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Mais "mestiço" que puro

Por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Comentário referente ao post "O samba brasileiro é música de branco"

Vou discordar do Nassif (que é músico) e falar como antropólogo (não mais que melômano).

A provocação do título da postagem é boa, mas não resolve o assunto. Ao lançar uma provocação a certa obsessão racialista contemporânea pelos pedigrees, pode-se, ao mesmo tempo, cair na armadilha da lógica mesma do pedigree. Quando se pensa dentro de uma gramática, fica-se preso a ela. Para pensar diferente é preciso sair do quadrado da gramática (o que os racialistas, evidentemente, não estão dispostos a fazer, porque para eles sua gramática é sagrada).

Tomar como parâmetro de reconhecimento de uma linguagem a clivagem tonalismo/modalismo pode ser apenas reiterar o ponto de vista da música ocidental.

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As clivagens políticas em tempos de cólera, por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Tradução do próprio autor do artigo publicado no Periódico Diagonal (Madri, 25/08/2015)

É bem conhecido no Brasil o emblema político que serve para caracterizar as atitudes de uma esquerda que, seja por excessiva ingenuidade, seja por dogmatismo míope, seja por simples teimosia, torna-se presa fácil da direita: é a esquerda que a direita gosta. Romper a naturalidade do consenso conservador exige uma destreza para a qual a singeleza das ideias não é suficiente. É preciso muito mais astúcia. Os vários séculos de vigência de uma ordem social pesadamente segregadora, hierarquizante e autoritária no Brasil, transformou o sistema de valores conservador no termo “natural” ―uma “naturalidade” da qual muitas vezes sequer a esquerda escapa.

Para usar um conceito da linguística, é possível dizer que, no espectro político brasileiro, a direita tem sido o termo “não marcado”, o termo da generalidade, enquanto que a especificidade, a excepcionalidade, a “marcação”, essa não só é o que cabe à esquerda, como também foi sempre o seu estigma e anátema. Não se trata simplesmente da novidade que as utopias carregam. As próprias ideias de justiça social e participação cidadã, a simples fórmula republicana de que todo o poder emana do povo, na falta de uma narrativa da irrupção popular no espaço da governança, ocupam o lugar do anômalo no campo das experiências históricas e no curso do pensamento social no Brasil.

O recente decênio do Partido dos Trabalhadores (PT) no governo federal tampouco fez vislumbrar um mínimo de sentido que fosse para uma ideia tão exótica como a de poder popular ― ou de poder “dos de baixo”. A narrativa (ou contranarrativa) que se vinha gestando desde a segunda metade dos anos 80 sobre a ampliação da cidadania e o fortalecimento institucional do espaço público (mais que tão simplesmente do Estado) ― que animou a primeira década e meia de existência do mesmo Partido dos Trabalhadores ― em algum momento foi amputada, foi como que domesticada e reduzida ao gueto de legitimidade corporativa e clientelista das ONG’s, e estava já definitivamente derrotada, mesmo dentro do PT, quando ele chegou, por fim, ao governo federal.

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O tempo, o implacável, o que virá, por Ricardo Cavalcanti-Schiel

(Comentário ao post "Contra diálogo, FHC está no lado errado da História, por Paulo Moreira Leite")

"El tiempo, el implacable, el que pasó,
Siempre una huella triste nos dejó,
¡Qué violento cimiento se forjó!
Llevaremos sus marcas imborrables.

Aferrarse a las cosas detenidas
Es ausentarse un poco de la vida.
La vida que es tan corta al parecer
Cuando se han hecho cosas sin querer."

(Pablo Milanés)


O problema de certos analistas é o de lerem a política com os olhos do desejo, e não com os olhos da racionalidade da própria política.

