendo que você apresentar como um “erro” alguém adotar uma posição diferente da sua, é uma postura pretenciosa, e pauta-se por uma concepção de “verdade” que não condiz com o atual estágio das ciências sociais e da filosofia da ciência.

Além do mais, é contraditória com a sua própria abordagem, que afirma que “cada um apreende o todo à sua maneira”. Nesta sua concepção subjetivista, fenomenológica talvez, você deveria ser bem mais parcimonioso em afirmar verdades categóricas, como o “não existe um todo exterior”, em favor de um olhar mais relativo e flexível da ciência e da filosofia.

Esta visão do mundo concreto como totalidade é comum a abordagens tão distintas como o estrutural funcionalismo sociológico e o materialismo histórico dialético. Não é por outro motivo que Durkhein, da mesma forma que Marx, propõe encarar os fatos sociais como “coisas”, como algo externo e objetivo: “a coisa se opõe à ideia assim como o que se conhece a partir de fora difere do que se conhece a partir de dentro”, disse ele nas Regras do Método Sociológico. E “toda vez que elementos quaisquer, ao se combinarem, produzem, por sua combinação, fenômenos novos, cumpre conceber que esses fenômenos estão situados não nos elementos, mas no todo formado por sua união” (idem). Eis aí o “todo” exterior de Durkhein que você afirma não existir.

Karel Kosik, também, em sua Dialética do Concreto chega a dedicar um capítulo inteiro ao que ele chama de “totalidade concreta”. Afirma ele, “na filosofia materialista a categoria da totalidade concreta é, sobretudo, e em primeiro lugar a resposta à pergunta: o que é a realidade?”, E a resposta dele é de que a concepção materialista de realidade é a totalidade concreta, e totalidade significa “realidade como um todo estruturado, dialético, no qual ou do qual um fato qualquer pode vir a ser racionalmente compreendido”.

É claro que na concepção materialista este todo só aparece com sua essência, “como um todo estruturado em curso de desenvolvimento e de autocriação”, no pensamento. Mas isto não significa que ele não seja uma realidade objetiva e concreta, apenas que é obra da razão organizá-lo como tal. A diferença entre o pensamento abstrato e o senso comum, entre o pensamento alienado e o consciente, entre a tolice ou não, é a capacidade de apreender com objetividade e profundidade esta totalidade concreta. Então, para o materialismo histórico dialético, a sua afirmativa de que “cada um apreende o todo a sua maneira”, só é possível se as pessoas se ativerem apenas às manifestações fenomênicas, àquilo que o Karel Kosik chamou de pseudoconcreticidade. Pois na essência, a totalidade concreta é objetiva.

Não se trata aqui de defender uma ou outra posição, de ser funcionalista, materialista ou fenomenologista, apenas de não afirmar como verdade categórica uma determinada posição epistemológica, e como erro ou problema posições divergentes.

De qualquer forma, obrigado por me permitir pensar a respeito.

19/03/2015 - 10:12

Os poucos gatos pingados discursaram na paulista, nos carros de som. Podem ser poucos, não deu para contar, mas estavam à frente do movimento, e apareceram bastante. O paradoxo lógico é: não há nada mais tolo que reivindicar uma ditadura, democraticamente. Golpes são conspirações subterrâneas e ditaduras são imposições do poder, não são solicitações populares transparentes e democráticas. Bugou geral, como dizem os jovens.

02/03/2015 - 15:51

Como assim "o juiz Sérgio Moro, que conduz as investigações da Operação Lava Jato"? Não deveria ser assim, a polícia investiga, o ministério público processa e o juiz julga? No que será que vai dar um juiz ligado ao PSDB que conduz uma investigação contra um governo do PT?

Só no Brasil isto tudo que está acontecendo na Lava Jato pode parecer normal e não gera nenhuma reação: juiz que conduz investigações, prisões preventivas transformadas em instrumentos de tortura para obter "confissões" e delações, criminosos praticamente perdoados de seus crimes se forem desleais e delatarem seus companheiros de crime, etc...

IMPRESSIONANTE: democracia nenhuma resiste quando o judiciário, único poder que não tem nenhum controle externo, se comporta assim.

Já era...

 

26/06/2014 - 18:16

Este mesmo, Antônio!

14/11/2013 - 19:41

Ivan, obrigado pela dedicação em tentar desconstruir o meu texto, mas receio não ter conseguido, provavelmente porque escolhestes editá-lo, separando fragmentos que te interessavam, e negligenciando outros. Porém, o mérito do teu esforço merece uma resposta.

