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Formação Dr. Administração - UFRGS

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O sentido do diálogo em tempos de luta, por Renato Santos de Souza

O sentido do diálogo em tempos de luta

por Renato Santos de Souza

Outro dia assisti a um destes experimentos sociais que pululam na internet. Um casal homossexual foi colocado em um banco de praça e instruídos, os dois, a fazerem manifestações mútuas de afeto, indiferentes ao fato de estarem em uma via pública. Um ator ficava por perto recriminando-os, e instigando os passantes com frases como “isto é uma vergonha, você não acha?”. O objetivo foi testar a reação das pessoas, sem que elas soubessem que era uma encenação nem que estavam sendo filmadas. A maioria dos que foram filmados recriminou a recriminação, com frases como, “deixe eles em paz”, “eles têm o mesmo direito que você”, ou “se você está incomodado, que se retire”.

Apesar de demonstrar que muito mais pessoas do que se imagina são capazes de se importar e se indignar contra o preconceito, o ponto alto do experimento, para mim, ocorreu quando uma senhora, das mais combativas contra a discriminação homofóbica que estava sendo encenada ali, ao ser parabenizada pela equipe de produção e pelo ator, emocionada e orgulhosa da sua atitude, pediu para que ligassem para a sua filha, que vivia acusando-a de homofobia, e relatassem o seu feito: “Eu não sou homofóbica!”, afirmava ela.

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O Golpe dos golpes, por Renato Souza

por Renato Souza

Até agora as forças políticas contrárias ao Golpe parlamentar/judiciário perpetrado contra a presidente Dilma Roussef concentraram-se em denunciar a farsa do impeachment, e a cassação ilegítima dos 54 milhões de votos que sustentam seu mandato, fato que está cada vez mais evidente na medida em que o processo avança no Senado. Mas o Golpe não é apenas a anulação dos votos populares para implantar por dois anos, até a próxima eleição, um governo cujo projeto político não se submeteu às urnas. Numa democracia, Golpe é toda ação que visa deliberadamente anular, fraudar, subverter ou tornar inócuo o dispositivo da eleição.

O Impedimento de Dilma, portanto, é apenas a inauguração do Golpe, e também a sua manifestação mais evidente e imediata, mas outro bem mais profundo e que se estenderá pelas próximas cinco eleições presidenciais está sendo engendrado por dentro deste, com pouca ou nenhuma repercussão por parte das mesmas forças políticas.

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O suplício da democracia nas entranhas do poder

(Renato Santos de Souza)

“Há somente um mundo, e este é falso, cruel, contraditório, enganoso, sem sentido. Um tal mundo é o mundo verdadeiro. Precisamos da mentira para triunfar sobre esta realidade, esta ‘verdade’, isto é, para viver. A metafísica, a moral, a religião, a ciência, são como diferentes formas de mentira: com seu auxílio, acredita-se na vida”.

Nietzsche tinha razão, um século e tanto atrás, por isto ele nasceu póstumo. Ele não falava da Europa vitoriana, falava do Brasil atual, sem saber.

Durante algum tempo, acreditamos num ideal de democracia, uma mentira metafísica a nós contada por filósofos iluministas, um regime político e social fundado nas ideias racionais de liberdade, igualdade e humanidade, nesta ordem. Todos os seres humanos são igualmente livres, senhores da própria vontade, mesmo quando ela contraria os instintos mais primitivos. Por isto, igualdade e liberdade nos irmanam, e por isto somos humanos.

Era a jovem “humanidade” democrática contra a decadente “divinidade” e “animalidade” de antanho, fundadoras da aristocracia e da barbárie. Leia mais »

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SOBRE AS FALAS DO LULA E A ARTE LIBERAL DA SEPARAÇÃO

O momento é rude, e requer pressa. Por isto não vou me alongar (muito), como em outras vezes. Vou emitir apenas algumas opiniões sobre os vazamentos e o teor das falas do Lula na noite de ontem.