Em 2003 eu estava fazendo trabalho de campo na Bolívia quando eclodiu a "guerra do gás", que viria a defenestrar o presidente neoliberal Gonzalo Sánchez de Lozada em outubro. Lá por setembro, o governo Lula enviou o Marco Aurélio Garcia como emissário, que chegou à Bolívia defendendo que as partes em conflito sentassem para conversar. A primeira coisa que eu pensei ao ouvir isso pela rádio Erbol, em uma comunidade quechua no meio dos Andes, foi: o "conciliacionismo" do Lula perdeu o juízo. Será que eles não percebem que qualquer momento de conversar por aqui já passou há muito tempo? o momento agora é de confrontação, e qualquer saída para essa crise só vai pôr seus termos na mesa após essa confrontação.

Parece que o "conciliacionismo" só se pauta pela conveniência própria, jamais pelos pesos e medidas da dinâmica política.
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A lógica profunda das classificações "raciais"

(Comentário ao post "Desigualdades raciais e mercado de trabalho no Brasil")

A "explicação" com que opera o artigo "Desigualdades raciais e mercado de trabalho no Brasil" caracteriza um tipo de "causalidade" sociológica que só se sustenta sobre a miragem de uma conta de chegada: não só haveria uma correlação necessária entre acesso ao mercado de trabalho e cor, como também que o seu caráter "irredutível" se explicaria de modo suficiente pelo atavismo igualmente irredutível da "discriminação racial". Trata-se de uma correlação entre coisas que seriam "absolutas" ("raças" e oportunidades); uma correlação que se quer límpida e transparente por meio dos "números".

Isso é, na verdade, mais um caso de reificação mistificadora dos números, em que o fatalismo funciona como transcendente causal. Assim, as consequências de um longo processo socio-histórico multicausal são reduzidas à condição de causa unívoca (a da "discriminação racial"), que funciona para lavrar uma "verdade" a-histórica: a das raças. Leia mais »

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Ainda os "enigmas" de junho de 2013

(comentário ao post "A crise irá derrubar PT e PSDB")

Pelo que eu pude perceber até agora, e como alguém desse meio profissional, nas ciências sociais brasileiras parecem ter-se consolidado duas grandes linhagens interpretativas para dar conta do fenômeno das jornadas de junho de 2013.

À diferença da obtusidade ideológica de certa "esquerda" governista (ou talvez melhor dizendo, do governismo puro e simples), as ciências sociais partem da constatação um tanto óbvia de que junho de 2013 realmente aconteceu. E esse "realmente aconteceu" significa que ele merece ser observado como um fenômeno produzido por uma causalidade complexa, e não como mero incômodo existencial para as certezas domésticas daquela obtusidade ideológica. Leia mais »

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A ciência e sua circunstância, por Ricardo Cavalcanti-Schiel

(resposta ao post "Desenvolvimento pede regulamentação da profissão cientista")

Este debate, da maneira como está sendo sugerido pela colega da UFRJ, me parece equivocado.

Fazer ciência não implica em ter cientistas formalmente nomeados como tal, com carteirinha e sindicato. A produção científica vai muito além dos corporativismos. O que eu defendo, ao contrário da colega, é que é bom que assim seja.

Em primeiro lugar, a pergunta óbvia seria: cientistas profissionais para trabalharem aonde? Centros de pesquisa autônomos no Brasil são francamente minoritarios em termos de estrutura institucional, e isso é compreensível pela forma como a produção científica se organiza no país.

Atualmente, o Brasil produz cerca de 15 mil doutores por ano. Há apenas 5 anos, esse número estava na faixa dos 10 mil. No final do governo FHC, esse número era de 6.300, e à época do governo Collor, era apenas 1.000. A Meta 14 do Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado por lei em junho de 2014, projeta alcançar 25.000 doutores e 60.000 mestres titulados anualmente em 2024. (No período de 2002 a 2012, o número de mestres titulados por ano passou de 24 mil para 47 mil).

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A bonita campanha italiana contra a agressão a mulheres

A bonita campanha italiana contra a agressão a mulheres

Há 52 anos, um ano após o julgamento do nazista Adolf Eichmann em Jerusalém, o psicólogo social norte-americano Stanley Milgram realizou em Yale sua famosa experiência sobre a obediência à autoridade. Tratava-se de submeter voluntários ao que lhes era anunciado como um experimento sobre aprendizagem sob pressão. Nele, os voluntários assumiam o papel de “professor”, secundado pelos cientistas que monitoravam o teste, para fazerem perguntas a um suposto “aluno” (na verdade um ator).