Creio que não entendestes corretamente minhas intenções, nem meus argumentos. Não acho que a culpa seja somente tua, de fato eu deixei algumas lacunas neste texto que eu procurei esclarecer e aprofundar no texto “Desvendando a espuma II: de volta ao enigma da classe média” (http://jornalggn.com.br/fora-pauta/desvendando-a-espuma-ii-de-volta-ao-enigma-da-classe-media). Sugiro que leia, talvez seja útil.

Mas não sugiro que vá a Cuba nos seus argumentos, nem que faça qualquer relação de meus argumentos com a defesa de regimes totalitários, pois isto parece uma inferência intelectualmente grosseira e sem nenhum fundamento no que escrevi. Não funciona, isto só desqualifica tuas críticas, pois eu não te dei elementos para fazeres esta inferência, portanto, elas só podem ser fruto de preconceito intelectual ou da pura vontade de vincular seu objeto de análise a algo que considera depreciativo.

Estas dicotomias reducionistas do tipo, ou a “recompensa pelo mérito” ou a indolência; ou a meritocracia ou o comunismo/socialismo; ou o livre mercado ou o totalitarismo, são invenções retóricas arbitrárias só passíveis de seduzir a quem nunca atravessou o atlântico, pelas páginas de um livro ou de uma revista que seja. Não representam o mundo que nos cerca, pois este é bem mais complexo e não cabe nestes clichês.

Na CEE, por exemplo, as políticas previdenciárias, os investimentos em saúde pública e educação, os pagamentos diretos para quem está fora do mercado de trabalho, são todos exemplos de políticas que deram as costas para a meritocracia em prol de uma organização social mais justa e segura. Os países europeus carregam juntos as políticas para reduzir as desigualdades dos países originários da ex-URSS em relação aos demais, desde que foram integrados à CEE, e a Política Agrícola Comum talvez seja o exemplo mais ilustrativo das suas políticas antimeritocráticas: desde os anos 90 os pagamentos feitos sobre a produção agrícola (pelo mérito, portanto) foram substituídos pelos pagamentos diretos não vinculados à produção, dentro do conceito de “multifuncionalidade do rural” - que foi inventado exatamente para justificar estes pagamentos -, e que estão vinculados a uma infinidade de “funções” muito pouco meritórias para os padrões de desempenho requeridos pelos mercados. Hoje, agricultores europeus recebem até para que seus campos sejam área de pouso para aves migratórias.

Portanto, do ponto de vista coletivo, das políticas públicas, as sociedades europeias não são meritocracias, embora, obviamente, a vida privada possa ser livremente orientada para o, e recompensada pelo mérito; mas eu fiz esta distinção no meu texto, talvez tenha passado despercebido para você.

Veja só, esta sua meta-redução do tipo: “ou a meritocracia” ou Cuba, ou o totalitarismo, é totalitária demais.

De qualquer forma, obrigado pelas críticas e pela oportunidade.

07/11/2013 - 14:59

Dea

Sobre os EUA serem uma meritocracia ou não, vou responder como já havia respondido a um post abaixo. Eu afirmei naquele texto é que a classe média americana vive uma ambiguidade de valores, do país que é ao mesmo tempo das oportunidades e das incertezas, e que ela talvez não tenha tantas razões para ser meritocrática como a nossa classe média. Mas eu reconheço que o "sonho americano" é movido por um apreço à liberdade de iniciativa e recompensa pelo mérito, algo que, talvez, inclusive tenha um fundo religioso. 

Mas o elemento chave é que lá o motor do sonho americano é a empresa privada, e todo o valor da meritocracia é voltado para o mundo dos negócios. O Estado americano é menos meritocrático que o nosso (veja o filme Lincoln, a abolição da escravatura foi comprada com negociatas políticas, um prelúdio de algo que acontece ainda hoje por lá - onde o lobie político é uma atividade legal - e que nos espantamos quando acontece no Brasil mais de cem anos depois), e a meritocracia não é a base nem da estrutura do Estado nem das políticas públicas.  