Primeiro, me parece que há uma ilegalidade flagrante no vazamento das escutas telefônicas, por um lado, porque envolve a Presidência da República, que está fora da jurisdição do Juiz Sérgio Moro, por outro, porque exatamente esta conversa foi feita após o próprio juiz ter determinado o encerramento das escutas. Mas este é um assunto jurídico legal, para o Ministro da Justiça, a OAB, o STF e o CNJ. Leia mais »

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A essência oculta da crise política, por Renato S. de Souza

“As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam, porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões...”; assim cantou Elis Regina em 1979, da letra de Tunai e Sérgio Natureza

A essência oculta da crise política

por Renato Santos de Souza

“As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam, porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões...”; assim cantou Elis Regina em 1979, da letra de Tunai e Sérgio Natureza

Eis a crise política atual. Por trás da fumaça aparente do fogo de ideologias em cheque, um braseiro sutil e insinuante, porém sem as labaredas da paixão, queima a vegetação rasteira, e junto com ela a seiva e a teia de tudo o que alimenta e sustenta a grande floresta humana. No final, se ele houver, perderemos todos.

Boa parte desta crise política é feita de equívocos, à direita e à esquerda. Equívocos de interpretação, de posição e de ação política.

Parte da esquerda governista, apoiando-se quase exclusivamente na retórica da luta de classes, aposta na ideia de que o objetivo da oposição, da mídia, e do poder judiciário/policial envolvido na apuração da corrupção no Brasil, é destruir o seu projeto político popular.

Parte da direita opositora, tirando proveito do enfraquecimento do Governo e dos seus partidos, aposta na narrativa da cruzada anticorrupção oferecida pela mídia e pelo poder judiciário/policial – mesmo não tendo nenhuma credencial para tal -, por pura e fugaz conveniência.

A consequência disto é uma visão dualista, maniqueísta e simplista da realidade atual, que divide o Brasil entre nós e eles, entre a planície e o morro, entre a elite e o povo, entre os corruptos e os moralmente dignos, entre os miseráveis sociais que saíram da pobreza nos últimos anos e os miseráveis mentais que querem devolvê-los para lá.

É verdade que estas divisões existem e são perturbadoras, mas não são elas que comandam o espetáculo político atualmente. A corrupção é só um pretexto útil para as forças policiais e judiciárias empoderarem-se, e para a oposição e as corporações de mídia minarem o Governo atual e seu partido. E a luta de classes é apenas uma dentre tantas lutas que se travam nas complexas sociedades modernas, e certamente não é ela que protagoniza a crise política atual. A socialite que bate panela contra a lei das empregadas domésticas não é agente da crise, é só um produto patético das narrativas criadas para alimentá-la.

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O Tao da Democracia, por Renato Santos de Souza

Por Renato Santos de Souza

Na antiga filosofia taoista chinesa, o Tao é uma realidade última e indefinível. Sinteticamente, é a unidade, o que tudo abarca e em tudo se completa. Mas também é a dinâmica, o movimento, a mudança incessante e de natureza cíclica. Nas palavras de Lao Tzu, o retorno é o movimento do Tao, e progredir significa retroceder.

Fritjof Capra, no livro parafraseado no título deste texto, afirma que todos os movimentos da natureza e das situações humanas exibem características cíclicas oscilantes, de expansão e contração. Para ele, os chineses creem que sempre que uma situação se desenvolve até ao seu extremo, está destinada a encontrar o seu oposto. Esta crença básica fornece-lhes, em tempos de desgraça e crise, coragem e perseverança, bem como modéstia e cautela nos tempos de bonança e sucesso.

Tenho pensado muito sobre a realidade política que vivemos no Brasil atualmente, e lamentado o extremismo autodestrutivo a que chegamos, e que se tem visto na violência de algumas manifestações de rua, nas ofensas em restaurantes, na virulência das redes sociais, nas manobras tendenciosas de vários setores para mudar decisões de urna, e por aí afora.

Não escrevo este texto para pregar a iluminação e a parcimônia orientais às mentes conturbadas que se nos apresentam diariamente, mas para buscar possibilidades de interpretações integradoras junto à sabedoria chinesa, ante um ambiente de franca degenerescência do espírito humano em nosso país. Escrevo para buscar equilíbrio em tempos de cólera, se isto for possível.

O taoismo, a meu ver – e escrevo aqui ciente de que conheço muito pouco a respeito dele – propõe alguns enunciados muito férteis para uma interpretação minimamente equilibrada do momento atual da política e da democracia brasileira, e é isto que eu pretendo fazer. Espero que os taoistas não se ofendam com minhas analogias, e relevem as limitações de compreensão que tenho de uma cultura que sequer a nossa língua ocidental, tão esquadrinhada semântica e sintaticamente, consegue traduzir em sua riqueza e complexidade.