Estimulados pelos cientistas, os voluntários deveriam acionar uma máquina que aplicava choques elétricos crescentes, a partir da marca de “choque leve”, aos 15 volts, cada vez que o aluno errava uma resposta a respeito de um tema sobre o qual supostamente fora treinado. 65% dos voluntários alcançou a marca fictícia dos 450 volts, enquanto o aluno-ator há muito já implorava que parassem o teste e enquanto a própria “máquina de choques” indicava para os próprios voluntários que aos 300 volts já se tratava de choque severo, com a indicação de perigo.

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A presidente em seu labirinto, por Ricardo Cavalcanti-Schiel

A nomeação da nova gerência da área econômica do governo federal e a promessa de entrega da pasta da agricultura para a arquirruralista Kátia Abreu são sinais bastante evidentes de que a presidente Dilma Roussef não entendeu muita coisa dos movimentos simbólicos que ocorreram na última campanha eleitoral.

Ela já não tinha entendido nada do que se passara em junho de 2013, e parece que as suas restrições intelectuais continuam notavelmente robustas. E, pior que isso, ela parece solitária, autônoma e onipotente na sua soberana obtusidade. A não ser, é claro, que o restrito clube dos próximos, o arco dos conselheiros (se eles existirem), seja apenas uma nau que, a pretexto de alguma escassa pragmática, encontra-se na verdade à deriva, no nevoeiro de uma política definitivamente sem carta nem bússola.

No caso da economia, a nomeação de Joaquim Levy não se trata apenas de uma concessão ao mercado financeiro, uma tentativa de apagar o pequeno fogo de alguns desajustes com uma sobredose de ortodoxia neoliberal. E no caso da agricultura, não se trata apenas de entregar um setor à agenda do agronegócio, social e ambientalmente predatório.

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Brasil perde um dos seus mais importantes cientistas sociais

 

Faleceu por volta das 21:30 de ontem, 26 de março, vítima de um acidente de trânsito no Km 92 da Rodovia Bandeirantes, o diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, Prof. Dr. John Manuel Monteiro, quando regressava da universidade para sua residência em São Paulo.

Historiador e antropólogo, John Monteiro foi um pioneiro na construção do campo temático da história indígena no Brasil, não apenas produzindo uma obra analítica densa e relevante, como também criando e estimulando a abertura de espaços institucionais e de interlocução acadêmica sobre o tema. Não seria exagerado dizer que foi em larga medida por conta do seu esforço dedicado que esse campo de estudos foi um dos que mais cresceu no âmbitos das ciências humanas no país desde a publicação do seu já clássico “Negros da Terra: Índios e Bandeirantes nas Origens de São Paulo” (1994) até o momento. Leia mais »

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A renúncia em protesto do antropólogo Marshall Sahlins

 

A renúncia em protesto

No site “Inside Higher Ed”, 25 de fevereiro de 2013 - 03h00,

por Serena Golden

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Documentos

A política indigenista, para além dos mitos da Segurança Nacional

Cavalcanti- Schiel, Ricardo. 2009. “A política indigenista, para além dos mitos da Segurança Nacional”. In: Estudos Avançados 23(65): 149-164. (São Paulo: Instituto de Estudos Avançados- Universidade de São Paulo). Disponível em:  http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142009000...

Quando nem todos os cidadãos são pardos

Artigo que publiquei na coletânea Divisões Perigosas: Políticas Raciais no Brasil Contemporâneo (sobre ela: http://pt.wikipedia.org/wiki/Divis%C3%B5es_Perigosas:_Pol%C3%ADticas_Rac... ). A revisão editorial (não a dos organizadores do volume), a pretexto de "corrigir" o texto, realizou pequenas adulterações semânticas, que aqui nesta versão corrijo.

Áudio

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