Compare, por exemplo, alguns elementos. No Brasil um promotor de justiça é concursado, com todos os requintes procedimentais da mais fina burocracia, e um jovem recém saído da universidade mas com um bom desempenho nas provas, pode se tornar um operador da justiça. Lá ele é eleito ou é cargo de confiança do prefeito. Portanto, quem “promove” a justiça nos EUA é condicionado politicamente. Nas universidades, a mesma coisa, um sistema de ingresso muito menos objetivo que os nossos, boletins escolares (não importando a variabilidade da qualidade das escolas), entrevistas e até mesmo habilidades para o esporte valem no pleito por uma vaga. As cotas para negros existem desde os tempos do Nixon. O controle sobre a atividade e a produtividade dos corpos docentes não chega aos pés dos sistemas de avaliação de mérito que temos no Brasil, e os reitores e diretores dispõem de grande autonomia para fazerem juízos de mérito sobre os seus comandados. Haveria outros exemplos.

Então, há uma separação muito grande entre a coisa pública e a privada. Nas empresas reina o mérito individual, já o Estado é o lugar da ação política, e neste os sistemas meritocráticos são muito pouco objetivos ou burocráticos. Aqui muitos querem fazer da meritocracia a “cura” para a política, ou pior, impor as falsas crenças do ethos meritocrático como juízo sobre as políticas públicas. 

07/11/2013 - 10:10

César, obrigado por me ensinar a escrever melhor, talvez um dia eu consiga escrever como você.

Certa vez um jornalista perguntou ao Louis Armstrong "o que é o jazz?". Ele respondeu, "se você precisa perguntar, não vai adiantar responder". Certas coisas não merecem resposta, as palavras só atrapalhariam...

07/11/2013 - 07:42

Caro Gilberto

Tens toda a razão sobre as mazelas da política, mas eu não tenho as respostas que me cobras. Se eu fosse escrever o artigo que me propões, ele seria bem mais breve, talvez tivesse poucas linhas afirmando: não há saídas, ou “cura”, para a política fora da própria política; a construção da “boa” política que tanto desejamos deve se dar por dentro deste campo mesmo; o campo político é um campo de lutas, e não se pode esperar dele e para ele uma “solução” que seja estabilizadora ou sustentável. Não se pode cobrar da política o que ela não pode nos dar.

Meu argumento é que a meritocracia não é nem o remédio contra a política, nem uma diretriz de política pública. A meritocracia é debitária da política, ela opera sob juízos de valor relativos ao mérito que são políticos e, em parte, a meritocracia burocrática é uma espécie de sustentáculo das democracias pluralistas e representativas, por garantir uma relativa imunidade e estabilidade às estruturas de Estado para que estas suportem a transitoriedade do poder político. Nada mais! Nada de eficiência, progresso ou justiça são intrínsecos a ela.

Abraço

07/11/2013 - 00:53

Caro Jason

Foram tantas as suas críticas que não poderei responder a todas elas, ao menos não em profundidade. Também considero que muitas respostas minhas seriam inúteis. Mas vamos a algumas ao menos.

a) Eu não disse que a meritocracia é igual a reacionarismo, mas disse que a crença na meritocracia da forma como eu descrevi o “ethos meritocrático” gera um pensamento e um comportamento político reacionário. A meritocracia como sistema, como diretriz de política pública que exclui outras possibilidades, também entendo ser reacionária. Agora, o termo reacionário pode ser moldado por quem o utiliza, não vamos brigar por isto. Para muitos, eu é que sou reacionário. Mas eu acho que deixei claro o que entendo ser este comportamento reacionário no meu texto, e de certa forma utilizei este termo porque a origem de toda esta reflexão foram as provocativas afirmações da Marilena Chauí. Tomei o termo emprestado dela, então.

b) Sim, eu acho que no Brasil existe meritocracia. O Brasil não é uma meritocracia, mas há muitos mecanismos de mérito por aqui, até mais que em outros países. Compare, por exemplo, com os EUA, que tem sido apontado aqui nos comentários como um país ultrameritocrático. No Brasil um promotor de justiça é concursado, com todos os requintes procedimentais da mais fina burocracia, e um jovem recém saído da universidade mas com um bom desempenho nas provas, pode se tornar um operador da justiça. Lá ele é eleito ou é cargo de confiança do prefeito. A própria administração da justiça por lá (quem “promove” a justiça) é uma atividade condicionada politicamente. Nada de meritocracia. Nas universidades, a mesma coisa, um sistema de ingresso muito menos rígido que os nossos, boletins escolares (não importando a variabilidade da qualidade das escolas) e até mesmo habilidades para o esporte valem no pleito por uma vaga. E as cotas para negros existem desde os tempos do Nixon. O controle sobre a atividade e a produtividade dos corpos docentes não chega aos pés dos sistemas de avaliação de mérito que temos no Brasil (aliás, suspeito que é por isto que a produção acadêmica deles é mais significativa que a nossa). Então, no Brasil há clientelismo, há compadrio, há coronelismo, e há meritocracia. E há tudo isto dentro dos próprios sistemas meritocráticos existentes.

