Tchau, tchau… tchutchucas do Centrão
por Fábio de Oliveira Ribeiro
O bolsonarismo cresceu nas gretas da internet como um movimento antissistema e ganhou corpo durante e depois do golpe de 2016. O vácuo político criado pelo anti-petismo difundido pela imprensa golpista após a vitória de Dilma Rousseff em 2014 sugou Bolsonaro para o centro da arena política. Com Lula impedido de disputar a eleição de 2018, o mito chegou à presidência. Em abril de 2016 eu já havia predito o que poderia ocorrer:
“O deputado Jair Bolsonaro apóia o golpe de estado e fez questão de homenagear o torturador de Dilma Rousseff ao proferir seu voto em favor do Impedimento. Nos últimos tempos a popularidade dele cresceu a olhos vistos no Congresso e nas ruas, onde ele é chamado de mito pelos fervorosos seguidores.
Bolsonaro é uma das figuras mais estranhas, extremadas e perigosas da direita brasileira. Além de ser racista e homofóbico, ele é conhecido por defender abertamente na TV o fechamento do Congresso, a execução de FHC por ter assinado o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares.
Se for eleito presidente, Bolsonaro certamente tentará construir bombas atômicas desorganizando o ambiente tranqüilo, pacífico e estável lentamente construído na América Latina. O primeiro efeito do renascimento da rivalidade militar entre as nações sul-americanas será a implosão do MERCOSUL, com evidente prejuízo para os empresários que exportam para os países do bloco.
No plano interno, a chegada de Bolsonaro ao poder também é preocupante. Ele certamente usará de extrema violência contra gays, negros, petistas, comunistas, socialistas e quaisquer outros “istas” que ele encare como adversários políticos. A imprensa acredita mesmo que será livre num regime bolsonariano?”
Algumas das coisas que eu previ, como a construção de bombas atômicas, não aconteceram. Todavia, os paradoxos e contradições decorrentes do exercício do poder não deixaram de provocar uma evolução do bolsonarismo. Isso pode ser detectado na maneira como o general Heleno se referia ao Centrão antes e depois de Bolsonaro começar a se apoiar mais e mais nesse bloco de parlamentares para evitar um Impeachment https://www.facebook.com/watch/?v=596780981290813 e https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/10/25/augusto-heleno-centrao-ladroes-amigos.htm.
Vários bolsonaristas de São Paulo se sentiram traídos quando Bolsonaro sentou no colo dos líderes do Centrão e lhes deu o controle dos ministérios https://veja.abril.com.br/coluna/maquiavel/os-novos-ataques-de-weintraub-contra-o-governo-e-o-centrao/. Isso também ocorreu com diversos paulistas que apoiaram Getúlio Vargas:
“Foi no momento em que a revolução começou a aderir ao perrepismo, provando à saciedade que as palavras de fé que o Senhor Getúlio Vargas trazia na bôca eram diferentes daquilo que tinha no coração, formado na mesma escola falsa contra a qual sinceramente se levantara que, seguindo o exemplo dos mais dignos revolucionários, me afastei dela. A sindicância em S. Paulo colhera mais de cinco mil documentos ignominiosos contra homens do passado, os quais um revolucionário de autoridade batisára com o nome de ‘carcomidos’. Menos de dois meses depois, êsses carcomidos de S. Paulo, pressurosos, arrastavam-se coleantes aos pés do atabiliário delegado com que o ditador iniciava a humilhação daquele Estado. Graças a essa subserviência, conseguiram mesmo, por algum tempo, rehaver posições perdidas das quais os verdadeiros revolucionários eram expulsos. E o primeiro cuidado ansioso foi o de conseguirem que as sindicâncias se paralisassem e depois destruir aqueles documentos. Inúmeros o foram de fato, mas houve quem soubesse esconder uma grande parte dêles, mais de mil, cuja existência por si só, sem nenhuma outra verificação, invalidaria, em qualquer país civilizado, todos êsses homens para o exercício de qualquer função pública, por falta de idoneidade moral. Tais documentos, Sr. General, encontram-se todos em meu poder, fato que me permite fazer a afirmação categórica que faço.” (Prisão, Exílio, Luta…, Paulo Duarte, Livraria Editora Zelio Valverde S.A., Rio de Janeiro, 1946, p. 147)
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].