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Por que só investir na educação básica não é suficiente

O problema da direção da causalidade é muitas vezes uma armadilha para o pensamento. E em política pública, isto pode ser fatal. Se não se sabe o que influi no que, o que causa o que, não se pode realizar políticas com um mínimo senso de consequência, e ainda se fica sujeito a toda a sorte de críticas.

Ultimamente, o Brasil foi tomado por um discurso político que coloca a educação básica no centro da redenção nacional, como se só a educação pudesse reduzir as desigualdades sociais e promover a justiça social. Ou seja, a (des)educação é a “causa”, as desigualdades, a violência e as injustiças sociais são as consequências. Então, provendo mais educação e educação de melhor qualidade, promover-se-ia igualdade e justiça social.

Daí vem deduções lógicas: como as camadas mais pobres da população só tem acesso às escolas públicas, e a educação pública brasileira é de péssima qualidade, os pobres não conseguem ascender socialmente, não conseguem entrar nos cursos universitários mais concorridos, nem nas melhores universidades, nem nos melhores empregos. E continuam pobres, criando filhos que reproduzirão a sua pobreza e as desigualdades sociais no país. Leia mais »

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Sobre Jürgen Habermas e o Brasil de 2015

O tolo ignora o “todo” ou supõe o todo a partir da sua própria parte. O cínico conhece o todo, mas desconsidera-o por interesse ou conveniência; o ingênuo sonha ser possível desprezar o todo, ou mudá-lo apenas a partir das partes, por ato de pura vontade.

Para fazer ou pensar a política sem a superficialidade dos tolos, a falsidade dos cínicos ou o voluntarismo dos ingênuos, é preciso entender os limites da própria política e das ações dos governos face à totalidade em que estão inseridos.

O filósofo alemão Jürgen Habermas, um dos mais importantes intelectuais e humanistas do século XX, disse certa vez, em entrevista à Bárbara Freitag e Sérgio Pulo Rouanet, nos idos anos de 1995: “devo confessar que, desde 1989, lamentei pela primeira vez não ser economista”. Para ele, com o processo de globalização da produção e do mercado de capitais, “o Estado Nacional, visivelmente, já não controla as condições de produção da sua própria economia. Temos hoje uma globalização do mercado de capitais que afeta as condições de produção, provocando uma generalização e globalização da própria produção, cujas condições perderam seu caráter nacional” (Folha de São Paulo, 30/04/1995).

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15 de março de 2015: a ficção da vida real

Por Renato Souza

Às vezes custo a acreditar no que vejo e ouço vindo das manifestações do dia 15; parecem obra de ficção.

Parecem mesmo, ficção científica! Senão vejamos.

No delicioso filme oitentista De volta Para o Futuro, o viajante do tempo Martin MacFly viaja ao passado, à época em que seus pais se conheceram, e interfere desastrosamente no evento em que eles deveriam se encontrar, correndo o risco de provocar um “paradoxo temporal”, paradoxo lógico segundo o qual uma intervenção no passado altera o futuro e, portanto, altera a própria condição futura daquele que viajou ao passado, fazendo com que a viagem mesma não pudesse existir. E não existindo, ele não poderia ter voltado no tempo para alterar o passado.

Por isto, viagens no tempo são refutadas do ponto de vista lógico. O tempo só anda para frente; ou, como disse aquele famoso alemão barbudo, a história só se repete como tragédia ou como farsa. Leia mais »

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SOS Democracia: política e as convenções democráticas

Existem basicamente duas formas de se pensar e definir a atividade política em sociedade, e por consequência, a autoridade política.

Na primeira, a política é vista como a mobilização de recursos de poder visando o domínio de um determinado campo de ação, por uma pessoa, grupo ou classe social. O objetivo é impor à sociedade determinados fins, que representam as ideias, interesses e valores destes indivíduos ou grupos. Neste caso, a autoridade política é conquistada pela concentração de recursos de poder, sejam eles quais forem, e é uma consequência do poder: ou seja, a autoridade é uma “imposição”, pois ela é imposta poder.

Segundo esta visão, a autoridade política não se sustenta necessariamente na aceitação ou no consentimento em relação a ela: ela se sustenta no poder que detém, não raramente mediante a força, a coerção ou a alienação dos demais.

Na segunda forma, a política é vista como uma valorosa e indispensável atividade social, responsável por viabilizar a vida coletiva e a realização de propósitos comuns em sociedades que sejam plurais, formadas por pessoas e grupos com interesses, ideias e valores diferentes. Com origem em Aristóteles, para quem o objetivo da política era o bem comum e a produção da felicidade, esta visão é retomada por autores modernos como Hannah Arendt, que via a política como a lida da convivência entre os diferentes. Política é a capacidade de agir em concerto em condições de pluralidade humana, dizia ela.