c) Com relação à classe média, sei que a concepção é genérica, mas sem generalizações não há qualquer possibilidade de teorização. Além disso, não acho que uma precisão maior em relação a esta categoria social seja essencial ao que eu escrevi. Também acho plenamente plausível admitir que a meritocracia está mais presente na classe média que em qualquer outra. Isto por si só poderia ser deduzido pela lógica racional, como fiz no primeiro texto, mas a minha vivência cotidiana com a classe média também me permite uma convicção maior ainda.

d) Por fim, vou abordar a crítica do teu comentário que me é mais cara. O que difere profundamente a meritocracia do Weber da de Confúcio e da do PC chinês é a “era moderna” ocidental. Eu afirmei que Weber foi o primeiro a “dissecar o nascimento da meritocracia como fundamento da autoridade nas organizações modernas, esta meritocracia ungida pela racionalidade e pela ciência” cuja autoridade tem caráter legal-racional. A posição da racionalidade, da ciência e da legalidade como fundamentos do mérito e da autoridade fazem com que estas meritocracias ocidentais modernas difiram drasticamente das que tu citaste. Pouca coisa sobra de semelhança entre elas. Além do mais, a meritocracia weberiana está inscrita no Estado moderno, nas democracias pós “contrato social”, pluralistas, representativas e constitucionais, cujo poder público é outorgado por convenção e não por imposição.

Juntando-se isto, você verá que a meritocracia que Weber desvendou desembocava inexoravelmente em organizações burocráticas. E assim sendo, elas não poderiam ser “eficientes” nem fomentar o progresso, como os teus exemplos. Disto, nem a meritocracia confucionana nem a comunista da China atual padecem. Porém, é a weberiana que se parece com as nossas meritocracias ocidentais atuais, não a de Confúcio nem a do PC Chinês. Mas eu não trocaria a nossa por a deles, só porque são mais eficientes e crescimentistas.

Se você tem o poder do Imperador ou de um partido único, em regimes que não tem alternância de poder nem ideologias disputando o poder político, as meritocracias podem operar na ausência de regras e estruturas burocráticas, pois é o poder do imperador (no tempo de Confúcio) e do PC que impõem o juízo de valor sobre o mérito, e este não está em disputa nem precisa ser convencionado e normatizado para que se resguarde dos conflitos ideológicos e da alternância de poder. Estas meritocracias não são como a que eu descrevi, nestas o mérito não é uma convenção e o sistema de avaliação não é uma estrutura de regras burocráticas; o mérito é simplesmente um juízo de valor diretamente atribuído por quem detém o poder político (o imperador ou o PC) a quem é avaliado. Não há a mediação das estruturas burocráticas típicas das democracias plurais ocidentais. Portanto, é de se esperar mesmo que elas sejam mais eficientes e sirvam mais ao crescimento. Mas eu não trocaria o nosso crescimento pífio mas democrático por um exuberante crescimento autoritário.

Além disso, você sabe, na China eles podem preencher os cargos desta forma porque não há eleição e não há oposição, não há aquela preocupação com a reprodução do poder político que nos assola a cada dois anos. Por aqui, os cargos não tem só uma função técnica, eles tem funções políticas, de levar o discuso governistas a todos os cantos burocráticos das organizações públicas, e de ajudar na tarefa da reeleição, sem a qual todo o esforço de ação seria efêmero e vão. Mazelas da democracia, que como dizia Churchil, "é o pior regime de governo que existe, exceto todos os outros"

Abraço, e obrigado pela leitura e pela crítica.

06/11/2013 - 23:11

Cesar

Desculpe se a minha forma prolixa de escrever te incomoda, confesso que as vezes me incomoda também, mas podes crer que o texto era ainda maior, e fiz um esforço hercúleo para reduzi-lo um pouco. Ainda ficou grande e prolixo, mas cada um com os seus defeitos.  É que eu prefiro ser criticado pelo que eu disse do que pelo que faltou dizer, e definitivamente não controlo a arte da concisão.  Jamais poderia ser publicitário.