Sem mandato, Bolsonaro terá que enfrentar a Justiça. Ele e os filhos têm dado mostras de que estão com medo da ser condenados e recolhidos à prisão. Nesse sentido, a formatação das HDs dos computadores do Palácio do Planalto tem um certo odor de queima de arquivos. No fim do governo Bolsonaro está se repetindo, portanto, algo que ocorreu em São Paulo no momento em que Getúlio Vargas aderiu ao perrepismo, ou seja, ao conjunto das ideais desonestes ou espírito corrompido do Partido Republicano Paulista de Washington Luís.
A proximidade entre Bolsonaro e o Centrão não impediu a derrota de Jair Bolsonaro em 2022. Após a vitória de Lula, rapidamente os membros daquele bloco começaram a se distanciar do bolsonarismo. O os parlamentares do Centrão querem é continuar existindo na política. E isso passa necessariamente pela coexistência pacífica com quem detém a chave dos cofres da União.
Durante o governo Dilma Rousseff, o programa “Ciência sem fronteiras” provocou uma verdadeira diáspora de estudantes brasileiros. Muitos deles preferiram ficar longe do país para não ter que as consequências políticas, econômicas e sociais nefastas da chegada da extrema direita ao poder em 2018. Agora uma nova diáspora está em curso.
A revoada dos bolsonaristas já começou https://www.brasil247.com/geral/inconformados-com-resultado-das-urnas-bolsonaristas-procuram-agencias-para-sair-do-brasil?fbclid=IwAR3-VszVG5qU6qF5ce-oql7H14KiGo3DBrf6LH3hiPCQKZyEx3VBjzc7iGI .Muitos também fugirão do Brasil com medo de responder por seus atos https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2022/11/tcu-alerta-governo-de-transicao-para-29-areas-com-alto-risco-de-fraude-ou-ma-gestao.shtml?utm_source=linkedin&utm_medium=social&utm_campaign=lifolha, pois não basta o novo governo estancar a sangria. Será preciso investigar o que ocorreu desde que Michel Temer desmantelou a Controladoria Geral da União, apurar responsabilidades de agentes públicos e seus “manos” no setor privado, recuperar ativos tungados da União e obter a condenação dos bolsonaristas culpados pela roubalheira do mito.
Deprimidos, milhares de inocentes úteis endinheirados do bolsonarismo se reunirão voluntariamente aos bolsonaristas de raiz que cometeram crimes durante o governo Bolsonaro e fugiram do país (esse é o caso de Alan dos Santos, por exemplo). Todavia, não podemos dizer que Paulo Duarte será o patrono dessa nova geração de perrepistas no exílio.
Uma radicalização fora do Brasil é previsível. À medida que os grupos de bolsonaristas começarem a ser hostilizados por brasileiros que votaram em Lula no exterior as brigas entre eles serão inevitáveis. É impossível saber como isso repercutirá dentro do Brasil. Lula obviamente não incentivará a violência política. O mesmo não pode ser dito de Bolsonaro, pois ele sempre foi adepto da bestialidade.
Bandido bom é bandido que foge do Brasil. Bandido melhor é aquele que cumpre pena no exterior. Esse é o caso do militar que traficou drogas no avião presidencial de Jair Bolsonaro https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2022/02/15/sargento-e-condenado-14-anos-e-6-meses-por-usar-aviao-da-fab-para-transportar-cocaina.ghtml . Com a extrema direita fora do poder o sargento Manoel Silva Rodrigues poderá se sentir abandonado e tentado a revelar alguns aspectos importantes do crime que cometeu. Ele era apenas uma mula. Quem era o dono da droga que ele estava transportando?
A conturbada e tragicômica saga brasileira não terminou. Um novo capítulo dela será escrito a partir de 2023.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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