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O Taylorismo educacional no discurso eleitoral

Autor: 

Em 1911, o engenheiro americano Frederich Taylor publicou uma obra que mudaria a história do capitalismo: Princípios de Administração Científica. Nela, contra a gestão empirista e amadorista das fábricas de então, ele propôs princípios científicos de administração: seleção científica dos trabalhadores, planejamento científico das tarefas usando o estudo de tempos e movimentos, treinamento dos trabalhadores e, vejam só que atual, pagamento por produtividade.

Foi o germe de uma revolução. No campo administrativo, a aplicação de suas técnicas elevou a produtividade do trabalho nas fabricas de forma sem precedentes desde a revolução industrial; no campo econômico e político, porém, gerou desemprego, intensificação do trabalho e “robotização” do trabalhador, o que levou à exacerbação da tensão entre sindicatos e empresas, e por certo apressou as revoluções socialistas em curso.

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Mais sobre o Banco Central Independente da Marina

(por Renato Santos de Souza)

Assim que a candidata Marina Silva lançou seu programa de Governo, eu escrevi aqui neste mesmo jornal o artigo “O verdadeiro sentido do Banco Central independente da Marina” (http://jornalggn.com.br/fora-pauta/o-verdadeiro-sentido-do-banco-central...). Nem imaginava que o tema esquentaria tanto e que se tornaria um dos principais divisores de água entre as candidaturas de Dilma e Marina.

O artigo recebeu muitos comentários, favoráveis e críticos, como convém ao bom debate. Pelo valor que a discussão tem apresentado, e como retorno aos comentários recebidos, resolvi escrever esta continuação, para esclarecer questões que não deixei claras anteriormente, e também para responder a algumas críticas recebidas.

Inicialmente, gostaria de justificar porque usei o termo “independência” e não “autonomia operacional” do Banco Central, termo que seria mais correto segundo alguns comentários. Leia mais »

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O verdadeiro sentido do Banco Central independente de Marina

Por Renato Santos de Souza

A “nova política” da Marina Silva é, na verdade, tão velha quanto Adam Smith.

Está lá, no seu Programa de Governo!

Nem eu acreditava nisto, pensei que seria mais um destes programas cheios de boas intenções e de valores nobres, mas vazio de opções e de propostas, ou então cheio de propostas feitas para um outro mundo que não o nosso, como sugere a ideologia da Rede.

Mas não, o Programa da candidata deixou claro que ela é a mais nova versão do neoliberalismo monetarista: submissão dos governos aos interesses do mercado financeiro, associado à "metáfora" da sustentabilidade para travar investimentos produtivos brasileiros, favorecendo os interesses estrangeiros de quem quer ocupar o nosso mercado e ocupar mercados sobre os quais o Brasil tem avançado.

Melhor para os bancos e para os interesses estrangeiros.

O exemplo mais simbólico desta ideologia conservadora é a tal "independência do Banco Central", a mais nova pregação da presidenciável.

"Entendemos que era preciso dar um sinal forte, dizendo que a autonomia de fato, que agora estava sendo desacreditada, precisava agora ser institucionalizada" disse ela recentemente, sobre a proposta que consta no seu Plano de Governo.

Mas o que é isto, que no discurso fica tão bonito e dá até uma certa autoridade técnica para a candidata: independência do Banco Central? E o que ela realmente representa?

Bem, vai aqui uma rápida explicação, rememorando os meus tempos de professor de economia, para aqueles que ainda flutuam sobre o tema sem conhecê-lo por dentro.

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POR QUE A MÍDIA E AS ELITES NÃO VÃO APOIAR MARINA ATÉ O FIM

Por Renato Santos de Souza

Minha aposta, embora reconhecidamente precipitada, contraria muito do que eu tenho lido e ouvido por aí (e por aqui) sobre o tal “fator Marina”. Leia mais »

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O Poder, o Direito e a Democracia

Os rumores (anti)democráticos da Arena Corinthians (e agora também do Maracanã)

Por Renato Santos de Souza

 

Aquele era só mais um destes filmes excitantes sobre os tribunais norte americanos: intrigas sub-reptícias, conspirações políticas e exibições de poder, estas coisas que a política norte americana sabe protagonizar tão bem. Leia mais »

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