Com relação aos comentários, se observar, eu comecei a responde no início das postagens do outro texto a alguns deles, depois eles se acumularam de tal forma que não tive mais como estabelecer um debate assim, individual. Tornou-se inviável, embora talvez você não avalie o quanto eu gostaria de debater o tema da forma mais direta Achei mais útil escrever outro texto, até para não parecer que, após tantas críticas virulentas que o primeiro sofreu, eu houvesse me escondido ou recuado. Não, vim aqui para reafirmar e aprofundar minas posições.

Quanto à meritocracia no sistema acadêmico, tenho convicção nas minhas afirmações (embora elas sejam apenas as “minhas verdades”) porque convivo com ela diariamente, já coordenei um Programa de pós-graduação, sou bolsista do CNPq, participei de reuniões da CAPES que definem critérios de avaliação dos cursos, e sempre defendi estas ideias. Quando se opera o sistema se vê o quanto ele, que é aparentemente objetivo e imparcial, é influenciado por operações políticas e posições de poder, e o quanto as concepções das áreas dominantes são impostas como convenção sobre as demais, produzindo uma homogeneidade que deforma muitas das áreas de avaliação. Lamentavelmente, e eu não gostaria de dizer isto, vejo os professores-pesquisadores das universidades enredados num circulo vicioso produtivista que lhes roubou qualquer possibilidade de vislumbrar o novo, de variar, de propor novos olhares sobre o mundo. Nas ciências humanas e sociais, por exemplo, somos todos consumidores de teorias estrangeiras porque os nossos acadêmicos estão voltados para alimentar o seu Lattes, não podem se dar ao luxo de produzir novos saberes e conhecimentos.

De qualquer forma, agradeço as palavras e a leitura.Cesar

Desculpe se a minha forma prolixa de escrever te incomoda, confesso que as vezes me incomoda também, mas podes crer que o texto era ainda maior, e fiz um esforço hercúleo para reduzi-lo um pouco. Ainda ficou grande e prolixo, mas cada um com os seus defeitos.  É que eu prefiro ser criticado pelo que eu disse do que pelo que faltou dizer, e definitivamente não controlo a arte da concisão.  Jamais poderia ser publicitário.

Com relação aos comentários, se observar, eu comecei a responde no início das postagens do outro texto a alguns deles, depois eles se acumularam de tal forma que não tive mais como estabelecer um debate assim, individual. Tornou-se inviável, embora talvez você não avalie o quanto eu gostaria de debater o tema da forma mais direta Achei mais útil escrever outro texto, até para não parecer que, após tantas críticas virulentas que o primeiro sofreu, eu houvesse me escondido ou recuado. Não, vim aqui para reafirmar e aprofundar minas posições.

Quanto à meritocracia no sistema acadêmico, tenho convicção nas minhas afirmações (embora elas sejam apenas as “minhas verdades”) porque convivo com ela diariamente, já coordenei um Programa de pós-graduação, sou bolsista do CNPq, participei de reuniões da CAPES que definem critérios de avaliação dos cursos, e sempre defendi estas ideias. Quando se opera o sistema se vê o quanto ele, que é aparentemente objetivo e imparcial, é influenciado por operações políticas e posições de poder, e o quanto as concepções das áreas dominantes são impostas como convenção sobre as demais, produzindo uma homogeneidade que deforma muitas das áreas de avaliação. Lamentavelmente, e eu não gostaria de dizer isto, vejo os professores-pesquisadores das universidades enredados num circulo vicioso produtivista que lhes roubou qualquer possibilidade de vislumbrar o novo, de variar, de propor novos olhares sobre o mundo. Nas ciências humanas e sociais, por exemplo, somos todos consumidores de teorias estrangeiras porque os nossos acadêmicos estão voltados para alimentar o seu Lattes, não podem se dar ao luxo de produzir novos saberes e conhecimentos.

De qualquer forma, agradeço as palavras e a leitura.

06/11/2013 - 15:48

Obrigado

06/11/2013 - 09:22

Caros leitores

Face à repercução do tema que propus neste artigo, sobretudo no que se refere à meritocracia, e a vontade que tenho, sem podê-lo, de responder a cada comentário aqui postado, resolvi escrever um novo texto, tentando "desdobrar" alguns aspectos a mais da meritocracia e do que eu chamei aqui de "ethos meritocrático", muitos dos quais foram levantados nos comentários.

O texto está postado neste blog, e para aqueles que tiverem interesse, visitem-no no link abaixo.

Grande abraço a todos, e obrigado pela leitura.

