O insubmisso canto de Raquel Tobias
por Daniel Costa
Não é exagero afirmar que São Paulo é um terreno fértil quando pensamos em grandes cantoras e compositoras de samba, nomes como Eliana de Lima, Bernadete, Graça Braga, Dona Duda Ribeiro, Elizete Rosa, Vó Suzana, Sahra Brandão, Maria Helena, Tia Cida, Adriana Moreira, Paula Sanches, Railídia, Roberta Oliveira, Anná, Babi Pacini, Anaí Rosa, Aninha Batucada, Esmeralda Ortiz, Luana Gaudy, Leci Brandão, que apesar de carioca adotou a capital paulista como base, e tantos outros nomes, que inspirado pelo octogenário Paulinho da Viola, digo que se for declinar uma lista completa hoje não vou terminar, pontificam nas rodas dos quatro cantos da cidade. Desse modo, a pessoa que tem por hábito frequentar as rodas de samba da região metropolitana de São Paulo com toda certeza deve ter cruzado com a personagem que será apresentada nas próximas linhas, afinal, além da força singular do seu canto, nossa homenageada é uma figura quase onipresente nas rodas; assim no mesmo dia podemos vê-la no começo da tarde em alguma comunidade na região do Grajaú, no meio da tarde dando uma canja em algum bar no Bixiga e a noite finalizando sua peregrinação em alguma roda na zona leste paulistana, ou ainda em algum lugar da zona norte da capital paulistana, ou em cidades como Osasco, Diadema, ou ainda onde o leitor imagine que há uma boa roda de samba, lá estará Raquel Tobias cantando seus sambas e encantando os amantes do bom samba.
Tal cenário nos apresenta duas situações: primeiro, a dificuldade enfrentada por aqueles que trabalham com a cultura no país, principalmente nesse período onde boa parte das políticas para o setor foram desmontadas; em segundo lugar, demonstra um firme compromisso da nossa personagem central com o samba, pois como já cantou um bamba da paulicéia: fazer samba é compromisso.
Ouvir o canto de Raquel Tobias é muito mais que escutar uma intérprete de samba, ouvir Raquel é mergulhar em nossa ancestralidade, a soma da potente voz e a força da sua interpretação somada a cadência do samba, transformada em uma verdadeira curimba parece estabelecer a conexão entre a terra e o panteão sagrado dos nossos orixás, entidades e encantados; assim a voz de Raquel faz bailar, além de nós que a assistimos, nossas ciganas e nossos compadres, ao presenciar Raquel cantar por exemplo, o clássico Canto das três raças, não é difícil ter tal visão, seu canto mágico faz bailar até mesmo os sábios pretos velhos; mesmo a nossa querida Vovó Maria Conga, carregando em suas costas o peso da idade e da sabedoria baila leve com o cantar entoado por nossa personagem. O canto de Raquel Tobias, pode ser visto como parte de uma linhagem fundante da nossa música, sua interpretação traz algo que apenas aqueles que são tidos como escolhidos pelos deuses da música podem proporcionar ao ouvinte, seu cantar traz a força de figuras como nossa rainha quelé Clementina de Jesus, e a partideira maior, Jovelina Pérola Negra, sua voz traz a essência da nossa ancestralidade, quando firma o samba, Raquel constrói uma ponte imaginária que cruza o Atlântico trazendo todo o axé dos nossos ancestrais.
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Raquel nasceu no bairro de Santo Amaro, região sul da capital paulistana, em julho de 1972, porém ainda criança mudou-se com a família para Embu das Artes, cidade da região metropolitana, conhecida por ser um dos celeiros da cultura popular paulista. A música esteve presente em sua vida desde criança, influenciada principalmente por seus pais, Raquel sempre que pode relembra em entrevistas que sua “história no samba começa no quintal de casa. Trepada em pé de abacate, pitanga, amora. Minha mãe ficava lavando roupa e cantarolando aqueles sambas de roda bem mineiros, de lavadeira forjada no verdadeiro caldeirão cultural chamado Brasil”, Raquel ainda aponta como fato decisivo para sua entrada no universo da música ter sido levada quando jovem por seu pai a Igreja Adventista, lugar onde forjou sua técnica vocal através do canto em coral.
O ponto de virada na trajetória de Raquel ocorre quando em suas andanças conhece a roda do projeto Samba de Todos os Tempos, onde começou como pastora até chegar à presidência da comunidade, em suas caminhadas ainda passou a integrar a Ala de Compositores da Comunidade Samba da Vela, onde apresentou diversas composições. A cantora ainda tem uma forte presença no carnaval paulistano, tendo passado por diversas escolas e blocos, hoje sua mais forte ligação é com a escola de samba Estrela do Terceiro Milênio, que desfilará na elite do carnaval paulistano pela primeira vez em 2023.
Como legítima filha de Ogum e Iansã, – lembrando que o primeiro é o orixá ligado às energias da metalurgia e da guerra; segundo o pesquisador e historiador Luiz Antonio Simas, “em diversos mitos, Ogum foi um ferreiro que inventou em sua forja diversas ferramentas para lavrar a terra. Em outros, foi o guerreiro implacável que, portando o facão afiado, participou de inúmeras batalhas”; a segunda, por sua vez é conhecida pela intensa energia matriarcal e pela transformação da vida; ainda segundo Simas, Iansã “é a deusa que comanda os grandes raios, ventos e tempestades, tendo ainda a função de conduzir os eguns (espíritos dos mortos) do ayê (nosso mundo) até o orun (mundo dos ancestrais)” – Raquel traz a força dos orixás no seu canto, erguendo para além do samba a bandeira de defesa da verdadeira cultura popular.
No próximo domingo é celebrado o Dia da Consciência Negra, mais que celebrar a negritude e nossa ancestralidade, a data ainda é um dia de luta e reivindicação, principalmente no momento em que apesar da esperança que surge no horizonte com a eleição de um governo democrático e popular, atravessamos um momento de intenso desmonte de políticas públicas e sociais. Nesse 20 de novembro, reverenciamos a figura de Raquel Tobias pelo seu cantar insubmisso, pela sua negritude, pela sua luta e pela referência que é no universo do samba. Exaltar Raquel Tobias, é homenagear todas as mulheres que lutam pelo samba e pela cultura popular.
Daniel Costa é historiador pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), compositor e integrante do G.R.R.C. Kolombolo Diá Piratininga
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