Renato Souza

http://jornalggn.com.br/fora-pauta/desvendando-a-espuma-ii-de-volta-ao-enigma-da-classe-media

02/11/2013 - 00:35

Prezado Emílio

Muito bom o texto que você postou, e não vou me ocupar em tentar provar minhas razões, e sim defender algumas posições do meu texto. Na verdade, o debate fomentado a partir dele tem me sido mais gratificante do que a aceitação ou não de minhas opiniões. Os depoimentos de cada um tem permitido fazer um mapa amplo e variado das percepções existentes sobre o tema, das mais intelectualizadas às mais rasteiras. E em geral, isto tem reforçado minhas convicções, pois os defensores mais ferrenhos da meritocracia, os que tem postado as críticas mais ferozes contra mim e contra o meu texto, tem exibido um comportamento previsível, mais ou menos aquele descrito pela Marilena e que tentei interpretar arqui. Então, não tenho mais dúvidas de que há um ethos meritocrático que orienta estas posições mais concervadoras, e isto é mais visível na classe média do que nas outras. Apenas aquele que experimentou a ascenção social pela via do "mérito" se sente autorizado por sua própria história a julgar o demérito daqueles que não fizeram o mesmo. A elite não tem esta autoridade, por isto suas defesas se voltam para o direito de propriedade e da livre iniciativa.

Mas eu tenho que fazer um esclarecimento que tem causado muitas incompreensões. O que eu afirmei é que as posições reacionárias de boa parte da classe média são sustentadas por um "ethos" meritocrático, ou seja, uma parte significativa da classe média comunga de um sistema de crenças que associa o mérito a eficiência, progresso e justiça; portanto, uma sociedade só seria eficiente e justa se organizada sob um regime meritocrático, ao passo que políticas que subvertem o mérito gerariam ineficiência, estagnação, indolência e injustiça. Sempre que eu me referi à classe média, tentando interpretá-la, eu me referi a este ethos meritocrático que ela carrega consigo, não aos mecanismos meritocráticos de uma sociedade nem à meritocracia como sistema. E este ethos ficou cristalino nesta imensa pesquisa empírica que passamos a ter a partir dos quase 240 comentários aqui postados.

Feito isto, apenas na segunda parte do meu texto eu me ocupo de fazer críticas à meritocracia, e o objetivo primeiro não é destruír a meritocracia em si, propondo uma sociedade que premie a indolência, a vagabundagem, a ineficiência e toda a sorte de fraqueza moral, como fui acusado em muitos comentários mais agressivos. Não, a parte em que eu critico a meritocracia tem basicamente dois objetivos. Primeiro, tentei mostrar o elo entre este ethos meritocrático e a atitude reacionária de parte da classe média, ou seja, como a meritocracia pode fundamentar um tipo de ideologia que produz pessoas intolerantes, aparentemente insensíveis aos problemas alheios, reativas a qualquer política compensatória ou distributivista, etc. Segundo, tentei desconstruír algumas das crenças que fazem parte daquele ethos meritocrático, ou seja, mostrar que certas promessas da meritocracia são crenças vãs, e que a meritocracia produz uma ilusão de eficiência, de progresso e de justiça que não corresponde à realidade. 

Minha proposta não é acabar com a meritocracia (eu não proporia substituír os concursos públicos, por exemplo, pelas antigas indicações pessoais), mas sim relativisá-la, mostrar que ela não corresponde necessariamente ao ideal de eficiência, progresso e justiça que a sustenta como crença. Meu propósito foi desconstruír suas bases racionais, para liberar as políticas públicas para que possam atuar sob outras bases de legitimação, inclusive para fazer o que tu propões, que é tornar as condições de concorrência iguais para todos. 

Mesmo assim, meu caro, se todos partissem do mesmo lugar, ainda a meritocracia não daria conta das suas promessas de eficiência, progresso e justiça. Qualquer sistema meritocrático com o tempo se retroalimenta para produzir a desigualdade e a exclusão, para criar círculos viciosos baseados na racionalidade instrumental e formal, para fomentar práticas fraudulentas, e para criar estruturas de poder paralelos que controlam as avaliações e forjam desempenhos. Sistemas meritocráticos deformam a sociedade e . Eles ainda precisam existir, porque são uma base de legitimação importante sobretudo para as ações do Estado, mas precisam estar submetidos a outros sistemas que operem no campo dos valores, e não apenas das convenções sobre o mérito.